Quarta-feira, 21 de Maio de 2014

Não surpreende ninguém que Bento embarque nas naus com os seus homens de confiança. Muitos serão figurantes, menos ainda que secundários. Mas fazem parte desse conceito militar de grupo que mudou para sempre a perspectiva colectiva de uma selecção baseada, exclusivamente, na meritocracia. O futuro terá de esperar. Os mavericks, terão de assumir. Os homens do sargento Bento são os únicos que alguma vez entraram nas suas contas.

 

Quaresma nunca iria ao Brasil. Todos os que sabem como isto funciona sabiam-no mesmo antes do próprio Bento ter tomado a decisão. Não é um caso de agente certo ou errado. Há muito (demasiado) disso na selecção. Mas Mendes controla o futebol português via fundos, tem uma influencia crescente nos dois clubes com maior orçamento da liga. É o homem que mais jogadores portugueses tem na carteira e o pai espiritual de Cristiano Ronaldo. O seu fantasma, forçosamente, terá de pairar sempre sobre este projecto. Quaresma ficou de fora por outra coisa. Por como é. Dentro e fora de campo. O “Mustang” teve tudo para ser um jogador destinado a marcar uma década. Um arranque que eclipsou o do próprio Ronaldo. Talento a rodos, insultante até. A explosão mais pura de génio desde Futre, superior a um Figo que precisou de amadurecer com o tempo e as derrotas. Depois veio o Barcelona, cedo demais. Deixou marca. Mas no Porto, dentro de uma estrutura sábia, mostrou o grande que podia ser. Cometeu o maior erro da sua vida ao partir para o sonho italiano. A carreira acabou ali. O talento não. Mas deixou de ser insuficiente. Quaresma defende mal, Quaresma joga pouco com os colegas. Quaresma é génio puro no passe e no remate mas num jogo de detalhes é prescindível para quem já tem quem faça isso por ele. Ronaldo, que cresceu na sua sombra, tomou o caminho oposto e converteu-se num dos maiores jogadores da história. Ele é o líder espiritual em campo deste projecto e não precisa de sombras ao lado. E Quaresma não sabe não ser o protagonista. Os problemas em 2012 deixaram claro, para Bento, que quando fosse necessário, Quaresma nunca iria por o grupo à sua frente. E isso foi a sua sentença de morte. Os últimos meses do “cigano” têm sido penosos para quem já foi tão grande, um náufrago mais neste FC Porto para esquecer. Por talento genuíno está claro que Nani e Varela não pertencem à sua liga. Mas não é de talento que se fala quando se fala em selecções hoje em dia. Há quase duas década, desde a França de Jacquet, que a maioria das selecções decidiu ir pelo caminho do grupo. Nessa França o carácter de Cantona e Ginola não cabia. O mesmo passou com Gascoine e a Inglaterra de Hoddle. Com Romário e Zagallo e Scolari. Ou com Guti, Effenberg ou Michael Laudrup. Quaresma pertence, por um ou outro motivo, a esse grupo de vitimas de um bem maior, o de estar comprometido ao máximo com uma ideia durante quatro asfixiantes semanas.

 

Paulo Bento faz-se acompanhar dos seus. Dos que estiveram na fase de grupos.

Não quer jogadores que fingiram lesões como Danny. Está preparado a não convocar o melhor médio português este ano – por muito que agora venha o circo do pedido de regresso há dois anos – que é Tiago porque este, quando Bento lhe pediu, preferiu passar ao lado de uma equipa onde aconteciam demasiadas coisas fora da esfera desportiva e que culminaram no despedimento de Queiroz e o circo que se montou à sua volta. Tiago e Carvalho, dois velhos amigos que funcionam a outro ritmo nisto dos meandros do futebol, cansaram-se do circo e foram dizendo adeus. Por muito bem que tenham estado depois, deixaram de contar. Os homens do sargento não podem dizer que não. Ao Brasil vão os que aprenderam a dizer sim. Como Nani, com uma época (época?) penosa mas que tem o compromisso defensivo que dá asas a Ronaldo. Como Vieirinha, que foi de precioso auxilio quando Bento mais precisou, em Setembro, e que não voltou a ter continuidade. Como Ricardo Costa, Ruben Amorim e Eduardo, figuras decorativas em campo e fundamentais fora dele para o seleccionador. Como sucedeu em 2012, Portugal são onze titulares fixos e quatro alternativas recorrentes. Bento tem a sua espinha-dorsal da qual não vai abdicar. A esses nomes há que juntar Hugo Almeida (por Postiga), Varela (por Nani), William Carvalho (por Miguel Veloso) e Ruben Amorim (por qualquer um do meio-campo) que vão ser as substituições da praxe. Ninguém espere algo diferente. João Pereira e Fábio Coentrão são intocáveis e estão fixos. Os seus suplentes normais (Almeida e Costa) nem são sequer laterais de raíz. Uma pena para Antunes ou Cedric que ainda não são parte da “família”. Pepe e Alves são intocáveis como é Patricio por muitas Europa Leagues que ganhe Beto. Veloso-Moutinho-Meireles é um trio inegociável e no ataque não é preciso alongar-nos muito. Rafa, a grande e boa surpresa da lista, poderia ter minutos noutro contexto. Mas a fase de grupos mais dura dos últimos tempos para Portugal convida pouco a imaginar uma jovem e flamante promessa a explodir num palco Mundial. É pena.

