Quinta-feira, 15.08.13

Entrou pelas traseiras. Entre suspeitas de favores e de um rendimento decadente. Era uma promessa máxima que parecia que ia ficar pelo caminho. Num mês, tudo mudou. Autor de uma pré-temporada memorável, capaz de fazer esquecer a dupla ausência de Xabi Alonso e Illarramendi, o brasileiro Casemiro transformou-se em peça fundamental do esquema de Ancelloti. Terá ele as condições necessárias para ser o novo Pirlo do técnico italiano?

Agora está na moda gostar de Pirlo.

Agora, como quem diz. Nos últimos quatro anos, Andrea tonou-se um ícone do que há de cool no futebol.

É cool o penteado de Pirlo. É cool a sua barba. A forma como usa a camisola. O número nas costas. Os penalties que bate. Os livres perfeitos, os passes teleguiados. Até os erros de Pirlo são diferentes dos dos outros. Ao génio italiano passa-lhe como a Xavi Hernandez. São dois dos melhores futebolistas dos últimos vinte anos, nomes fundamentais da história do jogo moderno. E foi preciso os últimos anos para que se lhe desse o verdadeiro reconhecimento. Pirlo já tinha sido campeão europeu em 2003. Em 2007. Já tinha sido a figura fundamental - por cima de Buffon, Cannavaro e Totti - da Itália campeã mundial em 2006. E mesmo assim o Milan achou que estava datado. E mesmo assim muitos adeptos tardaram em entender a magia que dorme nas suas chuteiras em forma de varinha. Xavi foi assobiado no Camp Nou no ocaso da era Rijkaard. Pirlo também recebeu duras criticas nos seus dias derradeiros em San Siro, antes de resetear definitivamente a "Vechia Signora" com o seu bicampeonato. Quando o último moicano dos registas começou as suas andanças no jogo, o seu destino parecia ser radicalmente distinto.

Era o novo Baggio, o novo criativo na estela dos Rivera, Mazzolla, Conti e companhia, um criativo à solta no ataque, pronto a morder com o veneno de uma serpente a mais áspera defesa rival. Mas faltava-lhe algo.

O Inter - clube onde estava então - emprestou-o ao Brescia e foi aí que, ao lado de Baggio, o jovem Andrea percebeu que nunca podia ser igual ao "Codino Divino" mas que tinha condições para afirmar-se como um jogador radicalmente diferentes dando uns passos atrás no relvado. Chegado a Milão, num dos piores negócios da história dos neruazurri, Pirlo encontrou-se com um novo timoneiro, Carlo Ancelotti. O discipulo de Sacchi sabia que tinha na jovem promessa um diamante por trabalhar. Á sua volta montou uma equipa perfeita, com o trabalho físico de Gattuso, a inspiração de Rui Costa, o faro de golo de Shecvhenko e a resistência de Seedorf. Rodeado de jogadores de primeiro nível, Pirlo tomou a batuta, fez-se regista e entrou para a posteridade.

 

Os problemas físicos de Xabi Alonso e a ausência de alternativas levaram o Real Madrid a fixar-se em Illarramendi.

É um jogador fantástico, com um futuro brilhante e um preço talvex exagerado para o que já demonstrou e o que falta por demonstrar. A sua ausência, por lesão, dos principais jogos de pré-temporada vão forçá-lo a recuperar o ritmo e um posto para o qual já há um titular fixo (Alonso) durante a época. O que o basco talvez não contava era ter concorrência inesperada.

Se por um lado Ancelotti provou, com bons resultados, o croata Luka Modric como regista do jogo madrileño, apoiado como sempre em Sami Khedira e na arte da associação Ozil-Isco, a grande sensação da pré-época foi, sem dúvida, Casemiro. Um jogador que tem todas as condições para ser o Pirlo que Ancelotti procura.

Estrela precoce, Casemiro sempre habituou os seus seguidores ao mais extraordinário.

Queimou várias etapas na sua formação, tanto nas selecções jovens brasileiras (onde jogou ao lado de Neymar, Ganso, Óscar e Lucas Moura, ganhando quase tudo o que havia para ganhar), como no São Paulo. No clube paulista foi um dos mais jovens jogadores a alcançar os 100 partidos com a equipa principal, tudo isso antes de cumprir sequer 20 anos. Armador de jogo, recuperador de bolas nato, Casemiro passeava-se pelo meio-campo do "Sampa" com a autoridade de um veterano, lembrando talvez os dias gloriosos de Raí, o artesão dos títulos da era Telé Santana. Problemas num balneário conflituo, salários em atraso e um certo estancamento, como sucedeu a Paulo Henriques "Ganso", deixaram-no num beco sem saída. Para resolver o problema, o clube aceitou emprestá-lo em Janeiro ao Real Madrid com uma opção de compra de seis milhões de euros, bastante baixa para quem prometia tanto. Na segunda equipa dos merengues, o Castilla, o brasileiro entrou a dar cartas e fez-se figura fundamental chegando a ser chamado por José Mourinho para jogar com os titulares em duas ocasiões. Muitos pensavam que em Junho o jogador voltaria ao Brasil mas o Real fez efectiva a cláusula e Casemiro ficou.

E voltou a ser o de antes. O jogador atrevido, o autor de passes teleguiados, o recuperador de bolas cirúrgico, o médio capaz de bascular o campo ao seu ritmo, preciso nos passes, exacto nas antecipações, sempre com uma chispa de perfume e criatividade tão tipicamente sul-americana. Do nada, e com três nomes ilustres para o seu posto preferencial, Casemiro passou a sentir-se protagonista inesperado de uma narrativa que só agora está a começar.

 

É um jogador de um perfil que escasseia no Brasil e a sua afirmação pode ser uma brilhante notícia para Luis Filipe Scolari. Nele pode encontrar um pensador de jogo, um médio com força física para impor a sua presença e claridade mental para pautar o jogo ao seu ritmo. Uma eventual dor de cabeça para Luis Gustavo no meio-campo da canarinha como já é para Asier, Luka e Xabi no coração da cidade desportiva do Real Madrid. Para alegria de Carlo, o homem que vai contar com o meio-campo de artesões que faltou a José Mourinho nos útlimos quatro anos. Isco, Ozil, Casemiro, Modric, Illarramendi, Alonso, um sexteto de luxo para encarar, finalmente, olhos nos olhos, bola no pé, o eterno rival.



Miguel Lourenço Pereira às 15:51 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 05.08.13

O Special One transforma-se em Happy One. Mourinho está contente para regressar a um clube que lhe deve muito. O sadino é consciente de que a base do sucesso recente é sua. Que os rostos com que se vai cruzar o conhecem bem. O seu carácter, o seu nível de exigência, a sua filosofia de conflito mas também a sua justiça como profissional. O balneário que encontra é radicalmente diferente daquele de 2004. O investimento realizado também. Mourinho trabalhará com o que há, essencialmente, porque se sente capaz de iniciar uma dinastia no tempo e na memória.

 

Em 2004, minutos antes ou depois da célebre tirado do Special One, Mourinho escreveria num papel os jogadores à sua disposição.

Havia os primeiros resquícios dos investimentos de Abramovich, os jovens que vinham do West Ham United (mas que para muitos parecem "canteranos) e todos os nomes que ele tinha pedido. Os Drogba, Robben, Cech, Tiago, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira e companhia. Durante os quatro anos seguintes, Mourinho moldou o presente e o futuro dos Blues.

Fê-lo buscando sempre resultados imediatos. Jogadores preparados para responder logo às suas exigências físicas, tácticas e de atitude. Guerreiros para o seu exército, homens para a refrega contra o Arsenal de Wenger, o Liverpool de Benitez e o United de Ferguson. Foi essa a filosofia que pautou a sua passagem pelo clube e que perpetuou em Milão, onde não teve problemas em entregar-se corpo e alma a uma guarda pretoriana envelhecida mas à procura de um último suspiro de glória. Ironicamente, ao mesmo tempo, os seus homens de confiança no Chelsea seguiam o mesmo caminho, com outros nomes no banco, mas mantendo essa filosofia do choque, do confronto e da batalha. Assim chegaram à final de Moscovo, meses depois da destituição do português. E assim conquistaram o ansiado troféu (para Roman, para Mourinho, para eles), na final contra o Bayern Munchen. Naquela noite encerrou-se um ciclo.

Não necessariamente da presença dos jogadores no plantel. Uns saíram outros ficaram, mas o grau de exigência baixava. Afinal, não havia nada por conquistar. Não havia nada mais porque lutar quando todo o esforço de oito anos tinha sido focalizado no santo Graal, que descansava, são e salvo, em Stamford Bridge. Inevitavelmente, como sucedeu com Villas-Boas, o seu sucessor, Di Matteo, não encontrou forma de motivar os veteranos nem teve poder para os colocar de lado. E Benitez, o homem a prazo, limitou-se a cumprir os serviços mínimos exigidos. Cabia ao seu sucessor dar inicio a uma nova era. Abramovich quis sempre que esse homem fosse Guardiola mas o catalão dá mais importância à história e à estrutura que ao dinheiro. Para isso está Mourinho, um treinador que se move sempre em terrenos onde não se sente atado na carteira e preso a uma história. Em Madrid sentiu-o bem na pele.

 

Mourinho chega assim a Londres com uma equipa brutalmente rejuvenescida.

No entanto, já o era o seu Real Madrid, o seu primeiro Chelsea e o seu FC Porto. A etapa final com os londrinos e em Milão vendeu a história de que o treinador português só gosta de trabalhar com veteranos, mas não é verdade. Gosta de trabalhar com jogadores feitos, táctica e mentalmente, o que é diferente. No plantel actual dos Blues, tem jovens mas que já contam com mil e uma batalhas nos pés. E apesar de contar com um plantel com evidentes desequilíbrios - e é estranho que as incursões no mercado, até ao momento, tenham sido pontuais - Mourinho sabe que há jogadores suficientes para colocar em prática a sua filosofia de jogo.

Numa liga carente de lideres emocionais, o regresso de Mourinho é um bálsamo. Em Manchester a pressão vai estar toda do lado de David Moyes e Manuel Pellegrini. Nomes novos que sucedem a idolos históricos e recentes e a quem os adeptos vão perdoar muito pouco. Wenger é eterno, ou isso parece, mas a sua fórmula está esgotada e salvo uma mudança radical de política, o Arsenal continuará a ser uma equipa limitada na sua ambição. Quanto a Tottenham, Liverpool e Everton, não há nomes, nem no banco nem em campo, nem dinheiro nas contas, para fazer sombra à elite. Só um descalabro desportivo podia permitir uma mudança consciente no circulo de poder.

O técnico português recebe assim um Chelsea nos mesmos moldes que a sua primeira participação. Um título nacional que escapa há quatro anos, mas um plantel de qualidade, um estatuto consolidado e dinheiro para gastar. As vitórias europeias recentes dão-lhe seguramente um descanso nesse capítulo e permitem-lhe comprar tempo para focar-se em recuperar a hegemonia interna que manteve entre 2004 e 2006.

Para essa batalha estão nomes antigos convocados. Cech será titular e Terry, Cole e Lampard também. São homens de confiança, que terão muitos minutos nas pernas e presença assegurada nos dias decisivos. Também estará o tipico modelo de jogador que o técnico tanto aprecia, o futebolista combativo e guerreiro. Os Ivanovic, Cahill, Obi Mikel, Essien, Ramires e Moses, serão parte coral da sua filosofia. O talento está entregue ao quarteto de luxo forjado entre a magia de Hazard, a classe de Óscar, o génio de Mata e a velocidade de De Bruyne. A estes há que juntar mais um legionário, o alemão Andrea Schurlle, e a eterna incógnita do ataque, entre Torres e Lukaku, dois jogadores cujo perfil dista bastante do que quer Mourinho. Sem Cavani, sem Lewandowski e sem Rooney, o português terá de procurar um jogador à altura da sua ideia no mercado para dar a estocada final no seu projecto. É a grande incógnita do seu novo Chelsea.

Haverá seguramente minutos para os mais jovens (o promissor Chabolah, mais do que qualquer outro), uma constante rotação de jogadores e um esqueleto fixo à volta do eixo Terry-Ivanovic-Lampard-Oscar-Hazard. Eles são o reeditar do Terry-Carvalho-Lampard-Robben-Drogba da primeira, e mais espectacular, versão do Chelsea de Mou. A partir de aí, e com as alternativas que já existem e as que se podem materializar, que Mourinho pode presumir de dispor de um plantel capaz de recuperar o trono do futebol inglês face a um United e um City em curva descendente na sua relevância de mercado e um Arsenal e Tottenham que não terminam de dar o salto. Todos os elementos estão conjugados para o regresso de Mourinho à elite britânica!



Miguel Lourenço Pereira às 13:55 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quinta-feira, 11.07.13

Em 2008 Josep Guardiola chegou à primeira equipa do Barcelona depois de realizar um trabalho notável com a equipa B do clube, que promoveu à segunda divisão depois de vários anos. O papel da Masia, a casa onde cresceu como homem e jogador, sempre foi fundamental na sua filosofia. Mas a direcção de Sandro Rossell, homem forte da Nike e com ânsias de protagonismo, sempre preferiu um modelo de "Globetrotters". As personalidades chocaram e foi Guardiola quem saiu. O resultado está à vista. Em pouco mais de um ano, há pouca esperança para a Masia.

 

No último ano de Guardiola, o que lhe custou os títulos com o Chelsea e Real Madrid, forçando-o a abandonar Camp Nou apenas com a Copa del Rey debaixo do braço, o papel da cantera foi tão importante como sempre.

