Sábado, 25.05.13

O Dortmund jogou melhor mas o Bayern soube ter a eficácia que lhe tem faltado nas finais europeias pós-Muller. Foi um título merecido para uma geração brilhante de jogadores que fazem parte já da elite histórica do futebol europeu. Os bávaros são indiscutivelmente a mais forte equipa da Europa e Pep Guardiola terá muito trabalho pela frente para emular o feito de Jupp Heynckhes. Ao Dortmund, a melhor equipa em campo, fica a honra de terem sido protagonistas de uma das mais espectaculares finais das última décadas. Com Klopp ao leme, para o futuro, tudo é possível.

Robben. O holandês que sempre perde.

Todos os jornais europeus já tinham a crónica do jogo escrita. Pelo menos os parágrafos em que iam desenterrar o passado do mágico extremo, os falhanços contra o Inter em 2010, na final do Mundial desse mesmo ano frente ao seu amigo Casillas. Ou o penalti desperdiçado contra o Chelsea, já no prolongamento de uma final que o Bayern não podia perder. Esse parágrafo estava escrito porque, uma vez mais, a sorte parecia estar contra ele. Três falhanços durante o jogo condenavam-no à penitência eterna. O rosto de Weidenfeller parecia uma assombração do passado quando a quatro minutos do fim, a história fez justiça. O mesmo Bayern que tinha perdido em cinco minutos uma final contra o FC Porto, em três minutos outra com o Manchester United e que tinha caído nos penalties frente ao Chelsea podia, pela primeira vez, agradecer ao cronómetro. Não ia haver tempo para mais. O toque de calcanhar de Ribery, o erro de marcação de Hummels, a saída desesperada de Weidenfeller. Gestos que passaram ao lado da visão de Robben, o jogador que só via a bola, a baliza e os braços abertos no ar. Os braços de alguém que resolvia todas as contas pendentes com a sua espantosa carreira. Um golo que merecia como poucos, um golo que marcou com a frieza dos grandes momentos. Um leve desvio, depois de mais uma diagonal letal, como a que lhe permitira, meia hora antes, desenhar o tento inaugural dos bávaros. Então Robben surgiu na sua faceta de assistente de luxo para Mandzukic marcar. Mas a glória suprema, o golo do título, estava-lhe reservado. Quando o esférico entrou já Arjen se sentia imortal.

 

O Borussia Dortmund entrou muito melhor no jogo, pressionando a saída de bola dos bávaros em cima da sua grande área.

O esforço físico dos homens de Klopp foi brutal. Durante os primeiros vinte minutos asfixiaram o Bayern e acumularam oportunidades de golo. Oportunidades que Manuel Neuer, imenso como sempre, foi resolvendo com perícia e sorte. Quando a balança se equilibrou, o cansaço fisico começou a fazer-se sentir e já não era toda a equipa que rondava como abutres a área bávara. As respostas dos amarelos vinham, sobretudo, da conexão entre Reus e Kuba, pelo lado direito. Ambos procuravam avidamente Lewandowski, em perpétuo movimento entre a defesa contrária, mas o ritmo já não era o mesmo e a solidão do avançado polaco foi-se acentuando. Tinham entrado definitivamente no jogo os futebolistas fundamentais no esquema de Heynckhes, os mesmos que tinham trucidado o Barcelona numa eliminatória para a posteridade. Javi Martinez, Schweinsteiger e Muller encontraram-se, associaram-se e inverteram o ritmo do encontro. Com Robben e Ribery bem tapados pelo apoio dos extremos do Dortmund a Pieszcek e Schmelzer, era pelo corredor central que o Bayern iria procurar explorar as suas mais valias. De aí nasceram as primeiras ocasiões, as que meteram o medo no corpo dos homens do Ruhr. A cadência da final seguia a todo o vapor, lembrando que há vida no futebol europeu para lá do circuito mediático Barcelona, Real Madrid, AC Milan e Manchester United. Para os que seguiram a transformação recente da Bundesliga, o ritmo e a qualidade do jogo vividos em Wembley não era novidade. Só faltavam os golos. Chegaram na segunda parte.

Primeiro Ribery e Robben, afastados do protagonismo pela pressão táctica do Dortmund na primeira parte, exploraram a falha de marcação dos amarelos e desenharam o golo de Mandzukic. Não foi preciso muito para o empate. Um erro de Dante - que devia ter sido expulso - propiciou o penalty que Gundogan converteu com frieza. Tudo igualado mas sensações novas. O Dortmund tinha mais critério mas o Bayern mais velocidade e Thomas Muller reapareceu como figura principal espalhando o medo entre a linha defensiva rival. Poderia ter sido ele o herói da noite. Ou talvez Schweinsteiger, a par de Lahm, o herdeiro de uma geração que viveu duas amargas derrotas. Mas foi Robben. Um lançamento largo, um toque de Ribery, um desvio do homem que nunca decide.

 

Não havia tempo para mais, não havia mudança táctica que desse cabo da vontade de vencer de um clube desenhado para lutar contra a sua malapata. O último clube a vencer a prova por três vezes consecutivas vive, desde 1977, uma luta contra o seu próprio ADN. Derrotas inesperadas contra Aston Villa, FC Porto, Manchester United, Inter e Chelsea criaram uma lenda que só uma equipa ainda mais maldita como o Valencia permitiu quebrar. A quatro minutos do fim Heynckhes era o quarto treinador da história a vencer a prova com duas equipas diferentes. O eterno goleador maldito do Monchengladbach, o homem que a direcção do Bayern entendeu que não seria capaz de devolver o Bayern à glória, o treinador que será rendido pelo génio de Pep Guardiola, não podia perder. Klopp tem tempo. Chegará a sua hora. Como o Dortmund jogam muito poucas equipas. Mas esta era a noite de Jupp. A noite de Robben. A noite de Lahm e Schweini. Hoje era a noite de ajustar contas. A noite histórica que Pep terá quatro anos para melhorar. O desafio começa em Julho!



Miguel Lourenço Pereira às 21:58 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Quarta-feira, 15.05.13

Ao Benfica não irá servir de muito a série de elogios que vai receber nas próximas horas. Foi um digno vencido principalmente porque não soube ser um convincente vencedor. Dominou o jogo, foi claramente superior ao Chelsea, mas faltou-lhe a frieza para matar o jogo quando se exigia. Depois, o cinismo dos Blues, algo no qual são especialistas, fez o resto. Os londrinos são o segundo clube na história do futebol a ser, ao mesmo tempo, detentores dos dois troféus de clubes europeus. A conexão espanhola sobrepôs-se ao medo do seu treinador, Rafa Benitez, num jogo onde o minuto 92 lembrará para sempre aos encarnados uma semana negra na sua história. Uma nova forma de maldição, com o selo de Jorge Jesus.

 

Outra equipa teria fechado a final nos primeiros vinte minutos. Outra equipa teria sabido aproveitar o medo e as deficiências defensivas de um rival que não esteve à altura do estatuto de actual campeão europeu. Mas o Benfica não soube nunca ser essa equipa. E por isso perdeu. Da forma mais cruel possível. Numa reminiscência da derrota contra o FC Porto, num lance inesperado em período de descontos. Um lances que despiu toda a esperança de uma formação que mereceu ganhar mas também mereceu perder.

A forma como a equipa encarnada entrou em campo despejou qualquer dúvida sobre o estado emocional dos jogadores. A derrota contra o FC Porto pode ter colocado em risco as aspirações ao título nacional, mas Jesus soube motivar os seus jogadores. Era uma final europeia o que lhes esperava. Para alguns deles a única das suas carreiras. Para os adeptos de um clube que não vivia uma aventura deste nível há mais de duas décadas, era um jogo muito especial. A atitude dos adeptos encarnados foi absolutamente exemplar, digna de um grande emblema europeu. A dos jogadores não foi diferente. Entraram com vontade de engolir o mundo e esmagaram o Chelsea durante vinte minutos que se fizeram eternos para os londrinos. Benitez teve medo. Sem Hazard - lesionado - preferiu colocar David Luiz como médio defensivo (um erro) e Ramires como extremo (outro favor ao jogo ofensivo do rival) e isolou o tridente Oscar-Mata-Torres, deixando-os à sua sorte.

Se alguém não merecia ter ganho este encontro, esse foi sem dúvida o técnico espanhol. Foi o primeiro treinador a vencer sem mexer na equipa, sem operar substituições mesmo quando havia sinais claros em campo que pediam a presença de Moses ou Benayoun. Não houve vontade de ganhar, apenas de aguentar e especular com o erro do rival. No final, a sorte sorriu-lhe, como em 2005 com o Liverpool, mas o mérito terá de ser distribuido pelos seus jogadores, que aguentaram o embate dos encarnados e souberam recompor-se.

O Benfica podia e devia ter ganho a final nesses vinte minutos iniciais. Tiveram a bola, onde quiseram, criaram oportunidades, foram mais rápidos, mais fortes e mais inteligentes na criação de jogo ofensivo. Mas falharam cada uma das oportunidades claras que construiram. Erros infantis que custaram caro. Um título europeu.

 

A partir desses vinte minutos o jogo equilibrou-se até ao final mas o Chelsea nunca foi melhor que o Benfica.

Em nenhum momento do jogo essa pressão asfixiante dos lisboetas se reflectiu na sua área. Não é a isso que joga a equipa de Benitez, mesmo que alguns dos seus jogadores o queira. Mata pedia a bola mas ela raramente lhe chegava. Torres lutava só, contra o mundo e Óscar e Ramires defendiam quando deviam pensar em atacar. A memorável exibição de Rodrigo na primeira parte, rasgando a defesa inglesa e abrindo o seu corredor a um incisivo Melgarejo, desapareceu no segundo tempo mas Gaitán e Enzo Perez entenderam-se sempre de forma a superar a conexão Lampard-David Luiz. O argentino Salvio mostrou-se mais apagado do que os seus companheiros mas soube lidar bem com os inesperados erros de marcação de Ashley Cole, um veterano com um jogo para esquecer. No meio, Cardozo, uma autêntica torre, esperava a sua hora. Que eventualmente chegaria.

Na segunda parte, contra a corrente do jogo, literalmente, Cech lançou uma bola larga que Mata controlou e entregou a Torres sem deixar cair. Um gesto perfeito do asturiano que isolou o avançado espanhol. Torres aguentou a carga de Luisão, a saída de Artur e marcou. Sete competições, goleador em todas elas. Superou o recorde de Pedro Rodriguez mas ninguém ainda parece ter-se lembrado. Foi um golo da dupla mais irreverente da equipa inglesa e um balde de água fria para os encarnados. Jesus arriscou tudo lançando Lima e Ola John para o lugar de Rodrigo e Melgarejo mas os seus planos foram destroçados em quinze minutos.

Primeiro porque o golo de Cardozo, depois de um infantil penalty de Azpilicueta, deixava tudo igual mas com um Benfica descompensado tacticamente atrás. E segundo porque a lesão inesperada de Garay forçava o técnico a gastar a sua terceira carta demasiado cedo. A partir de aí o Benfica abdicou, praticamente, e começou a pensar no prolongamento. Começavam a falhar as pernas. A pressão inicial, espantosa, não tinha dado os seus frutos e agora a bola pertencia ao rival que pensava na vantagem de ter mais trinta minutos com um plus de oxigénio no corpo. Apesar de algumas oportunidades, quase sempre frutos dos erros dos ingleses, o Benfica foi recuando no terreno. Lampard tinha acertado na barra - no que teria sido um golo merecido para culminar a sua brilhante carreira individual - e quando Ramires ganhou um canto no último minuto, a alguns o nome de Kelvin veio à cabeça. Antes da final tinha-se falado na maldição de Guttman. Não vinha ao caso, não só porque se referia só à Taça dos Campeões Europeus como também já foi quebrada pelo FC Porto, que rompeu a segunda parte da mítica sentença. Mas o Benfica acabou por sofrer a maldição de Jesus, um treinador talvez excessivamente arrojado, que fisicamente controla mal os tempos dos seus jogadores. Pediu demasiado da equipa cedo demais e foi precipitado a mexer-se no banco. De aí viu, impotente, como Ivanovic cabeceava só para bater de forma inapelável a Artur. Um golo que valia um troféu europeu. Um golo que urgava ainda mais na ferida dos encarnados.

Futebolisticamente a superioridade do Benfica foi constantemente superior. Dominaram todos os elementos do jogo. Menos o mais importante. Foram inocentes quando encararam a baliza e deixaram-se levar, fisicamente, contra uma equipa que está habituada a um modelo mais cínico e cauteloso que guarda sempre um sopro de ar para o final. O Bayern Munchen sofreu do mesmo mal na época passada, marcando a poucos minutos do fim para ver o Chelsea igualar no último suspiro. Ao Benfica faltou maturidade e experiência para encarar a final como um jogo diferente. Se o tivesse feito talvez tivesse ganho como merecia pelo que fez em campo. Será dificil que um projecto habituado a perder alguns dos seus melhores jogadores ano atrás ano volte a uma final nos próximos anos. Mas mais do que em 1990, 1988, 1980 ou 1968, esta formação encarnada sentiu mais perto o mérito de ser campeões de uma prova europeia. Um golo nos instantes finais fez toda a diferença. A história do futebol é feita desses momentos. Os adeptos do Bayern Munchen sabem-no como poucos e não só pela sua experiência com os Blues. Também eles foram superiores ao Manchester United na mítica final de 1999. A história lembra-se de outra coisa. Mas os adeptos bávaros não. Uma lembrança que seguramente vai acompanhar os seguidores do clube da águia nos próximos anos.



Miguel Lourenço Pereira às 22:14 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Sábado, 11.05.13

O futebol sabe ser cruel quando necessário. Depois de uma abordagem medrosa e cuidada durante noventa minutos, Jorge Jesus postrou-se no relvado do Dragão, incapaz de reagir ao mágico disparo de Kelvin. Um remate que rompeu com toda a dinâmica de um jogo sempre prevísivel, de parte a parte, e abriu a possibilidade ao FC Porto de se sagrar uma vez mais campeão nacional.

