Segunda-feira, 17 de Março de 2014

A vitória do Sporting sobre o FC Porto levantou, pela enésima vez, a polémica sobre o circulo de poder nos meandros do futebol portugués. É um fenómeno cíclico e fácilmente explicavel. Quando tudo falha, é o pretexto perfeito para justificar uma derrota. De vez em quando tem razao. Mas como a fabula de Pedro e o Lobo, nesses momentos a credibilidade de quem se queixa está pelas ruas da amargura.

 

Entramos num fórum, numa página web, num blog.

Tanto faz a cor clubística. Podem ser verdes, vermelhos e azuis. O discurso é sempre o mesmo. Todos se queixam, todos apontam o dedo. O rival domina sempre o mundo da arbitragens, as instituições desportivas. Se todos se queixam do vizinho do mesmo é difícil que alguém tenha razão. No futebol português, raramente alguém a tem. A arbitragem é a desculpa número 1 para as derrotas em Portugal. Também é a desculpa número 100. Tudo o resto parece aleatório, inócuo. Golos falhados escandalosamente? Nao conta. Erros defensivos individuais? Irrelevante. Más decisões tácticas dos treinadores? Supérfluo. Péssimo planeamento de temporada pelos directores? Impossível.

Se um arbitro comete um erro, não é preciso procurar mais. Nao é um mal exclusivamente português. Todos os países são parecidos mas não todos são iguais. Em Itália os escândalos de arbitragem provocaram a despromoção de históricos em varias ocasiões. Mas os programas desportivos também debatem durante horas as decisões tácticas dos treinadores. Em Espanha podem estar cinco horas a debater sobre a intensidade de uma entrada com um painel pré-desenhado para defender as suas respectivas cores clubísticas. Ninguém espera imparcialidade. Esse é o show. Mas também se celebra o talento e se valorizam as ideias de jogo. Em Portugal não. Raramente o adepto português debate questões de gestão financeira do seu clube. Ou modelos tácticos utilizados pelo seu treinador. A preocupação com a formação é “para inglês ver”. Mas cometam um erro arbitral contra a sua equipa e durante uma época esse adepto tem argumentos suficientes para dar um sem numero de palestras. A partir desse pressuposto é fácil entender que esta situação nunca vai mudar. Para isso tinha de mudar a base, aqueles que fazem do futebol o que ele é. Os dirigentes, a imprensa e os protagonistas limitam-se a entrar no jogo, a alimenta-lo e a extrapola-lo. Os adeptos gostam desse circo. Não podem viver sem ele. São incoerentes a esmagadora maioria das vezes. Mas não se importam. O espectáculo tem de continuar.

 

As queixas recorrentes do Sporting durante esta temporada não são inocentes.

Os leões (como todos os clubes da liga, especialmente fora do grupo dos "grandes") foram prejudicados em alguns jogos de forma clara. Também foram beneficiados. Mas isso não importa. Fazem-se tabelas sobre quem foi mais, sobre consequencias inesperadas provocadas por a e b. Cria-se um campeonato pontual alternativo, como se um só lance, só por si, provocasse que o resto do jogo se transforma em algo imutável. Memoria selectiva chama-se. O Sporting sabe bem o que é estar no poder. E está farto da longa ausência nesse submundo. Quem pensa que os erros arbitrais são todos premeditados engana-se. Quem pensa que os erros arbitrais são todos inocentes, também. É difícil apitar. Muito difícil. Mas é mais difícil acreditar que um sector que move milhões (em alguns países move mais que o sector financeiro e económico) é imune a corrupção. Ela esta por todo o lado. Nos partidos, nas administrações publicas. Nas empresas e nos bancos. Como é que não estaria no futebol que é, precisamente ,uma constante esponja do mundo?

Há, houve e sempre haverá corrupção no futebol. No português também. O Sporting fez parte desse circuito. No seu período de hegemonia. Só que isso foi há muito tempo atrás. Sempre que um clube prolonga a sua hegemonia por mais do que uma geração é expectável crer que a sua influencia no submundo é proporcional ao seu talento em campo. Passou com o Sporting durante décadas. E com o Benfica naturalmente. A balança mudou a finais dos anos 70. Pedroto primeiro e Pinto da Costa depois perceberam que não bastava com ser melhor em campo. Era preciso ganhar importância institucional. Durante quinze anos batalharam para encontrar o seu espaço. O Sporting pagou o preço e foi afastado progressivamente, abrindo caminho a um duopolio Porto-Benfica a todos os níveis. Os títulos eram apenas a consequencia. A hegemonia absoluta dos Dragões começou com o descalabro financeiro (e emocional) do Benfica nas eras Damásio, Vale e Azevedo e Vilarinho.