Não só porque Sergio Busquets e Pedro Rodriguez - dois desconhecidos para a maioria dos próprios adeptos blaugranas - se tinham confirmado como titulares indiscutiveis do seu projecto, mas porque continuava a surgir gente nova com vontade de ocupar o seu lugar. O Barcelona chegou a efectuar jogos só com futebolistas formados em casa. Aos históricos Valdés, Puyol, Xavi, Iniesta e Messi, todos eles já em Can Barça quando Guardiola aterrou, juntavam-se Pique, Pedro e Busquets (parte da sua primeira fornada) e também o recuperado Cesc Fabregas e Thiago e Bartra (jogadores utilizados inicialmente nos dois anos seguintes à sua estreia). Onze futebolistas aos que se podiam começar a adicionar os estreantes Montoya, Cuenca e Tello. Todos eles, mais Sergi Robert e, pontualmente, Gerard Deulofeu, passaram pelo onze titular das mãos de Guardiola. Um total dezoito jogadores (se juntamos a Muniesa e Rafinha) que tiveram minutos nesse ano. Um número assombroso para uma equipa de elite mundial. Pep não venceu por pequenos detalhes os dois títulos principais mas não só consolidou o presente do Barça como arrancou o desenho do seu futuro. Os adeptos podiam estar tranquilos. Havia opções para todas as posições e mesmo aquela onde a equipa mais sofria (com os problemas de Abidal), a resposta estava outra vez em casa, no regresso de Jordi Alba ao clube que o formou. Não havia que enganar.

Um ano e alguns meses depois, a situação mudou radicalmente. Os jogadores formados no Barcelona que não eram já titulares indiscutiveis em 2011 parecem ter todas as vias da equipa principal fechadas. A operação saída começou ainda na época passada e prossegue neste Verão. Tito Vilanova, outro filho da Masia, mudou radicalmente a sua política face à do seu antigo amigo e superior. Para ele a cantera conta cada vez menos e a ideia de forjar um "Globetrotter" mundial, como quer o presidente Rossell, parece-lhe muito mais interessante.

 

Cuenca e Muniesa foram os primeiros descartados por Vilanova.

O extremo direito foi utilizado várias vezes por Guardiola em 2011/12 com boa nota mas acabou por ter de seguir a sua carreira no Ajax, enquanto o promissor central, vitima de vários problemas físicos, foi igualmente descartado. Robert e Rafinha, que tanto prometiam nesse último ano da era Pep, jogaram tão pouco que custa associar os seus nomes ao plantel campeão. Bartra só foi realmente opção para Vilanova quando ficou claro que utilizar Song e Adriano a centrais era aumentar os problemas em vez de diminuir os riscos. Fez boas exibições, mesmo nos momentos de maior aperto contra o Bayern Munchen, mas parece que para o clube isso não chega. Com Guardiola teria mais minutos, com Vilanova parece destinado a ser a quarta opção se finalmente chega a Can Barça uma estrela do nível de Thiago Silva ou um jovem com a projecção de Marquinhos. No lado direito, Montoya, que foi utilizado várias vezes pelos problemas físicos de Alves, continua a pedir mais minutos e a ponderar sair para encontrá-los. Com o mesmo problema encontrou-se Thiago.

O seu caso é verdadeiramente paradigmático. Não só porque o médio é o mais promissor futebolista a sair da Masia nos últimos sete anos, como durante anos foi anunciado como sucessor natural de um Xavi Hernandez que já tem 33 anos nas pernas. Thiago demonstrou o seu valor, não só de blaugrana ao peito mas também com a Rojita, e se começava a ganhar o seu espaço com Guardiola, com Tito perdeu-o por completo. A tal ponto que o seu contrato estipulava que, se disputasse x minutos, a cláusula seria de 30 milhões. Menos desse tempo de jogo e baixaria a 18. Com o título no bolso a várias jornadas do fim, Vilanova não teve a inteligência de o colocar a jogar regularmente para segurar o futebolista. Era visivel o seu desinteresse. E assim o mais velho dos irmãos Alcantâra tem a porta aberta com Guardiola em Munique.

O seu irmão Rafinha já tem guia de marcha, com um empréstimo ao Celta de Vigo. Deulofeu, a outra estrela da Masia, jogará com o Everton. Tello terá a concorrência directa de Neymar e Alexis apesar das excelentes exibições das últimas temporadas. Jogará muito pouco se a explosão do brasileiro se converter numa realidade.

Sob os planos de Vilanova, e a julgar pelo onze habitual da última temporada, mais Neymar, os "canteranos" que terão minutos serão os mesmos que já os tinham em 2011, mais Alba. Em 3 anos, todas as promessas da formação catalã foram descartadas. Mas não pela falta de talento. Todos eles têm um nível altíssimo de conhecimento de jogo e poderiam perfeitamente disputar a titularidade no Barça actual e dar a sua contribuição, como sucedia com Guardiola. Mas não será assim. Rossell e Vilanova preferem apostar noutro modelo de negócio, onde se abra espaço para o génio de Neymar, as habilidades de Alexis, as trapalhadas de Song, a frieza de Thiago Silva ou uma utilização excessivo de kms nas pernas de jogadores que têm um ritmo diferente como Puyol ou Xavi. A geração a quem Guardiola tinha deixado o testemunho para começar a ocupar o seu lugar foi convidada a sair. Muitos deles acabarão por regressar da mesma forma que a Xavi, Iniesta e Puyol lhes custou ser titulares. Outros estarão perdidos para sempre. Mas o mito da Masia como fábrica constante de jogadores para a primeira equipa foi desmantelado. Com um plantel curto e muitos jogos pela frente, havia tempo e espaço para todos. Pelo menos, com outro capitão ao leme!



Miguel Lourenço Pereira às 13:53 | link do post | comentar | ver comentários (16)

Segunda-feira, 01.07.13

Não houve duas equipas em campo. Não houve tempo. Uma entrou, empurrada por milhões, e ocupou todo o espaço imaginário do tapete verde do Maracaña para si. Fez a festa sozinha, entre suspiros do carnaval e memórias de outros tempos. Espanha caiu diante de uma selecção que soube ser melhor em todas as facetas do jogo. Uma derrota que pode ser útil para reactivar mecanismos num projecto que está no topo à demasiado tempo para ser julgado por um só jogo. Para os brasileiros, a noite de ontem foi um ajuste de contas moral com aqueles que achavam que era fácil entrar no Maracanã como senhores do jogo bonito e sair com vida. O teste a sério é daqui a um ano mas os sinais, pela primeira vez em muito tempo, são positivos!

Espanha começou a perder final antes da bola rolar.

Quanto soaram os hinos, ao ar sério, de quem está habituado a finais dos espanhóis, seguiu-se uma manifestação do poder emocional que provoca o futebol e só o futebol. Num país em crise consigo mesmo, com pessoas nas ruas a cercar o estádio, a paixão pelo futebol tinha o condão de ser o bálsamo emocional necessário para o brasileiro comum. Os milhares que encheram as bancadas de um estádio construido para ver o Brasil campeão cantaram o hino como se fossem para a batalha. Em campo os jogadores fizeram o mesmo. O velho espirito de família, de alma, de Luis Filipe Scolari ressuscitou na forma como Neymar, Júlio César, Thiago Silva, Fred ou Paulinho cantavam e choravam por dentro esse orgulho brasileiro. Quando o árbitro apitou para o minuto inicial, o escrete canarinho está mentalizado para ganhar. Nenhuma equipa do Mundo poderia fazer nada em relação a isso. Dois minutos depois, a jogada tipo de Scolari. Lançamento largo para o extremo onde a força de Hulk se sobrepôs ao pequeno Alba, centro para o coração da área onde a Espanha sempre sofre. Atrapalhamento e golo. Naquele breve segundo em que a bola pulou, Casillas e Fred lançaram-se pelo esférico. Noutro dia, noutra hora, o guarda-redes espanhol operaria um dos seus milagres. Mas aquilo era o Maracanã, era o Brasil e o uma consequência inevitável de acordar o monstro adormecido.

Nesse momento a comunhão entre adepto e jogador neutralizou qualquer arma futebolística que Espanha tivesse para oferecer. No final, não encontraram forma de sair desse bloqueio mental em que entraram. Sentiram-se intimidados pelas bancadas, pelo jogo duro do meio-campo brasileiro e pela forma como os rivais aplicaram em campo todos os passos necessários para neutralizar o tiki-taka. Pressão alta, à altura da baliza, e asfixiante. Constantes ajudas na marcação, linha defensiva longe da área, espaço de campo reduzido. Procurar o contacto físico, reduzir os espaços por onde a bola se possa mover. E depois, velocidade. Velocidade na movimentação, no lançamento da bola para o ataque, na tomada de decisão. Scolari emulou o que Heynckhes conseguiu com o Bayern. O resultado foi exactamente o mesmo.

Uma equipa com talento e prestigio contra uma equipa com talento e fome. Prevaleceu, em ambos casos, a segunda fórmula. Espanha, tal como o Barcelona, nunca entrou no jogo e foi derrotada de forma clara, concisa e inapelável por um rival que não precisou de recorrer ao anti-jogo, a estratagemas defensivos e à sorte.

 

Depois da exibição memorável contra o Uruguai, essa Espanha desapareceu do mapa.

Contra a Nigéria sofreu muito mais do que se esperava. Frente à Itália beneficiou, como em 2008, do factor sorte depois de ter reequilibrado no prolongamento um jogo que não conseguiu dominar nos noventa minutos. Aos italianos faltou-lhe a coragem e eficácia na tomada de decisão nos metros finais. Mas o Brasil sabia que esse não seria um problema. Neymar, que aos europeus sempre gerou dúvidas, emerge deste torneio como uma figura consensual. Foi a alma e o motor ofensivo do Brasil, movendo-se pelo campo com autoridade, oferecendo golos e disparando sem medo. O Brasil começou a ganhar o jogo no momento em que decidiu não ter medo do rival, uma arma psicológica que os espanhóis utilizam muito bem com alguns rivais que procuram adaptar o seu modelo de jogo ao seu. Paulinho e Luis Gustavo tinham outra missão. Como fizeram em todo o torneio (e como o fazem nos seus clubes), morderam, morderam e morderam. Com eles por perto a bola não durava um segundo no pés dos espanhóis. As subidas dos laterais e a velocidade de acção de Thiago e David Luiz cercava por completo o esquema habitual de Del Bosque.

O seleccionador espanhol não encontrou solução para o problema. Nem a entrada de Navas nem a de Villa resolveram a equação. Foi sempre tudo demasiado lento, impreciso e previsível. Sem tempo para pensar, sem espaços para mover-se, os espanhóis viram-se atados por uma teia da qual têm sempre dificuldade em sair. Do outro lado a velocidade era a principal arma com que o Brasil deixava os rivais em sentido. Arbeloa e Piqué foram admoestados por faltas sobre um supersónico Neymar. O primeiro livrou-se da expulsão e foi substituído porque parecia evidente que não sobreviveria a outra. Piqué não teve melhor sorte. O astro ascendente brasileiro aplicou-lhe a mesma fórmula de Cristiano Ronaldo e o jogador que tanto prometia em 2011 voltou a cair no mesmo erro e a comprometer, ainda mais, as aspirações da sua equipa.

Nessa altura já David Luiz tinha sabido ler a ideia de Pedro e Neymar ampliado a vantagem. Nesse golo colocou-se em prática o verdadeiro perfume canarinho. Oscar, sabedor que precisava de guardar a bola uns segundos para permitir a Neymar sair do fora de jogo, rodou sobre si mesmo em vez de procurar um passe mais fácil. Foi suficiente para romper a linha defensiva espanhola e oferecer ao número 10 o merecido golo. Casillas já tinha impedido por duas vezes a festa brasileira. Mas os milagres não seriam suficientes essa noite.

A partir desse momento Espanha rendeu-se. Sérgio Ramos sacou do coração onde já não havia cabeça para marcar um penalty infantil de Marcelo sobre Navas mas falhou-o. Fred ampliou a vantagem depois de mais uma delicatessen de Neymar (simulando um remate que não existiu) e o Brasil dedicou-se a bailar os campeões do Mundo com uma autoridade impensável. Reduzidos, fisica e psicologicamente, os espanhóis apenas procuraram resistir à goleada que parecia inevitável se, num acto quase de misericórdia, o Brasil não tivesse reduzido as rotações e Scolari tivesse preferido Jadson a Lucas Moura para dar a estocada mortal sobre um rival ferido.

 

Em 2002, Scolari foi campeão com uma equipa memorável. O seu esquema táctico em 3-4-3 dava todo o protagonismo a três Ballons D´Or (Ronaldo, Rivaldo e o futuro Ronaldinho) e à velocidade dos seus laterais (Cafú, Roberto Carlos) mas o verdadeiro truque estava na sala de máquinas, uma defesa oleada e um meio-campo de operários. Dez anos depois, o seleccionador repetiu a fórmula. Já não conta com três estrelas mundiais na frente, mas em Neymar, Fred e Hulk encontrou jogadores esfomeados e com sacrifício físico para pressionar até ao suspiro final. Em Marcelo e Dani Alves tem os sósias perfeitos dos seus laterais originais e com Paulinho, Luis Gustavo, Óscar e Hernanes, opções suficientes para aplicar a sua máxima no meio-campo. O triunfo, a todos os títulos inesperado, será um colchão mental importante para enfrentar o ano que falta. Espanha saberá voltar ao seu melhor depois de lamber as feridas. Selecção de jogadores inteligentes e ambiciosos, passará por um processo de selecção inevitável de quem sabe que há muito talento a bater à porta, mas no próximo mês de Junho arrancarão o Mundial como máximos favoritos. Um estatuto que merecem depois de seis anos memoráveis. Mas na noite de 30 de Junho de 2013 o Brasil demonstrou ao resto do Mundo como é possível desbloquear esta máquina de futebol sem recorrer ao lado mais negro do jogo. Resta saber quantos países terão os meios, a fome e o saber de reproduzir esse esquema. No planeta futebol actual não são muitos os países que podem permitir-se com sonhar com uma exibição perfeita como a dos canarinhos. Uma exibição para a posteridade! 



Miguel Lourenço Pereira às 15:26 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 28.06.13

Carlo Ancelloti chega ao Santiago Bernabeu com um curriculo profissional que nada deixa a invejar o de José Mourinho. Volta a ser a sua sombra, depois da sua etapa no Chelsea. Com ele traz um novo conceito de jogo, onde a velocidade e a vertigem serão progressivamente substituídas pela pausa e o jogo colectivo. Uma nova etapa para um clube em constante conflito existencial.