 

Na época passada Jesus chegou ao final da temporada com cinco pontos de vantagem sobre o seu rival, Vitor Pereira. Perdeu a liga.

A um jogo do fim, a situação pode repetir-se. Foram quatro, não cinco, os pontos perdidos. O desfecho poderá ser o mesmo. O FC Porto tem de bater o Paços de Ferreira num campo onde só o Benfica ganhou. Um campo que vai celebrar o histórico apuramento para a Champions League. Uma das mais merecidas e brilhantes notícias do ano. Os encarnados recebem o Moreirense - que precisa de pontuar para sobreviver - depois de uma exigente final na próxima quarta-feira, contra o Chelsea.

A crueldade do momento sacou o mais espantoso que gera o futebol.

Jesus sentia ter o jogo controlado. Chegou ao estádio do Dragão consciente de que um ponto praticamente resolvia a questão e durante noventa minutos pensou apenas nesse ponto. O golo madrugador de Lima - como resultado de um lance longo ensaido, ao estilo de Rory Delap - reforçou a sua crença de que esse empate bastaria. Talvez porque suspeitasse que o FC Porto seria um rival previsivel. Porque inicialmente foi. Com um estádio cheio - mas que não foi uma caldeira humana - a pressão estava do lado dos dragões. Os homens da casa suportaram o peso inicial, tomaram a iniciativa do jogo e nunca a perderam. Mas esse controlo, como quase sempre ocorre desde que Vitor Pereira é treinador principal, nunca se transforma num domínio asfixiante na área do rival. A posse de bola à Barcelona - muito maior que o rival, muito mais inconsequente - garantia que o jogo se jogava numa só direcção. Mas a partir de aí, muitas dificuldades em encontrar espaços. O Benfica não quis arriscar, não quis ir atrás de um momento histórico. As diferenças entre Jorge Jesus e André Villas-Boas ficaram, uma vez mais, evidentes. O segundo, quando pôde rematar o título em casa do rival - com uma margem bastante superior - arriscou tudo e ganhou. Jesus mostrou-se medroso e não sentiu nos seus jogadores confiança suficiente para impor a sua vontade ao rival. Pagou o preço. A sua imagem, de joelhos, define não só a temporada, não só a sua carreira como treinador mas talvez toda a política desportiva do SL Benfica. No momento em que podiam ter dado uma estocada mortal ao seu histórico rival, devolvendo a graça de vencer o título no seu relvado, imperou o medo. E o dragão sentiu o cheiro a sangue. E aproveitou.

 

Vitor Pereira tem o pior plantel dos últimos anos de FC Porto.

Fez milagres durante o ano. Várias posições carecem de alternativas lógicas. Algumas delas, cruciais. Danilo voltou a desiludir, como em todo o ano. Mas Miguel Lopes já não está. Jackson foi bem anulado por um triângulo formado por Luisão, Garay e Matic. Não havia ninguém à sua volta para partilhar as despesas do golo. No banco, também não. Liedson entrou para assistir Kelvin, mas nunca para criar perigo na área. Varela, inepto como quase sempre, complicou um lance que acabou em golo de forma inesperada. Pouco mais fez. James Rodriguez falhou o golo do ano. Estava em posição irregular. Também não teve arte e engenho de fazer a diferença e os auiz aguentavam-se com a força e cabeça do seu trio do miolo. Quando Fernando, imenso, sai lesionado, falta alguém que imponha a mesma atitude de liderança no miolo. Mesmo assim, com um plantel inferior ao rival, o técnico espinhense manobrou o jogo. Tomou a iniciativa, adaptou-se às circunstâncias e lançou as únicas armas que dispunha. Funcionou.

O seu FC Porto é uma equipa trabalhada, uma equipa que sabe cuidar a bola e manejar os tempos. Mas não tem essa acutilância na área. Não tem esse killer-instinct. E por isso sofreu com equipas habituadas a fechar-se na sua área esperar. Por isso sofreu contra o Benfica. Nesses momentos de falta de espaços, a inspiração individual é uma das poucas armas que sobram. Kelvin apareceu para repor a justiça na competição. É um dos míudos da equipa B que foram tendo minutos porque não há jogadores mais experientes num plantel mal preparado. Resolveu contra o Braga, resolveu contra o Benfica. O título tem o seu selo, o selo de uma geração de jogadores forçada a aparecer demasiado cedo como protagonista por culpa desses erros da SAD. Mas também da coragem de um treinador de lhes dar a oportunidade.

Jesus lançou Roderick, Pereira lançou Kelvin. O título resumiu-se nessas decisões. A igualdade em campo não era uma igualdade de valor real. Num campeonato como o português, um dos mais fracos da Europa, é normal que equipas cujo o orçamento multiplica por muitos os euros em relação aos seus rivais, o normal é que este cenário se repita e sejam os duelos directos a decidir. O dinheiro marca a diferença entre Porto e Benfica e os outros. Mas é a cultura de vencer e o arrojo que pauta o abismo emocional que ainda existe entre os dois clubes. Em vinte anos, por cada 5 títulos do FC Porto, o SL Benfica vence apenas 1. Não há sinais de que a situação se altere no futuro imediato a avaliar pela postura de ambos os emblemas no jogo que ia decidir o título de campeão.

Na Mata Real o FC Porto vai encontrar uma equipa organizada, alegre e ofensiva, precisamente o estilo de rival que melhor encaixa no modelo azul e branco. Será também uma equipa em festa, uma equipa que quer coroar a maior época da sua história com uma exibição memorável. Pode claudicar. Mas mesmo perdendo o título, ficou claro que nos duelos directos ainda é superior ao seu rival, mesmo partindo de trás. Ao Benfica resta-lhe sonhar com voltar a levantar, 51 anos depois, um troféu europeu. Se isso falhar, o jogo com o Moreirense será de vida ou de morte. Para ambas as equipas. Falta ainda o Jamor. Onde está o Guimarães. Onde se pode salvar a época. Onde se pode partilhar entre os dois emblemas mais fortes da conjuntura actual do futebol português as honras da época. Ou talvez não. O sonho de uma tripla pode esfumar-se em quinze dias. O sonho do tricampeonato pode acabar em noventa minutos. O futebol é cruel e o apito final, e isto não é metafóra, vai ser mais uma vez o juiz da temporada.



Miguel Lourenço Pereira às 23:03 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 31.03.13

Durante quatro anos o futebol foi o escape de uma equipa repleta de magos que desafiaram a sombra do nazismo. O Wunderteam foi mais do que uma invenção desde génio precoce chamado Hugo Meisl. Simbolo da cultura das casas de café da Viena dos anos vinte, foi um grito de independência de soldados com a bola nos pés contra o pânico de uma guerra que ninguém podia evitar. Duas décadas antes da consagração do mais belo futebol do centro da Europa pelos magiares de Sebes, a Áustria de Sindelaar ergueu a bandeira da escola continental programada por Jimmy Hogan.


Na década de 30 o futebol já era mais do que uma curiosidade desportiva. Cada país tinha já formada a sua liga, o amadorismo começava a ser abandonado e as duas primeiras edições do Mundial de futebol tinham apresentado ao mundo o poderio do jogo sul-americano (Argentina e Uruguai) e a eficácia do Calcio italiano. A Inglaterra continuava isolada do Mundo, acreditando na sua total superioridade e no coração da Europa começava a nascer um novo estilo de jogo, arrojado e profundamente belo. Uma escola impulsionada por um inglês sui generis e levada à prática por um austríaco com alma de empreendedor, Hugo Meisl.

Em Abril de 1931 a seleção austríaca, orientada pelo mago vienense, começou uma série inesquecível de jogos sem perder. Durou mais de ano e meio - até Dezembro de 1932 - e lançou as bases do "jogo bonito", um futebol de troca rápida de bola, de movimentações organizadas, versatéis e coordenadas por um verdadeiro poeta dos relvados, Mathias Sindelar.

Meisl, visionário como poucos na história do desporto rei, aproveitou as lições aprendidas durante uma viagem ás ilhas britânicas. Em vez de seguir o modelo inglês do seu amigo intimo Herbert Chapman - inventor do WM e à época técnico do invencível Arsenal - preferiu apostar por uma variante do modelo escocês de Jimmy Hogan, muito mais assente no toque de bola no pé e no passe rápido em lugar dos lançamentos longos e em profundidade. Sem inovar no esquema táctico, que continuava a ser o inevitável 2-3-5  (Meisl nunca acreditou no WM) o técnico chegou à sua Áustria natal e colocou em prática toda a teoria que tinha aprendido. Tomou o comando da selecção austriaca e rodeou-se de jovens talentosos que actuavam principalmente nos clubes da capital. Pekarek, Smitsik, Vogl, Schall, Zizchek, Nausch e acima de tudo o "Homem de Papel" (devido à sua compleição física e rapidez) Mathias Sindelar, foram as bases em que o técnico montou o seu sistema de jogo, como um carrousell, onde a troca de bola a meio campo e o desdobramento do eixo ofensivo provocava uma série de desequilíbrios na defesa contrária. No sistema de Meisl a táctica não era fixa. O médio centro apoiava o eixo ofensivo que atacava com seis elementos e era nele que começava e terminava todo o jogo ofensivo. Nascia a figura do 10, numa época onde ainda eram os extremos que habitualmente levavam a bola nos pés em campo. Apesar da táctica pouco inovadora, discutida até à exaustão nas longas tertúlias dos cafés vienenses pelos intelectuais mais importantes da sociedade austríaca, o estilo de jogo de Meisl preconizou uma autêntica revolução de pressing e circulação de bola, tornando-se no avô do que seria o Futebol Total.

 

Foi dessa forma que durante 18 meses a Áustria foi uma selecção invencivel.

Por essa época eram vistos no Velho Continente como a única equipa capaz de bater a armada sul-americana, que tinha dominado os Jogos Olímpicos de 1928 e logo o Mundial de 1930, então as duas únicas aventuras internacionais do beautiful game. Na prova seguinte, marcada em 1934 para França, os austríacos lideravam as apostas dos favoritos e os primeiros jogos deram razão aos seus adeptos. Depois de vencer por 6-0 a vizinha Alemanha - num jogo que traria futuras consequências politicas - 6-2 a Suiça e 8-0 a vizinha Hungria, a equipa de Meisl chegava ás meias-finais com clara vantagem. Só que o jogo disputado sobre um imenso temporal que impediu a rápida circulação de bola dos austríacos ficou marcado por um garrafal erro arbitral, quando um avançado italiano empurrou o guardião austriaco e o árbitro fez vista grossa. Uma derrota que teve mão de Mussolini (a Itália venceria a prova e reeditaria o triunfo quatro anos depois, também após fortes pressões do Duce) e que destrui a fama de invencibilidade austríaca.

Mas da derrota nasceu a lenda, tal como sucederia mais tarde com os seus sucessor húngaros. E a fama do Wunderteam ficou para a posteridade. De tal forma que Adolf Hitler, um homem nada entusiasmado com a visceralidade do mundo do futebol mas que tinha assistido à humilhante derrota alemã, não hesitou após o Anchluss em exigir a inclusão dos jogadores austriacos na equipa alemã para vencer o Mundial de 1938. Por essa altura já o maestro Meisl, o primeiro a defender a máxima "A melhor defesa é o ataque", já tinha falecido e Sindelaar, a sua maior estrela, cometido suicídio poucos dias antes de ser preso pela Gestapo.

 

O irromper da II Guerra Mundial destruiu a geração do Wunderteam. A maioria dos jogadores acabou por falecer ou ficar ferida durante o conflito e quando a guerra terminou, em 1945, o futebol austríaco estava de rastos. O país nunca mais voltou a ter uma selecção de alto nível mas lançou as bases do futebol do centro da Europa, distinto a qualquer outro estilo de jogo do Velho Continente. Uma revolução que se transferiu na década seguinte para os vizinhos húngaros, e que nos anos 60 seria transformada paralelamente por um holandês e outro austríaco, Ernst Happell, na base do Futebol Total holandês.



Miguel Lourenço Pereira às 23:28 | link do post | comentar

Segunda-feira, 25.03.13

A via crucis é inevitável. Há uma certa melancolia em cada fase de apuramento para uma competição internacional da selecção de futebol portuguesa. Um olhar preso nos tropeções do passado, um sufoco moral que obriga a um país tão mau em contas tenha de se valer da matemática até ao suspiro derradeiro. Tudo porque, o caminho do sucesso elimina os rastos do caminho certo, e Portugal continua a querer subsistir entre a elite do futebol à base de resultados e não de ideias. Até que os resultados faltem. Depois, o abismo...

Digam que Portugal é uma equipa que joga mal, e a primeira resposta será sempre a do adepto que cita de memória os pódios conseguidos nos torneios internacionais dos últimos anos. Digam que Portugal não tem uma boa equipa técnica, e lembrar-se-ão de dizer maravilhas de Scolari, Paulo Bento e (quiçá) Queiroz, lembrando vitórias pretéritas e esse espírito de sargentinho (não sargentão) de que o português tanto gosta. Digam que Portugal tem um plantel curto, um plantel sem demasiada qualidade, e lembrar-se-ão imediatamente de Cristiano Ronaldo, João Moutinho, Nani e Pepe para justificar tudo o resto. Digam algo negativo sobre Portugal e a sua prestação habitual nas fases de qualificação e a única resposta que vão ouvir é a habitual, a mesma que um individuo como José Mourinho não teve receio de proclamara aos céus algo do estilo "que se lixe a qualificação, o que importa é estar e depois já se vê". E como, para muitos, Portugal se tem visto bem, aqui afinal não há um só problema que tratar.

