Quarta-feira, 18 de Junho de 2014

Espanha já pertencia á galeria dos mitos da história do futebol ao lado de Uruguai, Itália, Brasil e Alemanha por mérito próprio. O que lograram jamais será esquecido. Mas depois da progressiva decadência do Barcelona idealizado por Guardiola - cujo ADN se transportou para a selecção - e a dificuldade de Del Bosque em renovar o grupo sem comprometer velhas amizades deixou claro que o fim estava mais perto do que o talento individual da armada espanhola fazia prever. Ninguém seria capaz de adivinhar uma imagem tão lamentável mas o fim do império estava escrito nas estrelas. 

No próximo Europeu será difícil encontrar uma equipa que possa ser tão favorita como esta Espanha.

Vão estar, seguramente, muitos dos convocados para o Brasil a que se juntarão os Thiago, Deulofeu, Jesé, Isco, Iñigo Martinez ou Iturraspe. Jogadores de máximo nível. Jogadores que podem engolir outra vez o Mundo. Mas será já outra história. Dos sobreviventes dos seis anos de domínio absoluto do futebol Mundial sobreviverão poucos mitos. Iniesta, Ramos, Piqué e Fabregas, seguramente. Alguns actores secundários como Silva, Mata, Alba, Busquets, Martinez e pouco mais. Os nomes mais sonantes - Casillas, Xavi, Torres, Villa, Puyol, Alonso - terão dito adeus. É o fim de uma era. De uma era histórica e que dificilmente se poderá repetir nas próximas gerações. A última selecção a lograr uma sensação de hegemonia tão grande foi a Alemanha dos anos 70 e essa não conseguiu ganhar mais do que dois torneios seguidos. Antes, o Brasil de Pelé e Garrincha, a Itália de Pozzo e o Uruguai de Andrade, foram capazes de ter o Mundo a seus pés por um período de tempo similar. Nem a França de Zidane, a Argentina de Maradona ou a Holanda de Cruyff podem presumir do que esta mítica geração espanhola conseguiu. E no entanto, a festa acabou mal.

Não é a eliminação que custa reconhecer. Outros campeões caíram. Mas nunca tão cedo e nunca tão mal. A Espanha que viajou ao Brasil logrou um golo de penalty em 180 minutos e sofreu sete. Deu uma imagem de impotência desoladora, fisica e mentalmente. Ao primeiro sinal de alarme abandonou o tiki-taka, perdeu noção das referências. Os resultados espelharam apenas o que o campo não conseguia esconder. Esta foi, ironicamente, a pior prestação da Espanha num torneio internacional. Impensável.

 

A grande responsabilidade desta hecatombe pertence, naturalmente, a Del Bosque.

O seleccionador herdou uma equipa habilmente montada por Aragonés com um modelo de jogo - 4-5-1, repleto de centro-campistas "bajitos" que privilegiavam o jogo de toque - que Guardiola no Barcelona levou a outra dimensão. Durante quatro anos o destino de clube e selecção seguiram lado a lado. Onde Pep tinha a Messi, o génio que tudo desiquilibrava, Del Bosque contava com a organização defensiva como principal arma. Em 2010 os espanhóis venceram o primeiro Mundial com uma especie de catenaccio com bola. Ganharam todos os jogos a eliminar por um a zero com uma arma tão simples como eficaz, a de defender com a bola nos pés. As longas e eternas possessões desarmavam qualquer ataque do rival, afastavam-se da baliza e desgastavam fisica e mentalmente o oponente até que, como um sniper, chegava o tiro de morte. Não foi espectacular mas foi eficaz. A magia de 2008 tinha-se perdido em grande parte em 2012. Repetiu-se o titulo - com uma final de antologia - mas era evidente que o modelo passava na selecção pelos mesmos problemas existenciais do Barcelona. E Messi continuava ausente da equação. Com a saída de Guardiola a decadência do Barça acentuou-se ainda que com Tito e o hara-kiri de Mourinho em Madrid os blaugrana tivessem ganho mais um titulo. A idade não perdoava a génios como Puyol e Xavi e a cabeça de Piqué estava noutra coisa. Iniesta, só, pouco podia fazer. A diáspora dos Silva, Cazorla, Torres, Llorente, Navas, Martinez exprimia os jogadores mas não trazia nada de novo. E apesar dos êxitos da Rojita, Del Bosque não encontrava espaço para a novidade.

O seleccionador cometeu três erros primários. Convocou os nomes e não os jogadores, favorecendo a futebolistas em clara decadência fisica e competitiva ou colocando-os como titulares quando havia melhor opções. Optou por manter o mesmo estilo de jogo sem verticalidade mas com uma equipa fisicamente menos preparada e com mais anos nas pernas. Sem o oportunismo de Villa e Torres - heróis em 2008 e 2010 - e a mobilidade de Fabregas (zero minutos, fundamental em 2012) não havia perspectiva de organização defensiva. O modelo tornava-se estéril. A chamada de Diego Costa foi, talvez, o maior erro. Jogador moldado por Simeone desde a mediocridade está condenado a voltar a ela por muito que Mourinho se empenhe. Poucos jogadores encaixam pouco num modelo como Costa com Espanha. Ficou evidente durante  todos os minutos que disputou. Mas foi preferido a Llorente - capaz de desbloquear jogos difíceis - e Negredo, um avançado em melhor forma e que encaixa no perfil do colectivo. Sem golo, sem organização, sem pulmão e sem confiança em jogadores chave como Casillas, Pique ou Xavi, parecia evidente que algo trágico se cozia nos fornos da história. A hecatombe foi ainda mais dura.

 

Espanha é a primeira selecção eliminada e justamente. A forma como a Holanda e o Chile souberam deixar a nu as suas debilidades foi indigna de uma campeã mundial em titulo. Os espanhóis foram superados em todos os momentos, em todos os sentidos. O renascimento é inevitável e necessário e ninguém voltará a descartar a Espanha como sucedeu durante anos. A saga mágica, essa, acabou. Era uma crónica anunciada. Os espanhóis já têm o seu Maracanazo. A história já os tem guardados na memória.



Miguel Lourenço Pereira às 22:38 | link do post | comentar

2 comentários:
De Fábio Carreira a 19 de Junho de 2014 às 17:28
Prezado Miguel, é a primeira vez que participo deste blog, meus parabéns pelas suas colocações. Em relação a seleção espanhola, tenho muitas dúvidas acerca do futuro próximo da seleção, não sei se os jogadores citados têm estofo para, num primeiro momento, continuar colocando a Espanha no topo do futebol mundial. Quanto ao Diego Costa, creio que na seleção brasileira suas características seriam melhor aproveitadas, até pelo seu estilo de jogo, embora ache que sua menor prestação deveu-se, também, a má condição física em que se apresentou. Sou brasileiro, filho de português, e vivo em Belém, e esses dias têm sido difíceis depois daquele atropelamento. Embora ache que somos capazes de superar americanos e ganeses, em condições normais, creio que nos aspectos físico e anímico iremos ter muitas dificuldades. Não consigo entender a escolha de Campinas para estágio, com os jogos realizados em "saunas", principalmente aqui próximo, em Manaus. Para fugir do calor do Brasil, Campinas é uma ótima opção, para se preparar um copa em condições adversas, tenho muitas dúvidas. Já falei demais. Vamos torcer pela nossa seleção, e mais uma vez parabéns pelo blog.


De mourinhista a 19 de Junho de 2014 às 20:02
Mourinho lo vió antes que nadie y , una vez más, tenía razón......


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Miguel Lourenço Pereira

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