Não há treinador italiano que melhor represente a mudança de guarda dos anos dourados da década de noventa.

Nenhum capaz de manter a frescura visual dessa geração nas suas equipas sem demasiados malabarismos tácticos. As equipas de Ancelotti não são nenhum puzzle. Pelo contrário, o seu esquema roça praticamente o básico. Posicionamento horizontal, organização defensiva, trabalho na medular e liberdade para dois ou três homens de ataque. Nada de contra-golpe, nada de velocidade constante. As equipas de Ancelotti movem-se em campo como o dinamo preferido de Arrigo Sacchi fazia em San Siro. Com a tranquilidade de quem sabe que chegará ao seu objectivo.

O técnico italiano popularizou na viragem do século XX o 4-3-1-2. Um modelo que, desde então, tem sido sinal de identidade do Calcio.

Com a Juventus, onde sucedeu à figura imensa de Marcelo Lippi, a jovem promessa dos bancos italianos herdava uma equipa com muito trabalho no meio-campo e pouca criatividade. Ignorando o 3-4-3 da última etapa de Lippi, preferiu reforçar a linha defensiva com o modelo de quatro homens aplicado por Sacchi, o seu grande mentor. Depois colocou Davids, Conte e Tachinardi no apoio a Zidane, Del Piero e Inzaghi, com o francês com liberdade total de movimentos e "Il Pinturrichio" como avançado móvel no ataque. No final do ano mudou-se para Milão onde tomou a decisão mais importante da história recente do futebol italiano. Fiel ao seu 4-3-1-2, Ancelotti manteve Rui Costa como o seu trequartista, atrás da dupla Shevchenko-Inzaghi. Com Ambrosini/Albertini e Gattuso disponíveis para dois lugares, parecia não haver espaço para o promissor Andrea Pirlo. Mas o jovem, que tinha estado emprestado no Brescia, era bom de mais para ser suplente do internacional português e Ancelotti recuou-o para a posição de regista. Uma manobra táctica decisiva que lhe valeu o seu único Scudetto, duas Champions League ganhas e uma final perdida, inesperadamente, em penalties. O seu modelo táctico permaneceu quase inalterado quando se mudou para Londres, depois de quase dois anos calamitosos pós-Mourinho. Aí voltou a fazer uso do seu 4-3-1-2, reconvertendo Malouda como médio interior, ao lado de Lampard e Essien, por detrás de Ballack, Drogba e Kalou na linha de ataque. Com essa equipa conseguiu algo histórico que nem o Special One logrou (vencer liga e taça no mesmo ano) mas na Europa o Chelsea não impressionou e a eliminação aos pés do Inter de Mourinho deixou marca. Despedido por Abramovich, reencontrou-se em Paris com um novo projecto a que voltou a aplicar o seu velho conceito de jogo, desdobrado ocasionalmente num ainda mais clássico 4-4-2, com Ibrahimovic, Lucas e Lavezzi como os três jogadores mais apertados e Pastore, Matuidi e Verrati a fecharam a linha de meio-campo.

 

A chegada de Ancelloti ao Bernabeu é um sonho antigo de Florentino Perez.

O presidente do Real Madrid esteve perto de o contratar em 2009, mas sob indicação de Jorge Valdano, acabou por ser Manuel Pellegrini o escolhido. Cinco anos depois, encerra-se o ciclo. Ancelotti é um ganhador. Tem um currículo que inclui ligas em três paises diferentes (o mesmo número que tinha Mourinho quando chegou a Madrid) duas Champions League (as mesmas que tem Mourinho) e um perfil muito mais apaziguador e silencioso que o português. Com Ancelotti ninguém espera ver uma guerra aberta com a imprensa e com o balneário. Habituado a líder com presidentes com carácter (Agnelli, Berlusconi, Abramovich) e com celebridades do futebol europeu (Zidane, Del Piero, Shevchenko, Rui Costa, Drogba, Lampard, Terry, Ibrahimovic), a "Carletto", não lhe faltará experiência para lidar com a facção rebelde de Iker Casillas e Sérgio Ramos ou os clãs regionais formados à volta dos jogadores portugueses, alemães e espanhóis mais afins a Mourinho. Não será uma missão fácil num clube reconhecido pelo poder excessivo que os jogadores sempre procuraram conquistar à custa do papel do treinador. Mas não existia, no mercado de técnicos, um perfil mais adequado para a missão do que o seu.

Em campo a mudança de Mourinho para Ancelotti será ainda mais evidente. Fiel ao seu desenho táctico, a mutação do 4-2-3-1 habitual de Mourinho para o 4-3-1-2 adequa-se principalmente ao over-booking de jogadores medulares e criativos do plantel merengue. A chegada do genial Isco abre a porta a um duelo apaixonante com Mezul Ozil pela posição de criativo principal desta nova formação blanca. Atrás, os três lugares do meio-campo deverão ser distribuídos entre Xabi Alonso, Modric e Khedira, deixando a Cristiano Ronaldo e Benzema as vagas no ataque. O português como elemento mais livre, móvel, capaz de mover-se entre as alas para aparecer em áreas de finalização e Benzema, peça essencial no jogo combinativo habitual nas equipas de Ancelloti. Um desenho táctico que raramente utiliza extremos puros o que pode ser um problema para o jovem Jesé mas nem tanto para Di Maria, que tanto pode incorporar-se como elemento da linha de ataque como eventualmente recuar para a posição de interior direito graças à sua tremenda capacidade de trabalho. Só a possível - mas complexa - chegada de um jogador como Gareth Bale poderia levar Ancelloti a procurar por um mais clássico 4-3-3 com Ronaldo e Bale nas alas, acompanhados de Benzema e Ozil, Isco, Alonso, Khedira, Di Maria e Modric a competirem por três lugares, um problema sério para qualquer gestor humano resolver.

 

A nova abordagem de Ancelotti, se o italiano se mantiver fiel aos seus princípios tácticos, aportará ao Real Madrid um jogo mais colectivo e elaborado, onde o papel dos laterais (Carvajal e Arbeloa pela direita, Marcelo, Coentrão ou o seu eventual substituto pela esquerda) é fundamental graças ao músculo colocado no meio-campo para tapar qualquer falha de marcação colectiva. Um tridente composto por jogadores como Ozil, Isco, Alonso e Modric pode oferecer uma dinâmica ofensiva apaixonante, particularmente se associada ao apetite goleador de Ronaldo e a um Benzema possivelmente motivado pela presença de Zidane no banco e a ausência de Higuain como competidor directo. Se o Barcelona parte como claro favorito para a próxima época, a escolha de Ancelotti é uma manobra inteligente de Perez para manter o Real Madrid e o seu plantel de sonho perto, muito perto, da máquina ofensiva blaugrana.



Miguel Lourenço Pereira às 22:02 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Terça-feira, 18.06.13

Enquanto os veteranos espalham classe e uma mobilidade que alguns pensavam perdida na memória, os mais jovens demonstram que estão preparados para dar o salto. Não existe na história do futebol uma sucessão de gerações com tanta qualidade em todos os processos do jogo. Nas posições nucleares, o aparecimento a cada nova geração de um jogador de nível máximo é o sinal mais evidente que a hegemonia da Espanha, para lá dos títulos que possa ou não ganhar, não tem fim à vista.

É fácil fazer as contas para perceber que a dupla campeã da Europa e actual campeã Mundial é, por direito próprio, a máxima favorita das próximas competições internacionais. Se alguns dos seus protagonistas principais já falam em reformar-se, eventualmente depois do Mundial do Brasil, os adeptos espanhóis sentem-se tranquilo. Basta olhar para baixo, para os mais novos, para os que vêm a seguir. Duplos campeões da Europa de sub-21, campeões da Europa de sub-19 e flamantes candidatos a vencer o próximo Mundial da categoria sub-20, ninguém questiona o presente de Espanha. Nem o seu futuro.

Essa forma de hegemonia eterna não é fruto do acaso. Há duas décadas os clubes despertaram. O impacto dos Jogos Olimpicos de 1992 foi imenso na mentalidade espanhola. Ao crescimento económico seguiu-se um crescimento emocional de um povo marcado por décadas de ditadura e uma transição desenhada para agradar a gregos e troianos. Durante essa etapa, o futebol espanhol era o dos clubes, o da luta Real Madrid e Barcelona, mas também o dos símbolos regionais. A selecção era uma amálgama de identidades sem ideias próprias que procurava imitar o que estivesse na moda, fosse a dureza alemã ou o cinismo argentino. Eram os dias da Fúria, uma equipa com alma mas sem talento, com garra mas sem ideias. A tal que chegava a cada competição com o rótulo de eventual surpresa para acabar, inevitavelmente, por falhar nos momentos decisivos. Nos momentos onde é preciso ter uma ideia de jogo a que ser fiel.

O futebol espanhol aprendeu a lição. Desde a federação começou a trabalhar-se no futebol de base. Os clubes foram incentivados a seguir pelo mesmo caminho. Uns fizeram-no com mais afinco que outros. O Barcelona e o Athletic Bilbao foram excelentes exemplos de aproveitamento da formação enquanto que os clubes de Madrid preferiram outra abordagem. O tempo demonstraria quem tinha razão. Mas não foi só no treino e formação de jovens jogadores que se desenhou o futuro dourado do futebol espanhol. A nível nacional, de forma quase transversal, adaptou-se um modelo de jogo similar, um estilo de posse comum, de cultura pelo respeito do adversário e pelo conhecimento táctico das matrizes do jogo. Mais do que formar jogadores, em Espanha formaram-se jovens adultos, com capacidade mental para superar qualquer adversidade. Uma capacidade que faltou a tantos dos protagonistas da etapa da fúria e que nos momentos de maior pressão fez a diferença. O clique ganhador, a assunção de sentir-se superiores na sua forma de jogar, passos fundamentais para transformar o sucesso da base no triunfo da cúpula pirâmide.

 

Xavi-Fabregas-Thiago.

Iniesta-Mata-Isco.

Busquets-Martinez-Illarramendi.

A sala de máquinas do futebol espanhol é a melhor do mundo no presente. Mas também já a é no futuro imediato e no futuro mais distante. Não existe, a nível internacional, um tridente de jogadores da mesma geração tão capazes de assumir o controlo de um jogo e de pautar o seu ritmo como sucede com três gerações consecutivas de heróis espanhóis. A titularidade da selecção principal de Del Bosque é intocável. São os jogadores que Guardiola reinventou dentro do modelo desenhado entre Cruyff e Aragonés. Mas quando faltarem, os espanhóis sabem que há dois futebolistas por posição preparados para assumir o seu lugar sem que se note minimamente a diferença. Em qualquer selecção do Mundo actual, Thiago-Illarrramendi-Isco seriam titulares. Fosse o Brasil, Itália, Inglaterra, Holanda, Argentina ou Portugal. E no entanto, são apenas a terceira escolha em Espanha porque o génio de Mata, de Fabregas e de Javi Martinez os antecede, por idade, apenas e só. Não há melhor forma de coroar o sucesso de uma ideia do que sentir que está garantido o seu futuro. No caso da Espanha, a próxima década está entregue a futebolistas desenhados para ganhar, mas ganhar à sua maneira.

A selecção de sub-21 joga ao mesmo jogo que a equipa principal, mas fá-lo melhor. Com mais fome, com mais verticalidade, com mais apetite pelo golo. Eles são o que os principais eram em 2008, quando Aragonés acabou o seu projecto de forma única. Pelo meio, uma série de futebolistas que cresceram com essa fome de afirmarem-se internacionalmente e que se encontram entalados entre duas equipas de sonho. Nove jogadores para três posições que, no fundo, são apenas um curto exemplo da extensão da hegemonia espanhola.

Para cada Sérgio Ramos há um Iñigo Martinez. Para cada Arbeloa há um Carvajal ou Montoya. E um Moreno, um Koke, um Muniain ou Rodrigo. E todos esses trabalhadores talentosos como Nacho, Bartra, Herrera, De Marcos, Camacho, Aguirretxe, Parejo, Michu e os génios precoces de Canales, Jesé, Deulofeu ou Oliver. São tantos os nomes individuais que o problema é eleger. Mas aqui, apesar de tudo, não é a individualidade que faz a diferença. É o facto de todos eles pensarem, agirem e jogarem debaixo de uma ideia comum. O ritmo na equipa principal pode ter baixado, a frieza e o cinismo que foram imagem de marca de Del Bosque quando esteve inicialmente no Real Madrid fez-se sentir na África do Sul e na Polónia e na Ucrânia. Mas a qualidade dos jogadores e o valor desse espírito determinado e ofensivo permite pensar que é praticamente impossível não contar com a Espanha com máximo favorito para os próximos cinco grandes torneios internacionais.

 

Poucas selecções sub-21 jogaram na história como esta versão da selecção espanhola. Capaz, muito provavelmente, de vencer a maioria dos jogos disputados contra selecção principais do planeta futebol. Uma qualidade tal que permite, por momentos, esquecer que a sua antecessora, também campeã europeia, era quase tão boa. E que as suas rivais são a base habitual de projectos desportivos de larga projecção como acontece com Alemanha, Itália ou Holanda. Enquanto em Portugal se descobre, a duras penas, a consequência de abandonar-se o projecto de formação que esteve por base no sucesso dos anos noventa, Espanha demonstra uma vez mais saber qual é o caminho. O do sucesso. Para o qual tem a chave. Uma chave que parece ser de cópia única.



Miguel Lourenço Pereira às 18:26 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Terça-feira, 11.06.13

Existem quatro correntes distintas sobre a forma como deve ser desenhada a estrutura de uma selecção nacional. Quatro visões, algumas delas bastantes distanciadas, que contam com as suas virtudes e riscos. São pontos de vista que necessitam também de adaptar-se à realidade local de cada projecto e ás inevitáveis crises geracionais que afectam todas as nações do mundo do futebol. O caso português já viveu em vários desses extremos. Agora continua a subsistir, com Paulo Bento, o mais recente dos modelos, o familiar.