Claro que isso é o que jogadores, técnicos e dirigentes querem que as pessoas pensem.

Evidentemente que é falso. Demasiado falso para o mais crédulo acreditar e no entanto, não se imaginam quantos crédulos existem. Portugal, é verdade, tem um registo em provas internacionais bastante bom para um país de 10 milhões de habitantes. Mas está mais do que provado que a correlação económica e social, só por si, não garante títulos. Na última década Portugal perdeu um Europeu em casa contra a Grécia. Caiu nas meias-finais de um Mundial contra a França, tendo deixado pelo caminho a Holanda e Inglaterra. Caiu num Europeu com a Alemanha e num Mundial e Europeu com a campeã, Espanha. Não parece, à partida, um mau registo. A diferença está em ver como se chegou até lá e, sobretudo, como se caiu. Em ambos os casos a resposta é fácil: sem ideias, sem futebol e sem um colectivo. O que faz toda a diferença.

 

A Portugal falta-lhe hoje o mesmo que faltava há cinco anos. Não mudou nada nesse aspecto.

É uma selecção com uma base de escolhas extremamente reduzidas que se agrava ainda mais pela mentalidade redutora e classicista do dirigente/técnico/adepto português que associa os jogadores de maior renome, os mais caros ou mais bem pagos, com os mais idóneos para jogar pelo país. Não é assim. No jogo de Israel, o obtuso Paulo Bento usou todos os nomes que tinha à sua disposição. Esqueceu-se de que o trabalho dele é utilizar jogadores. Em campo estavam atletas fisicamente em má forma física e anímica. Jogadores que jogam a outra coisa, a outro ritmo. Jogadores que não têm condições para serem titulares absolutos com a selecção e que no entanto, jogo atrás de jogo, aí estão.

Jogadores como João Pereira, Bruno Alves, Miguel Veloso, Raul Meireles, Varela e Hélder Postiga, para por caras e nomes.

Nomes, membros da "família Bento" com carta branca para fazerem o que quiserem em campo, que nada questiona a sua titularidade ao jogo seguinte. Quando Vierinha, um jogador sem pedigree público, entrou em campo as sensações da equipa mudaram logo. E mudaram porque utilizar um jogador fora do esquema fechado de Bento obrigou forçosamente Portugal a lidar com o seu mais grave problema, a falta de ideias e conceitos tácticos.

Paulo Bento é um péssimo treinador no aspecto táctico. É fechado, redutor e insiste regularmente no mesmo modelo, mostrando uma incapacidade atroz em ler os jogos e a readaptar-se. Rodeia-se dos jogadores que ele entende que melhor aplicam a sua filosofia e espera que depois seja a individualidade a fazer a diferença. É um técnico primário e sempre será. Essa é outra das razões porque é seleccionador.

Portugal não reagiu tacticamente ao empate israelita e muito menos ao segundo golo, desperdiçando uma vantagem conseguida, segundo o treinador "demasiado cedo", como se estivesse assumir que mentalmente é incapaz de manter uma equipa motivada num campo onde era imperioso ganhar. É uma conversa que já se ouviu com Bento no passado, nada de novo. Só a entrada de Vierinha e Hugo Almeida - tarde demais - obrigou Portugal a mudar o desenho, a deixar o 4-3-3 para apostar num 4-4-2, com Postiga por detrás de Almeida e Ronaldo como número 10 - ao ponto a que chegou o futebol português - e dois médios interiores abrindo as alas para a subida dos laterais, algo que não se viu durante todo o período de tempo em que funcionou o 4-3-3 clássico. Sem essas ideias, Portugal é uma equipa plana, demasiado pendente do jogo transicional que favorece tanto Cristiano Ronaldo mas que prejudica todos os outros. Um jogo que só funcionou no Europeu contra uma Holanda partida em duas. Contra a Dinamarca e República Checa teve muitos problemas em impor-se e frente à Espanha foi o que se viu.

Sem jogadores e sem treinador, o raro é que uma selecção consiga algo. E o pior é quando esse treinador é incapaz de incutir aos jogadores adrenalina. Portugal joga as fases de qualificação a um ritmo sonolento, obrigado, como quem tem de despertar-se todos os dias de madrugada para encarar oito horas de árdua jornada laboral. Não há tensão competitiva, querer, dinamismo físico e pressão menta que salve esta equipa. Nem Ronaldo, tão voraz no Real Madrid, consegue valer a sua braçadeira. A equipa joga a passo, linhas distantes, e quando qualquer rival coloca um pouco mais de velocidade no seu jogo - viu-se com a Rússia, a Irlanda do Norte e com Israel - o barco vai ao fundo. Se já é mau que os jogadores escolhidos não sejam os idóneos e que o treinador seja um problema, não a solução, que essa dupla ainda cumpra o seu trabalho quase como queixando-se é demais. Tarde ou cedo a realidade acabará por bater à porta.

 

Portugal já sabe que o primeiro lugar do grupo é uma impossibilidade, se não matemática pelo menos moral. E que o segundo será um mano a mano intenso até ao fim, sobretudo com o jogo do Estádio da Luz contra a equipa israelita a fazer a diferença. Depois vem o play-off, mais um consecutivo, o terceiro. A mim importa-me pouco que Portugal chegue a uma competição internacional via play-off ou como primeiro do grupo, se tiver demonstrado em campo ser uma equipa, bem treinada, com jogadores comprometidos, com uma convocatória que respeite a qualidade e não o estatuto. O problema é que isso nunca acontece e o cenário vai-se repetindo e os problemas ficam sem resolver-se e assim continuarão até que a selecção falhe uma ou duas provas internacionais consecutivas e entre, como outros país, numa espiral autodestrutiva. Aí tudo o que for escrito aqui será relembrado, mas sem um futebol de formação de qualidade e com figuras individuais como Cristiano Ronaldo cada vez mais escassas na nossa fábrica de futebolistas, talvez seja tarde demais.



Miguel Lourenço Pereira às 13:22 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 11.03.13

Em 1980 um desconhecido realizador espanhol estreava a sua primeira longa-metragem. Pepi, Luci e Bom y Otras Chicas del Montón, abria a larga e espantosa carreira cinematográfica de Pedro Almodovar. Este ano o realizador manchego volta ao activo com um regresso às comédias que o fizeram célebre mundialmente na década de 80. Nos relvados, três treinadores, "del montón", desafiam as convenções e demonstram que o futebol é também um palco de teatro onde a improvisação e a arte muitas vezes superam o hermetismo habitual entre os convencionais maestros do jogo.

Eram adolescentes. Sonhavam talvez com a glória com uma bola nos pés ou talvez com roubar um beijo à estrela feminina do momento, Bo Derek, a mulher 10. Mas nenhum deles imaginaria, seguramente, que 33 anos depois fossem protagonistas de uma crónica que os unisse no tempo e no espaço a um obscuro filme cómico estreado nesse ano.

Pepe Mel tinha 17 anos, Paco Jemez 10 e Philippe Montanier 16 e é provável que nenhum deles tenha sequer visto o filme. Não foi, propriamente, um sucesso de bilheteira numa Espanha ainda em profundo estado de "transição". Mas sem o saber, Almodovar já falava deles. Pepi, Luci e Bom são três raparigas comuns, correntes, normais, nem bonitas nem feias, nem altas nem baixas, nem magras nem gordas. Mas são imaginativas, intrépidas e criativas, capazes de desafiar o convencionalismo de uma era de profundas mudanças sociais. Não tinham a atenção dos homens como as elegantes e sensuais mulheres do seu tempo mas eram capazes de ir mais longe do que qualquer outra para inverter essa realidade quase crónica. E com isso demonstravam ser, sobretudo, personagens de recursos infinitos para lograr os seus objectivos. O mesmo se passa nos bancos da liga espanhola.

Numa liga orfã do génio de Guardiola, cansada das poses ditatoriais de Mourinho, dificilmente apaixonada pelo hermetismo de Simeone ou pelos vai e vens de Tito Vilanova e Jordi Roura, há um vazio de génios e figuras que permite ao espectador, quase sempre focado nesse duelo mediático Mou-Pep, olhar para o lado e ver que, afinal, também há imensa qualidade, imenso talento e imensa criatividade nos treinadores "comuns".

Mel, Jemez e Montanier lideram o sprint pela Europa, misturados com os milhões de Málaga e Valencia, do projecto sólido do Atlético de Madrid e batendo o pé aos multimilionários do futebol europeu. Lutam os três por um lugar na Champions League, uma competição que, à partida, podia estar para eles como um concurso de misses para Pepi, Luci e Bom. Mas que lhes fica como uma luva.

 

Pepe Mel é o mais veterano nestas lides.

Foi o responsável pelo renascimento do Rayo Vallecano, desde as entranhas do futebol secundário espanhol. Falhou a promoção com a equipa depois de um ano memorável na segunda divisão mas deixou tudo preparado para o seu sucessor - o espantoso Sandoval - completar o trabalho. Partiu para a sua Sevilla, para pegar num Bétis igualmente em horas baixas. Desenhou a régua e esquadro uma equipa que faz do futebol ofensivo, de toque, o seu santo e senha. Escritor, novelista consagrado, Mel sabe trabalhar com a bola como com as palavras, sem medos. Encontrou em Beñat a batuta, em Castro o golo, em Adrian a segurança defensiva e à volta criou um espírito colectivo impressionante para um clube dado sempre a tendências autodestrutivas. Neste Bétis não há estrelas, não há vedetas nem há margem de erro para arriscar sem a certeza do sucesso. A urgência de um clube falido pela gestão criminal de Ruiz de Lopera, deu passo a um clube renascido e determinado a criar uma marca de identidade no futebol espanhol. O prémio de um lugar europeu é apenas o reflexo simbólico e mediático de algo muito mais profundo e meritório.

Algo similar experienciou Philippe Montanier, um francês olhado como suspeita, como todos os franceses, desde o dia que chegou a San Sebastian com a promessa de um futebol rendilhado e ganhador. Demorou mais tempo do que muitos podiam esperar e teve a sorte de contar com uma directiva capaz de ver a longo prazo. A Real Sociedad perdeu o duelo mediático com o Athletic Bilbao há muito tempo e abandonou a política exclusivista de jogadores bascos mas não a sua identidade. Apostou muito na formação e começou agora a colher os primeiros rebentos de uma nova e brilhante geração, a de Aguirretxe, Illarramendi, Iñigo Martinez ou Ruben Pardo a que se juntaram os talentos de Vela e Griezzman. O líder da armada, único sobrevivente da brilhante equipa que há uma década desafiou o Real Madrid pelo título de liga (a de Xabi Alonso, Nihat e Kovacevic), é também o reflexo de como o futebol espanhol decidiu finalmente olhar para dentro e apaixonar-se pelas suas virtudes em vez de deixar-se cair nos seus defeitos. Xabi Prieto é um dos nomes do ano no futebol espanhol, recuperado tardiamente como o foi Valeron na Corunha ou agora Joaquin em Málaga, jogadores que explodiram antes do tempo em que a imprensa começou a valorizar o "tiki-taka" dos Xavi e Iniesta. Montanier teve todos contra si, teve o carácter de aguentar os piores momentos ao leme do clube, o sofrimento, para emergir com uma equipa construída com pés e cabeça, com vocação ofensiva, com capacidade de misturar a velocidade individual de Griezmman e Vela com o critério de Prieto e Pardo, uma equipa completa da cabeça aos pés.

Sem um nome histórico, como são os já campeões Bétis e Real Sociedad, sem um passado como treinador significante, talvez o trabalho de Paco Jemez tenha ainda mais mérito porque não há clube mais "del montón", do que o Rayo Vallecano. Desastrosamente gerido pela família Ruiz-Mateos, penosamente presidido por um sucessor que entende pouco de futebol e menos de finanças, que o Rayo ainda esteja de pé não deixa de ser um desses milagres do futebol. Que dispute um lugar na Champions League é algo quase sobrenatural. Jemez sucedeu a dois homens que deixaram parte do trabalho feito, Mel e Sandoval, mas imprimiu o seu toque definitivo ao clube, apostando num 3-4-3 ousado, convencido de que para um clube pequeno que sabe que acabará por sofrer golos, a arma secreta tem de ser sempre procurar marcar mais do que o rival. Sem Diego Costa e Michu, os dois goleadores do ano transacto, o técnico encontrou em Piti e Leo Baptistão os seus novos aríetes, confiou no regresso do mítico Tamudo e na qualidade de Lass para fazer a diferença e preparou-se para sofrer. A onze jogos do fim, o Rayo está praticamente salvado. No ano passado precisou de um golo milagroso nos descontos do último jogo do ano. Sonhar com a Europa não é impossível, nem sequer se falamos da Champions League. Seria a prova do que o futebol é algo mais do que uma simples utopia.

 

Não são estrelas, a maior parte da Europa do futebol nem os conhece. Os rostos são figura estranha, os gestos desconhecidos mas o trabalho desenvolvido é algo que não pode passar desapercebido. Não são os únicos. Em Espanha há ainda Juan Ignacio Martinez. Em Portugal o jovem Paulo Fonseca começa a fazer-se notar. Em Inglaterra já ninguém olha de lado quando ouve Roberto Martinez e em Itália Vicenzo Montella já é um futurível dos grandes clubes. São treinadores comuns, em equipas mais ou menos comuns, que fazem da necessidade, engenho, e das fraquezas forças. São eles o pão e sal do futebol. Enquanto as câmaras se divertem a descobrir quantos rabiscos tem o livro de notas de Mourinho ou Guardiola, eles seguram nos ombros a estrutura base do beautiful game.