O aparecimento de um contrapoder a norte, a Liga de Clubes, presidida por Pinto da Costa e Valentim Loureiro, confirmou essa mudança de guarda. Durante mais de uma década a bússola do poder apontou a norte. Até que o Benfica aprendeu a lição, passou a utilizar os mesmos métodos do rival e encontrou forma de utilizar a sua influencia social para recuperar parte do seu poder. As conversas expostas pelo Apito Dourado mostram, claramente, que não há diferenças entre a forma de actuar de Pinto da Costa e Luis Filipe Vieira. Cada um que saque as suas conclusões. O Sporting, que durante um breve período de tempo procurou ocupar o espaço deixado vazio pelo Benfica, entrou também no seu particular inferno financeiro. Se algum poder tinha recuperado, perdeu-o. O objectivo de Bruno de Carvalho é recupera-lo. Para isso vai procurar emular as políticas populistas (com os seus) e desafiantes (com os outros) de Pinto da Costa e Vieira. Se o modelo funcionou duas vezes, porque não uma terceira. O “choradinho” dos últimos meses obedece a essa estratégia, lógica para os que acreditam na Realpolitik.

O presidente dos Leões conhece o caso Cardinal. Sabe que a sua equipa está a fazer uma época maravilhosa dadas as circunstancias e o descalabro financeiro do clube. Sabe também que o titulo é algo que ainda não está (realmente) ao seu alcance. Mas lutar por ele e fazer barulho sobre um afastamento institucional dessa luta dá-lhe pontos. Em Alvalade, contra o FC Porto, ficou evidente. A estratégia é velha e já foi utilizada por todos. Que o FC Porto se queixe é só reflexo da fraca memoria dos adeptos. Um clube que, durante 30 anos, tem 2/3 dos campeonatos (nos últimos dez perdeu apenas 2), dificilmente pode fazer alguém acreditar que está contra o sistema. Há muito que o FC Porto é (também) esse sistema. Mas Pinto da Costa ganhou o coração dos portistas rebelando-se contra a autoridade (real) asfixiante do poder centralizador do país. Foi a época do “Lisboa a Arder”, dos “roubos de Igreja”, do “guarda Abel” e da “penhora das Antas”. Foi a sua forma de ocupar o seu espaço nos centros de poder e aumentar a influencia de um clube historicamente castigado pela sua localização a Norte. Manter o discurso agora é apenas o reflexo da falta de ideias de gestão da SAD do FC Porto, incapaz de preparar um plano de futuro. Já passou em 2000 e só a aparição de Mourinho deu um balão de oxigénio (e abriu as portas a um novo modelo de negocio) que durou uma década. Mas esse modelo esta, mais tarde ou mais cedo, caduco. A falta de ideias a nível de gestão desportiva é o pior que pode passar. Todos os períodos de hegemonia acabam. Passa em todas as ligas, durante longos períodos. O dos azuis-e-brancos chegara mais tarde ou mais cedo. O Sporting quer estar atento para entrar nesse espaço. É o sonho do novo presidente dos leões, o seu cavalo de batalha. O seu discurso vitimista só acabara quando chegar ao topo. Passou o mesmo nos anos prévios aos títulos do Benfica em 2004 e 2010. Subitamente, o sistema que estava podre, nesses dois anos, para os encarnados, funcionou perfeitamente. Para os dragões a questão é pior. O sistema está podre desde sempre, mesmo quando ganham. Curioso paradoxo. Em Itália houve um ano em que foi imposto ao clubes um novo modelo de gestão arbitral por sorteio puro nas vésperas dos jogos. O modesto Hellas Verona foi campeão num duelo contra equipas modestas como o Torino e a Sampdoria. A Juventus, Inter, AC Milan, Fiorentina ou Roma nem vê-los. Resultado? No final da época voltou-se ao modelo antigo e tudo ficou na mesma.

 

Esse é o destino do futebol português. As queixas dos dirigentes, os apupos dos adeptos e um ciclo rotativo de figuras no poder que vão condicionar sempre a competição a um pequeno circulo. A hegemonia do FC Porto acabara ao mesmo tempo que esse poder da mesma forma que sucedeu com o Sporting, nos anos 70, e com o Benfica, na década de 90. Quando assim for, alguém quererá começar uma nova dinastia. Terá de o fazer em campo. Mas haverá um jogo de xadrez paralelo que os adeptos não vão ver. Um jogo que não lhes importa moralmente. Estão dispostos a tudo para vencer. As queixas dos adeptos do Sporting seriam caladas com um titulo. É o preço da moral dos adeptos. É o suplicio de Tântalo do futebol em Portugal.