 

Do grupo fechado de Scolari à liderança dividida no Euro 84. Da equipa forjada com base em dois clubes, em 66, à geração dos melhores que navegavam pelo futebol europeu. A história do futebol português é rica nas variantes de como se desenhou o espírito do chamado Clube Portugal. Já foi coisa de dez jogadores de dois clubes só, para potenciar os laços rotineiros e a influência clubística. Já se jogou ao ritmo de interesses pessoais, procurando colocar os melhores em cada momento. Já se confiou nos melhores jogadores, independentemente do seu estado de forma, simplesmente porque eram muito bons. E agora Portugal revisita o conceito de núcleo fechado, de família, inaugurado por Scolari em 2003.

O caso português não é singular. Todos os países de topo do futebol mundial passaram, com os seus mais e os seus menos, por todos estes modelos ao longo da sua história. Em Espanha vive-se actualmente o apogeu da ideia que em Portugal existiu com a Geração Dourada. Os melhores jogam, sempre, independentemente de como estão ou de se há novos futebolistas no horizonte. Mas em Espanha também já se bailou ao som dos interesses dos clubes, também já se tentou criar uma família fechada, com Clemente na década de noventa e houve uma época em que, pura e simplesmente, jogavam os que estavam em melhor forma.

Para um seleccionador - e até o nome tem truque, porque seleccionar e treinar não é mesmo e até aos anos oitenta muitas selecções tinham dois profissionais para dois postos distintos - é complicado eleger o modelo a seguir.

Se convocar sempre os jogadores que estão em melhor forma - algo que muitos defendem - corre-se o risco de não ter nunca um núcleo estável porque a forma é, como já se sabe, volátil. No entanto, ter sempre os jogadores na melhor condição física e psicológica pode garantir que a equipa que sobe ao campo está motivada e preparada para todos os desafios. Montar um combinado nacional à volta dos maiores talentos individuais, também gera um problema. Podem ser os melhores, os que mais aportam e melhor entendem o jogo mas, muitas vezes, não estão nas melhores condições e surge o fantasma de jogar por estatuto. O modelo aproxima-se mais ao de um clube, com um núcleo fechado de estrelas e suplentes de luxo, ignorando muitas vezes a principal vantagem de uma selecção: poder ir mais além nas escolhas. Também há os que preferem montar um esquema baseado no sucesso individual de um ou dois clubes, trazer o máximo número de jogadores desses emblemas e complementar a convocatória com talentos individuais. Ganha-se em estabilidade e rotinas, algo que falta no curto espaço de tempo de preparação para os jogos internacionais, mas perde-se em novidade e inovação. Por fim há o modelo mais recente, o de criar um grupo fechado, com jogadores bons e medianos, conscientes todos do seu lugar, onde a competitividade existe mas parte de bases estabelecidas. Onde o treinador é técnico, pai e sargento. Onde os interesses de um grupo se sobrepõem aos individuais mas onde a porta está quase sempre fechada ao resto do mundo. Esse é o modelo português da última década.

 

Nos anos 60 a selecção das Quinas era formada por jogadores do Benfica e do Sporting, com a ocasional incorporação de futebolistas do Belenenses, FC Porto e Setúbal. De aí passou-se ao período pós-25 de Abril, onde cada clube queria controlar a selecção e para agradar a gregos e troianos convocavam-se individualidades e não se pensava no grupo. Com os meninos de ouro forjou-se um grupo de vinte jogadores que, passasse o que passasse, tinham lugar garantido. Foi esse o cenário que entrou em colapso em 2002, no Mundial do Japão e da Coreia do Sul, quando parte do balneário estalou com o favoritismo atribuído por Oliveira a Baía sobre Ricardo, ao lesionado Figo e a um questionadíssimo Pauleta. Quando chegou Scolari, esse era o monstro que tinha de domar, para triunfar no Europeu.

O brasileiro fez a sua limpeza. Manteve ao seu lado o núcleo duro da selecção dos anos noventa (Figo, Fernando Couto, Rui Costa, Paulo Sousa) mas afastou os mais polémicos Baía, Jorge Costa e o suspenso João Vieira Pinto das suas equações. Com os mais indomáveis Sérgio Conceição e Abel Xavier teve os seus problemas. Para compensar, começou a chamar regularmente jogadores de low profile que fizessem o core da sua família. Chegaram os mais novos (Jorge Andrade, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Miguel, Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo) e os que traziam experiência, como Costinha, Nuno Valente, Maniche. A esses juntou obreiros prontos a obedecer a qualquer ordem mas sem projeção internacional como foram Luis Loureiro e companhia. E chegou Deco, o jogador que quebrou não só o tabu dos naturalizados mas também a ideia de que os jogadores da Geração de Ouro actuavam por decreto. Rui Costa foi a sua vitima colateral.

Scolari criou um núcleo fechado mas aproveitou-se, como Otto Gloria, do trabalho de dois clubes, a juventude das promessas do Sporting e a solidez dos jogadores do FC Porto de Mourinho. Foi essa a sua base durante o seu mandato. Mas sem renovação, sem espaço para a novidade, o grupo estagnou, envelheceu e quando o brasileiro disse adeus, deixou uma equipa sem líder, decadente e com um hábito de trabalho mais similar ao de um exército do que a uma selecção nacional. Queiroz tentou lutar contra esse mundo, abriu a convocatória a outros jogadores, mais jovens, mais promissores, capazes de trazer algo novo, mas nunca conseguiu controlar um balneário saudosista do modelo Scolari, particularmente porque interessava ao homem que representava a maioria dos seus jogadores-chave, Jorge Mendes.

Para isso chegou Paulo Bento. Um treinador razoável, que noutro cenário nunca seria seleccionador e que foi um dos jogadores que sofreu com a nova ordem de Scolari. Mas a quem o papel de sargento assentava bem. Bento herdou uma pool de jogadores muito pior do que a que tinha o brasileiro. Desde o Mundial da Alemanha que a aposta na formação tinha desaparecido, que não havia jogadores para substituir quem tinha partido. Um buraco etário imenso que continua à espera que a geração que actualmente tem entre 17 e 22 anos possa substituir.

Consciente da situação, o seleccionador optou por voltar aos principios mais básicos do scolarismo.

Independentemente da qualidade individual, formou um grupo fechado de vinte jogadores. Boa ou má forma, houvesse ou não melhores jogadores fora do núcleo, esses eram os seus espartanos. Deu o protagonismo mediático à sua estrela individual e rodeou o onze base de suplentes sacados da carteira de Mendes. Muitos deles sem nível para uma selecção, ainda assim decadente, mas que cumpriam os serviços mínimos que se lhes eram exigidos. Isso explica que os Micael, Oliveira, Amorim, Sereno, Zé Castro, Almeida, Eduardo e companhia sejam convocados com regularidade. Os problemas começaram a surgir quando até as opções para o onze se foram reduzindo. Sem jogadores de nível para posições chave como os centrais, médio defensivo, criador de jogo e ataque, o modelo tornou-se obsoleto. Mas nem assim Bento mudou o seu rumo. Manteve-se fiel a um esquema táctico para o qual não tem jogadores e preferiu chamar mais legionários para as posições deficitárias, brutalizando a equipa e tornando-a mais amorfa. Boa para torneios curtos mas um problema sério durante uma temporada onde se exige mais do corpo aos jogadores de topo para estarem frescos nos jogos importantes.

Só nos últimos encontros Bento foi forçado a confrontar-se com a realidade. O seu grupo tinha falhas importantes e escassez de meios. Depois do Euro 2012 começou a aparecer - finalmente - outro perfil de futebolistas. São jogadores que terão de aceitar as regras da família mas que sabem que não têm muita concorrência para o lugar. O descarte de Quaresma, Tiago, Manuel Fernandes, Rolando e Ricardo Carvalho abriu ainda mais as feridas na defesa e no meio-campo. Sereno, Zé Castro, Ricardo Costa, Ruben Micael, Carlos Martins e Varela não são, claramente, a solução. Mas são os homens de confiança. E por isso aparecem em cada lista. O aparecimento progressivo de futebolistas como Vieirinha, Luis Neto, Pizzi ou André Martins é um sinal positivo para o futuro imediato. Pode não ser suficiente para chegar ao Brasil com um plantel coerente e afastado desse espirito autoritário que tão bem caracteriza Bento, um homem que tacticamente é mais um problema que uma solução, mas indica que o futuro tem opções que não podem ser filtradas por não pertencerem a determinado grupo ou agente. Atrás deles vêm os André Almeida, André Gomes, André Santos, Tiago Ilori, Wilson Eduardo, Bruma, Castro, Ricardo, João Mário das selecções jovens mas também outros eternos descartados como Bruno Gama, Paulo Machado, Eliseu, Duda, Antunes ou Vaz Tê, jogadores que podem oferecer mais do que os que vão regularmente à selecção sem pertencer a esse mundo fechado.

 

Com pouco mais de 50 jogadores de nível aceitável por onde escolher - consequência de uma péssima gestão federativa e dos clubes com o qual Scolari pactuou e da qual Paulo Bento não tem culpa imediata - é normal que as opções para os jogos decisivos de qualificação para o Mundial sejam reduzidas. Partindo do principio que, salvo lesão, os nomes fortes estarão presentes, quer tenham condições físicas e psicológicas para os duelos ou não, as vagas diminuem. É fácil perceber que nem há um modelo de clube suficientemente forte para sustentar a selecção, nem uma geração de ouro que permita esquecer a ideia de que não é necessário ter demasiadas opções para resolver os problemas. Bento tem como alternativa forjar uma selecção no Outono com os que estejam realmente bem ou manter-se fiel ao seu espírito de grupo. O ideal seria criar um compromisso entre ambas mas isso exige diplomacia, liderança e saber adaptar o sistema táctico aos recursos disponíveis, algo de que o seleccionador nacional ainda não demonstrou capacidade para ser capaz de realizar.

 

Um possível Portugal 23 para o Outono baseado apenas na qualidade individual, na aportação colectiva e no espírito colectivo (sem ter em conta, naturalmente, lesões e um estado de forma deficiente).

 

Guarda-Redes - Rui Patricio, Beto


Defesas Laterais - João Pereira, Silvio, Fábio Coentrão

Defesas Centrias - Pepe, Luis Neto, Bruno Alves, Tiago Ilori

 

Médio Defensivo - Custódio, Miguel Veloso, André Almeida

Médios Interiores - João Moutinho, André Martins, Paulo Machado, Bruno Gama

 

Extremos - Cristiano Ronaldo, Nani, Vierinha, Bruma

 

Avançados - Hélder Postiga, Pizzi, Edér

 

Alternativas (Raul Meireles, André Santos, Danny, Ricardo, Ruben Amorim, André Gomes, Antunes, Mika, Duda, Eliseu, Josué)



Miguel Lourenço Pereira às 14:11 | link do post | comentar | ver comentários (15)

Sábado, 25.05.13

O Dortmund jogou melhor mas o Bayern soube ter a eficácia que lhe tem faltado nas finais europeias pós-Muller. Foi um título merecido para uma geração brilhante de jogadores que fazem parte já da elite histórica do futebol europeu. Os bávaros são indiscutivelmente a mais forte equipa da Europa e Pep Guardiola terá muito trabalho pela frente para emular o feito de Jupp Heynckhes. Ao Dortmund, a melhor equipa em campo, fica a honra de terem sido protagonistas de uma das mais espectaculares finais das última décadas. Com Klopp ao leme, para o futuro, tudo é possível.

Robben. O holandês que sempre perde.

Todos os jornais europeus já tinham a crónica do jogo escrita. Pelo menos os parágrafos em que iam desenterrar o passado do mágico extremo, os falhanços contra o Inter em 2010, na final do Mundial desse mesmo ano frente ao seu amigo Casillas. Ou o penalti desperdiçado contra o Chelsea, já no prolongamento de uma final que o Bayern não podia perder. Esse parágrafo estava escrito porque, uma vez mais, a sorte parecia estar contra ele. Três falhanços durante o jogo condenavam-no à penitência eterna. O rosto de Weidenfeller parecia uma assombração do passado quando a quatro minutos do fim, a história fez justiça. O mesmo Bayern que tinha perdido em cinco minutos uma final contra o FC Porto, em três minutos outra com o Manchester United e que tinha caído nos penalties frente ao Chelsea podia, pela primeira vez, agradecer ao cronómetro. Não ia haver tempo para mais. O toque de calcanhar de Ribery, o erro de marcação de Hummels, a saída desesperada de Weidenfeller. Gestos que passaram ao lado da visão de Robben, o jogador que só via a bola, a baliza e os braços abertos no ar. Os braços de alguém que resolvia todas as contas pendentes com a sua espantosa carreira. Um golo que merecia como poucos, um golo que marcou com a frieza dos grandes momentos. Um leve desvio, depois de mais uma diagonal letal, como a que lhe permitira, meia hora antes, desenhar o tento inaugural dos bávaros. Então Robben surgiu na sua faceta de assistente de luxo para Mandzukic marcar. Mas a glória suprema, o golo do título, estava-lhe reservado. Quando o esférico entrou já Arjen se sentia imortal.

 

O Borussia Dortmund entrou muito melhor no jogo, pressionando a saída de bola dos bávaros em cima da sua grande área.

O esforço físico dos homens de Klopp foi brutal. Durante os primeiros vinte minutos asfixiaram o Bayern e acumularam oportunidades de golo. Oportunidades que Manuel Neuer, imenso como sempre, foi resolvendo com perícia e sorte. Quando a balança se equilibrou, o cansaço fisico começou a fazer-se sentir e já não era toda a equipa que rondava como abutres a área bávara. As respostas dos amarelos vinham, sobretudo, da conexão entre Reus e Kuba, pelo lado direito. Ambos procuravam avidamente Lewandowski, em perpétuo movimento entre a defesa contrária, mas o ritmo já não era o mesmo e a solidão do avançado polaco foi-se acentuando. Tinham entrado definitivamente no jogo os futebolistas fundamentais no esquema de Heynckhes, os mesmos que tinham trucidado o Barcelona numa eliminatória para a posteridade. Javi Martinez, Schweinsteiger e Muller encontraram-se, associaram-se e inverteram o ritmo do encontro. Com Robben e Ribery bem tapados pelo apoio dos extremos do Dortmund a Pieszcek e Schmelzer, era pelo corredor central que o Bayern iria procurar explorar as suas mais valias. De aí nasceram as primeiras ocasiões, as que meteram o medo no corpo dos homens do Ruhr. A cadência da final seguia a todo o vapor, lembrando que há vida no futebol europeu para lá do circuito mediático Barcelona, Real Madrid, AC Milan e Manchester United. Para os que seguiram a transformação recente da Bundesliga, o ritmo e a qualidade do jogo vividos em Wembley não era novidade. Só faltavam os golos. Chegaram na segunda parte.