Miguel Lourenço Pereira às 14:00 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 27.02.13

Josep Guardiola é o treinador de futebol mais importante da última década do futebol. Mourinho é um vencedor nato e é capaz de replicar o seu modelo em microcosmos imensamente diferentes. Ferguson uma velha raposa, Klopp um treinador ambicioso e empolgante e Wenger um homem coerente e admirável. Mas Guardiola teve o condão de mudar a abordagem ao jogo e levá-lo a uma nova dimensão. A sua ausência no banco do Camp Nou foi maquilhada durante meses com resultados. Mas a qualidade de jogo e o vazio emocional dos últimos meses em Can Barça é evidente. O Barcelona pode ganhar por ter Lionel Messi, mas só pode encantar se estiver liderado por um génio como Guardiola.

 

É mais importante o artista ou o mentor?

Guardiola, no seu estilo habitual, para um pura honestidade para outros uma personagem de contos de fadas, sempre disse que para o Barcelona Messi era muito mais importante do que ele. E o argentino, que explodiu verdadeiramente durante o seu mandato, realmente continua a demonstrar ser capaz de marcar contra tudo e contra todos. Cada vez corre menos com a bola, cada vez empolga menos nos lances individuais, cada vez se abandona do espírito maradoniano com que se apresentou ao mundo para ser mais um do modelo Barça, capaz de ir buscar jogo à linha medular, de se perder entre os médios como um mais. E sobretudo de marcar, sobretudo, com um leve encostar de bola diante de um guarda-redes indefeso e abandonado. Falta-lhe a velocidade, a chispa e a inspiração das grandes noites. Talvez lhe falte Guardiola, como a todos os seus colegas.

Quando Pep chegou ao banco do Barcelona a equipa vinha da pior época em quase uma década, um 4º lugar doloroso, a mais de duas dezenas de pontos do rival, forçado a uma prévia de Champions para participar na prova que acabaria por ganhar. Rijkaard, um grande técnico, tinha preferido ser amigo dos jogadores a dirigi-los e pagou o preço da displicência. Ronaldinho, o génio superlativo do Barça do século XXI, entregou-se aos prazeres da noite e com ele Deco, Silvinho, Etoo e Messi pareciam destinados a seguir o mesmo rumo. Guardiola exigiu uma purificação do balneário. Livrou-se de todos (Etoo aguentou um ano mais) menos de um, a quem chamou de parte e lhe colocou a faca e o queijo na mão: ou seguir o exemplo do seu idolo e amigo Dinho ou transformar-se no melhor jogador do mundo. Messi escolheu a segunda opção e um ano depois tinha merecidamente o Mundo a seus pés. Guardiola nunca se confiou plenamente e mandou vir Milito para seguir o pequeno astro para todos os lados, era o seu guarda-costas emocional. Mandou seguir alguns jogadores, especialmente Piqué, consciente de que velhos vícios podiam voltar com novos e jovens flamantes protótipos de estrelas. Mudou o discurso institucional do clube, recuperou os sinais de identidade do cruyffismo, com o próprio Johan à cabeça. E, mais importante do que tudo isso, redefiniu a forma de jogar da equipa. E levou-a a um patamar de excelência superlativa.

 

Guardiola foi treinador, presidente, líder espiritual, comunicador e génio táctico num só.

É uma figura irrepetível na história do futebol e o seu vazio seria sempre imenso. Guardiola era, sobretudo, um filósofo do jogo, mas um filósofo pragmático. Acreditava na teoria da prova por erro. Tentou com Ibrahimovic recriar a ideia do avançado centro mas acabou por preferir Messi no seu lugar. Trouxe consigo Villa para dar mais velocidade e mobilidade ao ataque onde ao lado do argentino jogava um jovem com ordem para ser dispensado no Barcelona B, um tal de Pedro. Atrás de Xavi e Iniesta, actores secundários para Rijkaard, colocou o suplente do médio titular dessa equipa B - então na terceira divisão - filho do seu colega de equipa do Dream Team, Busquets. Confiou a defesa a Valdés e Puyol, com quem jogou, mas também aos erráticos mas geniais Alves e Piqué e sofreu na pele o drama humano do imenso Abidal durante mais de dois anos. Enganou-se em algumas contratações (Chygrinski, Henrique, Ibrahimovic, Afellay, Alexis), falhou tacticamente em alguns momentos, apostou como nenhum outro treinador desde van Gaal na formação do clube e decidiu que ganhando ou perdendo, a equipa o faria com uma ideia de futebol na cabeça.

A bola saía de Valdés (e quão poucos falam na sua anunciada saída) sempre jogável, nos pés dos defesas ou de Busquets. Nada de lançamentos largos, nem de livres transformados em remates longos e sem sentido. Os extremos colados nas bandas, os interiores realizando perpétuas diagonais, os laterais abrindo permitindo ao extremo tornar-se num avançado mais. Recuperou o sonho do falso 9 que desde Sindelaar e Hidgekuti faz parte da bíblia dos pensadores do futebol ofensivo da escola danubiana e defendeu a importância do rondo, da posse, da autoridade com a bola, mas uma autoridade ofensiva. A posse tinha de ter um sentido, tinha de ter a baliza como mira. Cada jogada devia ser acabada, com um passe para a baliza. Cada jogada devia contar porque cada perda deixava expostas as fragilidades de uma defesa que chegou a formar-se apenas com três jogadores. O seu primeiro ano foi perfeito.

A partir de aí a fórmula sofreu actualizações, nem todas elas funcionaram. Provou o 3-4-3, chegou ao 4-6-0 na final do Mundialito contra o Santos e voltou a ganhar títulos, mas nunca com essa frescura, imaginação e autoridade que exibiu no primeiro ano, ainda com Henry e Etoo a acompanhar Messi na história. Quando se foi embora, muitos disseram que eram os jogadores que faziam a diferença, como se não fossem os mesmos do final do rijkaardismo. Que Guardiola tinha-se transformado mais num problema do que numa solução. Que o seu radicalismo táctico era prejudicial para os interesses da equipa, sobretudo os de Messi, que gostava cada vez mais de sentir-se o eixo central dos movimentos dos restantes. E por isso, quando saiu, houve poucas lágrimas para quem tinha dado tanto ao clube. A presença do seu segundo Tito Vilanova dava a sensação ao mundo que o guardiolismo ficava, mas o clube entregou-se ao balneário. Perdeu o seu guru e confiou-se às estrelas.

 

E de repente o pontapé de baliza começou a ser feito em largo.

Os extremos desapareceram e o jogo fluia cada vez mais pelo corredor central, como se não tivesse alternativa. Os laterais tornaram-se ambiciosos mas já ninguém aparecia para lhes proteger as costas. Os médios atropelavam-se e as posses deixaram de ter sentido, de acabar em remate, para ser um perpetuo movimento circular em zonas centrais, inconsequentes e estéreis. A debacle do Real Madrid nas primeiras jornadas de Liga - depois de vencer a Supertaça com superioridade - permitiu uma campanha imaculada, com números melhores que os de Guardiola. Messi marcava mais do que nunca e escondia os defeitos do colectivo, os problemas físicos, a péssima forma de Alexis, o ostracismo que Messi forçou a Villa (que tanta falta fez a Guardiola quando se lesionou no Japão), a fraca aposta na formação e às suas melhores promessas. A equipa vencia - salvo o seu rival directo - a todos os outros e parecia destinada a mais uma página de glória, mais um sexteto de titulos. Mas a filosofia começava a perder-se, o modelo de Guardiola, nas conferências de imprensa, no balneário, no relvado, ia desaparecendo progressivamente e começava a emergir a ditadura do balneário, jogando sempre os mesmos, o núcleo duro, fechando as portas a novas soluções porque o overbooking de médios estelares a isso obrigava. O problema que Guardiola via na chegada de Cesc tornou-se real, a equipa forjou um quase 4-2-2-2, com Busquets e Xavi diante da defesa, longe da área, Iniesta e Cesc sempre a meter direcção para o centro e Pedro/Alexis e Messi a deambular pela área mas sem procurar os espaços.

A doença de Tito, que esperemos que seja de rápida resolução, deixou essa realidade ainda mais a nu porque Roura, o homem que preparava os dvds a Guardiola, não é um treinador principal nem um homem capaz de liderar um balneário de vedetas. À distância, a liderança já questionada de Vilanova desapareceu e em campo a equipa entrou em mutismo táctico, incapaz de apresentar alternativas válidas aos problemas que as equipas lhes colocavam. Se Messi aparecia, tudo parecia igual, sem o estar. Mas quando o próprio Messi, obcecado consigo mesmo, decidiu que teria de jogar todos os 90 minutos do ano, para bater recordes, desapareceu, a equipa sentiu-se órfã.

O físico começou a passar factura - como na época anterior fez em Abril - e o argentino, que já tinha perdido o poder de desequilíbrio em velocidade quando as equipas começaram a perceber a melhor forma de o travar com constantes ajudas, secou e com ele toda a voragem ofensiva da equipa. Os números espantosos desapareceram e o Barcelona foi batido futebolisticamente por Milan e Real Madrid. Sofreu para ganhar a equipas menores como um Sevilla com reservas, e começaram a ouvir-se os primeiros assobios no Camp Nou. As dúvidas reapareceram. Messi, um génio incomensurável, começa a sofrer do mesmo mal que era criticado a Cristiano Ronaldo - a realizar o seu melhor ano individual - o de desaparecer nos jogos decisivos. No duelo contra o Madrid em Camp Nou no ano passado foi um fantasma de si mesmo e voltou a sê-lo contra o Chelsea, na dupla eliminatória. Desaparecido durante a Supertaça perdida contra o Real Madrid voltou a sê-lo na dupla eliminatória de Taça. E em Milão continuam à sua procura. Os seus registos melhoram, mas cada vez mais contra equipas secundárias, nos grandes duelos as equipas encontram forma de o anular e Messi ainda não parece ter devolvido o golpe. Talvez porque não está Guardiola, capaz de desenhar um plano para forçar a sua saída da jaula, dar-lhe o ar que necessita e devolver-lhe a confiança. Messi deixou-se prender numa jaula de ouro que ele próprio ajudou a construir à medida que se foi afastando do seu espaço natural e se envolveu no redemoinho de médios blaugrana.

 

A grandeza do plantel do Barça, o melhor do Mundo sem dúvida, pode permitir tudo, incluída uma goleada ao Milan e uma caminhada heróica rumo ao terceiro titulo europeu conquistado em Wembley. A liga está ganha, se não nos preocupamos em excesso com a matemática, e merecidamente porque ao contrário dos rivais, os blaugrana nunca falharam verdadeiramente. Se procurarem mais Xavi e menos a Messi, se a bola volte a sair dos pés de Valdés jogável, se as linhas se abrirem e a posse seja a ferramenta e não o fim, uma equipa do calibre e qualidade do Barcelona pode com tudo. Mas se a equipa falhar o assalto a vencer a máxima prova europeia pelo segundo ano consecutivo, começa a ser necessário para aqueles que se revêem na fórmula intocável para seitas e obtusos de "melhor de todos os tempos", que se recordem que as equipas que realmente marcaram um antes e um depois na história da competição fizeram-no vencendo recorrentemente a competição, cinco vezes consecutiva no caso de uns (Real Madrid), três vezes no de outros (Ajax e Bayern Munchen) e até duas vezes (Liverpool e AC Milan). A este Barça falta-lhe essa consistência na vitória e se perder o troféu este ano ficará com o magro espólio de duas taças em meia década, algo que dista da imagem que deram nos relvados e ecoaram nas páginas escritas por todo o planeta futebol. Com Guardiola o caminho para o êxito fazia-se pensando, sobretudo, em si mesmos. Nas fragilidades do colectivo e como melhorar a forma de jogar e de as ultrapassar. Perdia-se (Sevilla, Inter, Madrid, Chelsea), mas com a cabeça alta e asfixiando o rival. Com Vilanova - e Roura, que passava por ali e não tem culpa do peso que lhe está a cair em cima - o Barça abdicou da essência guardiolesca, decidiu defender-se com a bola, rodear-se de artesões e esperar, esperar e esperar e como o físico não permite mais e a cabeça parece ter-se bloqueado, talvez hoje muitos dos adeptos do clube se tenham dado realmente conta do quão importante era para o projecto um génio chamado Guardiola.

 

PS: Eu defendo a liberdade de expressão de qualquer pessoa, mesmo que não esteja de acordo com nada do que diz. Faz parte da minha educação e dos meus valores. Se alguém quer acreditar e afirmar que 1+1 são 24, quem sou eu para lhe tirar essa alegria de viver num mundo particular? A seita que rodeia a cultura do Barça porque é cool e vanguardista presumir de saber tudo sobre a biblia blaugrana (quando no fundo nem sabem quem é Laureano Ruiz), continua a achar que 1+1 são 24. Que o Barcelona joga melhor que todos, que joga particularmente melhor que as equipas que o derrotam, que o sistema é perfeito e suficiente, que Messi nunca se engana e tem um mau mês...quem o diz está no seu direito absoluto. Que muitos defendam os seus pontos de vista a partir do insulto pessoal, simplesmente deixa a nú as suas carências, a diversos níveis, a cobardia do mundo virtual permite comportamentos que cara a cara seriam impensáveis. E este grupo no fundo é uma seita porque parte para um debate com a premissa "eu certo, tu errado; eu o bem, tu o mal" e isso, no fundo não é um debate, é um monólogo. Não conheço ninguém que não defenda que este Barcelona do último lustro é uma das melhores equipas de todos os tempos, e nos debates trocam-se opiniões que nos enriquecem a todos porque colectivamente, e eu o primeiro, cometemos sempre erros. Mas só quem vive na base do monólogo e do 1+1=24 é capaz de achar-se dono absoluto da razão. Felizmente a realidade acaba sempre por colocar a cada um no seu sítio e quando for cool e vanguardista mudar a cassete muitos irão fazê-lo porque na realidade, não é de futebol que gostam: é deles próprios!