Miguel Lourenço Pereira às 18:18 | link do post | comentar

7 comentários:
De Afonso a 17 de Março de 2014 às 23:28
a analise esta globalmente bem feita e escrita, apesar de não concordar com quase nada do que escreves sobre a actualidade (e a conferencia do presidente do SCP a admitir ter sido beneficiado esta ai para o provar).

apenas um comentário mais:

a diferença de Itália para cá é que lá houve coinsequencias serias, a equipa mais popular e poderosa do país foi relegada para a segunda divisão, e cá os dirigentes do fcporto abrem museus orgulhosos com varias conquistas sujas ou ilícitas.


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Março de 2014 às 18:15
Afonso,

O futebol italiano despromove históricos desde os anos 70. Não é novidade. Não há medos politicos e sociais como em Espanha e Portugal onde actos similares são tratados de outra forma.

Quanto ao discurso de Bruno Carvalho no pós-jogo não muda uma virgula do que penso dele e do seu objectivo.


De formatted error free a 18 de Março de 2014 às 13:31
"As conversas expostas pelo Apito Dourado mostram, claramente, que não há diferenças entre a forma de actuar de Pinto da Costa e Luis Filipe Vieira"...ok, o lfv não há de ser um anjinho, mas comparar as conversas dele com as do pc é um exercício de imaginação. As conversas mostram um completo domínio do futebol português por parte do pc, demonstram que o tal sistema que o dias da cunha falou existiu mesmo. A diferença para itália é que a juventus foi mesmo parar à segunda divisão. a falta de penalização semelhante para o porto só mostra que o controlo por aqui é muito maior do que lá.


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Março de 2014 às 18:17
FEF,

Quando as conversas foram gravadas o PdC levava 30 anos no dirigismo desportivo como o presidente do clube hegemonico do campeonato português. Era inevitável que o seu dominio da situação e o seu discurso fossem diferentes de um "aprendiz de feiticeiro" como foi Vieira que, como presidente do Alverca, insultou os jogadores do clube que agora preside no túnel de acesso ao estádio das Antas antes de um Clássico.

Nenhum clube portugues, FC Porto incluido, foi despromovido por questões sequer remotamente parecidas com o que se viveu em Itália dos anos 70 até hoje. Paradigmas sociais!


De hugo a 18 de Março de 2014 às 13:38
Texto muito bom.

Como Portista tenho achado a postura de Bruno de Carvalho bastante admirável no que toca à estratégia já que consegue "marcar a agenda" do futebol português. Todos os outros andam a reboque deste leão de novo fôlego, a lembrar PdC dos anos 80.

O Porto está refém desse "mito" vivo em que PdC se tornou, para o bem e para o mal. Eu penso que apesar de tudo PdC é como aqueles avançados que mesmo estando lesionados vão a jogo apenas porque a sua presença intimida os adversários.

Mais do que um problema de sucessão, no FC Porto perfila-se um problema de falta de imaginação. O clube atingiu o zénite em 2003 e 2004 e a trajectória tem sido vagarosamente descendente.

Neste momento, mais que nunca, precisam-se ideias claras que não sejam apenas construir um estádio, pavilhão ou museu novos. O Clube precisa de um paradigma moderno, necessita de decidir o que quer ser nos próximos 5, 10, 20 anos. O clube necessita de todos os seus sócios a participar activamente nas AG e a decidir democraticamente o rumo que quer seguir.



De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Março de 2014 às 18:18
De acordo Hugo,

O FC Porto foi salvo pelo balão de oxigenio chamado José Mourinho. Mas a falta de ideias é antiga!


De haja luz a 19 de Março de 2014 às 02:31
Gostei bastante do texto, traduz o que se tem passado no futebol português, nas últimas décadas.

Quanto ao passado, não disponho de dados suficientes para aferir, que o sporting ganhava porque era beneficiado.
Lembro também que naquela altura, o futebol não envolvia o dinheiro que se começou a gastar a partir da década de oitenta, e que a sociedade era diferente.

Em relação a esta época, o sporting tem sido beneficiado em comparação a outras épocas.
Viu-se logo nos primeiros jogos da época, com os golos do colombiano em fora de jogo.
Noutras épocas acontecia o contrário, o sporting era logo afastado do título nas jornadas iniciais.

Cheguei a este blog através de um sportinguista, e desportista que muito prezo, que assina os comentários com o nick L, se me permitir, gostaria de endereçar-lhe cumprimentos, e dizer-lhe que os seus comentários continuam excelentes.


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