Primeiro Ribery e Robben, afastados do protagonismo pela pressão táctica do Dortmund na primeira parte, exploraram a falha de marcação dos amarelos e desenharam o golo de Mandzukic. Não foi preciso muito para o empate. Um erro de Dante - que devia ter sido expulso - propiciou o penalty que Gundogan converteu com frieza. Tudo igualado mas sensações novas. O Dortmund tinha mais critério mas o Bayern mais velocidade e Thomas Muller reapareceu como figura principal espalhando o medo entre a linha defensiva rival. Poderia ter sido ele o herói da noite. Ou talvez Schweinsteiger, a par de Lahm, o herdeiro de uma geração que viveu duas amargas derrotas. Mas foi Robben. Um lançamento largo, um toque de Ribery, um desvio do homem que nunca decide.

 

Não havia tempo para mais, não havia mudança táctica que desse cabo da vontade de vencer de um clube desenhado para lutar contra a sua malapata. O último clube a vencer a prova por três vezes consecutivas vive, desde 1977, uma luta contra o seu próprio ADN. Derrotas inesperadas contra Aston Villa, FC Porto, Manchester United, Inter e Chelsea criaram uma lenda que só uma equipa ainda mais maldita como o Valencia permitiu quebrar. A quatro minutos do fim Heynckhes era o quarto treinador da história a vencer a prova com duas equipas diferentes. O eterno goleador maldito do Monchengladbach, o homem que a direcção do Bayern entendeu que não seria capaz de devolver o Bayern à glória, o treinador que será rendido pelo génio de Pep Guardiola, não podia perder. Klopp tem tempo. Chegará a sua hora. Como o Dortmund jogam muito poucas equipas. Mas esta era a noite de Jupp. A noite de Robben. A noite de Lahm e Schweini. Hoje era a noite de ajustar contas. A noite histórica que Pep terá quatro anos para melhorar. O desafio começa em Julho!



Miguel Lourenço Pereira às 21:58 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Domingo, 31.03.13

Durante quatro anos o futebol foi o escape de uma equipa repleta de magos que desafiaram a sombra do nazismo. O Wunderteam foi mais do que uma invenção desde génio precoce chamado Hugo Meisl. Simbolo da cultura das casas de café da Viena dos anos vinte, foi um grito de independência de soldados com a bola nos pés contra o pânico de uma guerra que ninguém podia evitar. Duas décadas antes da consagração do mais belo futebol do centro da Europa pelos magiares de Sebes, a Áustria de Sindelaar ergueu a bandeira da escola continental programada por Jimmy Hogan.


Na década de 30 o futebol já era mais do que uma curiosidade desportiva. Cada país tinha já formada a sua liga, o amadorismo começava a ser abandonado e as duas primeiras edições do Mundial de futebol tinham apresentado ao mundo o poderio do jogo sul-americano (Argentina e Uruguai) e a eficácia do Calcio italiano. A Inglaterra continuava isolada do Mundo, acreditando na sua total superioridade e no coração da Europa começava a nascer um novo estilo de jogo, arrojado e profundamente belo. Uma escola impulsionada por um inglês sui generis e levada à prática por um austríaco com alma de empreendedor, Hugo Meisl.

Em Abril de 1931 a seleção austríaca, orientada pelo mago vienense, começou uma série inesquecível de jogos sem perder. Durou mais de ano e meio - até Dezembro de 1932 - e lançou as bases do "jogo bonito", um futebol de troca rápida de bola, de movimentações organizadas, versatéis e coordenadas por um verdadeiro poeta dos relvados, Mathias Sindelar.

Meisl, visionário como poucos na história do desporto rei, aproveitou as lições aprendidas durante uma viagem ás ilhas britânicas. Em vez de seguir o modelo inglês do seu amigo intimo Herbert Chapman - inventor do WM e à época técnico do invencível Arsenal - preferiu apostar por uma variante do modelo escocês de Jimmy Hogan, muito mais assente no toque de bola no pé e no passe rápido em lugar dos lançamentos longos e em profundidade. Sem inovar no esquema táctico, que continuava a ser o inevitável 2-3-5  (Meisl nunca acreditou no WM) o técnico chegou à sua Áustria natal e colocou em prática toda a teoria que tinha aprendido. Tomou o comando da selecção austriaca e rodeou-se de jovens talentosos que actuavam principalmente nos clubes da capital. Pekarek, Smitsik, Vogl, Schall, Zizchek, Nausch e acima de tudo o "Homem de Papel" (devido à sua compleição física e rapidez) Mathias Sindelar, foram as bases em que o técnico montou o seu sistema de jogo, como um carrousell, onde a troca de bola a meio campo e o desdobramento do eixo ofensivo provocava uma série de desequilíbrios na defesa contrária. No sistema de Meisl a táctica não era fixa. O médio centro apoiava o eixo ofensivo que atacava com seis elementos e era nele que começava e terminava todo o jogo ofensivo. Nascia a figura do 10, numa época onde ainda eram os extremos que habitualmente levavam a bola nos pés em campo. Apesar da táctica pouco inovadora, discutida até à exaustão nas longas tertúlias dos cafés vienenses pelos intelectuais mais importantes da sociedade austríaca, o estilo de jogo de Meisl preconizou uma autêntica revolução de pressing e circulação de bola, tornando-se no avô do que seria o Futebol Total.

 

Foi dessa forma que durante 18 meses a Áustria foi uma selecção invencivel.

Por essa época eram vistos no Velho Continente como a única equipa capaz de bater a armada sul-americana, que tinha dominado os Jogos Olímpicos de 1928 e logo o Mundial de 1930, então as duas únicas aventuras internacionais do beautiful game. Na prova seguinte, marcada em 1934 para França, os austríacos lideravam as apostas dos favoritos e os primeiros jogos deram razão aos seus adeptos. Depois de vencer por 6-0 a vizinha Alemanha - num jogo que traria futuras consequências politicas - 6-2 a Suiça e 8-0 a vizinha Hungria, a equipa de Meisl chegava ás meias-finais com clara vantagem. Só que o jogo disputado sobre um imenso temporal que impediu a rápida circulação de bola dos austríacos ficou marcado por um garrafal erro arbitral, quando um avançado italiano empurrou o guardião austriaco e o árbitro fez vista grossa. Uma derrota que teve mão de Mussolini (a Itália venceria a prova e reeditaria o triunfo quatro anos depois, também após fortes pressões do Duce) e que destrui a fama de invencibilidade austríaca.

Mas da derrota nasceu a lenda, tal como sucederia mais tarde com os seus sucessor húngaros. E a fama do Wunderteam ficou para a posteridade. De tal forma que Adolf Hitler, um homem nada entusiasmado com a visceralidade do mundo do futebol mas que tinha assistido à humilhante derrota alemã, não hesitou após o Anchluss em exigir a inclusão dos jogadores austriacos na equipa alemã para vencer o Mundial de 1938. Por essa altura já o maestro Meisl, o primeiro a defender a máxima "A melhor defesa é o ataque", já tinha falecido e Sindelaar, a sua maior estrela, cometido suicídio poucos dias antes de ser preso pela Gestapo.

 

O irromper da II Guerra Mundial destruiu a geração do Wunderteam. A maioria dos jogadores acabou por falecer ou ficar ferida durante o conflito e quando a guerra terminou, em 1945, o futebol austríaco estava de rastos. O país nunca mais voltou a ter uma selecção de alto nível mas lançou as bases do futebol do centro da Europa, distinto a qualquer outro estilo de jogo do Velho Continente. Uma revolução que se transferiu na década seguinte para os vizinhos húngaros, e que nos anos 60 seria transformada paralelamente por um holandês e outro austríaco, Ernst Happell, na base do Futebol Total holandês.



Miguel Lourenço Pereira às 23:28 | link do post | comentar

Segunda-feira, 25.03.13

A via crucis é inevitável. Há uma certa melancolia em cada fase de apuramento para uma competição internacional da selecção de futebol portuguesa. Um olhar preso nos tropeções do passado, um sufoco moral que obriga a um país tão mau em contas tenha de se valer da matemática até ao suspiro derradeiro. Tudo porque, o caminho do sucesso elimina os rastos do caminho certo, e Portugal continua a querer subsistir entre a elite do futebol à base de resultados e não de ideias. Até que os resultados faltem. Depois, o abismo...

Digam que Portugal é uma equipa que joga mal, e a primeira resposta será sempre a do adepto que cita de memória os pódios conseguidos nos torneios internacionais dos últimos anos. Digam que Portugal não tem uma boa equipa técnica, e lembrar-se-ão de dizer maravilhas de Scolari, Paulo Bento e (quiçá) Queiroz, lembrando vitórias pretéritas e esse espírito de sargentinho (não sargentão) de que o português tanto gosta. Digam que Portugal tem um plantel curto, um plantel sem demasiada qualidade, e lembrar-se-ão imediatamente de Cristiano Ronaldo, João Moutinho, Nani e Pepe para justificar tudo o resto. Digam algo negativo sobre Portugal e a sua prestação habitual nas fases de qualificação e a única resposta que vão ouvir é a habitual, a mesma que um individuo como José Mourinho não teve receio de proclamara aos céus algo do estilo "que se lixe a qualificação, o que importa é estar e depois já se vê". E como, para muitos, Portugal se tem visto bem, aqui afinal não há um só problema que tratar.

Claro que isso é o que jogadores, técnicos e dirigentes querem que as pessoas pensem.

Evidentemente que é falso. Demasiado falso para o mais crédulo acreditar e no entanto, não se imaginam quantos crédulos existem. Portugal, é verdade, tem um registo em provas internacionais bastante bom para um país de 10 milhões de habitantes. Mas está mais do que provado que a correlação económica e social, só por si, não garante títulos. Na última década Portugal perdeu um Europeu em casa contra a Grécia. Caiu nas meias-finais de um Mundial contra a França, tendo deixado pelo caminho a Holanda e Inglaterra. Caiu num Europeu com a Alemanha e num Mundial e Europeu com a campeã, Espanha. Não parece, à partida, um mau registo. A diferença está em ver como se chegou até lá e, sobretudo, como se caiu. Em ambos os casos a resposta é fácil: sem ideias, sem futebol e sem um colectivo. O que faz toda a diferença.

 

A Portugal falta-lhe hoje o mesmo que faltava há cinco anos. Não mudou nada nesse aspecto.

É uma selecção com uma base de escolhas extremamente reduzidas que se agrava ainda mais pela mentalidade redutora e classicista do dirigente/técnico/adepto português que associa os jogadores de maior renome, os mais caros ou mais bem pagos, com os mais idóneos para jogar pelo país. Não é assim. No jogo de Israel, o obtuso Paulo Bento usou todos os nomes que tinha à sua disposição. Esqueceu-se de que o trabalho dele é utilizar jogadores. Em campo estavam atletas fisicamente em má forma física e anímica. Jogadores que jogam a outra coisa, a outro ritmo. Jogadores que não têm condições para serem titulares absolutos com a selecção e que no entanto, jogo atrás de jogo, aí estão.

Jogadores como João Pereira, Bruno Alves, Miguel Veloso, Raul Meireles, Varela e Hélder Postiga, para por caras e nomes.

Nomes, membros da "família Bento" com carta branca para fazerem o que quiserem em campo, que nada questiona a sua titularidade ao jogo seguinte. Quando Vierinha, um jogador sem pedigree público, entrou em campo as sensações da equipa mudaram logo. E mudaram porque utilizar um jogador fora do esquema fechado de Bento obrigou forçosamente Portugal a lidar com o seu mais grave problema, a falta de ideias e conceitos tácticos.

Paulo Bento é um péssimo treinador no aspecto táctico. É fechado, redutor e insiste regularmente no mesmo modelo, mostrando uma incapacidade atroz em ler os jogos e a readaptar-se. Rodeia-se dos jogadores que ele entende que melhor aplicam a sua filosofia e espera que depois seja a individualidade a fazer a diferença. É um técnico primário e sempre será. Essa é outra das razões porque é seleccionador.

Portugal não reagiu tacticamente ao empate israelita e muito menos ao segundo golo, desperdiçando uma vantagem conseguida, segundo o treinador "demasiado cedo", como se estivesse assumir que mentalmente é incapaz de manter uma equipa motivada num campo onde era imperioso ganhar. É uma conversa que já se ouviu com Bento no passado, nada de novo. Só a entrada de Vierinha e Hugo Almeida - tarde demais - obrigou Portugal a mudar o desenho, a deixar o 4-3-3 para apostar num 4-4-2, com Postiga por detrás de Almeida e Ronaldo como número 10 - ao ponto a que chegou o futebol português - e dois médios interiores abrindo as alas para a subida dos laterais, algo que não se viu durante todo o período de tempo em que funcionou o 4-3-3 clássico. Sem essas ideias, Portugal é uma equipa plana, demasiado pendente do jogo transicional que favorece tanto Cristiano Ronaldo mas que prejudica todos os outros. Um jogo que só funcionou no Europeu contra uma Holanda partida em duas. Contra a Dinamarca e República Checa teve muitos problemas em impor-se e frente à Espanha foi o que se viu.

Sem jogadores e sem treinador, o raro é que uma selecção consiga algo. E o pior é quando esse treinador é incapaz de incutir aos jogadores adrenalina. Portugal joga as fases de qualificação a um ritmo sonolento, obrigado, como quem tem de despertar-se todos os dias de madrugada para encarar oito horas de árdua jornada laboral. Não há tensão competitiva, querer, dinamismo físico e pressão menta que salve esta equipa. Nem Ronaldo, tão voraz no Real Madrid, consegue valer a sua braçadeira. A equipa joga a passo, linhas distantes, e quando qualquer rival coloca um pouco mais de velocidade no seu jogo - viu-se com a Rússia, a Irlanda do Norte e com Israel - o barco vai ao fundo. Se já é mau que os jogadores escolhidos não sejam os idóneos e que o treinador seja um problema, não a solução, que essa dupla ainda cumpra o seu trabalho quase como queixando-se é demais. Tarde ou cedo a realidade acabará por bater à porta.