Miguel Lourenço Pereira às 10:25 | link do post | comentar | ver comentários (24)

Terça-feira, 26.02.13

Gareth Bale é o melhor jogador que actua fora do circuito de grandes (ou milionárias) equipas. Sê-lo-á, seguramente, por pouco mais do que cinco meses. O seu talento e a forma como se transformou num todo-terreno dos relvados ajuda também a explicar a excelente temporada realizada pelo Tottenham. Em White Hart Lane André Villas-Boas começou a deixar o seu selo mas é habitualmente o génio individual do galês quem resolve os problemas do sistema do técnico portuense.

Caminham no terceiro lugar da Premier League (o último que garante acesso directo à Champions League) e vão agora disputar com o Inter de Milão um lugar nos Quartos de Final da Europe League.

Para um clube que, na elite milionária do futebol britânico é gerido com cabeça e sem cometer loucuras, é sem dúvida um feito. Não é uma novidade, Harry Redknapp já o tinha logrado há três temporadas, exibindo um futebol agressivo, vertical e extremamente ofensivo, onde havia pouco espaço para a pausa. Villas-Boas procura exactamente o oposto, reduzir as velocidades do jogo dos ingleses, transformá-los numa equipa mais continental, capaz de dominar o campo, manter a bola e ser eficazes na área contrária. Não tem sido um processo fácil. Para um treinador a quem o talento criativo é tão importante como contar com jogadores capazes de decifrar os espaços, arrancar a temporada e perder Rafael van der Vaart e Luca Modric é um problema. Especialmente se os seus substitutos, Dembelé e Dempsey, são jogadores de um perfil muito diferente. O antigo jogador do Fulham aporta à equipa londrina o que Villas-Boas exigia a Moutinho na sua etapa no Porto. Contenção, trabalho táctico e precisão na distribuição. No último terço do campo, a eficácia de Dembelé é notável, mais de 90% de acerto nos passes realizados na Premier. Mas é um jogador de trabalho sobretudo, não de criação, de explosão no momento ideal. Dempsey também é um atleta trabalhador mas nem tem o espírito de sacrifício de Dembelé nem a capacidade de marcar diferenças em espaços curtos e acaba por perder-se demasiado no modelo aplicado por Villas-Boas. O 4-3-3 que o técnico defendeu no Porto transformou-se num 4-2-3-1 e apesar da linha defensiva estar começar cada vez mais a assimilar a sua mensagem de linha alta, pressão constante e apoio ao meio-campo, é no ataque que o Tottenham se torna numa equipa diferente.

 

Villas-Boas arrancou o ano com jogadores desequilibrantes nas alas.

Kyle Walker é um lateral veloz, protótipo do defesa que encanta o futebol inglês, mas com um deficiente posicionamento defensivo. Foi responsável de vários golos sofridos pelos Spurs e cada vez que sobe para dobrar o extremo direito, obrigado o meio campo a tapar o seu espaço. Quando Walker não recua, ou o faz lentamente, provoca os desequilíbrios no miolo que tanto desesperam ao português. Do lado esquerdo Assante-Ekkoto e Kyle Naughton seriam o espelho do lateral direito mas com a dupla Dawson-Gallas a encontrar-se com a concorrência de Caulker, muitas vezes é o belga Verthongen quem parte do lado esquerdo, garante uma maior fiabilidade defensiva, reforçada pela incorporação definitiva de Hugo Lloris ao onze. No ataque, Lennon tem confirmado ser um extremo hábil e veloz mas tacticamente pouco consciente do seu papel, sobretudo com as subidas pelo seu corredor de Walker. Permite aos Spurs abrir o campo pela direita mas é pouco incisivo nas diagonais, ao contrário do que Villas-Boas conseguiu com Varela e James Rodriguez, na sua etapa no Dragão. É no lado oposto que está a chave do sucesso do clube: Gareth Bale.

Bale começou com extremo no Southampton e foi progressivamente readaptado a lateral por Redknapp. Foi a partir de trás que destroçou o campeão europeu, Inter, em dois jogos históricos da fase de grupos da Champions League em 2010 e tornou-se num símbolo da nova geração do futebol britânico, com apenas 20 anos. A pouco e pouco foi regressando à sua posição original, mas a sua (omni)presença é cada vez mais evidente. Está em todo o lado. Pela direita, usando do seu pé esquerdo para ganhar espaço na diagonal. Na esquerda, abrindo o campo e arrastando a marcação, cada vez mais implacável, deixando espaços para o meio-campo ocupar. Mas sobretudo pelo centro. Bale reconverteu-se na ponta-de-lança do modelo de Villas-Boas. O técnico português, que não encontra nem em Defoe (actualmente lesionado), nem em Adebayor (recém-chegado da CAN) um avançado matador, colocou Bale virado para a baliza, forçando o islandês Sigurdson a actuar do lado esquerdo. No meio Bale controla o jogo, abre os espaços, remate quando pode e atrai a marcação para si, soltando os seus colegas de ataque. A chegada de Holtby, o genial médio alemão - mais um produto da formação germânica da última década - para render Dempsey e as entradas pontuais no onze de Sandro, Huddlestone e do lesionado Parker, garantem ao meio-campo pulmão para segurar as linhas da equipa e dão a Bale a liberdade com a qual se sente tão cómodo. Dizer hoje em dia que o galês é um extremo é faltar à verdade, Bale, como Messi e Ronaldo, transformou-se num jogador total e é a chave do esquema de sucesso do Tottenham.

 

Villas-Boas seguramente pensava em aplicar o seu 4-3-3 com o galês emulando a Hulk, Lennon no papel de Varela e Defoe como avançado centro, mas as lesões, suspensões e circunstâncias múltiplas, obrigaram-no a reconsiderar. Foi dando esse passo atrás que o portuense ganhou uma equipa, coesa, sem estrelas individuais, mas capaz de entender que o futebol não é só vertigem. Mesmo assim, futebolisticamente, o Tottenham continua muito mais a parecer-se a uma equipa britânica, ao estilo de Redknapp, do que aquilo que Villas-Boas gostaria de implementar, com um jogo mais rendilhado com Holtby, Dembele e Parker no meio e o uso das alas como elemento diferencial. Na ausência de ponta-de-lança, não surpreende ninguém que Bale comece cada vez mais a aparecer aí. Há muito que o fabuloso jovem de 23 ultrapassou os espartilhos tácticos, demonstrando-se sentir-se cómodo em qualquer posição da linha de ataque. É às suas costas que o Tottenham caminha e Villas-Boas, seguramente consciente de que o perderá em Junho, já pensa num novo modelo, mais ao seu gosto, onde Holtby será, seguramente o actor principal.



Miguel Lourenço Pereira às 14:47 | link do post | comentar

Quinta-feira, 21.02.13

Da última vez que vi, o futebol continuava a ser um jogo decidido por quem marca mais golos. Como qualquer outro desporto, o golo resume a essência do jogo. No entanto, nos últimos anos, graças ao sucesso espantoso do projecto de Pep Guardiola, surgiu uma legião de puristas que tentou transformar as regras do jogo a seu belo prazer. O golo, esse momento estranho, quase pecaminoso, passou a um segundo plano. O importante era a possessão, os largos minutos de posse de bola, aquilo que verdadeiramente definia, qual Star Wars, os brancos e os negros, os bons e os maus. Em Milão, como já sucedeu no passado, o golo voltou a por as coisas no seu lugar. Aquele onde o futebol realmente gosta de estar.

 

É possível uma equipa ser dona e senhora da possessão e, ao mesmo tempo, ser absolutamente inconsequente?

Ser inofensiva, tímida, sem coragem de enfrentar o jogo de frente, de procurar transformar a sua superioridade teórica, reconhecida por próprios e estranhos, em algo palpável? Seria fácil dizer que não, que nunca se chega a esse extremo, mas jogos como o que opôs o AC Milan ao Barcelona em San Siro diz-nos que há sempre espaço no futebol para o ridículo. Quando uma ideia se começa a levar demasiado a sério, cai no fundamentalismo absoluto e perde toda a sua relevância. Foi o que passou ao Barça.

Guardiola, provavelmente o treinador mais importante do futebol europeu da última década, partiu sempre do conceito da possessão para algo mais profundo, mais palpável. O seu primeiro esboço, o forjar do Pep Team que venceu num ano natural seis títulos, era uma equipa que queria a bola para atacar, para marcar. Superou o registo goleador, desmontou os rivais com tremenda facilidade e ganhou, por mérito próprio, o direito a ser considerada como uma equipa superlativa, um fiel sucessor do Milan de Sacchi ou do Ajax de Kovacs e Michels. Nos três anos seguintes, quase sempre com os mesmos protagonistas, a equipa continuou a aplicar os ensinamentos do técnico mas foi, progressivamente, levando demasiado a sério o santo e senha da possessão. Foi perdendo eficácia, finura, exactidão. Caiu por duas vezes em meias-finais da Champions League por ser incapaz, a todos os níveis, de gerar um plano alternativo, um esquema que desse a tanta posse um sentido claro, o do golo. Ao contrário de Cruyff, um técnico que partia para cada jogo com três planos, o Barcelona de Guardiola foi tornando-se plano e previsível para os seus rivais. Não deixava de ser, tecnicamente, a melhor equipa com diferença, aquela que melhor sabia manejar a bola e os tempos. Mas para rivais mais aguerridos, eficazes, capazes de abdicar de ter a bola para controlar o espaço, os seus pontos frágeis tornavam-se evidentes. Por isso perdeu uma Copa del Rey, uma liga e duas Champions League que, à partida, pareciam suas por direito divino. Por isso perdeu ontem em Milão. Por não saber jogar a outra coisa.

 

Ouvindo os profetas da seita da possessão, génios da bola como Xavi Hernandez, jornalistas conhecidos e bloggers desejosos de ter um pouco de atenção e afecto, parece que o futebol é um jogo que foi disputado erradamente por todos nos últimos 100 anos. E que, do nada, a luz desceu à terra e iluminou um conjunto de apóstolos, transmissores da verdade absoluta, destinados a evangelizar o mundo.

No final dos jogos começou a debater-se mais a equipa que mais possessão tinha do que aquela que realmente tinha sido mais perigosa. Aquela que tinha procurado fazer das suas armas algo concreto. Porque a posse é uma arma ou, pelo menos, foi assim concebida desde os dias de Hogan, Meisl ou Sebes. Uma arma de ataque. A forma de ter a bola impedia o rival de a ter e, portanto, tornava a equipa mais ofensiva por natureza. Mas com a bola nos pés era preciso depois partir para o ataque. As equipas que defenderam a posse sempre foram incisivas. Se por um lado génios como Chapman se preocupavam mais com os espaços do que com a bola - e a corrente do cattenaccio de Rocco e Herrera levou a ideia ao extremo - na Holanda a posse voltou a ser o santo e senha, mas como disse um dia o brilhante Muhren, um dos integrantes do Ajax de Michels e Kovacs, a posse só servia se a equipa fosse vertical. Tanto passo horizontal, dizia, irritava-o profundamente porque tirava sentido ao jogo. E assim era.

Na final do Mundial de 1974, em Munique, a Holanda perdeu porque, depois de marcar o golo inaugural, dedicou-se a praticar sucessivos rondos pelo campo, sem causar o mais mínimo perigo a Sepp Maier. Os alemães, uma equipa tecnicamente inteligente mas mais hábil ainda em velocidade, marcaram dois golos e depois asfixiaram a possessão estéril dos holandeses. Essa capacidade de acção e reacção faz de todas as equipas capazes de manobrar distintas realidades verdadeiros colectivos. Entendem que o futebol se adapta às circunstâncias e quando é necessário operar um inesperado roque, estão dispostos a fazê-lo para salvar o rei e ganhar o jogo. O Barcelona vive no mutismo intelectual de acreditar que a sua fórmula resulta por inércia, independente do rival. Tem a ideia e, sobretudo, as individualidades para isso. O génio de Messi, Iniesta, Xavi, Busquets, Puyol, Piqué, Alves, Alba, Fabregas, Pedro e Valdés resume uma geração irrepetível, verdadeiros maestros a entender a mensagem. Mas não é eterna e quando o génio individual, sobretudo do argentino, tem um mau dia, fica a nu a fragilidade do planeamento colectivo. Em San Siro o Barcelona não teve uma só ideia futebolística que não passava por trocas sucessivas de bola em zonas inofensivas, oferecidas à consciência por Allegri ciente que a equipa só é perigosa quando troca a bola comodamente na linha da grande área. Espaços fechados, imaginação zero, a derrota tornou-se inevitável. Em Barcelona a equipa da casa até pode vencer por 5-0, tem jogadores, adeptos e talento para isso. É a melhor equipa do mundo em individualidades e sentido colectivo. Mas também é um projecto que começa a deixar demasiado evidente as suas falhas estruturais. Golos sofridos com qualquer rival, imprecisão no passe, ausência de goleadores alternativos, avançados que continuam a penar no banco para não fazer sombra à estrela da companhia e uma possessão cada vez maior em zonas recuadas e menos asfixiante onde realmente importa, na cara do rival. Em Milão não houve desculpas, não houve remates, não houve rondos, não houve futebol.

 

É interessante ver a ultra dependência que toda a ideia de jogo do Barcelona tem dos golos de Messi. Uma equipa que faz da posse de bola uma obrigação divina mas que depois depende apenas de um indivíduo é um projecto condenado a fracassar no momento em que esse jogador individual falhe ou desapareça. O Ajax de Michels e Kovacs brilhou sobretudo porque, apesar do génio e liderança de Cruyff, todos defendiam, todos atacavam e todos marcavam. A verticalidade do jogo dos holandeses desconcertava os rivais mais do que as suas largas possessões. Em Barcelona, a necessidade de trocar a bola até à pequena área para La Pulga empurrar para mais um recorde é um filme que os rivais já conhecem. As equipas mais humildes da liga espanhola pouco podem fazer para o contrariar, mas na Europa são cada vez mais os clubes que entendem o modelo que o ausente Vilanova tem aplicado. Pode não ser bonito, especialmente quando as pessoas vivem bombardeadas com a ideia pregada até à exaustão que defende, imagine-se, que só existe uma forma de jogar bem ao futebol (contrariando 100 anos de história, apenas porque sim), e que tudo o demais devia ser castigado com o purgatório, inferno e um fim-de-semana numa favela de Monróvia. Mas sem ser esteticamente interessante, é o que melhor representa a essência do futebol. Eu tenho a bola quando quero ter, eu remato quando quero, eu marco quando remato: eu ganho. Mais de um século de grandes treinadores, equipas e jogadores não nos dizem que a posse é mais importante que o golo. E o presente só acaba por confirmar que, sem uma ideia mais ousada e uma flexibilidade emocional necessária, a posse de bola pode ser algo profundamente estéril.