 

Para o futuro fica a sensação de que este é o último grito de guerra de muitos jogadores. Há uma nova seiva de talento que pede a gritos a sua oportunidade. Não são só os André Gomes, Ivan Cavaleiro, Cedric, Anthonny Lopes ou João Mário. São também Bruno Fernandes, André Martins, Paulo Oliveira, Ronny Lopes, André Silva, Alexandre Guedes, João Cancelo, Bernardo Silva, José Sá, Miguel Rodrigues ou Tozé que tarde ou cedo serão cromos de futuras colecções. O futuro destes depende da vontade dos dirigentes do futebol português em dar-lhes espaço, do seleccionador de abrir as portas a nova sangue na família e à sua capacidade de aceitar que neste mundo em que se gera a “equipa das Quinas” ser bom, apenas, não chega. Há que ser algo mais. Há que ser parte dos homens do sargento!



Miguel Lourenço Pereira às 16:34 | link do post | comentar

8 comentários:
De F. Pais a 21 de Maio de 2014 às 19:52
Nos novos valores, não vejo o nome de Adrien incluído aqui, penso que foi por esquecimento.


De F. Pais a 21 de Maio de 2014 às 21:08
Nos novos valores, não vejo o nome de Adrien incluído aqui, penso que foi por esquecimento.


De Miguel Lourenço Pereira a 22 de Maio de 2014 às 19:52
F. Pais,

Para mim o Adrien não é um novo valor. É uma confirmação absoluta. O mais normal seria estar na seleção no lugar ocupado por Raul Meireles. Mas poucos representam melhor o que é ser um jogador à Bento como Meireles. Acredito que o lugar será dele, tarde ou cedo. Merece-o!


De Follow Up a 22 de Maio de 2014 às 02:01
Será mesmo a última oportunidade dos homens do Sargento. Falas, e bem, dos novos recrutas...


De Pedro Lucas a 22 de Maio de 2014 às 12:37
Miguel,

Uma convocatória para Mundial sem polémica, não é convocatória. Na maior parte das vezes o menos culpado é o seleccionador e sem ser um indefectível da selecção (estimula-me mesmo muito pouco até), parece-me que Paulo Bento não terá errado assim tanto como por aí se fala.
Também eu concordo com o modelo de privilegiar o grupo no momento de escolher os 23. É um modelo que já deu provas de ser o mais adequado para o futebol actual, onde cada vez mais os egos dos jogadores são dificeis de gerir. Por cá temos o enorme exemplo da aberrante convocatória do Oliveira para a Coreia, incluindo um Baía que não havia participado na qualificação e um Caneira que nunca tinha jogado na selecção (por exemplo). O Mundial deve ser prémio para quem lutou pela qualificação, excepção feita a foras de série. Por isso concordo com a não inclusão de Adrien e Quaresma, e com a inclusão de William, falando dos 3 casos mais mediáticos e que não participaram na qualificação. Os dois primeiros são à data jogadores medianos que pouco acrescentariam ao grupo. William por outro lado caminha a passos largos para ser um fora de série, que há partida eliminará Veloso do 11 que lutará pela qualificação para o Europeu16.
Nos restantes, limitou-se a escolha entre um fraco mas polivalente André Almeida e um fraco especialista Cédric, a opçao por um Ricardo Costa sem alternativas, um Vieirinha sem jogos, mas bom de banco, um Rafa para ganhar estatuto e um Éder num país com 4 pontas de lança, sendo que um é o Edinho.

PS . Jorge Mendes terá adquirido 50% do Rafa... pode estar aqui também 50% da razão da sua convocatória e tneho para mim que os restantes 50% estarão para ser adquiridos pelo SLB.

PPS - O grande derrotado do ano acaba por ser Fernando, que terá aceite mais 4 meses de FCP a troco da presença num Mundial e viu as contas trocadas pela FIFA. Também aqui se exigia que alguém explicasse como se avança para um processo, onde uma das regras é a necessidade do jogador possuir nacionalidade do país que pretende representar, já há data dos jogos pelas camadas jovens do país de origem.

Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Maio de 2014 às 14:16
Pedro,

Sem dúvida, para mim há pouca polémica tendo em conta o perfil de Bento. Acho que há qualidade suficiente sub23 para pensar em manter uma linha coerente no futuro mas este é o torneio de uma dezena de jogadores despedirem-se da selecção, parece-me natural e lógico tendo em conta o pós-2010.

Quanto a Mendes, Rafa e uma dezena de jogadores que lá estão, já escrevi várias vezes o que penso. É isso!


De Miguel a 24 de Maio de 2014 às 11:13
Sempre me pareceu que o problema do Quaresma não é a técnica, mas a falta de velocidade...


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Maio de 2014 às 14:15
Miguel,

Para mim o Quaresma tem tres problemas: tomada decisão, jogo colectivo e atitude. O resto sobra-lhe!


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