 

Portugal já sabe que o primeiro lugar do grupo é uma impossibilidade, se não matemática pelo menos moral. E que o segundo será um mano a mano intenso até ao fim, sobretudo com o jogo do Estádio da Luz contra a equipa israelita a fazer a diferença. Depois vem o play-off, mais um consecutivo, o terceiro. A mim importa-me pouco que Portugal chegue a uma competição internacional via play-off ou como primeiro do grupo, se tiver demonstrado em campo ser uma equipa, bem treinada, com jogadores comprometidos, com uma convocatória que respeite a qualidade e não o estatuto. O problema é que isso nunca acontece e o cenário vai-se repetindo e os problemas ficam sem resolver-se e assim continuarão até que a selecção falhe uma ou duas provas internacionais consecutivas e entre, como outros país, numa espiral autodestrutiva. Aí tudo o que for escrito aqui será relembrado, mas sem um futebol de formação de qualidade e com figuras individuais como Cristiano Ronaldo cada vez mais escassas na nossa fábrica de futebolistas, talvez seja tarde demais.



Miguel Lourenço Pereira às 13:22 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 20.03.13

José Mourinho quebrou o seu silêncio selectivo para dar uma entrevista à RTP que é como quem dá a possibilidade aos amigos de lucrarem com palavras que semana atrás semana se recusa a prenunciar onde deve, na sala de conferências de imprensa do clube que lhe paga 12 milhões de euros ao ano. E fê-lo para, entre outras coisas, denunciar a corrupção que está por detrás do Ballon D´Or. O mesmo prémio que em 2010, quando venceu a primeira edição, não pareceu ter nenhum problema. O mesmo prémio que, ano após ano, treinadores, jogadores, jornalistas e público em geral se sentem determinados a dar uma importância que, no fundo, não tem.

Vicente del Bosque venceu o Ballon D´Or ao Melhor Treinador de 2012.

Ganhou-o com mais de 10% dos votos do segundo, José Mourinho, o vencedor inaugural do prémio e 29% mais do que Josep Guardiola, a quem sucedeu no palmarés. Venceu-o com o voto maioritário de seleccionadores e jornalistas, mas não dos capitães que preferiram a figura de Mourinho. A gala foi a 7 de Janeiro de 2013. Mais de dois meses depois aparece Mourinho, qual vencido despeitado, anunciando que foi o seu conhecimento da existência de fraude nas votações que o levou a não marcar presença na gala (ao contrário de Cristiano Ronaldo, também português, também do Real Madrid, também segundo nas votações). Está no seu direito.

Os factos parecem dar-lhe razão. Paulo Duarte, seu velho amigo e antigo jogador nos seus tempos de técnico da União de Leiria, confessou que não teve oportunidade de votar porque o formulário lhe chegou para lá da data limite de voto. Uma situação comum a países como a Guiné-Bissau ou Costa de Marfim, nações que, a julgar pelo lido, votariam em Mourinho para vencer o prémio. O técnico português fala ainda de personalidades que lhe terão ligado falando na existência de boletins de voto alterados. Uma vez mais, os seleccionadores da Zâmbia e Zimbabwe queixaram-se na imprensa local que os nomes que aparecem na lista oficial da FIFA não se correspondem com as suas votações, um deles referindo até que nunca chegou a ver o formulário de foto e que alguém terá votado por ele.

Curiosamente, os amigos de Mourinho permanecem em silêncio e seguramente continuarão calados porque comprar uma guerra contra a FIFA é, habitualmente, meio caminho para ter uma carreira curta e sem grandes oportunidades. A velha raposa chamada Blatter raramente esquece estes insultos à sua honra, se é que lhe sobra alguma para mostrar ao público depois de todos os escândalos dos últimos quinze anos de presidência. Parece ser perfeitamente possível dizer que houve irregularidades e fraude nas votações do Ballon D´Or. E quê?

 

O que mais supreende - ou talvez não - nas declarações de José Mourinho é a sua percepção que os erros acontecem exclusivamente no ano em que perde.

Em 2010, quando venceu o prémio - também contra Del Bosque, então recém-consagrado campeão do Mundo pela selecção espanhola - o técnico português subiu exaltante ao palco, celebrou, dedicou o prémio e nunca se lembrou de rever a lista de votações para confirmar se faltava algum país, não fossem eles ter votado noutro técnico. Como tantas vezes sucede nas acusações aos comités de arbitragem, as palavras surgiram apenas depois de uma derrota. Não lhe retira a razão mas sim a moral de falar quando, nos momentos de glória, tudo fica guardado num baú e escondido debaixo da cama para não chamar à atenção.

Parece-me claro que um prémio com estas caracteristicas tem tudo para ser alvo de fraude. Nada resta já do velho Ballon D´Or, um prémio de glamour mais do que reconhecimento real de talento. Ao abrir as votações, muito democraticamente, a todos os capitães, seleccionadores e correspondentes da France Football do mundo, a FIFA abre também a caixa de pandora. Em países onde a corrupção está oficialmente instalada, seguramente que os votos podiam ser comprados facilmente. Em estados que seguem apenas os máximos eventos desportivos, naturalmente que a votação está condicionada aos nomes mais emblemáticos. Na Etiópia, onde a Premier é seguida com devoção, Roberto Mancini coleccionou vários pontos que não se repetiram em nenhum outro país. Nos países hispânicos e lusófonos o índice de sucesso de Messi e Ronaldo foi proporcional à influência cultural de cada um e o seleccionador espanhol, perdão, chinês, não teve problemas em votar em dois técnicos e três jogadores do seu país referindo-se ao jornal Marca como algo normal porque há sempre que votar nos seus.

O que nos leva a perguntar sobre o valor real que possa ter um prémio que se transformou num concurso de popularidade nos últimos três anos, um concurso fechado nos nomes mais simbólicos do futebol internacional, distante da ideologia inicial de um prémio que não teve problemas em celebrar os êxitos de Sivori, Masopust, Albert, Blokhin, Simonsen, Belanov, Owen e Cannavaro quando havia jogadores muito mais completos em activo, os mesmos que hoje estão destinados a vencer como condição sine qua non. O Ballon D´Or deixou de ter o prestigio e o respeito de quem via algo original e distinto na atribuição do prémio da France Football, consciente que num desporto colectivo a entronização pessoal faz sempre pouco sentido.

 

As queixas de Mourinho deixam-no, uma vez mais, nú e só ante uma das máximas entidades do jogo. Depois de ter desafiado a UEFA com a sua lista de erros arbitrais, agora o técnico português lança um dardo envenenado à FIFA a propósito do seu prémio mediático comprado a peso de ouro à família L´Equipe-France Football. O treinador do Real Madrid pode perfeitamente queixar-se em ambos os casos, até porque os momentos concretos arbitrais que cita, bem com os erros nas votações, são reais. Mas esquecer-se das mesmas particularidades quando saiu vencedor, tanto em provas europeias (Old Trafford, 2004; San Siro, 2010; quem sabe se Old Trafford, 2013 também) como na atribuição do primeiro Ballon D´Or ao melhor técnico da história apenas deixam reflectida uma pálida e triste imagem de um treinador genial consumido cada vez mais pela sombra da sua própria persona.



Miguel Lourenço Pereira às 10:41 | link do post | comentar | ver comentários (22)

Quarta-feira, 13.03.13

A justiça poética no futebol funciona assim. A era dourada de Guardiola terminou sem uma terceira Champions quando Ramires, isolado, não perdoou no duelo com Valdés. Um ano depois, Niang, na mesma situação, apenas acertou no poste e consumou o péssimo partido do AC Milan. O baile de futebol aplicado pelo Barcelona é também um bálsamo para os que reclamavam um regresso rápido às origens. Mais do que nunca, os homens de blaugrana recuaram no tempo, até 2009, e aplicaram todo o ideário desenhado por Guardiola à sua chegada ao banco do Camp Nou. Por isso venceram, por isso humilharam e por isso têm todas as condições para ir até ao fim. Sendo fieis às suas origens.

 

Depois da semana negra dos catalães, escrevi precisamente aqui que o Barcelona tinha tudo para vencer a eliminatória com o AC Milan. "A grandeza do plantel do Barça, o melhor do Mundo sem dúvida, pode permitir tudo, incluída uma goleada ao Milan e uma caminhada heróica rumo ao terceiro titulo europeu conquistado em Wembley. Se procurarem mais Xavi e menos a Messi, se a bola volte a sair dos pés de Valdés jogável, se as linhas se abrirem e a posse seja a ferramenta e não o fim, uma equipa do calibre e qualidade do Barcelona pode com tudo. "

Dito e feito.

O jogo de ontem foi uma viagem no tempo patrocinada pela Qatar Airways. O voo saiu do aeroporto do Camp Nou e voou entre as nuvens até 2009, até a essa essência básica onde Xavi é o eixo pendular. Onde Messi não se obcecou com vir jogar atrás do meio-campo e move-se mais e mais depressa que a sua sombra. Onde há uma figura ofensiva mais presente, que obriga os centrais a não distraírem-se apenas com os passos do argentino. Onde o campo se abre e os laterais entram em jogo. Onde a defesa sobe linhas e Valdés coloca a bola jogável, e onde morder, pressionar e recuperar é feito a uma velocidade supersónica.

Tudo aquilo que o Barcelona foi em Fevereiro, todo esse espelho sombrio de cansaço, de falta de forças e motivação, tudo isso desapareceu neste reflexo perfeito do que era a equipa nos seus primórdios, onde cada bola recuperada era ganha com devoção, com ganas. O Barça recuperou mais bolas do que em toda a temporada, pressionou mais intensamente do que nunca. Três dos quatro golos saíram de lances em que a bola é ganha num lance ofensivo contrário. Ganha com timing preciso, impedindo o ataque do rival e transformando uma posse defensiva numa lança ao contrário. Foram três golos dos quais Guardiola, mais do que nenhum outro, estaria profundamente orgulho. Foram três golos para todos aqueles que se levantaram a aplaudir a maravilhosa equipa que Pep lançou ao mundo naquele 2008/09 memorável.

 

O Milan foi a mesma equipa de San Siro, mas numa versão ainda mais lenta, mais conservadora.

Faltou-lhe uma referência ofensiva sólida - como foram Drogba e Milito nas aventuras bem sucedidas de Chelsea e Inter ao Camp Nou - e Niang, claramente, mostrou ser ainda muito verde para estas noites europeias. O seu erro, crucial no desenrolar do jogo, foi a sorte do encontro. Se o Milan tinha marcado naquele lance, o futebol teria sido, sem dúvida, injusto com a equipa catalã, a única que quis entrar em campo para jogar sem complexos e sem pressão. O golo inaugural de Messi - um disparo indefensável - ajudou a tirar de cima os nervos e a lançar os adeptos e os jogadores na cruzada da "remontada" de que falava Xavi. Desde 2000, numa vitória por 5-1 contra o Chelsea, que o Camp Nou não vivia uma noite assim.

E tal como então, foi o jogo coral da equipa que deu lugar a um festival de golos. Messi bisou, partindo de fora de jogo (antes tinha havido já um penalty de Piqué, por mão na bola, e um ligeiro toque de Abate, sobre Pedro, na área), e Villa, um trabalhador incansável e um dos grandes injustiçados do balneário blaugrana, marcou de forma magistral o terceiro golo. Era o que faltava para completar a reviravolta. O Milan era incapaz de reagir. Não tinha nem jogadores nem banco para inverter a tendência do jogo. Ao contrário do duelo de San Siro, onde fez das suas fraquezas virtudes, onde soube anular o jogo do rival e fazer do contra-ataque uma arma capaz de fazer sangue, o Camp Nou foi demasiado para a jovem squadra milanesa. Incapazes de criar perigo, incapazes de aguentar a bola, incapazes de dar essa sensação de querer algo mais. Ao contrário de Inter e Chelsea, equipas de homens maduros e com experiência europeia, capazes de sofrer, o Milan foi inocente e frágil e mereceu ser atropelado por uma equipa do Barcelona que quase nunca tirou o pé do acelerador. O golo final, a lembrar o épico tento apontado à Itália em Junho, coroou mais um grande jogo de Jordi Alba e esse espírito que tanto tem faltado ao clube blaugrana nos últimos meses.

Ao contrário do que muitos podem pensar, o jogo em Itália não foi um acidente de percurso. O Barcelona que viajou a Itália (e que perdeu o duplo confronto com o Real Madrid) era realmente uma equipa com muitos problemas, físicos e anímicos, incapaz de apresentar algo fresco e inovador no relvado que perpetuasse a sua imensa lenda. O que provocou o triunfo de ontem, mais do que os erros e falta de ambição do AC Milan, foi a mudança de mentalidade da equipa técnica, assimilada pelos jogadores. Só com esse regresso ao passado o 4-0 e o apuramento foram possíveis. Uma réplica do jogo em Itália, de uma equipa pastelenta e previsível teria sido tudo aquilo que os italianos queriam. Não tiveram sorte, nem engenho para adaptar-se.