Miguel Lourenço Pereira às 16:26 | link do post | comentar | ver comentários (25)

Sexta-feira, 15.02.13

Se o futebol fosse um jogo de perfeição absoluta, como defendia o inimitável Gianni Brera, todos os jogos acabariam empatados a zero. O esforço do ataque seria anulado pelo trabalho da defesa e a partida de xadrez seria eterna. Cruyff falou sempre da necessidade do erro para que o golo exista. E se a cultura futebolista actual parece estar determinada em retirar de uma vez por toda o mérito a quem marca, a verdade é que há erros colectivos e individuais que são impensáveis em jogos de alta tensão e máxima importância. No Santiago Bernabeu, o Real Madrid começou a perder por um erro tremendo não de um, mas de quatro jogadores diferentes. A anatomia do erro é também o espelho de uma equipa descoordenada.

 

Comecemos ao contrário.

Cristiano Ronaldo eleva-se quase três metros no ar. Levita, esperando que a bola, centrada de forma perfeita por Angel Di Maria cruze o ar até encontrar a sua cabeça. David De Gea pode estirar-se, Patrice Evra pode simular reagir, mas são meros espectadores, personagens secundários de uma execução perfeita, de um dos golos do ano, a prova de que Ronaldo é, para o bem e para o mal, um dos futebolistas mais completos da história do futebol, capaz de correr como Bolt, saltar como Jordan e rematar com a violência de um míssil.

Um golo que ninguém se atreve a discutir, mas que, inevitavelmente, é o reflexo de um par de erros importantes. O erro de Rafael, repetido vezes sem conta durante o jogo, que permite ao argentino Di Maria centrar com comodidade. O erro de Jones, que devia estar pendente de Cristiano Ronaldo e nem se vê na imagem. O erro de Evans, que abandonou a zona de acção e encontra-se em terra de ninguém permitindo que o melhor jogador do mundo no ar dispute uma bola com o mais baixo dos defesas da equipa inglesa, o lateral esquerdo Patrice Evra. Três erros que facilitaram o golo mas é difícil pensar que Di Maria não podia ter encontrado um milésimo de tempo e espaço para centrar e que Ronaldo não fosse capaz de bater Jones e Evans no ar para marcar. Sem erros não há golos no futebol, mas há erros mais graves que outros. O caso do golo inaugural do jogo, está no diâmetro oposto do marcado pelo Real Madrid.

Não que não seja um excelente golo, executado de forma perfeita, desde o momento em que Wayne Rooney lança um pontapé com conta, peso e medida desde a linha de fundo até ao gesto técnico de Danny Welbeck, medindo perfeitamente o tempo de salto, a área da cabeça com que remata e o seu posicionamento no relvado. Entre Rooney e Wellbeck desenha-se um lance que é muito difícil de prever e mais ainda de travar, um golo de bola parada de laboratório, pensado e executado brilhantemente. E no entanto, com todo o mérito que tem a equipa do Manchester United, o golo do dianteiro inglês podia ter sido evitado mais facilmente se não tivesse sido acompanhado de uma série de erros que uma equipa que aspira a tudo pode permitir.

 

Na época passada a defesa do Real Madrid realizou uma excelente época colectivamente.

Individualmente, tanto Sérgio Ramos como Pepe protagonizaram o seu melhor ano, combinando bem desde o momento em que o andaluz passou para o centro da defesa, substituindo Ricardo Carvalho, e com Iker Casillas foram peças chave no título histórico conquistado pela equipa da capital espanhola. Mas houve erros, durante a temporada, que custaram caro ao Real Madrid. Nos Quartos de Final da Copa del Rey, o golo de Abidal no Santiago Bernabeu, o erro de Coentrão e Casillas em Munique e os pontos perdidos de forma consecutiva em dois jogos com livres directos apontados no final dos jogos contra o Málaga e Villareal, onde o capitão merengue podia ter feito mais. Mas disputar 50 jogos num ano sem cometer erros é impossível e o resultado final da época compensou no final os percalços. Este ano é diferente.

Não se trata só do descontrolo absoluto do balneário, uma mancha negra no curriculo de um treinador que se fez famoso à custa, precisamente, de ser um disciplinador tremendo e um homem que trata os jogadores como família. Nem é apenas a péssima forma física e o estado psicológico de jogadores fundamentais como Benzema, Higuain, Di Maria, Ramos e Marcelo. É, sobretudo, um acumular de erros sucessivos que desta vez foram fatais. As bolas paradas, entre livres e cantos, têm sido mais do que nunca o calcanhar de Aquiles deste Real Madrid, e o jogo com o Man Utd deixou uma vez mais essa realidade em evidência. Mourinho tem razão quando diz que a responsabilidade não é sua.

Os lances são treinados durante a semana mas nos jogos os erros são sempre individuais. O problema é que são o acumular de vários erros individuais, quase de principiantes, e que custaram pontos em Getafe ou Sevilla, e uma vantagem fundamental para os Red Devils.

Aos 10 minutos de jogo Kagawa envolve-se num lance com Sérgio Ramos. O árbitro assinala canto apesar de nas imagens televisivas se apreciar, na repetição, que o último a tocar na bola é o japonês. Rooney pega na bola e prepara-se para marcar o canto enquanto os jogadores do Real Madrid posicionam-se. Xabi Alonso e Cristiano Ronaldo sem marcador, ao primeiro poste. Benzema um pouco adiantado com Robbie van Persie. Di Maria no poste esquerdo, os centrais Ramos e Varane com Wellbeck e Evans, Coentrão ao lado de Evra e Khedira e Ozil fora da grande área para ganhar a segunda bola.

A bola começa a percorrer a sua trajectória e os erros vão-se acumulando. Diego Lopez faz-se ao lance, previsivelmente para socar a bola, mas arrepende-se a meio caminho, perdendo a sua posição sobre a linha de jogo e ficando em terra de ninguém. Erro número 1. O central Ramos está mais pendente de afastar Welbeck do caminho do guarda-redes que se esquece de procurar ganhar posição e deixa Wellbeck só, à entrada da pequena área, livre para cabecear. Erro número 2. O argentino Di Maria, abandona surpreendentemente o poste para colocar-se atrás do guarda-redes, abandonando a sua posição e deixando a baliza a descoberto. Erro número três. Varane lê o erro de Ramos e decide lançar-se sobre Wellbeck para impedir o inevitável mas com isso deixa só Evans, com 1m92, que pode beneficiar de um desvio do colega ou de um defesa e marcar à vontade. Erro número 4.

A bola encontra Welbeck que, só, sem oposição, pode executar o seu excelente movimento técnico de cabeça. Lopez está fora da baliza e não consegue impedir a trajectória da bola mas confia que Di Maria, no poste, possa cortar sobre a linha. Mas Di Maria já não está lá e a bola entra, precisamente, onde este devia estar. Três erros fundamentais para permitir o golo ao contrário. Apenas bastava que um deles não tivesse ocorrido e teria sido muito difícil a Wellbeck marcar. Ou porque Ramos não o deixaria cabecear, ou porque Lopez, na linha de golo, podia parar perfeitamente a bola ou, em último caso, porque um jogador no poste esquerdo poderia sempre desviar o remate. Nada disso aconteceu e o golo do inglês pode ser suficiente para dar o apuramento ao Manchester United. E deixa a nú os problemas reais de uma equipa com muito orçamento mas com pouco futebol.

Erros como este têm sido o habitual na versão 2012-13 do Real Madrid, algo impensável para uma equipa de topo europeu. Contra os rivais mais humildes e os adversários com maior prestigio, erros de marcação, erros em entradas desnecessárias, erros de posicionamento, erros nos passes e erros nos remates. A história deste Real é uma história de erros próprios e são esses enganos, quase infantis, que têm permitido aos rivais colocarem-se, vezes sem conta, em vantagem. Cruyff dizia acertadamente que o futebol é um jogo onde quem ganha é quem menos erra. A este ritmo parece claro que, por muitos golos que marque Cristiano Ronaldo, por muitos passes perfeitos faça Ozil ou kms corram Khedira ou Alonso, com tantos erros é impossível que o campeão de Espanha não passe um ano em branco. Um branco muito negro!



Miguel Lourenço Pereira às 14:04 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quarta-feira, 30.01.13

Quando Johan Cruyff despediu Zubizarreta no aeroporto de Atenas, depois da humilhante derrota contra o AC Milan de Capello, seguramente não imaginava que teria de passar uma década até que o Barcelona encontrasse um guarda-redes capaz de interpretar perfeitamente a sua filosofia de jogo. Os adeptos blaugrana esperam agora não ter de esperar uma década mais até que Victor Valdés tenha sucessor. Porque o seu papel no modelo Barça é fundamental.

 

Quando Valdés erra, com os pés, a maioria dos adeptos e analistas activa de imediato o modo crítico.

Esquecem-se, talvez, que o catalão é um dos poucos guarda-redes do Mundo que utiliza os pés mais do que as mãos. É isso que se lhe exige, foi para isso que foi treinado desde pequeno. Valdés é o sucessor mediático de Grosics, o polémico e incendiário guarda-redes húngaro da Aranyascap orientada por Gustav Sebes. Quando os ensinamentos da escola danubiana viajaram, primeiro para Amesterdão e depois para Barcelona, a ideia de um guarda-redes capaz de jogar com o resto da equipa vinha na mala. E ficou.

Ao contrário dos guarda-redes sul-americanos, que com os pés desafiam a sua natureza e sonham com algo mais que só o sonho potrero pode aspirar, Valdés utiliza os pés com critério. O mesmo critério que todos os outros colegas de equipa e, tantas vezes, superior ao de muitos rivais. Numa equipa de tracção à frente, que concede poucas ocasiões, o trabalho do guarda-redes é fundamental. Valdés foi herói em Paris, quando Henry teve a Champions League no bolso. Foi também fundamental em aguentar o assédio do Manchester United em Roma, até que a combinação Iniesta, Xavi e Messi começou a funcionar. E durante estes últimos dez anos foi o único guarda-redes que soube compreender a natureza da baliza do Camp Nou. Entre o basco Zubizarreta e ele passaram uma infinidade de guarda-redes, todos de características muito distintas mas com um ponto em comum: nenhum sabia manejar bem a bola com os pés.

Nem Vitor Baía, nem Ruud Hesp, nem Roberto Bonano, nem Francesc Arnau, nem Robert Enke, nem sequer Pepe Reina, forjado na mesma filosofia, entenderam tão bem como Valdés o que lhe era exigido. Ser o primeiro a fazer jogar.

 

Guardiola defendeu sempre Valdés como peça nuclear do seu modelo de jogo.

Não só porque sabia sair a jogar com os pés, oferecendo o homem extra na defesa que ele sacrificava para enviar ao ataque. O seu 3-3-4 às vezes tornava-se num 4-3-4 porque Valdés subia no terreno e oferecia uma alternativa de passe extra ao jogador com a bola. Os colegas sabiam que podiam confiar nele. Errou. Algumas vezes errou. E por ser o guarda-redes, o último homem à face da terra, a equipa pagou o preço. Mas não abdicou da sua forma de jogar. Não por um erro, nem por mil.

Muitos criticaram o técnico catalão pela sua fidelidade a Pinto - um guarda-redes bem distante da escola blaugrana mas peça fundamental no balneário - ao fazê-lo jogar a final da Copa del Rey que Cristiano Ronaldo decidiu com um golpe de cabeça impossível a favor do Real Madrid. Mas nesse momento a transcendência de Valdés não se notou no golo sofrido mas sim nos problemas que os catalães encontraram ao sair com a bola controlada. Na semana seguinte, Valdés voltou a demonstrar a sua inteligência de jogo, não saindo com a bola controlado mas com um lançamento longo preciso que leu o desmarque de Pedro com a mesma inteligência de jogo que um passe de Xavi teria tido uns metros à frente. O Barcelona marcou e fechou a polémica meia-final da Champions League. Seria a terceira medalha ao peito do guarda-redes, o mais laureado dos guarda-redes espanhóis em provas da UEFA.

Dez anos depois de van Gaal lhe ter dado a primeira oportunidade, Valdés está farto.

Sofreu a pressão dos maus anos de Rijkaard, nunca conquistou definitivamente a admiração do próprio público, o mesmo que duvidava do valor de Xavi e Iniesta antes da chegada de Guardiola, e não gostou sobretudo de ter sido o bode expiatório das derrotas e o nome silenciado nas vitórias. É um homem de desafios extremos, amante do surf e dos desportos radicais, filho de uma geração da Masia que, salvo ele, não triunfou como se esperava. Antes dele já estavam Puyol e Xavi, logo a seguir veio Iniesta, Messi e companhia, mas ele surgiu sozinho. E sozinho vai partir. Deixará saudades e sobretudo um vazio que os directivos ainda não sabem como preencher. Porque, fiel à sua formação, é um guarda-redes único. Na cantera blaugrana há jovens com potencial mas que precisam de muitos anos e minutos para chegar à excelência que este projecto exige. E no mercado não deixa de haver grandes guarda-redes, como Vitor Baía o foi, mas cujo o valor fica para segundo plano quando a exigência de enquadrar-se num esquema já custou tanto a Ibrahimovic ou Villa, no outro extremo do terreno de jogo.

 

Valdés nunca se consagrou como o grande guarda-redes espanhol porque a sombra de Casillas é imensa e incontestada. Mas o seu percurso profissional é um exemplo perfeito de como uma filosofia de jogo é capaz de gerar jogadores para posições distintas mas com o mesmo ADN. Qualquer que seja o clube que o receba, terá um reforço radicalmente diferente à sua forma de jogar. Qualquer que seja o seu substituto, perderá sempre na comparação com a essa entrega ao projecto Barça. No final, Valdés e o Barcelona estão feitos um para o outro e a separação, como sucedeu com Lennon e McCartney, trará mais problemas a ambos do que soluções.



Miguel Lourenço Pereira às 12:22 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Quarta-feira, 16.01.13

Poucas figuras geram tanta admiração genuína no universo do futebol contemporâneo como Pep Guardiola. O filho mais popular da Masia, aquele que melhor entendeu uma mensagem de quase um século, que deambulou pela Europa até descansar em Barcelona, opta agora por voltar às origens. Guardiola é o grande sobrevivente da escola centro-europeia. Com o Bayern Munchen regressa à bacia do Danúbio, onde tudo começou.

Não foi propriamente em Munique, mas seguindo a corrente do Danúbio, que por ali passa perto, que o futebol europeu ganhou vida.

Os ensinamentos de Jimmy Hogan, a doutrina de Hugo Meisl, os debates nas casas de café de Viena, a multi-etnicidade do império austro-húngaro semeou as ideias que foram inicialmente forjadas na Escócia e que driblaram a escola inglesa para tornar-se no modelo continental por excelência. Das margens do Danúbio, essas ideias voaram para leste e mergulharam em Kiev e para oeste onde encontraram o paraíso em Amesterdam. Foi aí que se começou a gerar a paternidade do Barcelona actual, entre os ensinamentos de Michels e as lições aprendidas de Cruyff. Quando ambos chegaram a Barcelona, encontraram-se com Laureano Ruiz e tudo fez sentido uma vez mais.

Josep Guardiola tinha acabado de nascer e com ele uma nova forma de encarar o futebol.

Quando assumiu as rendas da equipa principal do Barcelona até a sua sombra desconfiava. Um primeiro jogo e uma derrota, frente ao Numancia, seriam a prova viva de que há vida para lá dos resultados imediatos. Guardiola meteu a mão no baú e recuperou não só a herança recente do cruyffismo, que a gestão pouco autoritária de Rijkaard tinha perdido, como foi mais atrás na história. Bebeu futebol como poucos, falou com os mentores, viu as imagens do passado e resgatou ideias que plasmou no seu caderno mágico. Com ele o Barcelona foi o Dream Team de Cruyff. Mas também foi o Barça das Cinco Copas, também foi o Ajax do Total Voetball, também foi a Aranyascap húngara, também foi o Brasil de 70, La Máquina do River e a herança do Wunderteam.

A cada toque de bola no meio-campo do Barcelona era a história que voltava à vida. Messi fez de Hidgekuti, de Pelé, de Di Stefano. A Xavi a bola acarinhava-o como fazia com Gerson ou Suarez e Sindelaar, Kubala e Rivelino transmutaram-se num jogador quase albino nascido nas profundezas manchegas chamado Iniesta. Esse trio mágico ajudou o Barcelona a posicionar a coluna vertebral do seu futebol correctamente depois de um período de caminhadas forçadas e curvadas de olhos no chão. Desafiou o Mundo primeiro e a posteridade depois. E venceu.

 

A chegada de Guardiola a Munique representa o regresso a essas origens, o ciclo que se completa.

Mas é também uma decisão com olhos postos no futuro. No mais imediato e no mais longínquo.

Pep sonha com ser o sucessor de Alex Ferguson em Old Trafford. É absolutamente normal. Não se trata só do clube mais bem organizado do Mundo como a cultura futebolística dos Red Devils não tem igual. Desde Busby que é um local de lenda absoluta e tem os meios financeiros para manter-se na elite. Uma formação que pode nutrir a equipa principal e uma geração que daqui a três anos chegará praticamente ao seu final. É aí que Ferguson quer dizer adeus. Ele adia desde 2002 a sua retirada mas sabe que não aguentará mais do que um triénio da máxima exigência. Falou com Guardiola várias vezes no último ano e prefere o seu perfil, educado, futebolisticamente culto e ambicioso ao de um José Mourinho de quem é, não obstante, amigo pessoal. Guardiola seria o gentleman que Busby sempre foi, mesmo nos momentos mais difíceis.

Mas até 2016 o génio de Guardiola tinha de voltar aos terrenos de jogo. Um ano sem um dos mais importantes pensadores recentes do futebol já é sofrimento suficiente. E claro, se sonhas treinar o Manchester United não ajuda ter no curriculum uma passagem recente por Manchester City ou Chelsea, para dar dois exemplos mais endinheirados, ou Arsenal e Liverpool, clubes cuja filosofia e a de Guardiola são similares.

Sem Inglaterra como destino, Guardiola tinha poucas opções. Mas ao contrário de outros, nunca foi um homem interessado no aspecto financeiro do jogo e a oferta do PSG, que alguns equacionam, foi rapidamente descartada. A do Milan também mas, por outro motivo. Em Itália Guardiola acabou a carreira de jogador e viveu os seus piores momentos. Foi acusado de doparse, declarou-se inocente e demorou meia década a prová-lo em tribunal. É um país que não traz as melhores recordações. E Berlusconi um homem que, apesar de tudo, não lhe inspira confiança.

E é aí que entra o Bayern Munchen.

Outros treinadores descartariam o Bayern porque não tem o mesmo glamour de outros clubes europeus. E no entanto poucas instituições venceram tanto na história como eles. Poucas instituições são tão bem geridas - desde a formação até ao departamento financeiro - como eles. Poucos clubes podem ambicionar manter-se na elite durante tantos anos sem com isso destruir o orçamento à base de compras milionárias, como eles. O Bayern Munchen é o herdeiro da escola centro-europeia e ao longo dos anos 70 demonstrou-o plenamente. Depois entrou numa espiral que o fez duvidar da sua própria natureza. A imprensa chamou-o Hollywood FC. Durante essa era dominaram a Bundesliga mas perderam prestigio na Europa. E aprenderam a lição. Desde há uma década que são, a par do Barcelona, o clube perfeito em vários níveis.

No Allianz Guardiola terá à sua disposição talvez o terceiro melhor plantel do mundo. Estão lá Neuer, Luis Gustavo, Javi Martinez, Schweinsteiger, Kroos, Ribery, Robenn, Shaquiri, Gomez, Lahm, Boateng, Badstuber, Dante e companhia. Tem uma formação repleta de promessas imensas como Emre Can. Tem um bloco sólido de directivos que conhecem o clube de lés a lés. E jogam na liga mais emocionante e em ascensão do futebol europeu. Não se pode pedir mais.

 

Com Guardiola ao leme o Bayern Munchen pode perfeitamente lograr o que van Gaal e Heynckhes não conseguiram. Já não se trata só de recuperar a hegemonia interna - em cinco anos três títulos nacionais são uma óptima média - mas também regressar à glória europeia. O plantel tem todas as condições para assimilar a filosofia de toque, posse e ambição do treinador catalão. Não é a cultura do kick-and-rush inglesa, não é um balneário cheio de prima-donas pagos a peso de ouro, é um clube com uma profunda cultura futebolística. A mesma que passeou-se do Danúbio até Barcelona, a mesma que se ensina na Masia com paixão. A mesma que Guardiola entende como mais ninguém!



Miguel Lourenço Pereira às 17:24 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 14.01.13

É curioso o sucesso que os treinadores portugueses parecem ter quando partem para outras paragens quando em casa, a verdade é que as suas limitações ficam bastante mais à vista. No duelo que decidirá, mais cedo que tarde, o título de campeão, ficou evidente que ambos os treinadores foram incapazes de apresentar um plano que decidisse no tabuleiro de xadrez a contenda de uma época. Sem o génio individual, o Benfica - Porto tornou-se num pálido reflexo do que um grande jogo de futebol pode ser.

No Verão o FC Porto vendeu Hulk para tapar o imenso buraco financeiro da sua SAD.

Não foi um negócio surpreendente. Na última década o clube da Invicta transformou-se numa plataforma de negócios anual. Todos os anos, quase sem excepção, a sua melhor individualidade é vendida a preço de ouro para reduzir o passivo. Como o dinheiro que entra (entre comissões a ser pagos, alienação progressiva de passes e compras de substitutos) quase nunca chega a cumprir o seu objectivo, muitos perguntam-se qual é a real motivação desses negócios. No final, face à evidência, fica claro que o clube tem tanta confiança na sua estrutura que está preparado a abdicar do poder individual para suster o espírito colectivo. Um espírito que parte de um modelo táctico bastante simples, um 4-3-3, que pode oscilar de processos de transições rápidas, como sucedeu na era Jesualdo Ferreira, a um futebol mais rendilhado e de posse, como aplicou André Vilas-Boas. O treinador actual dos dragões, Vitor Pereira, está a meio caminho. Por um lado gostaria de seguir a escola do seu antecessor no cargo mas a perda progressiva de qualidade do plantel e a falta de alternativas têm-no forçado a um estilo de jogo mais pragmático.

Pereira não é um treinador que tenha no seu ADN a palavra risco.

Não só na aposta em jogadores jovens, sem experiência, mas, sobretudo, porque para ele o 4-3-3 é de tal forma sagrado que numa visita ao seu rival directo é capaz de transformar num médio centro num extremo direito apenas para manter o desenho no tapete verde. O FC Porto de José Mourinho conquistou o Mundo, entre outras coisas, porque mudava num estalar de dedos de um 4-3-3 agressivo a um 4-4-2 em forma de diamante de contenção e controlo. Fosse Vitor Pereira capaz de o fazer e o Benfica teria sido destroçado no jogo da Luz. Se com três jogadores a supremacia no meio-campo já era evidente, com quatro, os dragões forçariam o rival a um futebol mais directo. Claro que Defour não é nem James nem Deco, para fazer a ponte entre o ataque e o meio-campo. Como Izmailov, que podia ocupar o papel, tinha duas sessões de treino, seria um risco, mas um risco controlado. Pereira não gosta de riscos.

Quando se encontrou com o empate, agradeceu, colocou Castro e Ba a cimentar a posição defensiva, abdicou do ataque e esperou pelo relógio, sempre bom conselheiro. Podia ter conseguido um balão de oxigénio importante na luta pelo título mas acabou por contentar-se com manter-se em igualdade de circunstâncias (apesar de ter um jogo menos, que tem de vencer), e uma fidelidade absoluta à cartilha.

 

A venda de Hulk tirou poder de fogo ao FC Porto, poder de decisão, especialmente quando as coisas corriam mal.

Já as saídas de Witsel e Javi Garcia tiveram um impacto muito inferior no modelo de jogo do Benfica. As equipas de Jorge Jesus vivem noutra era, são dos dias da televisão a preto e branco, um período da história táctica em que o meio-campo se começou a definir como elemento nuclear no plano de jogo. Jesus está antes dessa evolução. Para ele o futebol é um desporto frenético, como os primeiros 20 minutos de jogo.

Foi assim no seu ano de campeão, uma equipa de tracção à frente mas que contra rivais directos sofria. E muito. Porque não tinha meio-campo ou, pelo menos, um meio-campo de trabalho e construção. A Europa tem sido a vara de medir do futebol de Jesus e ano após ano tem também exposto as suas fragilidades. Apesar de tentar variar entre o 4-3-3 e o 4-2-4, é na abordagem que o técnico mais perde. Não confia nos seus jogadores mais criativos e prefere os mais rápidos, os mais eficazes e aqueles que fazem do pulmão, antes da cabeça, a sua principal arma.

Sairam Witsel e Javi Garcia, entraram Enzo Perez e Matic, e o modelo não mudou porque a troca por troca, na maioria dos jogos, é entre a defesa e o ataque que joga o Benfica. E jogo de uma forma directa, com dois extremos bem abertos, com dois avançados móveis (habitualmente Lima e Rodrigo), que alargam o campo, permitem a incorporação dos laterais e dos médios, sobretudo a partir de lançamentos rápidos e directos para a grande área. Um dispositivo que funciona perfeitamente com equipas que apostam, quase invariavelmente, num 4-5-1 profundamente defensivo mas que na primeira hora do duelo frente ao FC Porto fica exposto totalmente a uma equipa com mais jogadores no miolo e mais paciência na circulação.

Depois da sequência de erros sucessivos que levam ao 2-2, o meio-campo do FC Porto engoliu previsivelmente o do Benfica.

Faltou-lhe a coragem e capacidade de fazer sangue, a aproximação de linhas na área rival enquanto o jogo encarnado se resumia a lançamentos largos para Cardozo que procurava ganhar a segunda bola no ar para Lima e Gaitan surpreenderem as costas de Fernando. Muito pouco para quem aspira a tanto e no entanto foi suficiente para manter os dragões sobre guarda. Sabiam-se sem falta de alternativas no banco e mantiveram-se fieis ao modelo. Um quarto médio tinha acabado com o jogo definitivamente, asfixiado totalmente o rival. No banco Jesus tinha Aimar e Carlos Martins, jogadores que sabem precisamente fazer isso. Só quando os lançou, e abandonou o seu futebol directo, o jogo se reequilibrou e o Benfica criou perigo realmente a Helton. Ao querer a bola nos pés dos seus jogadores, quis ganhar o jogo. Mas ia tarde. O 4-3-3 do FC Porto não só serve para controlar bem o meio-campo mas também para tapar as investidas rivais e o resultado final tornou-se absolutamente inevitável.