 

Tudo indica que Bayern Munchen, Borussia Dortmund, Barcelona e Real Madrid partilhem o favoritismo para chegar a Wembley. Cabe agora ao sorteio de amanhã ditar como será o caminho até à final. São as quatro melhores equipas em prova, as que contam com os melhores jogadores, treinadores e planos de jogo. Mas isso nem sempre significa que sejam as finalistas. O sofrimento dos espanhóis em Old Trafford, o toque de atenção ao Barcelona em San Siro e o duelo do Dortmund em Donetsk deixa claro que há pouca margem de manobra para o erro. A Europa do futebol prepara-se para a contagem decrescente. O jogo do ano está quase aí e um Barcelona fiel a si mesmo, capaz de solucionar os seus problemas e apresentar a sua melhor versão, tem de partir como máximo favorito ao ceptro europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 13:40 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 11.03.13

Em 1980 um desconhecido realizador espanhol estreava a sua primeira longa-metragem. Pepi, Luci e Bom y Otras Chicas del Montón, abria a larga e espantosa carreira cinematográfica de Pedro Almodovar. Este ano o realizador manchego volta ao activo com um regresso às comédias que o fizeram célebre mundialmente na década de 80. Nos relvados, três treinadores, "del montón", desafiam as convenções e demonstram que o futebol é também um palco de teatro onde a improvisação e a arte muitas vezes superam o hermetismo habitual entre os convencionais maestros do jogo.

Eram adolescentes. Sonhavam talvez com a glória com uma bola nos pés ou talvez com roubar um beijo à estrela feminina do momento, Bo Derek, a mulher 10. Mas nenhum deles imaginaria, seguramente, que 33 anos depois fossem protagonistas de uma crónica que os unisse no tempo e no espaço a um obscuro filme cómico estreado nesse ano.

Pepe Mel tinha 17 anos, Paco Jemez 10 e Philippe Montanier 16 e é provável que nenhum deles tenha sequer visto o filme. Não foi, propriamente, um sucesso de bilheteira numa Espanha ainda em profundo estado de "transição". Mas sem o saber, Almodovar já falava deles. Pepi, Luci e Bom são três raparigas comuns, correntes, normais, nem bonitas nem feias, nem altas nem baixas, nem magras nem gordas. Mas são imaginativas, intrépidas e criativas, capazes de desafiar o convencionalismo de uma era de profundas mudanças sociais. Não tinham a atenção dos homens como as elegantes e sensuais mulheres do seu tempo mas eram capazes de ir mais longe do que qualquer outra para inverter essa realidade quase crónica. E com isso demonstravam ser, sobretudo, personagens de recursos infinitos para lograr os seus objectivos. O mesmo se passa nos bancos da liga espanhola.

Numa liga orfã do génio de Guardiola, cansada das poses ditatoriais de Mourinho, dificilmente apaixonada pelo hermetismo de Simeone ou pelos vai e vens de Tito Vilanova e Jordi Roura, há um vazio de génios e figuras que permite ao espectador, quase sempre focado nesse duelo mediático Mou-Pep, olhar para o lado e ver que, afinal, também há imensa qualidade, imenso talento e imensa criatividade nos treinadores "comuns".

Mel, Jemez e Montanier lideram o sprint pela Europa, misturados com os milhões de Málaga e Valencia, do projecto sólido do Atlético de Madrid e batendo o pé aos multimilionários do futebol europeu. Lutam os três por um lugar na Champions League, uma competição que, à partida, podia estar para eles como um concurso de misses para Pepi, Luci e Bom. Mas que lhes fica como uma luva.

 

Pepe Mel é o mais veterano nestas lides.

Foi o responsável pelo renascimento do Rayo Vallecano, desde as entranhas do futebol secundário espanhol. Falhou a promoção com a equipa depois de um ano memorável na segunda divisão mas deixou tudo preparado para o seu sucessor - o espantoso Sandoval - completar o trabalho. Partiu para a sua Sevilla, para pegar num Bétis igualmente em horas baixas. Desenhou a régua e esquadro uma equipa que faz do futebol ofensivo, de toque, o seu santo e senha. Escritor, novelista consagrado, Mel sabe trabalhar com a bola como com as palavras, sem medos. Encontrou em Beñat a batuta, em Castro o golo, em Adrian a segurança defensiva e à volta criou um espírito colectivo impressionante para um clube dado sempre a tendências autodestrutivas. Neste Bétis não há estrelas, não há vedetas nem há margem de erro para arriscar sem a certeza do sucesso. A urgência de um clube falido pela gestão criminal de Ruiz de Lopera, deu passo a um clube renascido e determinado a criar uma marca de identidade no futebol espanhol. O prémio de um lugar europeu é apenas o reflexo simbólico e mediático de algo muito mais profundo e meritório.

Algo similar experienciou Philippe Montanier, um francês olhado como suspeita, como todos os franceses, desde o dia que chegou a San Sebastian com a promessa de um futebol rendilhado e ganhador. Demorou mais tempo do que muitos podiam esperar e teve a sorte de contar com uma directiva capaz de ver a longo prazo. A Real Sociedad perdeu o duelo mediático com o Athletic Bilbao há muito tempo e abandonou a política exclusivista de jogadores bascos mas não a sua identidade. Apostou muito na formação e começou agora a colher os primeiros rebentos de uma nova e brilhante geração, a de Aguirretxe, Illarramendi, Iñigo Martinez ou Ruben Pardo a que se juntaram os talentos de Vela e Griezzman. O líder da armada, único sobrevivente da brilhante equipa que há uma década desafiou o Real Madrid pelo título de liga (a de Xabi Alonso, Nihat e Kovacevic), é também o reflexo de como o futebol espanhol decidiu finalmente olhar para dentro e apaixonar-se pelas suas virtudes em vez de deixar-se cair nos seus defeitos. Xabi Prieto é um dos nomes do ano no futebol espanhol, recuperado tardiamente como o foi Valeron na Corunha ou agora Joaquin em Málaga, jogadores que explodiram antes do tempo em que a imprensa começou a valorizar o "tiki-taka" dos Xavi e Iniesta. Montanier teve todos contra si, teve o carácter de aguentar os piores momentos ao leme do clube, o sofrimento, para emergir com uma equipa construída com pés e cabeça, com vocação ofensiva, com capacidade de misturar a velocidade individual de Griezmman e Vela com o critério de Prieto e Pardo, uma equipa completa da cabeça aos pés.

Sem um nome histórico, como são os já campeões Bétis e Real Sociedad, sem um passado como treinador significante, talvez o trabalho de Paco Jemez tenha ainda mais mérito porque não há clube mais "del montón", do que o Rayo Vallecano. Desastrosamente gerido pela família Ruiz-Mateos, penosamente presidido por um sucessor que entende pouco de futebol e menos de finanças, que o Rayo ainda esteja de pé não deixa de ser um desses milagres do futebol. Que dispute um lugar na Champions League é algo quase sobrenatural. Jemez sucedeu a dois homens que deixaram parte do trabalho feito, Mel e Sandoval, mas imprimiu o seu toque definitivo ao clube, apostando num 3-4-3 ousado, convencido de que para um clube pequeno que sabe que acabará por sofrer golos, a arma secreta tem de ser sempre procurar marcar mais do que o rival. Sem Diego Costa e Michu, os dois goleadores do ano transacto, o técnico encontrou em Piti e Leo Baptistão os seus novos aríetes, confiou no regresso do mítico Tamudo e na qualidade de Lass para fazer a diferença e preparou-se para sofrer. A onze jogos do fim, o Rayo está praticamente salvado. No ano passado precisou de um golo milagroso nos descontos do último jogo do ano. Sonhar com a Europa não é impossível, nem sequer se falamos da Champions League. Seria a prova do que o futebol é algo mais do que uma simples utopia.

 

Não são estrelas, a maior parte da Europa do futebol nem os conhece. Os rostos são figura estranha, os gestos desconhecidos mas o trabalho desenvolvido é algo que não pode passar desapercebido. Não são os únicos. Em Espanha há ainda Juan Ignacio Martinez. Em Portugal o jovem Paulo Fonseca começa a fazer-se notar. Em Inglaterra já ninguém olha de lado quando ouve Roberto Martinez e em Itália Vicenzo Montella já é um futurível dos grandes clubes. São treinadores comuns, em equipas mais ou menos comuns, que fazem da necessidade, engenho, e das fraquezas forças. São eles o pão e sal do futebol. Enquanto as câmaras se divertem a descobrir quantos rabiscos tem o livro de notas de Mourinho ou Guardiola, eles seguram nos ombros a estrutura base do beautiful game.



Miguel Lourenço Pereira às 14:00 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 06.03.13

Branca. Limpa. Mourinho, no seu célebre discurso arbitral depois da polémica arbitragem de Wolfgang Stark no Real Madrid vs Barcelona de 2011, referiu-se assim à suposta vergonha que Josep Guardiola devia sentir sobre os seus títulos europeus. O técnico português não tinha, atrás de si, precisamente uma carreira imaculada mas a noite de Old Trafford passará para a posteridade como o jogo em que a UEFA calou definitivamente qualquer queixa futura do português. A melhor equipa ficou pelo caminho, a única equipa que quis seguir em frente ficou pelo caminho. E só um árbitro impediu um treble histórico do Manchester United.

 

Nani procura um alivio de Patrice Evra. A sua missão é e foi essa durante todo o jogo.

Receber, parar e ver a movimentação ofensiva de van Persie e Wellbeck, o apoio de Giggs e Cleverley. E passar, romper as linhas inexistentes no meio-camp do rival, criar superioridade. E marcar. O portugês realizou um movimento técnico perfeito para recuperar a bola, era para ela que olhava fixamente. E não viu Alvaro Arbeloa, o sargento preferencial de Mourinho, aparecer nas suas costas, procurando o corte desesperado para matar o contra-golpe desde a raiz. A chuteira chocou com Arbeloa, empurrou-ao ao chão, deixou-lhe uma marca nas costelas. E acabou com o sonho de Old Trafford, o teatro onde ontem se viveu um drama em tons de comédia patrocinado pela UEFA.

A expulsão de Nani - num lance totalmente fortuito que oscila entre a advertência e o amarelo - abriu caminho a um jogo novo. Que durou cinco minutos. Nada mais. Até esse instante, só havia uma equipa no terreno de jogo. No final desses cinco minutos voltou a existir apenas uma equipa em campo. Mas como o Real Madrid é uma equipa letal, quando encontra os espaços, os momentos de desajuste dos ingleses possibilitaram a Modric impor a sua lei, associar-se com Ozil, Higuain e Kaká, desferir um golpe mortal e criar o lance que acabou cirurgicamente nos pés de um Cristiano Ronaldo engolido pela emoção de dar o golpe de misericórdia aos adeptos que mais o admiram em todo o mundo.

Ronaldo fez um jogo fraquissimo, espelho da sua incapacidade emocional se encarar Old Trafford como um estádio rival. Tentou mas não soube ter clarividência mental, rematou demasiadas vezes, passou mal, movimentou-se pior. Mas marcou o golo do apuramento, que provavelmente é o único que as pessoas se irão lembrar em Maio. Não celebrou, pediu desculpa, provando ser um gentleman. Mas ontem não foi ele o elemento diferencial. Foi apenas o carrasco de uma sentença ditada previamente...Ovrebo, De Bleckcerke, Stark...Çakir?

 

O Real Madrid nunca mereceu seguir em frente. Atado totalmente pelo Manchester, foi uma equipa pequena e inofensiva.

Como era previsivel, sem os espaços para explorar, o ataque merengue tornou-se estéril e incapaz de associar-se para procurar espaços. Sem espaço parar correr, a imaginação não triunfou e o Manchester United tomou cedo controlo do jogo. Impôs o seu ritmo, colocou as peças de xadrez no sitio, abdicando da individualidade de Rooney pela velocidade e luta de Wellbeck e Nani, no apoio de um van Persie sempre em movimento. Giggs colocou-se à direita, engoliu Coentrão e assustou com o olhar o seu velho amigo Ronaldo, que desapareceu totalmente do jogo no primeiro-tempo. As oportunidades eram do Manchester, a bola do Madrid, o guião oposto que queria Mourinho que, de mãos sobre o tijolo de Old Trafford, olhava para a forma como Ferguson o ultrapassava outra vez tacticamente.

Mas o golo não apareceu, entre a exibição soberba de Diego Lopez e o génio crescente de Varane, e o segundo tempo parecia ser uma benção para os espanhóis, que já tinham deixado as malas feitas no balneário para voltar de cabeça baixa a casa. O goloo do Manchester, fruto do único erro de Varane e do enésimo disparate de Sérgio Ramos nesta época, deu uma margem de manobra superior aos ingleses que lidaram melhor ainda com a reação do Real. Mourinho já tinha sido forçado a abdicar de Di Maria, mas em vez de procurar ganhar o jogo com Modric, preferiu a vertigem com um Kaká sem forma. Á segunda não repetiu o mesmo erro, abdicou do amarelado Arbeloa e lançou Modric. Mas Nani já tinha recebido a bola, acertado em Arbeloa acabando expulso. E a balança tinha sido propositadamente desequilibrada.

Modric mudou o rosto do Real Madrid durante cinco minutos, tempo suficiente para marcar um golo memorável e organizar o jogo colectivo com a calma necessária para encontrar a circulação que abriu as portas à reviravolta. Depois, animicamente débeis, os espanhóis perderam outra vez o critério e a coragem e esconderam-se na sua área, procurando o seu jogo preferencial. E o Man Utd, mesmo com menos um, já com Rooney, Valencia e Young em campo, voltaram a dominar, a ganhar sempre a superioridade, a bascular o seu jogo à sua vontade. Apertando, tiveram oportunidades, mas falharam. E quando Sérgio Ramos cometeu penalty e Çakir não apitou, ficou claro que o drama tinha-se tornado em comédia, ou melhor, em pesadelo. O Real tinha encontrado a fórmula entre os que criticavam para eliminar uma equipa futebolisticamente muito superior.

 

No final, Ferguson perdeu a oportunidade única de igualar Paisley e um avergonhado Mourinho, tentou pedir desculpa aos adeptos dos quais quer ser treinador. Nenhum jogador espanhol festejou com o orgulho de uma noite histórica, nenhum jogador do Manchester chegou a casa tranquilo e o futebol europeu perdeu um grande espectáculo e ganhou mais uma polémica patrocinada por Platini, Villar e companhia.