 

No único jogo de uma Liga Sagres cada vez menos atractiva, ficaram evidentes as limitações tácticas dos seus dois protagonistas no banco. É muito provável que a segunda volta, no Dragão, apresente uma abordagem distinta. Até lá é improvável que se acumulem os tropeções e o risco terá de ser maior. Só aí se verá se o coelho escondido na cartola de Jorge Jesus, mais proclive a preparar jogos de forma improvável, pode perturbar o esquema sólido de um Vitor Pereira que espera contar com o elemento diferencial que transforma o seu modelo numa máquina de vencer, o colombiano James Rodriguez.



Miguel Lourenço Pereira às 12:30 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 19.12.12

É inegável que perfume do futebol do Barcelona de Vilanova não se aproxima do aroma apaixonante dos anos de Guardiola. Mas com uma abordagem mais pragmática, o técnico conseguiu um feito histórico que dificilmente será igualado nos próximos anos. Termina a primeira parte do campeonato invicto e com o título no bolso. Entender o Barcelona de Tito é, sobretudo, entender a relação entre o génio de um individuo e o valor de um colectivo perfeitamente oleado.

 

A goleada aplicada ao Atlético de Madrid confirmou que nenhum clube no futebol espanhol está, actualmente, sequer perto do nível do Barcelona de Tito Vilanova. Da mesma forma que Bob Paisley pegou na herança fundadora de Bill Shankly e aperfeiçoou a máquina, tornou-a mais eficaz e pragmática, também Vilanova recolheu a pesada herança de um génio como Guardiola e aproveitou-a da melhor forma possível. 

O Barça de Tito é, mais do que nunca, Messi e mais dez.

O estado de graça do argentino é evidente, a sua fome de golos inaudita e a forma como a equipa se adapta, cada vez mais, ao seu estilo de jogo, transforma o onze num projecto circular em que o argentino funciona como sol, sempre brilhante, sempre presente. Seis jogos consecutivos a bisar, 24 golos em 16 jogos, registos pulverizados e uma liderança silenciosa mas omnipresente, garantem a Tito Vilanova o melhor arranque de sempre da história do futebol do país vizinho. Guardiola perdeu o jogo inaugural, algo que Tito ainda não sabe o que é. A partir dessa derrota em Sória, o Barcelona cresceu e chegou a Dezembro com as mesmas sensações actuais. Mas esse jogo era mais coral, menos dependente do génio individual de Messi. Era o Barça onde brilhava Etoo, onde Henry renascia, em que Pedro começava a aparecer e, sobretudo, em que o trio Iniesta-Xavi-Busquets se mostrava encantado de conhecer-se e jogar juntos. Uma lufada de ar fresco diferente desta máquina assassina e implacável.

Vilanova percebeu, como Guardiola, que tudo tem de rodear Messi. O técnico de Santpedor descartou Ronaldinho, Deco e Etoo quando percebeu que não aceitariam nunca jogar para o argentino e teve de fazer o mesmo com Ibrahimovic e Villa quando estes chocaram com o ego e a fome de golos da Pulga. Foram etapas conturbadas dentro do balneário que ajudaram a desgastar a liderança de Guardiola à medida que Messi aumentava claramente o seu poder dentro da instituição até que se tornou inevitável a saída de um dos dois. Vilanova herdou uma situação resolvida, uma liderança inquestionável (e merecida), e uma equipa oleada e com uma ideia na cabeça: apoiar-se no génio individual de Messi para lograr os êxitos colectivos.

 

Vilanova é, ao mesmo tempo, um treinador extremamente pragmático. 

Na dualidade Pep-Tito, o antigo campeão europeu como jogador era o amante das experiências. Deambulou entre o 4-3-3 e o 4-6-0, reforçando a sua devoção pelo jogo de meio campo. Provou repetir o modelo de Cruyff com o uso de três defesas e muitas vezes alternou o jogo de extremos com o de interiores, garantindo quase sempre que os onzes se mudavam ciclicamente de jogo para jogo. Provou vários jogadores, deu minutos a miúdos da formação e provou que não havia vacas sagradas no balneário. Ao contrário, Tito prefere uma abordagem mais estável.

O seu 4-3-3 é invariável, uma aposta clara num extremo sempre bem aberto (Pedro), um avançado mais móvel que jogue nos espaços deixados por Messi (Cesc, Alexis, Villa), um meio-campo que segure a bola e a faça circular (Busquets, Xavi, Iniesta ou até Cesc) e um lateral mais ofensivo, com o eixo a mutar do lado direito, onde Alves brilhava, para o esquerdo onde o protagonista é agora Jordi Alba. A nível defensivo, Vilanova sofreu uma razia durante largos meses mas o problema não se notou nos resultados porque a cada golo sofrido a equipa encontrava forma de dar a volta. O papel de Messi foi superlativo.

Enquanto a crise do Real Madrid se agudiza e reflecte os números de golos marcados por Cristiano Ronaldo (14 em 16 jogos, menos seis do que logrou na época passada à mesma altura) os de Messi crescem e resolvem, muitas vezes, o problema colectivo. Os rivais do Barcelona encontraram forma de ultrapassar o jogo coral, de encontrar as fragilidades defensivas, de explorar o jogo de posse de bole. O que ainda não encontraram foi uma maneira eficaz de anular de forma consistente a Messi. A derrota em Glasgow provou que só um mau dia do argentino pode impedir a equipa de dar a volta à mais aziaga das situações. Em nenhum caso Tito abdicou do seu modelo, como fez Guardiola tantas vezes, e procurou algo diferente. Tello, Cuenca, Thiago perderam espaço face a um onze mais coral, onde se nota evidentemente o peso dos nomes fortes do vestuário, descontentes com a constante rotação a que Guardiola os votava. Fabregas ergueu-se em protagonista, à custa de David Villa, cada vez mais ostracizado, e Iniesta cada vez joga menos onde está mais cómodo. Nota-se a ideia de Vilanova em privilegiar os homens que ajudou a criar quando foi treinador de juvenis e se cruzou pela primeira vez com Piqué, Messi e Cesc. 

 

Se o titulo espanhol está mais do que garantido, deve-se sobretudo ao respeito que o Barcelona impõe. A grande virtude do processo Guardiola foi criar nos rivais o respeito e o medo absoluto que antes era premissa do Real Madrid. As equipas sobem ao campo conscientes da sua inferioridade, um primeiro passo para a derrota. A bipolaridade do futebol do país vizinho é financeiramente real mas no relvado é ainda maior, surpreendendo só a péssima época de um Real Madrid entregue a um lunático que procura, entre o cerco a jornalistas e jogadores, por um problema insignificante comparado com a falta de fio de jogo alarmante que no ano passado era resolvida com a genialidade individual dos seus grandes jogadores. O Barça de Vilanova não está à altura da cultura futebolística de Guardiola, mas o Liverpool de Paisley também não o esteve de Shankly. Foi no entanto com ele que o clube atingiu a sua época dourada. Resta saber se também nisto, Vilanova será capaz de emular o único homem que venceu três Champions League na história do futebol europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 10:33 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Quinta-feira, 08.11.12

A vitória categórica do Inter em Turim não se limitou a terminar com um ciclo de 49 jogos consecutivos sem perder da Vechia Signora. Numa liga cada vez mais nivelada por baixo, esse feito estaria sempre longe do logrado pelo AC Milan de Capello quando o futebol italiano reinava supremo nos palcos europeus. O grande vencedor do duelo foi Stramaccioni, o jovem técnico de 36 anos que logrou o que os seus três antecessores foram incapazes, saber como lidar com a pesada herança de José Mourinho.

 

Mourinho aprendeu cedo que nunca seria um bom jogador e dedicou-se a treinar. Stramaccioni sonhou sê-lo, mas uma lesão no joelho acabou-lhe com as esperanças e abriu-lhe novas portas. Aos 35 anos, o antigo defesa central do Empoli é mais do que o treinador de moda do Calcio. É a esperança de um futuro melhor para o futebol de um país em choque emocional, com uma selecção aplaudida quase tanto como a ganhadora do último Europeu e uma liga que deprime o mais entusiasta. Há serias possibilidades de não existir nenhum clube italiano nos Oitavos de Final da Champions League e essa realidade deixou de surpreender. O dinheiro acabou, a péssima gestão do futebol de formação começa a fazer-se notar e a qualidade do Calcio caiu degrau atrás de degrau a níveis que nos levam aos anos 70. No meio deste cenário, a série de invencibilidade da Juventus de Antonio Conte funciona como espelho fiel da realidade.

A Juventus não joga bem, não entusiasma, não pratica um futebol fascinante, de encher o olho. É tremendamente eficaz no seu 3-5-2 contido que sabe que a velocidade das peças, nesse jogo de xadrez que é o futebol italiano, conta mais do que qualquer coisa. Uma equipa de valores médios, uma equipa sem estrelas nem jogadores fascinantes, onde Pirlo representa o romantismo dos anos 90 e Giovinco a readaptação a uma nova vaga de futebolistas. Pelo meio estão os Vidal, Isla, Asamoah, Quagliarella, Vucinic e companhia, jogadores que não entusiasmam nem o mais fanático dos tiffosi, que se agarram ao espírito de luta de Marchisio e Chielinni e à promessa gualesa, Paul Pogba, que deixou plantado a Alex Ferguson, que via nele o médio defensivo que tanta falta lhe faz, para acreditar num futuro melhor. Esta temporada, depois do título, a realidade europeia deixou a Juve no seu merecido lugar e os campeões italianos podem falhar, outra vez, o apuramento para a próxima fase. Foram superados futebolisticamente por Chelsea e Shaktar e agora é com eles com quem discutirá o apuramento directo. Dois jogos de matar ou morrer, um formato onde os italianos se movem bem mas muito traiçoeiro. Até porque a derrota inesperada em casa contra os neruazurri reabriu a luta pelo scudetto, até agora adormecida pelo soporífero mas tremendo eficaz futebol bianconero.

 

Stramaccioni é um sinal de esperança mas não é um revolucionário.

O jovem treinador começou no futebol de base e aí aprendeu a ter paciência, a saber o valor da bola e dos tempos de jogo. Começou na Roma e rapidamente chegou ao Inter pela mão de Ranieri e começou a aplicar o seu método de trabalho, inspirado na sua admiração mútua, apesar de aparentemente contraditória, no jogo de Guardiola e na filosofia de Mourinho. O seu impacto foi imediato e pela sua mão o Inter, a tal equipa envelhecida profundamente nos séniores, venceu categoricamente a NextGen Series, um torneio dedicado às esperanças do Velho Continente, uma espécie de Champions League juvenil. Associado ao título Primavera italiano, o seu trabalho deu imediatamente nas vistas e Massimo Moratti, cansado do futebol especulativo de Ranieri, decidiu arriscar como nunca e apostou tudo no jovem técnico nomeando-o treinador principal dos neruazurri.

O técnico entendeu que a herança de Mourinho ainda estava demasiado presente. Benitez e Ranieri, técnicos com quem o português teve sérios problemas dialécticos, nunca entenderam os jogadores que juraram fidelidade ao português e perderam rapidamente o balneário. Stramaccioni jogou as peças certas. Reconheceu imediatamente o mérito de Mourinho, a sua herança e a qualidade dos jogadores a quem muitos tinham passado um atestado de maioridade. Mas também alertou para o seu trabalho com os mais novos dando a ideia de que havia futuro para lá dos campeões europeus de 2010. Acabou a época "roubando" o título ao eterno rival de Milão, um resultado que lhe deu a oportunidade de começar uma temporada desde zero.

Nessa mistura coerente e profissional, Stramaccioni começou a trabalhar, recuperando o 4-3-2-1 de Mourinho mas com uma vivacidade e mobilidade que tinha desaparecido. Reergueu Diego Milito das sombras e associou-o a Antonio Cassano e Roberto Palacio, no lugar do lesionado Wesley Sneijder, para criar um tridente ofensivo mais talentoso do que obreiro. No meio-campo apostou forte no brasileiro Coutinho, que vinha de um ano superlativo no futebol espanhol, e rodeou-o do músculo de Gargano, Cambiasso e Guarin. Ocasionalmente regressou às origens de Herrera com a aposta num médio mais solto e veloz, o japonês Nagatomo. E, sobretudo, encheu de juventude o balneário, homens da sua confiança como Livaja, Mbaye, Bianchetti, Duncan ou Jonathan. Com essa ideia de futebol rápido mas de linhas compactas, recuperou a eficácia, oscilando entre uma linha de três avançados e um meio campo mais trabalhado, consequência dos problemas físicos de Sneijder, Cassano e Coutinho. Uma aposta que começou cedo a dar frutos. Apesar do enfoque no futebol da Juventus e no desafio do Napoli, o Inter rapidamente se tornou protagonista. Sete vitórias consecutivas depois de uma derrota em Siena colocaram os neruazzuri no segundo lugar da tabela, a apenas um ponto da Juve. Pelo meio duas vitórias chave, contra o Milan e a própria Juventus, que garantem que este projecto sabe ser eficaz com os mais pequenos e tremendamente competitivo com os rivais directos. O modelo Mourinho na sua estância italiana.

 

O potencial de crescimento de este Inter é evidente apesar da espinha dorsal da sua equipa continuar a ser composta por homens que vêm dos dias de Mourinho. A evolução, mais do que a revolução, será tranquila e o técnico italiano, conhecedor dos jovens talentos que aí vêm, sabe que tem armas escondidas que lhe podem ser úteis quando a época começar a apertar. Não é ainda uma equipa feita para desafiar os grandes da Europa mas recuperar o domínio em Itália é só o primeiro passo. Com tempo, Stramaccioni pode lograr construir um projecto com claras ambições europeias. Moratti seguramente terá dificuldade em esperar, está-lhe no sangue, mas até agora o jovem técnico só lhe deu razões para sorrir. 



Miguel Lourenço Pereira às 11:45 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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