Miguel Lourenço Pereira às 12:51 | link do post | comentar | ver comentários (20)

Quarta-feira, 27.02.13

Josep Guardiola é o treinador de futebol mais importante da última década do futebol. Mourinho é um vencedor nato e é capaz de replicar o seu modelo em microcosmos imensamente diferentes. Ferguson uma velha raposa, Klopp um treinador ambicioso e empolgante e Wenger um homem coerente e admirável. Mas Guardiola teve o condão de mudar a abordagem ao jogo e levá-lo a uma nova dimensão. A sua ausência no banco do Camp Nou foi maquilhada durante meses com resultados. Mas a qualidade de jogo e o vazio emocional dos últimos meses em Can Barça é evidente. O Barcelona pode ganhar por ter Lionel Messi, mas só pode encantar se estiver liderado por um génio como Guardiola.

 

É mais importante o artista ou o mentor?

Guardiola, no seu estilo habitual, para um pura honestidade para outros uma personagem de contos de fadas, sempre disse que para o Barcelona Messi era muito mais importante do que ele. E o argentino, que explodiu verdadeiramente durante o seu mandato, realmente continua a demonstrar ser capaz de marcar contra tudo e contra todos. Cada vez corre menos com a bola, cada vez empolga menos nos lances individuais, cada vez se abandona do espírito maradoniano com que se apresentou ao mundo para ser mais um do modelo Barça, capaz de ir buscar jogo à linha medular, de se perder entre os médios como um mais. E sobretudo de marcar, sobretudo, com um leve encostar de bola diante de um guarda-redes indefeso e abandonado. Falta-lhe a velocidade, a chispa e a inspiração das grandes noites. Talvez lhe falte Guardiola, como a todos os seus colegas.

Quando Pep chegou ao banco do Barcelona a equipa vinha da pior época em quase uma década, um 4º lugar doloroso, a mais de duas dezenas de pontos do rival, forçado a uma prévia de Champions para participar na prova que acabaria por ganhar. Rijkaard, um grande técnico, tinha preferido ser amigo dos jogadores a dirigi-los e pagou o preço da displicência. Ronaldinho, o génio superlativo do Barça do século XXI, entregou-se aos prazeres da noite e com ele Deco, Silvinho, Etoo e Messi pareciam destinados a seguir o mesmo rumo. Guardiola exigiu uma purificação do balneário. Livrou-se de todos (Etoo aguentou um ano mais) menos de um, a quem chamou de parte e lhe colocou a faca e o queijo na mão: ou seguir o exemplo do seu idolo e amigo Dinho ou transformar-se no melhor jogador do mundo. Messi escolheu a segunda opção e um ano depois tinha merecidamente o Mundo a seus pés. Guardiola nunca se confiou plenamente e mandou vir Milito para seguir o pequeno astro para todos os lados, era o seu guarda-costas emocional. Mandou seguir alguns jogadores, especialmente Piqué, consciente de que velhos vícios podiam voltar com novos e jovens flamantes protótipos de estrelas. Mudou o discurso institucional do clube, recuperou os sinais de identidade do cruyffismo, com o próprio Johan à cabeça. E, mais importante do que tudo isso, redefiniu a forma de jogar da equipa. E levou-a a um patamar de excelência superlativa.

 

Guardiola foi treinador, presidente, líder espiritual, comunicador e génio táctico num só.

É uma figura irrepetível na história do futebol e o seu vazio seria sempre imenso. Guardiola era, sobretudo, um filósofo do jogo, mas um filósofo pragmático. Acreditava na teoria da prova por erro. Tentou com Ibrahimovic recriar a ideia do avançado centro mas acabou por preferir Messi no seu lugar. Trouxe consigo Villa para dar mais velocidade e mobilidade ao ataque onde ao lado do argentino jogava um jovem com ordem para ser dispensado no Barcelona B, um tal de Pedro. Atrás de Xavi e Iniesta, actores secundários para Rijkaard, colocou o suplente do médio titular dessa equipa B - então na terceira divisão - filho do seu colega de equipa do Dream Team, Busquets. Confiou a defesa a Valdés e Puyol, com quem jogou, mas também aos erráticos mas geniais Alves e Piqué e sofreu na pele o drama humano do imenso Abidal durante mais de dois anos. Enganou-se em algumas contratações (Chygrinski, Henrique, Ibrahimovic, Afellay, Alexis), falhou tacticamente em alguns momentos, apostou como nenhum outro treinador desde van Gaal na formação do clube e decidiu que ganhando ou perdendo, a equipa o faria com uma ideia de futebol na cabeça.

A bola saía de Valdés (e quão poucos falam na sua anunciada saída) sempre jogável, nos pés dos defesas ou de Busquets. Nada de lançamentos largos, nem de livres transformados em remates longos e sem sentido. Os extremos colados nas bandas, os interiores realizando perpétuas diagonais, os laterais abrindo permitindo ao extremo tornar-se num avançado mais. Recuperou o sonho do falso 9 que desde Sindelaar e Hidgekuti faz parte da bíblia dos pensadores do futebol ofensivo da escola danubiana e defendeu a importância do rondo, da posse, da autoridade com a bola, mas uma autoridade ofensiva. A posse tinha de ter um sentido, tinha de ter a baliza como mira. Cada jogada devia ser acabada, com um passe para a baliza. Cada jogada devia contar porque cada perda deixava expostas as fragilidades de uma defesa que chegou a formar-se apenas com três jogadores. O seu primeiro ano foi perfeito.

A partir de aí a fórmula sofreu actualizações, nem todas elas funcionaram. Provou o 3-4-3, chegou ao 4-6-0 na final do Mundialito contra o Santos e voltou a ganhar títulos, mas nunca com essa frescura, imaginação e autoridade que exibiu no primeiro ano, ainda com Henry e Etoo a acompanhar Messi na história. Quando se foi embora, muitos disseram que eram os jogadores que faziam a diferença, como se não fossem os mesmos do final do rijkaardismo. Que Guardiola tinha-se transformado mais num problema do que numa solução. Que o seu radicalismo táctico era prejudicial para os interesses da equipa, sobretudo os de Messi, que gostava cada vez mais de sentir-se o eixo central dos movimentos dos restantes. E por isso, quando saiu, houve poucas lágrimas para quem tinha dado tanto ao clube. A presença do seu segundo Tito Vilanova dava a sensação ao mundo que o guardiolismo ficava, mas o clube entregou-se ao balneário. Perdeu o seu guru e confiou-se às estrelas.

 

E de repente o pontapé de baliza começou a ser feito em largo.

Os extremos desapareceram e o jogo fluia cada vez mais pelo corredor central, como se não tivesse alternativa. Os laterais tornaram-se ambiciosos mas já ninguém aparecia para lhes proteger as costas. Os médios atropelavam-se e as posses deixaram de ter sentido, de acabar em remate, para ser um perpetuo movimento circular em zonas centrais, inconsequentes e estéreis. A debacle do Real Madrid nas primeiras jornadas de Liga - depois de vencer a Supertaça com superioridade - permitiu uma campanha imaculada, com números melhores que os de Guardiola. Messi marcava mais do que nunca e escondia os defeitos do colectivo, os problemas físicos, a péssima forma de Alexis, o ostracismo que Messi forçou a Villa (que tanta falta fez a Guardiola quando se lesionou no Japão), a fraca aposta na formação e às suas melhores promessas. A equipa vencia - salvo o seu rival directo - a todos os outros e parecia destinada a mais uma página de glória, mais um sexteto de titulos. Mas a filosofia começava a perder-se, o modelo de Guardiola, nas conferências de imprensa, no balneário, no relvado, ia desaparecendo progressivamente e começava a emergir a ditadura do balneário, jogando sempre os mesmos, o núcleo duro, fechando as portas a novas soluções porque o overbooking de médios estelares a isso obrigava. O problema que Guardiola via na chegada de Cesc tornou-se real, a equipa forjou um quase 4-2-2-2, com Busquets e Xavi diante da defesa, longe da área, Iniesta e Cesc sempre a meter direcção para o centro e Pedro/Alexis e Messi a deambular pela área mas sem procurar os espaços.

A doença de Tito, que esperemos que seja de rápida resolução, deixou essa realidade ainda mais a nu porque Roura, o homem que preparava os dvds a Guardiola, não é um treinador principal nem um homem capaz de liderar um balneário de vedetas. À distância, a liderança já questionada de Vilanova desapareceu e em campo a equipa entrou em mutismo táctico, incapaz de apresentar alternativas válidas aos problemas que as equipas lhes colocavam. Se Messi aparecia, tudo parecia igual, sem o estar. Mas quando o próprio Messi, obcecado consigo mesmo, decidiu que teria de jogar todos os 90 minutos do ano, para bater recordes, desapareceu, a equipa sentiu-se órfã.

O físico começou a passar factura - como na época anterior fez em Abril - e o argentino, que já tinha perdido o poder de desequilíbrio em velocidade quando as equipas começaram a perceber a melhor forma de o travar com constantes ajudas, secou e com ele toda a voragem ofensiva da equipa. Os números espantosos desapareceram e o Barcelona foi batido futebolisticamente por Milan e Real Madrid. Sofreu para ganhar a equipas menores como um Sevilla com reservas, e começaram a ouvir-se os primeiros assobios no Camp Nou. As dúvidas reapareceram. Messi, um génio incomensurável, começa a sofrer do mesmo mal que era criticado a Cristiano Ronaldo - a realizar o seu melhor ano individual - o de desaparecer nos jogos decisivos. No duelo contra o Madrid em Camp Nou no ano passado foi um fantasma de si mesmo e voltou a sê-lo contra o Chelsea, na dupla eliminatória. Desaparecido durante a Supertaça perdida contra o Real Madrid voltou a sê-lo na dupla eliminatória de Taça. E em Milão continuam à sua procura. Os seus registos melhoram, mas cada vez mais contra equipas secundárias, nos grandes duelos as equipas encontram forma de o anular e Messi ainda não parece ter devolvido o golpe. Talvez porque não está Guardiola, capaz de desenhar um plano para forçar a sua saída da jaula, dar-lhe o ar que necessita e devolver-lhe a confiança. Messi deixou-se prender numa jaula de ouro que ele próprio ajudou a construir à medida que se foi afastando do seu espaço natural e se envolveu no redemoinho de médios blaugrana.

 

A grandeza do plantel do Barça, o melhor do Mundo sem dúvida, pode permitir tudo, incluída uma goleada ao Milan e uma caminhada heróica rumo ao terceiro titulo europeu conquistado em Wembley. A liga está ganha, se não nos preocupamos em excesso com a matemática, e merecidamente porque ao contrário dos rivais, os blaugrana nunca falharam verdadeiramente. Se procurarem mais Xavi e menos a Messi, se a bola volte a sair dos pés de Valdés jogável, se as linhas se abrirem e a posse seja a ferramenta e não o fim, uma equipa do calibre e qualidade do Barcelona pode com tudo. Mas se a equipa falhar o assalto a vencer a máxima prova europeia pelo segundo ano consecutivo, começa a ser necessário para aqueles que se revêem na fórmula intocável para seitas e obtusos de "melhor de todos os tempos", que se recordem que as equipas que realmente marcaram um antes e um depois na história da competição fizeram-no vencendo recorrentemente a competição, cinco vezes consecutiva no caso de uns (Real Madrid), três vezes no de outros (Ajax e Bayern Munchen) e até duas vezes (Liverpool e AC Milan). A este Barça falta-lhe essa consistência na vitória e se perder o troféu este ano ficará com o magro espólio de duas taças em meia década, algo que dista da imagem que deram nos relvados e ecoaram nas páginas escritas por todo o planeta futebol. Com Guardiola o caminho para o êxito fazia-se pensando, sobretudo, em si mesmos. Nas fragilidades do colectivo e como melhorar a forma de jogar e de as ultrapassar. Perdia-se (Sevilla, Inter, Madrid, Chelsea), mas com a cabeça alta e asfixiando o rival. Com Vilanova - e Roura, que passava por ali e não tem culpa do peso que lhe está a cair em cima - o Barça abdicou da essência guardiolesca, decidiu defender-se com a bola, rodear-se de artesões e esperar, esperar e esperar e como o físico não permite mais e a cabeça parece ter-se bloqueado, talvez hoje muitos dos adeptos do clube se tenham dado realmente conta do quão importante era para o projecto um génio chamado Guardiola.

 

PS: Eu defendo a liberdade de expressão de qualquer pessoa, mesmo que não esteja de acordo com nada do que diz. Faz parte da minha educação e dos meus valores. Se alguém quer acreditar e afirmar que 1+1 são 24, quem sou eu para lhe tirar essa alegria de viver num mundo particular? A seita que rodeia a cultura do Barça porque é cool e vanguardista presumir de saber tudo sobre a biblia blaugrana (quando no fundo nem sabem quem é Laureano Ruiz), continua a achar que 1+1 são 24. Que o Barcelona joga melhor que todos, que joga particularmente melhor que as equipas que o derrotam, que o sistema é perfeito e suficiente, que Messi nunca se engana e tem um mau mês...quem o diz está no seu direito absoluto. Que muitos defendam os seus pontos de vista a partir do insulto pessoal, simplesmente deixa a nú as suas carências, a diversos níveis, a cobardia do mundo virtual permite comportamentos que cara a cara seriam impensáveis. E este grupo no fundo é uma seita porque parte para um debate com a premissa "eu certo, tu errado; eu o bem, tu o mal" e isso, no fundo não é um debate, é um monólogo. Não conheço ninguém que não defenda que este Barcelona do último lustro é uma das melhores equipas de todos os tempos, e nos debates trocam-se opiniões que nos enriquecem a todos porque colectivamente, e eu o primeiro, cometemos sempre erros. Mas só quem vive na base do monólogo e do 1+1=24 é capaz de achar-se dono absoluto da razão. Felizmente a realidade acaba sempre por colocar a cada um no seu sítio e quando for cool e vanguardista mudar a cassete muitos irão fazê-lo porque na realidade, não é de futebol que gostam: é deles próprios!



Miguel Lourenço Pereira às 10:25 | link do post | comentar | ver comentários (24)

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

O circo português

O holandês tranquilo

Golpe de autoridade no Be...

Elogio ao Tata

A encruzilhada histórica ...

Fariseus

Gracias viejo

Moyes e a fidelidade do M...

Pedroto, o Homem que inve...

Villas-Boas, o homem que ...

Últimos Comentários
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Posts mais comentados
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO