Sexta-feira, 24.02.12

algo no passado que nos prende eternamente, algemas invisíveis de que realmente ninguém se quer livrar. 150 anos da história do futebol dão para muitos passados distintos mas na era moderna a sua revalorização continua a ser um enigma para muitos. Para a empresa TOFFs tornou-se na melhor forma de fazer negócio. Com a memória, com o passado, com os sonhos que ainda comandam algumas vidas.

 

A moda de ir para os estádios com a camisola do clube do coração nasceu em Inglaterra.

Quando os clubes começaram a entender o potencial da sua própria comercialização, nos arranques da década de 80, os adeptos responderam. Hoje fazem-se três e quatro equipamentos diferentes por ano para capitalizar a fome dos mais novos e dos mais velhos em ter colados ao peito a cor e escudo da equipa dos seus amores. O fenómeno britânico tornou-se global, as grandes marcas fizeram disso uma das principais fontes de rendimento e hoje o lançamento de uma nova camisola é feito com a pompa e circunstância de uma cerimónia de estado. De ano para ano os equipamentos, as cores, os traços vão-se renovando reforçando a condição de imediatismo do jogo. As três riscas de este ano para o ano serão cinco, o ano passado foram só duas e quem imagina se existirão sequer riscas no equipamento de daqui a duas temporadas. A tradição conta cada vez menos e o importante é oferecer um producto novo para seduzir os bolsos dos adeptos, sempre desejosos do futuro. Mas o amanhã não é o único negócio possível. Há quem continue a lucrar com o passado, com a memória de quem não quer esquecer.

Em 1990, em pleno “boom” da cultura dos equipamentos comercializados para adeptos, Alan Finch decidiu recrear a histórica camisola com que o Arsenal disputou a final da FA Cup, a sua primeira do pós-guerra. Comprou o tecido, bordou o emblema e logrou uma réplica idêntica à que se lembrava dos seus tempos de infância. Foi a primeira de muitas.

 

 

A TOFF´s (The Old Fashioned Football Shirts) nasceu em contracorrente com os seus dias e tornou-se imediatamente numa referência absoluta de quem olhava para trás com a mesma ilusão que contemplava o futuro. Finch recrutou uma pequena equipa de desenhadores, costureiros e historiadores e começou a sua própria pequena empresa no sul de Inglaterra. Inicialmente fez-se anunciar em revistas da especialidade, sobretudo as fanzines como When Saturday Comes que viviam então a sua época de esplendor. A grave crise porque passava o futebol inglês, em plena ressaca do Taylor Report, fez reaviver uma profunda nostalgia com os anos dourados da First Division. Os adeptos aderiram em massa à ideia e rapidamente a TOFFS passou a produzir réplicas perfeitas de camisolas clássicas de todas as equipas do futebol inglês. O posterior aparecimento da internet permitiu-lhe criar uma das primeiras páginas webs dedicadas à compra e venda de productos desportivos onde exibiam o seu magnifico portfolio. Pais que queriam oferecer aos filhos pedaços da sua infância, filhos que queriam oferecer aos pais pedaços do seu passado, oferecer uma réplica clássica tornou-se tradição dentro dos fãs hardcores ingleses à medida que o aumento dos preços dos estádios da Premier os afastava dos terrenos de jogo.

A partir de meados dos anos 90 o portfolio da empresa expandiu-se a nível internacional à medida que a própria cultura da venda de marketing das equipas começava a chegar a outros países. Muitos dos productos eram pedidos únicos, de adeptos solitários que procuravam uma lembrança de um momento feliz da sua memória. Adeptos do velho Torino que queriam relembrar os dias de Mazzolla, saudosistas dos dias de Eusébio com a camisola do Benfica, fãs do River Plate e da camisola da La Maquina ou nostálgicos do Ajax de Cruyff começaram a invadir a web de Alan Finch com pedidos tão originais como a camisola que usou Fachetti no dia do seu 100º jogo. Um trabalho que implicava não só conseguir o tecido certo como uma profunda pesquisa nos jornais e revistas da época para garantir a reprodução perfeita. Em quase todas as entrevistas que dá, o seu fundador, Alan Finch reforça a ideia de que o que ele produz não são meras réplicas de camisolas do passado. Réplicas, diz ele, são as que se comercializam hoje, aos milhões, sem identidade. Cada uma das suas camisolas é única, não existe stock e tê-la no peito é algo absolutamente pessoal e intransmissível. Algo que o ritmo de fordização do negócio futebolístico actual é incapaz de lograr.

Hoje a empresa prospera misturando essa paixão pelo passado e a optimização do futuro. As novas ferramentas online permitem recompilar informação e material a uma velocidade impossível em 1990 e a popularidade do projecto é hoje parte da própria mitologia do jogo. Para aqueles que sonharam em sentir na pele uma réplica perfeita da camisola que Pelé vestia na tarde da final do Mundial do México de 1970, (a sua estátua de cera no Madame Tussauds veste precisamente um dessas) a TOFFs tornou-se um espaço fundamental. Os próprios clubes e federações compram lotes de equipamentos do seu próprio passado que ninguém se lembrou de preservar e não há um museu  ou estádio em Inglaterra onde não se encontre um dos seus productos.

 

Numa época onde a velocidade do negócio à volta do futebol parece não conhecer limites, o preço que pode ter a memória começa a fazer cada vez mais sentido. Os adeptos sentem um desapego com o ritmo vertiginoso do negócio que marca o ritmo do futebol de hoje e agarram-se ao seu passado. Talvez o façam sem darem-se conta de que inevitavelmente estão a cair na mesma dinâmica comercial. Mas terá o mesmo preço emocional o mergulho nas memórias mais pessoais do que entregar-se à incerteza do amanhã. O Ser Humano é incapaz de viver sem olhar para trás e o adepto de futebol é só mais um espelho dessa necessidade. A TOFFs limitou-se a ver as cifras, as ilusões e as expectativas. O resto já é história!



Miguel Lourenço Pereira às 12:34 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 16.02.12

O Real Madrid deve toda a sua fama a um só jogo. O primeiro grande épico europeu visto maioritariamente por quem tinha televisor na Europa Ocidental à época. Sessenta anos depois, mais do que nunca, a mitologia futebolistica é definida inexoravelmente pelo poder da televisão e da curta memória que há se transformou no espelho desta sociedade.

 

Messi é o melhor jogador da história.

Pudera! Cada lance seu é visto em primeiro, segundo, terceiro plano, em movimento, em 3D, a cores e alta definição. Desliguemos agora o modo irónico antes que pensem que falamos a sério. O génio do argentino é único, mas o seu papel na história do jogo deve muito ao poder das novas tecnologias, da era dos twitters, facebooks, HDs e 3Ds.

A televisão, sempre a televisão, define os padrões de qualidade e superioridade de uns sobre os outros. A mitologia moderna não se baseia na palavra escrita ou perdida no tempo. É escrava da imagem. Messi é escravo da sua própria imagem da mesma forma que o Real Madrid ainda sobrevive no inconsciente humano pela força inequivoca das suas camisolas brancas brilhantes naquela tarde em Glasgow. A televisão provocou um antes e depois na sociedade ocidental e o futebol como espelho perfeito do mundo em mutação viu-se inevitavelmente presa à mesma realidade. A memória deixou de fazer sentido se não for acompanhada de um clip de video subido ao You Tube. Hoje não há ninguém que escreva sobre futebol que não se limite a repetir a mesma ladainha que foi vendida com imagens coladas à lapela. Pelé, Maradona, Cruyff e Di Stefano, o quarteto imenso. Real Madrid, Ajax, Liverpool, Milan, Manchester United e Barcelona, as seis equipas mais emblemáticas nos últimos 60 anos. Consequências directas da popularização do espectro televisivo. A memória deixou de ser algo valorizável. Quem a tinha e quem presenciou outros tempos foi morrendo e o seu testemunho recolhido por uma infinita minoria, ostracizada por aqueles que se agarram à imagem como um jesuita à cruz. Os mitos do passado não televisado deixaram de existir, a história foi despromovida à condição de anedoctário e os heróis a cores suplantaram os a preto e branco da mesma forma que os Messi a 3D parecem mais que os Maradona de planos únicos de camara.

 

Alfredo Di Stefano, génio que chegou ao final da sua carreira quando a televisão estava apenas a dar os primeiros passos, entrou nesse top 4 quase como por gesto de condescendência.

Nenhum jovem de menos de 40 o cita sem ser por pura imitação snob e pretenciosa e nem mesmo Messi ou Maradona, seus conterrâneos, o têm como referência. Nessa tarde ele manobrou à vontade, como sempre, o jogo colectivo do Real Madrid. Marcou um hat-trick (Puskas marcou um poker) e entrou nesse imaginário televisado por pouco. Quem o viu jogar diz dele maravilhas que nem as imagens seriam suficientes para ilustrar vários clips de best of, desses que fizeram das corridas de Ronaldo, das roletas de Zidane, dos bailados de van Basten ou os remates de Cristiano Ronaldo, imagens de marca internacionais. O hispano-argentino, pouco dado a falsas modéstias, no entanto sempre defendeu que ele nunca foi tão bom como Pedernera e Labruna, os mentores de La Maquina, da qual restam poucas imagens em video. Outros sobreviventes de eras pretéritas falaram da aura de grandeza de Sindelaar, Meazza, Friedenreich, Piola, Finney e Hidegkuti como génio tão brilhantes como os Cruyff, Baggio, Romários, Keegans e van Basten que se seguiram. Mas sem video ninguém acredita que o génio fosse algo real quando os relatos radiofónicos ainda eram a excepção, e não a regra. O futebol homérico, inspirado em descrições e metáforas mitológicas, para a maioria dos espectadores e analistas actuais é puro folclore. Não conta, não existe, não faz sentido.

 

Esses são os mesmos que vivem sem entender que o impacto do Brasil de 70 deve-se tanto ao génio dos seus jogadores como ao facto da camisola amarela estridente ter sido vista, pela primeira vez, em televisores a cores, debaixo do calor asfixiante do meio-dia mexicano. Os mesmos que exaltam o presente e votam no “flavour of the month” por cima de nomes ilustres que nunca viram ou quiseram ver. Os que reduzem a mitologia futebolistica ao poder da televisão e esquecem-se de que o jogo já era centenário quando os aparelhos começaram a invadir os lares da Europa. Acreditar que o génio, a arte, o talento só existem porque passou na televisão é tão néscio como pensar que qualquer tempo pretérito é melhor que o actual. Entre esses dois mundos, essas duas filosofias, encontraremos certamente a virtude. O problema é que muito poucos se dão realmente ao trabalho de a procurar.



Miguel Lourenço Pereira às 15:25 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Terça-feira, 14.02.12

Como é que um dos países mais fanáticos pelo futebol é também um dos que menos literatura desportiva é capaz de gerar? Morbo, obra de um inglês, explica como os espanhóis preferem falar a escrever sobre um jogo que mais do que um duelo desportivo é o espelho de um país perdido em si mesmo.

 

É dificil para os espanhóis escreverem sobre o seu futebol porque mais de cem anos depois dos mineiros da firma de Rio Tinto terem sido os primeiros autóctones a tocar uma bola com os pés, o país continua a centrar-se essencialmente nas disputas politico-sociais entre as suas cidades mais emblemáticos. Em nenhum outro país – talvez com a excepção de Itália – o futebol teve um contorno tão profundamente sectário e o papel do beautiful game como reinvindicação seccionista ainda hoje é fundamental na afirmação desportiva das principais entidades do país vizinho.

Tudo isso, mais do que o jogo em si, provoca o chamado “morbo”, palavra unicamente espanhola e sem tradução literal. Termo que se entende pelo prazer especial de triunfar nesse contexto de confronto dissimulado, mas real e fundamental na identidade social de castelhanos, catalães, galegos, bascos, andaluzes, manchegos, leoneses, asturianos, cantábros, valencianos e toda essa amálgama de estados disfarçados de regiões que compõem o estado espanhol. Nesta amalgama onde o futebol desempenha um papel fundamental, nasce Morbo.

 

Um autor inglês radicado em Espanha consegue ter o distanciamento necessário para viajar pelo país, pela história e pela memória de multpilas realidades que fazem do futebol espanhol algo especial. Phil Ball começa na Andaluzia, onde se reencontra com o nascimento do Recreativo de Huelva, o “Decano” espanhol que na realidade nunca foi uma equipa de prestigio para terminar o livro com uma nota de atenção especial ao sucesso recente da selecção espanhola.

Pelo meio os duelos entre Barcelona e Madrid, os papeis das segundas equipas das principais cidades, a rivalidade sevilhana, o papel das autonomias regionais como catalizadores populares do jogo e, sobretudo essa divisão nacional entre bandos que transformou a liga num duelo de estrelas pagas a peso de ouro pela ambição desmedida do Real Madrid e Barcelona. Num país que fuzilou o futebol regional fora dos grandes nucleos urbanos, numa era onde os espanhóis encontraram finalmente uma identidade desportiva depois de décadas traumatizados por exemplos de sucesso que chegavam de fora, tanto aos clubes como à selecção, Morbo é uma leitura fundamental para entender os parêntesis que muitas vezes ficam por explicar. Ball utiliza o humor britânico, mas apresenta um livro que respeita perfeitamente as idiossincrasias sociais espanholas e o retrato final são mais do que notáveis.

 

Phil Ball começou a escrever Morbo quando o futebol espanhol ainda não tinha entrado na sua era dourada. Cinco anos depois da primeira edição, com os respecticos ajustes, ler Morbo torna-se ainda mais relevante porque permite, sobretudo, antecipar o ideário que cimentou as bases do sucesso de um país que faz do beautiful game a grande arma social dos dias modernos, o último descendente de velhos conflitos medievais que hoje tomam forma com uma bola de futebol nos pés.



Miguel Lourenço Pereira às 13:12 | link do post | comentar

Quarta-feira, 08.02.12

O futebol ensina-nos a amar o imponderável, o incerto, o surpreendente. Nas provas a eliminar, onde os orçamentos contam menos e a paixão vale mais, de tempos a tempos apaixonamo-nos uma vez mais, sempre uma vez mais. Miranda de Ebro tem o coração de Espanha, o coração de um futebol que não acredita apenas em estatisticas, números e que vive do sonho e da incerteza. No final a derrota espelha a inevitabilidade, mas a eliminatória convida a amar, só mais uma vez, o imponderável de uma bola redonda à solta num tapete voador imaginário.

Há só uma hora de distância entre ambas ciudades, mas podia bem ser um Mundo.

Nada parece unir a cosmopolita Bilbao com a pequena Miranda de Ebro. A cidade burgalense tem tudo para encarnar o velho ideario español de pueblo. Não tem mais de 40 mil habitantes, uma pequena amostra de indústria local, meia dúzia de serviços e as lembranças de um passado heroico nos dias pretéritos da Reconquista. A equipa, absolutamente amadora, pugna na II Divisão entre campos diminutos, viagens que se eternizam em autocarro por essa cordilheira norte que rasga a Peninsula e uma ilusão tremenda de sonhar com a inesperada promoção. Todos conhecem as suas limitações, todos sabem o que valem e, no entanto, e isso é futebol, todos provaram na pele o que é contrariar as expectativas. A equipa chegou atè às meias-finais da Copa del Rey, um feito que não se vivia há várias décadas e que espelha o profundo afastamento entre os 40 clubes profissionais e as restantes formações que completam o mapa do futebol espanhol. E chegou depois de bater-se contra os seus, as equipas pequenas que se vão degladiando até à entrada dos gigantes. Mas, sobretudo, depois de acabarem com os legitimos sonhos e aspirações de três primodivisionários. A giria chama-lhes tomba-gigantes, os adeptos de Villareal, Santander e Espanyol conhecem-nos melhor como pesadelos.

 

Claro que o futebol não é Hollywood e as histórias de final feliz escasseiam tanto que já ninguém acredita nelas.

O duro golpe da realidade estava para chegar. Na proximidade de uma hora em autocarro, em plena catedral de San Mamés. O Athletic Bilbao de Marcelo Bielsa venceu a eliminatória ao modesto Mirandês porque soube respeitar o imponderável, entendeu que os nomes não ganham jogos e apresentou-se com a profunda reverência de quem vai disputar uma final europeia. Um respeito que dá mais valor ainda à gesta mirandesa e que está muito para lá dos números (1-2 na primeira mão, 6-2 ontem na “Catedral” basca). O rei de copas, a par do Barcelona, jogou o melhor que sabe jogar e que é muito. O Mirandês entrou em campo lembrando talvez o velho espirito do amadorismo britânico, o reflexo presente do imaginário que deixou na sua época a caminhada tranquila dos Corinthians. Abdicou do seu equipamento histórico, rojillo, por uma camisola idealizada pelo seu treinador, o entranhável Carlos Pouso, ferveroso admirador do Borussia Dortmund. Encarou o duelo como uma paixão, sem sentir-se preso a contratos publicitários, obrigações ideológicas e palavras de ordem. Jogou futebol pelo futebol, perdeu bem e saiu debaixo de um coro imenso de aplausos que vão demorar em esquecer.

Como sempre sucede, quando alguém tão pequeno surge numa festa reservada aos grandes, o nome fica. Fica como lembrança do que o futebol pode ser e tantas vezes não é. Fica como o perfume do tapete verde e o cheiro a suor de um balneário humilde muito para lá das conferências de imprensa cheias de flashes e o cheiro a desodorizante de estrela.

 

Com a derrota o Mirandês conseguiu a glória eterna da memória, algo que muitos aprenderam a valorizar mais ainda que a certeza humana do metal. Para eles a final foi ontem, para o Bilbao a 36 da sua história será em Maio. Cada um tem o seu encontro com a glória. A uns coube desfrutar da essência do jogo, a outros tornarem-se reis de copas de Espanha. O futebol segue sempre por caminhos cruzados, mas, de vez em quando, lá se lembra de encontrar-se numa noite inesquecível.


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Miguel Lourenço Pereira às 14:01 | link do post | comentar

Segunda-feira, 06.02.12

A invenção do futebol é um tema demasiado complexo para falar-se em verdades absolutas. Mas ninguém duvida que quem levou o beautiful game ao resto do mundo e o tornou no fenómeno sociológico de maior importância dos últimos 100 partiu da Grã-Bretanha. Em Those Feet o sociologo inglês David Winner analisa essa reinvenção, divulgação e os subsequentes traumas que o futebol deixou no universo britânico.

Não há qualquer ironia no titulo da obra. Nem no seu subtitulo na edição original, “A Sensual History of English Football”. Porque, como explica Winner, sensual e futebol inglês são conceitos que nunca funcionaram bem na mesma frase. E muito menos na mesma realidade. O estilo de escrita de Winner é sempre convincente.

O seu livro anterior, o brilhante Brilliant Orange, dedicado à sua profunda admiração pelo futebol holandês, ainda hoje é justamente considerado como um dos livros, que melhor souberam explorar as realidades paralelas que definem o jogo. Em Those Feet o autor aplica a mesma fórmula, mas, ao futebol inglês, aos traumas que levaram à sua origem e à incapacidade dos ingleses em evoluir com o tempo. Desde os dias em que o pontapé a uma bola redonda foi utilizado como uma arma de arremesso contra os medos victorianos da sexualidade juvenil, do seu apego à masturbação e os seus desvios homossexuais, até à profunda discriminação a que os profissionais do jogo foram votados, sendo obrigados a cobrar um salário minimo que os colocava na escala mais baixa da sociedade trabalhadora do Reino Unido. Winner explora essa idiossincrasia que distingue o estilo de jogo proletário do futebol inglês, sempre apoiado nesse ideário dos colégios de Oxbridge (Oxford, Cambridge, Eton) onde era a valentia e a coragem os aspectos mais valorizados, muito por cima da classe, do manejo da bola e da vontade por ganhar a qualquer custo.

 

Traçando paralelos com a cultura continental, Winner adentra-se na própria psique inglesa e nos imensos complexos de inferioridade que se foram formando ao longo dos anos com argentinos, italianos e alemães, carrascos habituais de um país que continua a jogar com o mesmo ideário romântico do entre-guerra e que se mostrou incapaz de tomar parte em alguma das grandes metamorfoses tácticos dos últimos 50 anos num papel de liderança. Those Feet é um magnifico pretexto para entender porque é que os ingleses falham como selecção nacional de forma recorrente nos grandes palcos ao mesmo tempo em que os seus clubes, mais abertos à influência continental que a cinzenta FA, conseguiram adaptar-se às evoluções do futebol continental.

 

Livro escrito de forma brilhantemente sedutora (e sensual), a leitura permite viajar por episódios pouco conhecidos, heróis anónimos que a história não quis recordar, passos fundamentais na popularização do jogo e, sobretudo, momentos que reforçam o imaginário dos bravos leões britânicos que ainda olham para o futebol como um reflexo da carga da brigada ligeira, muitas vezes infrutifera, mas sempre com a máxima honra!



Miguel Lourenço Pereira às 13:07 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 24.12.11

De pequeno sempre tive uma profunda reverência à fleuma britânica. Olhava cinicamente para o jogo pausado que vinha do outro lado do Altântico e ambicionava ser capaz de sentir-me tão à vontade com a bola nos pés como o mais vulgar dos artesões holandeses. Mas em Itália encontrava o meu consolo, sentia a minha alma palpitar de outra forma. Ali o jogo belo era-o por um sem número de motivos, cada um mais atractivo do que outro. Hoje o Calcio vive horas a fio na penumbra da dúvida sobre um futuro que não termina de desenhar-se nos céus. Talvez por isso o ame mais do que nunca. Talvez por isso sinta este fascínio sem igual...

Onde uns vêm com desdém eu mastigo com devoção.

A bola rola pesarosa por um tapete que não chega à imagem verde que a mitologia nos ensinou mas que, se pudesse falar, contaria histórias de dez mil e uma noites sem pregar olho. O posiconamento dos vinte e dois jogadores roça a perfeição. O erro é o castigo, a exigência é máxima. Se o acordeão se move para o lado o espelho acompanha. Três, quatro, cinco passos, não há espaço para mais, mover-se é um desafio tão exigente como não falhar...o passe, o remate, o corte, o posicionamento. Nenhum futebol do Mundo é tão exigente como o Calcio e por isso mesmo mergulhar profundamente na sua idiossincrasia não deixa de ser um sério desafio.

Nasci com uma bola nos pés e aí ela foi ficando, ano após ano, à medida que ia encolhendo e eu aumentando de tamanho. Tornava-se fácil apreciar o leque de estrelas que via nos jogos disputados em Espanha. Ou vibrar com o jogo frenético e tão desorganizado da Premier League, esse jogo que aprendi a ver como o original quando, realmente, era apenas um hiato numa história que mudou muito ao longo dos últimod 100 anos. Em provas de selecções tinha os meus fetiches, habitualmente países pequenos com esse ar de superioridade moral a quem a posse e o toque transmitem uma sensação de impotência ao alheio. Mas no final, Itália era uma perdição.

Crescer na época dourada do futebol italiano forçosamente alterou a minha perspectiva mas hoje, muitos anos depois de perder a conta às grandes equipas que via, continuo a sentir algo especial sempre que vejo aqueles estádios semi-vazios, aquele relvado apertado no miolo e aquelas camisolas azzuri quando a Primavera se despede de dois em dois anos para dar lugar ao Verão. Itália tornou-se naquela mulher que todos admiramos mas poucos têm coragem de confessar aos amigos. Porque não é a mais bonita, porque não é a mais sensual ou a mais excitante. Mas que nos consegue mover só com a picaresca do olhar.

 

Aprendi que a bola no Calcio é um elemento tão importante como a chuteira, a altura da relva e o nome do árbitro.

Essa devoção quase absurda de uns conseguia fazer-me sentir ainda mais atraido por aqueles que viam o jogo com o mesmo apetetito que um xadrezista de topo olhava para o tabuleiro por estrear. As peças colocadas, as jogadas ensaiadas vezes sem fim e no final o inevitável cheque mate. Como diria o imenso Gianni Brera, para o italiano o jogo perfeito seria sempre um 0-0, algo que o adepto comum seria incapaz de suportar porque olha para o futebol como uma forma de livrar-se das penas do dia a dia. Da mesma forma que a maioria dos espectadores nas salas de cinema preferem comédias, melodramas ou cinema de acção também os seguidores da bola gostam de golos, sprints, fintas espantosas e irrepetíveis e emoção. Passar hora e meia a ver o relógio mover-se, timidamente, à medida que os ponteiros medem a tensão de ambas as equipas, definitivamente, não é para qualquer um.

Com o Calcio aprendi que a disciplina vale mais que as corridas com o coração nas mãos tão habituais da mentalidade morrer com as botas calçadas da Premier. Ou o brilhantismo técnico, tantas vezes inconsequente, da Liga Espanhola. Os jogadores em Itália são diferentes de todos os outros. Tecnicamente podem ser tão ou mais dotados mas psicologicamente vivem num mundo à parte. São capazes de ler um jogo em 94 minutos, de saber controlar os tempos, as emoções os suspiros. Encaram cada jogo com o mesmo profissionalismo de uma cimeira de paz, sempre pensando nas consequências de cada acção. A diplomacia do futebol italiano aproxima-o, mais do que nenhum outro, à realpolitik, a mesma que destroçou a anarquia romântica do Brasil de 82 ou que rasgou as casas de apostas em 2006. Os italianos são, talvez, dos poucos que entendem o futebol verdadeiramente como algo colectivo e mostram uma impressionante capacidade conciliar o individuo com o todo, a arte com o oficio. Baggio, Zola, Del Piero, Totti, Cassano, Pirlo valem tanto como Gattuso, Conte, Ancelloti, Baresi, Maldini, Tachinardi ou Cannavaro. Têm a injusta fama de futebol defensivo - e são talvez uma das melhores canteras de guarda-redes e centrais do Mundo - e no entanto ninguém esquece a fome goleadora das equipas de Sacchi e Lippi, o respeito que ouvir os nomes de Rossi, Vialli, Mancini, Chiesa, Delvechio, Montella, Ravanelli, Inzaghi, Toni ou Pazzini supõem para o rival. Talvez por viverem num país estreito, os italianos sempre preferiram canalizar o seu jogo pelo corredor central. Não há extremos ou laterais ofensivos que abram o campo, a bola discute-se com o mesmo fervor que a relva. E com a mesma exactidão. O relógio continua a soar, lá ao fundo, numa qualquer piazza de eclesia perdida no meio do belle paese, e o jogo segue, sem pressas, sem essa vontade de agradar que tanto parece fazer falta aos demais.

 

Com o passar dos anos aprendi a amar cada futebol pelo que é, descubrindo as suas virtudes e defeitos e hoje é dificil dizer que exista algum estilo, alguma escola que não me apaixone de certa forma. Ruivas, loiras ou morenas, com bola, sem ela, altas, baixas, muito ou pouco peito, atrás com 5 à frente com quatro, no meio com sete... o futebol, como o sexo feminino, só me desperta sensações positivas e experiências únicas. Ver o Chivas de Guadalajara, o Hearts of Oaks ou o Hellas Verona tornaram-se vivências, por si só, únicas na sua emoção. Mas o meu olhar acaba sempre perdido nos Alpes, viaja pelo Pó, senta-se na baía de Napoles e mergulha no Mediterrâneo. Como com as mulheres, e não se entende o futebol italiano sem as mulheres italianas, no final só há uma que me preenche verdadeiramente. Lembro-me daquele por do sol e penso no Calcio, a bola continua a girar, o acordeão de jogadores move-se lado a lado, a cabeça bem levantada e a vida faz-se eterna debaixo do limoeiro...



Miguel Lourenço Pereira às 00:06 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Segunda-feira, 19.12.11

poucas fotos que conseguem encapsular o sentido de um jogo tão brutalmente complexo como o futebol. Nenhuma o faz tão bem como este momento em que o mundo - a bola - pára aos pés de um dos jogadores que melhor a souberam entender. À sua frente, o caos. E não um caos qualquer, uma desordem organizada, uma concessão ao desespero de um segundo que logo desaparece sobre um manto de rigor absoluto. A Argentina do "Pelusa" perdeu o jogo frente à melhor Bélgica de que há memória, pioneira na organização defensiva na década que redefiniu o conceito, mas ganhou a história com uma foto que perdura na memória.

 

Maradona recebe a bola. Só.

Diante de si, seis jogadores belgas. Seis jogadores de elite, vice-campeões europeus, totalmente desorientados pelo seu movimento de corpo. Pendentes do seu próximo movimento, da decisão que pode mudar o curso do jogo, da história. A bola cola-se aos pés do jovem astro argentino, debaixo do olhar quase impotente de homens que sabem encontrar-se com algo a que os gregos antigos simbolicamente chamavam de semi-deuses. Poucos jogadores individuais tiveram tanto impacto no jogo como Diego Armando Maradona. Poucos jogadores deram a sensação de surpresa e terror num rival como o Pelusa nesta imagem. Curiosamente, como os não golos de Pelé em 1970, esta imagem tornou-se mais representativa do seu génio do que muitos dos seus golos. O poder do individuo contra o colectivo.

Claro que o lance acabou imortalizado e foi desactivado poucos instantes depois. Não foi um desmarque impossível mas sim um livre indirecto e os homens belgas tinham formado uma barreira que rapidamente se desactivou diante do argentino que, no meio da floresta de homens de vermelho, acabou por perder a bola. Travado várias vezes em faltas (que hoje em dia valeriam mais do que uma expulsão), a exibição do menino que falhou o Mundial de 78 e que no ano seguinte se transformou em estrela precoce no Japão, foi catalogada como desapontante. Era o seu primeiro jogo no Camp Nou depois de ter assinado com o Barcelona e, sobretudo, o primeiro jogo importante com a Albiceleste vestida e o 10 estampado nas costas, como uma cruz. Maradona tentou, jogou e fez jogar, mas a foto acabou por contradizer o que se viveu nos 90 minutos.

 

O poder de uma imagem muitas vezes é suficiente para dar uma imagem oposta ao real.

Nunca em nenhum momento isso foi tão verdade como este frame. O aparente desnorte dos jogadores belgas dá a ideia de uma equipa sem ideais, sem estilo, sem disciplina, submetida ao génio de um só homem, de um poeta de chuteiras. A imagem que melhor imortaliza o papel do individuo entra em choque com um jogo onde se reforçou um conceito que faria escola nos anos 80: o papel táctico do colectivo.

A Bélgica de Guy This tinha-se tornado, desde o final dos anos 70, no exemplo perfeito do que é o futebol de hoje. O talento individual foi colocado ao serviço do bem colectivo, as estratégias defensivas de contenção, pressão e - sobretudo - do jogo com o fora-de-jogo (algo idealizado pelo belga Raymond Goethels, treinador do Anderlecth, durante a década) como armas preferenciais para desactivar o rival. Kempes, Maradona e companhia viram-se superados por essa defesa sempre pronta a dar um passo em frente neutralizando as diagonais dos homens das pampas. Apesar de contar com génios individuais como foram Eric Gerets, Jan Ceulemans, Vandereycken ou Coeck, todos submergiram num só elemento, quase indistinto, que basculou durante os 90 minutos em linhas compactas que anularam o jogo mais lento e previsível de uns campeões do Mundo que (como em 1990) chegaram com a convicção de que a sua superioridade técnica natural seria suficiente.

Mas a Bélgica não era uma equipa qualquer, como César Menotti devia bem saber. Vice-campeões europeus dois anos antes, os belgas representavam a corrente mais conservadora e eficaz do futebol europeu de então, o oposto do futebol espectáculo protagonizado pela França de Platini. Só uma Alemanha tão bem organizada mas com um Bernd Schuster implacável foi capaz de superar a espantosa organização colectiva dos belgas em Itália e neste Mundial de Espanha os belgas acabaram apenas por cair diante da eficaz Polónia de Lato e Boniek na segunda fase de grupos depois de um arranque memorável. O golo de van den Bergh silenciou um Camp Nou disposto a prestar vassalagem ao seu novo ídolo e demonstrou que, apesar de uma imagem valer mais do que mil palavras, um individuo não deixa de ser um variante inferior ao poder de um colectivo durante longos 90 minutos.

Maradona, qual guerreiro cercado pelas tropas rivais, teria dois anos depois a sua desforra, apontando os dois golos que bateram os belgas nas meias-finais (a organização voltou a ser a sua grande arma contra soviéticos e espanhóis) mas aí o número 10 contava atrás de si com um colectivo cujo o ideário billardista se aproximava, mais do que nunca, ao dos homens de Thys. No lance imortalizado há metade da equipa argentina sem marcação e não sabemos se estão de braços no ar a pedir a bola ou se admiram, estáticos, como todos, o momento. Ao ver o jogo, no entanto, entendemos que a realidade é sempre mais complexa do que parece. Maradona recebe a bola numa posição complicada, abandonado, e todos os que se encontram na sua linha de visão estão bem presos pela teia defensiva belga. O passe mais óbvio torna-se presa fácil dos rivais que roubam a bola, a voltam a perder e depois logram armar de forma perfeita a ratoeira do fora de jogo que tão bem  aperfeiçoaram.

Num dos duelos mais apaixonantes do torneio ficou clara a tendência táctica de um jogo que se começava a preocupar cada vez mais com o aspecto defensivo e que via extinguir-se figuras individuais capazes de decidir, aproveitando os espaços, jogos por si só. Nesse momento Maradona representa o eclipsar de uma era que só ele saberia prolongar durante uma década onde o futebol de ataque, despreocupado e inconsequente, foi desaparecendo gradualmente. O grande público lembra-se melhor da derrota de um Brasil inocente frente a uma Itália perfeita mas foi no primeiro jogo do torneio, neste duelo de abertura, que se anunciou o futuro. Por muito que o olhar de terror de Coeck, De Schrivjer, Vercauteren, Gerets, Milecamps e Baeck nos permita imaginar o contrário. Nesse jogo de ilusões que é o futebol às vezes isso é tudo o que precisamos para sonhar.



Miguel Lourenço Pereira às 09:03 | link do post | comentar

Sábado, 17.12.11

Sabia André Villas-Boas que trocar a cadeira de sonho por uma cadeira electrocutada tinha os seus riscos e apesar de parecer uma mudança fácil a decisão de trocar o FC Porto pelo Chelsea sempre pareceu mais complexa do que se possa imaginar. O projecto desportivo de Abramovich chegou a uma dessas encruzilhadas onde realmente se julga a condição de grandeza de um clube. O técnico português foi chamado mais por essa crença do magnata russo nesse futuro respeitável do que propriamente numa filosofia de resultadismo que orienta projectos onde o dinheiro fala sempre mais alto. Resta saber quanto vale a fidelidade do russo a uma ideia...

Pouco fica quando o dinheiro acaba e, mais tarde ou mais cedo, ele acaba mesmo.

Treinar um projecto desportivo que está assente no livro de cheques é um risco porque a cobertura pode um dia falhar e revelar uma realidade cheia de cinzentos escuros e negros. Hoje ninguém aceitaria treinar um Blackburn Rovers endinheirado e no entanto isso foi o que Kenny Dalglish fez quando os Rovers eram o Chelsea dos 90s e quebraram um mandato dictatorial do melhor United de Ferguson. Equipas como o Manchester City ou o Chelsea, por muito passado respeitável que tenham, sempre foram membros dessa classe média futebolística, irmãos pequenos dos grandes rivais urbanos e, portanto, perdendo o prestigio tinham de o compensar com algo. O dinheiro.

Só que projecto assim normalmente têm prazo de validade. Se o dinheiro é curto - e quem se lembra de Peter Risdale? - acabam depressa quando o banco começa a exigir mais do que o que dá. Se o dinheiro dura vários anos é, habitualmente, quem o investe que se farta de mais do mesmo e procura uma noiva loira de mamas falsas, um novo iate de luxo, um clube nas Américas e um hotel nas Arábias. Quando o dinheiro se vai vai-se tudo com ele e só os clubes que apostaram no prestigio histórico - por muito mal que andem de dinheiro - conseguem sobreviver com dignidade em dias de penúria. Os outros - lembram-se do Matra Racing? - caem no esquecimento. Esses clubes vivem o momento, o sonho e precisam de homens que sintam essa necessidade de armar tenda em qualquer lado para triunfar. José Mourinho foi o homem ideal para Abramovich porque era um treinador com a vista noutro lado desde o primeiro dia. O seu impacto é imediato, o seu sucesso exprimido até ao tutano e depois, et voilá, o adeus a tempo e horas prevê a catástrofe. O Chelsea pós-Mourinho até fez melhor figura na Europa (foi a uma final da Champions, perdida pelo azar de Terry e a fraqueza mental de Anelka) e voltou a vencer a Premier, mas essa aura de projecto novo atractivo perdeu-se. Mais do que Abramovich se fartar - e o dinheiro começou a chegar em menor quantidade - foi o mundo que se fartou do Chelsea. Os adeptos procuraram outros ódios de estimação (olá City), os jogadores descobriram que havia destinos mais atractivos e os rivais perderam-lhe o respeito. Em quatro anos o Chelsea deixou de ser um ogre temido a ser mais um de muitos clubes de top que têm prazo de validade quando os cheques deixaram de chegar definitivamente. O iate de Abramovich já conheceu melhores dias.

 

No meio deste cenário de luxúria desportiva, chega com uma garrafa de Porto vintage um tal André Villas Boas a Londres.

Não é um Special One porque as imitações raramente funcionam e o seu sucesso no FC Porto deveu-se a muitos factores e só um deles lhe corresponde directamente. Cómodo no clube do coração, chegou a um momento da sua vida onde podia perspectivar um futuro repleto de titulos portugueses e alguns brilharetes europeus aqui e ali. Mas esse prestigio que é treinar o FC Porto não deixa de ser enganador num mundo de tubarões da alta finança e como o mais cínico dos Humphrey Bogarts podia presumir, isso não era suficiente. Londres atraía pelo passado mas sobretudo pelo futuro. O problema, está claro, era o presente.

Villas-Boas viveu na pele a era Mourinho. Sabe o efeito do sadino nos seus ex-jogadores e sabe que depois deste sair estes nunca mais voltam a ser os mesmos. Essa orfandade emocional, esse físico destroçado por anos de exigência máxima são difíceis de compensar e o Chelsea de Mou continuava a ser o mesmo cinco anos depois, anos em que Abramovich tentou vários modelos sem nunca se sentir satisfeito. O problema dos novos-ricos do futebol não é o dinheiro que gastam mas a sensação de que o fazem sem ter uma só ideia. O Barcelona gasta todos os anos verdadeiras fortunas mas, pelo menos, vive uma ideia de jogo à que é habitualmente fiel e que lhe permite dar continuidade à estrutura do clube. No caso de entidades como o Chelsea (olá City) vê-se o enfoque no imediatismo e nunca se pára para pensar o que se quer para o amanhã. O Chelsea é um clube de possessão ou de contra-golpe? De pressão alta ou de deixar jogar? De jogadores com uma entidade técnico-fisica evidente ou uma miscelânea? Ninguém, nem o próprio Abramovich, sabe ou pensa sequer nisso. Por isso os Mourinhos do futebol funcionam tão bem porque eles trabalham com o que há para o hoje. O amanhã é para os lorpas que vêm a seguir resolverem. Villas-Boas não quer ser o lorpa de turno, o novo Grant, Scolari ou Ancelloti mas para isso terá de medir os seus tempos com frieza e determinação.

Já na época passada se tinha começado a reestruturar o plantel do clube londrino mas, uma vez mais, sem ideias de futebol presentes. A contratação de Torres, David Luiz e Ramires deixaram a nu essa incerteza. Um avançado que joga em velocidade num plantel onde abundam os avançados. Um defesa de choque mas com propensão para o erro ocasional ao lado de uma dupla Terry-Ivanovic, de primeiro nível. E um médio pulmão sem critério com a bola que deixa antever que o toque não será uma prioridade. E no entanto, meses depois, chegam Mata, Meireles, Oriol e com eles Villas-Boas a defender o critério, a posse e o jogo entre-linhas. O 4-3-3 da era Mourinho, compacto, de jogo lateral e veloz transformou-se num 4-3-3 de defesa alta, linhas móveis e ataque continuado. Mas a filosofia no papel contrasta com a falta de critério no balneário.

 

As derrotas dos Blues frente ao Manchester United, Liverpool e Arsenal foram mais do que derrotas no plano futebolístico. O Chelsea perdeu contra equipas de prestigio, instituições que sabem ao que jogam e que, por muito mal que estejam no presente, têm um ADN a que são fieis e que sacam a reluzir em jogos de máxima importância. O Chelsea vive perdido nesse meio porque Villas-Boas ainda não teve habilidade para manobrar esses tempos de gestão fundamentais para que um blockbuster se transforme num êxito de larga duração. Mais do que reformular o plantel onde abundam jogadores em fim de carreira o que o português tem de lograr é persuadir Abramovich a esquecer o iate por um instante e pensar que a sua paixão de uma noite se transforme num longo casamento, cheios de dias rotineiros, jantares de família aborrecidos e sessões de sexo esporádicas e sem paixão. Villas-Boas sonha sobretudo em criar à sua volta o mesmo prestigio que logrou Wenger que soube manter longevos os homens do "boring Arsenal" como Keown, Adams, Dixon e Parlour ao mesmo tempo que ia imprimindo o seu cunho com Henry, Pires, Ljunberg, Vieira, Cesc e companhia. Vencer o Manchester City é um logro importante no imediato mas não deixa de ser um duelo de iguais, de duas equipas cheias de egos mas sem uma identidade. Mais do que disputar o titulo ao novo-rico do momento a liga do Chelsea deveria ser a do amanhã, a que lhe permita um dia sentar-se ao lado do trio histórico que define o futebol britânico e esperar a ser servido como um membro mais da família.



Miguel Lourenço Pereira às 20:14 | link do post | comentar

Terça-feira, 13.12.11

Na sociedade actual o pensamento único é uma tendência dominante e, ao mesmo tempo, preocupante. O diferente, o alternativo, o original, o ancestral é deixado de parte em prole de uma linha comum, de um politicamente correcto que corrói até à medula os alicerces da nossa sociedade. O futebol, que funciona sempre como espelho sincero desse mundo interior, vive o mesmo dilema. A ditadura futebolística de um Barcelona único, respaldado pelo sucesso internacional da selecção espanhola transformou em vaca sagrada o futebol de posse mas como a experiência de Luis Enrique vem provar, o sucesso de cada estilo depende, como dizia Gassett do "eu", das circunstâncias.

 

O sucesso espantoso do Barcelona de Guardiola escondeu, na passada época, um fenómeno ainda mais atraente. O êxito da equipa B dos catalães. O projecto que liderava Luis Enrique foi, durante largas semanas, uma das grandes sensações do futebol europeu, demonstrando uma classe e superioridade que permitiam imaginar uma posição cómoda na tabela em muitas ligas europeias. E estes, maioritariamente miúdos, eram apenas a segunda versão do conjunto blaugrana, aquela a que Pep recorre quando sente necessidade de expandir o plantel principal, controlado até ao último ego.

Seguindo a filosofia de toque da escola cruyffiana, imitando o modelo de jogo dos titulares, o jogo do Barça B encantava pela fluidez, pelo controlo e pelas dimensões ofensivas. No cálculo do espaço, no tempo com a bola e na aptidão pela surpresa. Com Nolito, Soriano, Robert, Oriol, Montoya, Bartra, Thiago, Fontás e companhia, estava claro que só com esse pensamento único na bola como filosofia a equipa podia funcionar. E como um relógio suiço, preciso e mecânico, o projecto foi transformando-se de anedota a realidade e terminou o ano em posições de disputa de um play-off de acesso a que teve de abdicar por questões lógicas de regulamento. Era evidente que o papel de Luis Enrique fazia todo o sentido nesse micro-cosmos onde a posse, o passe e o “rondo” são santo e senha e muita foi a expectativa que se gerou quando o asturiano – um dos que trocou Madrid por Barcelona, no caminho inverso que fez Laudrup na mesma época – anunciou que iria procurar um novo desafio, talvez sabedor que viver à sombra de Guardiola é complicado.

 

Por muito paradoxal que aparente a escolha de Luis Enrique pela AS Roma no inicio parecia fazer sentido.

O clube gialorosso tem uma tradição dentro do Calcio de ser uma equipa que preza a bola mais do que o espaço. O clube que glorificou Conte, Falcão e Totti gosta de sentir-se importante a fazer o esférico circular e o projecto milionário que pretendia revitalizar a vida de um dos poucos clubes a desafiar a hegemonia do Inter durante os mandatos de Mancini e Mourinho parecia ter encontrado a sua alma gémea.

Só que Luis Enrique, destemido mas sempre incauto, esqueceu-se das celebres e certas palavras do seu amigo Guardiola sobre um futebol italiano que ele aprendeu a amar durante as suas passagens por Brescia e pela própria Roma. Numa das suas dissertações, quando ainda bebia futebol como aluno, Pep falou da sua relação com um célebre dirigente do Brescia enquanto discutia à mesa sobre a supremacia do futebol de toque e o jogo de espaços que sempre caracterizou o giocco a la italiana. Depois de horas a debater Pep levantou-se, beijou a testa do seu contertulio e exclamou, “tens razão, é impossível discutir a essência de um povo”, e deu por terminado o assunto. Com essa afirmação ficou claro que Guardiola se deu conta que enquanto o futebol de toque funciona bem dentro da filosofia centro-europeia – exportada fielmente para Barcelona e só para Barcelona – no resto do mundo encontra sempre resistências face à cultura local. Em Itália, como Mourinho provou, ter a bola é o de menos quando se controla o espaço. No país da bota o sucesso do Barcelona é visto à distância com admiração mas, também, com esse dose de profundo realismo de um futebol diferente que não é nem melhor nem pior no mesmo que consagrou o AC Milan ou a Squadra Azzurra na última década. Esse olhar arrogante que a maioria dos apologistas da posse têm sobre os demais esta habitualmente ausente quando se olha a partir de outras filosofias, incapazes de aceitar o dogma da verdade institucional.

A campanha de Luis Enrique numa Roma reforçada a seu belo prazer (Bojan, Osvaldo, Lamela, Jose Angel) demonstra bem esse olhar de superioridade frustrado. Entre adaptar-se a uma filosofia local e depois explorar o seu ideário e impor a sua mentalidade, Luis Enrique optou pela segunda abordagem, desafiou os adeptos, encarou-se com Totti e em troca não conseguiu apresentar nada. A sua equipa tenta jogar como os projectos blaugranas pretéritos mas o ADN italiano parece vir ao de cima quando a bola deixa de fluir com normalidade e a velocidade e o recuo de linhas convida a pensar que desastrada é este mistura de ideários. Como se um violinista clássico tentasse entrar numa rave, Luis Enrique é incapaz de entender que antes da sua Roma poder jogar como o Barcelona, primeiro tem de assimilar todos os conceitos sociais, politicos e individuais que fizeram do clube catalão o clone perfeito do ideário holandês. A singularidade do espírito catalão tornaram-no num laboratório perfeito para este sistema de jogo mas, ao mesmo tempo, deixaram-no ainda mais isolado do resto do Mundo onde o jogo directo (no Norte), o jogo de espaços (no Mediterrâneo), a desordem táctica assente no génio individual (em grandes partes da América e África) e, sobretudo, um jogo muito mais estruturado e muito menos fluido são santo e senha. O técnico que abdicou de Isaac Cuenca (emprestado ao Sabadell) por entender que a equipa B deveria emular o jogo da principal, repleto de falsos 9 em lugar de extremos puros, voltou a deixar em evidência a sua incapacidade para ver mais além do velho ditado que nele se aplica tão bem.

 

O fracasso do técnico espanhol no projecto romano é evidente e consequente com tudo aquilo que Luis Enrique preconiza. Um dos grandes defeitos dos treinadores quando migram é o autismo que demonstram face à nova realidade que os rodeia. Esse insularismo mental consegue sempre que se suspeite de técnicos que são bem sucedidos num só laboratório de provas (daí as suspeitas de muitos com Guardiola, suspeitas que não partilho) porque mais do que manejar as tropas, conhecer a bíblia táctica e lidar bem com a imprensa um técnico é, sobretudo, um antropólogo e sociólogo, capaz de reconhecer o mundo onde entra e onde pretende triunfar. Se faz da sua vida profissional um doutrinário das ideias únicas, do politicamente correcto, o seu destino está traçado desde o primeiro dia. O sucesso de uma ideia não faz com que seja, forçosamente, a única ideia a seguir.



Miguel Lourenço Pereira às 11:11 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Terça-feira, 06.12.11

Seguramente que qualquer leitor do Em Jogo conhece James Will. Seguramente que muitos o viram jogar, a parar remates indefensáveis, a realizar defesas impossíveis no último minuto debaixo de um imenso temporal. Ou a comandar a área com a destreza dos mais hábeis e o espirito dos mais guerreiros. Seguramente que James Will é um nome tão familiar para qualquer um como seria Luis Figo...certo? Errado. James Will é o paradigma do erro, o exemplo da abordagem do futebol profissional ao futebol de formação que tem alimentado e destruido carreiras vorazmente durante os últimos 30 anos. Will é o anonimato da mesma forma que Figo representa o sucesso máximo. Cruzaram-se no caminho e pareciam ir por caminhos similares. Mas um continuou e o outro ficou para trás. E não foi o único.

Poucas pessoas realmente viram jogar James Will.

Uma das razões mais evidentes foi a curtissima carreira do jogador. E Will seria um de muitos anónimos que não singraram no jogo não fosse por um mero detalhe: em 1989 a FIFA achou por bem otorgar-lhe o prémio de Melhor Jogador do Mundial de sub-17, realizado na sua Escócia natal. Torneio que perdeu, na final, contra a Arábia Saudita. Nessa prova brilharam grandes futuros craques do futebol mundial como Fode Camara, Khalid Al Romahi ou Gil. Claro que, no meio deste talento que os olheiros da época se prestaram a encumbrar como estrelas futuras, havia um tal de Luis Figo, então ainda um mero júnior do Sporting CP que anos mais tarde se convertiria no simbolo do futebol mundial, depois de Florentino Perez fazer dele o primeiro "Galáctico". No dia em que assinou o contracto com o Real Madrid é dificil saber se algum dos anteriores jogadores ainda eram futebolistas profissionais. Will desde já não o era.

O guarda-redes escocês foi a grande figura do conjunto da casa e exibiu-se a alto nível. Mas nunca chegou a assinar um contracto profissional. Fartou-se das exigências do futebol de elite e seguiu a sua vida como policia de trânsito na sua pequena localidade. O futebol pode ter perdido um grande guarda-redes - como a FIFA sugeriu e muitos olheiros comprovaram - mas a sua experiência tornou-se no paradigma futuro de uma politica incapaz de entender as gigantescas diferenças entre o futebol de formação e o futebol profissional.

Com a globalização os clubes (e alguma imprensa) dedicam esforços à procura de prodigios cada vez mais precoces. Contratam jogadores imberbes, imaginam que em cada miudo de bairro está o próximo Messi e suspeitam a cada simples demonstração de talento os milhões que podem estar ali no futuro. E no entanto a maioria dos jogadores aos 17 anos (e aos 15 e aos 19) é um potencial Will mais depressa do que um potencial Diego Armando Maradona, que dez anos antes venceu o mesmo troféu que o escocês, mas que precisou de meia dúzia de anos para realmente "explodir" como futebolista.

 

A lista de "Wills" do futebol moderno não tem fim.

A cada torneio UEFA e FIFA surgem nomes que depois caem no esquecimento. Demasiadas expectativas, um torneio bom de um jogador com condições medianas, a performance colectiva capaz de exaltar o individuo, o peso do rival ou, simplesmente, a falta de comportamento profissional de um jogador que é ainda um miudo...tudo são factores que muitos esquecem na ânsia de ser os primeiros a descobrir a grande novidade a seguir. A maioria dos jogadores jovens sucumbem à pressão de serem exibidos como bandeiras. Muitos desistem como James Will. Outros são atraidos pelos milhões dos grandes clubes europeus para acabar por jogar em equipas de escalões inferiores, lamentando-se do que podia ter sido e não foi. E outros, pura e simplesmente, colapsam.

Arsene Wenger inaugurou a corrida às jovens promessas mundiais mas teve o savoir faire suficiente de seleccionar jovens que correspondiam a comportamentos padrão que definiam uma margem de sucesso considerável. Qualquer manager ou olheiro de elite sabe que um torneio curto é a pior forma de conhecer o valor real e potencial de um jogador. Normalmente aqueles que mais brilham neste tipo de competições são os que menos longe chegam como profissionais. Estrelas cadentes de um mundo sem perdão.

É no estudo continuado, na análise estatisticas de comportamentos, exibições e atitudes durante um largo periodo de tempo que se descobrem as verdadeiras pérolas do futuro. Muitos deixam-se levar pelo comportamento mediático das estrelas de domingo. Figo nesse torneio não brilhou talvez ao mesmo nível que Will. Mas profissionalmente a sua carreira foi ascendente, em todos os sentidos e beneficiou, de certa forma, dessa pressão ausente que sofreu o escocês e também nomes tão familiares como Nii Lamptey, Daniel Addo, Mohammed Kathiri ou Sergio Santamaria, todos eles detentores do mesmo troféu. Mesmo as consagrações de Landon Donovan, Sinama-Pongolle ou Anderson acabaram por ser mais prejudiciais do que benéficas para os jogadores e nos tempos recentes talvez só mesmo Cesc Fabregas (já então pupilo de Wenger) tenha escapado a uma maldição repleta de lógica e disfarçada de preconceito. O futebol de formação de hoje é cada vez mais uma escola de resultados e imediatismos. Os clubes e as federações procuram productos para vender agora e não estão dispostos a formar jogadores e profissionais para cinco anos. No último Europeu de sub-20 as selecções mais prometedoras, Espanha e Colombia, ficaram pelo caminho. E no entanto é fácil ver que daquele grupo sairão mais desportistas de elite do que das selecções finalistas, Brasil e Portugal.

 

A abordagem em modelos de jogadores mais fisicos e menos técnicos - e o caso francês é evidente - pode dar resultados no momento mas, a longo prazo, não dá frutos. Por cada Figo haverá sempre 100 James Will, jogadores de consumo imediato e precoce que, como as estrelas pop juvenis, se tornam em one hit artists superados facilmente pela fornada que vem já a seguir. O paradigma do erro, em que Portugal apostou recentemente, acreditando que o futebol de formação se faz de titulos e não da preparação de futebolistas de futuro não é caso único e no entanto não deixa de ser um erro repetido vezes sem conta. O projecto de formação do FC Porto, onde tanto dinheiro se investiu, foi coroado de titulos e no entanto não há a perspectiva de nenhum jogador da cantera estar agora ou no amanhã nos quadros da equipa principal. Se o sucesso espanhol mede hoje tudo, deveria ser óbvio para todos que apostar em futebolistas é mais rentável do que apostar em ganhadores, por muito que demore dez anos até que os génios de Xavi, Xabi Alonso ou Andrés Iniesta sejam devidamente reconhecidos. Pérolas individuais existirão como sempre, jovens potreros de bairro encandilarão olheiros atentos mas essa fome de descobrir the next big thing será sempre mais um handicap do que o caminho a seguir. O futebol de formação, como qualquer projecto educativo, precisa de tempo, espaço e ar para respirar. James Will sentiu na pele a asfixia de ter de ser alguém antes do tempo. Há 22 anos o paradigma do erro estava aí e poucos quiseram ver. Hoje há muitos como ele quando a sua história - e a de tantos outros - devia, a pouco e pouco, converter-se na excepção que faz a regra!



Miguel Lourenço Pereira às 14:40 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 27.10.11

Ninguém espera que o ritmo se mantenha. Em algum momento o balão começará a perder ar e deixará de fintar as nuvens para voar rente ao chão. Mas enquanto deambula pelos céus, o Levante pode pela primeira vez sentir a sensação de olhar para baixo e ver todos os outros que o perseguem. Será um feito anedóctico, menos para os valencianos, mas este pobre Levante continua a mandar na liga dos mais ricos.

20 milhões de euros, nem um cêntimo mais, nem um cêntimo menos.

Um orçamento insignificante para os habituais padrões das ligas europeias. Mais ainda na espanhola, na chamada liga das estrelas, onde Real Madrid e Barcelona manejam, anualmente, orçamentos de 400 e 500 milhões de euros. Inferior ao que custou, para colocar apenas dois exemplos, Fábio Coentrão ao Real Madrid e Alexis Sanchez ao FC Barcelona. Mas o futebol é assim, um fenómeno previsivel repleto de pequenas surpresas. Isso sim, surpresas que não podem durar muito tempo. No final os davids sempre acabam vergados ao inevitável peso dos golias. E em Valencia sabem-no melhor do que ninguém. A sua guerra é outra.

O clube acabou a passada temporada num ritmo endiabrado. O promissor técnico Luis Garcia pegou na equipa já com um pé na Liga Adelante e graças a uma segunda volta espantosa quase que deixou os azulgrana de Valencia em postos europeus. O espirito de grupo de um plantel formado, sobretudo, por jogadores descartados por outros clubes ou sem contracto, tornou-se na grande arma de uma equipa sem um só nome sonante para o público mais desatento. As suas estrelas passam já a idade e não têm o perfil de vedetas. E no entanto tiveram capacidade para bater o Real Madrid e Villareal, duas equipas que marcam presença na Champions League deste ano, para à nona jornada seguir como lideres isolados da Liga BBVA. Um quarto de campeonato cumprido e com 23 pontos em 27 possíveis, os levantinos estão muito mais perto do seu objectivo real: a permanência.

 

Saiu Luis Garcia para o Getafe como seria de esperar e para o seu lugar a direcção do clube foi encontrar uma solução ainda mais surpreendente.

Antes de ser treinador de futebol, Juan Ignacio Martinez fez um pouco de tudo. Guarda-costas, vendedor de seguros, empregado numa gasolineira. Sabe o valor do trabalho como poucos e só este ano chegou ao futebol profissional. Na época passada treinava na 2º Divisão B e antes tinha andado pelos campeonatos regionais sem chamar demasiado à atenção.

Muitos suspeitavam da sua inexperiência mas Martinez fez disso uma força. É um dos técnicos que melhor estudo os rivais (os seus cadernos de apontamentos estão a ganhar fama de contornos miticos) e sobretudo, é um motivador nato. Numa equipa com muito coração mas pouquissimos recursos essa é uma arma que não pode ficar no coldre. Martinez, o "Guardiola dos pobres" como a imprensa espanhola o apelida, pegou nos veteranos Munua, Juanfran, Venta, Nano e, sobretudo, Salva Ballesteros, e transformou-os na defesa mais eficaz da liga. Cinco golos sofridos em nove jogos num quinteto cuja média de idade supera os 29 anos.

Se no final de 2011 os golos de Caicedo foram valiosos para garantir a permanência do clube valenciano na prova, em 2011-12 a equipa perdeu o seu dianteiro estelar mas ganhou, sobretudo, em eficácia. Juanlu é o rosto desse ar mais humilde e sincero de uma equipa em que os médios são tão eficaz diante da baliza contrária como os seus dianteiros.

Com estas armas tão modestas surpreende que o Levante não tenha perdido um só jogo até ao momento na prova. Depois de dois empates consecutivos contra rivais directos na luta pela permanência (Getafe e Racing), a vitória em casa sobre um apático Real Madrid abriu a corrida à liderança que inicialmente foi partilhada com Valencia, depois com Barcelona e por fim tornou-se num prazer pessoal e solitário. Rayo, Espanyol, Bétis, Málaga, Villareal e Real Sociedad foram as vitimas insuspeitas de uma história que nunca terá um final feliz. Pelo menos para os românticos que ainda acreditam em surpresas num mundo controlado do primeiro ao último minuto. O Levante sabe que necessita só mais 20 pontos, menos do dobro do que já acumulou, para cumprir o objectivo da permanência. Haverá quem sonhe no Ciutat de Valencia com um lugar europeu mas isso são contas de outro rosário. Poucos esperam que uma equipa com um plantel tão envelhecido consiga manter este ritmo durante muito tempo mas ninguém se atreve agora a subestimar o notável trabalho de Martinez no banco azulgrana.

 

No final do ano muitos certamente acabarão por esquecer-se deste brilhante arranque de época do Levante se a equipa acabar nos postos anónimos no meio da tabela classificativa. É a crueza de um desporto que vive dos resultados e que esquece, tantas vezes, a forma como são obtidos. Para este Levante dos 20 milhões qualquer coisa que não seja a despromoção é uma especie de titulo de liga. Qualquer coisa mais uma versão particular da sua Champions League. No final a missão heroica dos azulgrana de Valencia perduará na memória daqueles que não esquecem. Daqueles que sabem que o futebol é algo mais do que uma questão de bolas de ouro e titulos europeus.



Miguel Lourenço Pereira às 08:31 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Segunda-feira, 24.10.11

Não deixa de ser curioso (ou preocupante) a infima quantidade de obras escritas que se debruçam sobre um desporto mais que centenário e um fenómeno global que hoje, mais do que nunca, é uma ferramente fundamental para perceber o Mundo. No entanto, entre as (insuficientes) grandes obras que versam sobre a magia que desprende o beautiful game não há um só livro que possa sequer ombrear com aquele que corre o sério risco de se tornar numa verdadeira biblia sagrada do jogo. Com Inverting the Pyramid o inglês Jonathan Wilson conseguiu muito mais do que um livro. Transformou a alma do futebol e plasmou-a no papel como da Vinci reinventou a pintura e Borges permitiu a todos sonhar um pouco mais...

Conta Jonathan Wilson que a ideia para Inverting the Pyramid surgiu num bar do Bairro Alto em Lisboa depois de uma acalorada discussão com os adeptos ingleses que acompanhou para presenciar o França-Inglaterra do Euro 2004. O jogo que definiu a classe dos gauleses e a falta de punch da Inglaterra de Erikson deixou o jovem escriba a reflectir sobre a verdadeira essência do jogo que o tinha capturado desde pequenos na cinzenta Sunderland. Colocou mãos à obra e como Tolstoi ou Miguel Ângelo, desafiou todas as leis.

Inverting the Pyramid é mais do que um livro, é um ser com vida própria.

Wilson analisa a evolução moral e estética do jogo através das suas metamorfoses tácticas. O titulo faz referência à mutação vivida do 2-3-5 do futebol desorganizado de principios de século ao 5-3-2 que algumas equipas, nomeadamente a Argentina de Billardo, aplicaram nos últimos anos como último recurso evolutivo num jogo que se dedicou a encontrar formas de anular a falta de ordem dos seus primórdios. Mas se essa mutação, factual e indismentível, é a base do trabalho, é no miolo das páginas que se encontra a verdadeira importância de uma obra que vale mais do que um manual de bolso para qualquer treinador de bancada.

A táctica, disposição das peças no tabuleiro, é o pretexto ideal para mergulhar nos ritmos, na evolução fisica e mental, na abordagem dos aspectos psicológicos e na emergência de nomes que a história preferiu esquecer, reciclando-se como lhe convém. O autor, hoje o consagrado colunista do The Guardian e editor do projecto online The Blizzard, utiliza a sua prosa eximia para chegar ao osso do esqueleto futebolistico quando a maioria dos autores se ficam pela superficie. Herrera, Michels, Lobanovsky, Cruyff e Chapman todos conhecem. Maslov, Zubeldía, Arkadiev ou Hogan nem por isso. E é nessas almas que o autor encarna a evolução real do jogo. Essa mutação em que a táctica foi forçada a acompanhar a sociedade contemporânea.

 

É dificil não ler Wilson - nesta ou outras obras - e não entender que ele é, hoje, provavelmente o autor mais esclarecido sobre os moldes em que se move e moveu o jogo durante o último século. A compreensão táctica é fascinante e certeira mas o estudo histórico e social transforma-se no verdadeiro vector da obra. Desde os dias em que os ingleses ainda exportavam o seu modelo de jogo até à formação de uma cultura intelectual futebolistica no centro de Europa que encontrou caminho rumo à América Latina e potenciou uma nova alma, mais genuina, somos convidados a conhecer épocas, personagens, momentos irrepetiveis.

O enfoque é dado, com naturalidade, aos elementos mais preponderantes do jogo de hoje. O pressing, erradamente atribuido ao Lobanovsky, o futebol total que a maioria dos estudiosos ainda acreditam ser obra e graça de Michels, o futebol directo da escola inglesa vs o futebol de passe da escola europeia, uma divisão que remonta a muito antes do que se possa imaginar e, inevitavelmente, a filosofia do não há nada mais a inventar de que tantos técnicos modernos se queixam.

Na evolução táctica do futebol o profissionalismo, a gritante melhoria das condições de treino, da alimentação e do próprio papel do jogador dentro de um desporto que passou do proletariado e colégios britânicos para as multinacionais e organismos internacionais há espaço para os acertos e os erros, as metamorfoses e e os passos atrás. Da magia de uma táctica que dependia sobretudo do individuo (como o Brasil de 70) para a cerebralidade de outra (como o Dynamo de Lobanovsky) que quase deixa de contar com o peso do individuo face ao poder colectivo, entendemos o porquê de ser tão legitimo falar de "futebóis" em lugar de "futebol".

Wilson desmonta teorias antigas, credos vigentes e fantasias assumidas por todos como realidades e demonstra que o jogo é hoje tão diverso como foi no passado e que as suas respectivas evoluções foram mais producto do momento do que, propriamente, inventos individuais absolutos. O futebol como modalidade social e colectiva ganha mais preponderância do que nunca numa obra que utiliza o individuo (e o seu génio) apenas como veículo narrativo, como se fosse a veia que faz circular o sangue por todo o corpo.

 

Ler Inverting the Pyramid é mais do que aprender o que levou o Brasil a imitar um 4-3-3 que já se utilizava anos antes na União Soviética ou pensar que a Inglaterra, o país que mais se agarrou à ideia dos extremos clássicos foi também o primeiro que acabou com eles de forma inequivoca. É olhar para o mapa mundi e saber ler como o único desporto que é capaz de parar o Mundo por completo cresceu, ganhou pernas e aprendeu a andar sozinho. A obra de Wilson, resumo perfeito do que é sentir as palpitações de uma qualquer final nos derradeiros instantes, agarra pelas entranhas o leitor e não o larga até que este chegue à conclusão que Sócrates estava certo. Cem anos depois continuamos a presumir muito e a saber muito pouco sobre o beautiful game...



Miguel Lourenço Pereira às 12:12 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 15.10.11

No meio do deserto de ideias em que vive o futebol português a hipotética ideia de ressuscitar as equipas B num formato distinto ao seu modelo original é uma lufada de ar fresco. Insuficiente, dentro de um contexto muito mais lato, mas um passo correcto para uma realidade indismentível e que exige uma resposta imediata por parte de clubes e organizações directivas. No entanto a forma como se arranca o ideário deixa no ar algumas dúvidas pertinentes sobre um outro - e tão grave problema - do futebol luso como é o eventual fim de muitos projectos desportivos que até hoje sobrevivem por um fio.

 

Em 1999, quando a Federação Portuguesa de Futebol, através de uma equipa de trabalho que incluia Jesualdo Ferreira, apresentou a ideia das equipas B (um modelo já praticado em Espanha há décadas), capaz de emular a politica de equipas de reservas que existiram durante muitos anos no futebol português e que subsistem, ainda hoje, no futebol britânico, os aplausos foram generalizados.

Mas o projecto foi um fracasso imediato. A forma como se estruturou o projecto tornou-o imediatamente num nado morto. O impedimento das equipas serem promovidos a uma Liga de Honra a 18 equipas condenava no fundo os jovens futebolistas de FC Porto, SL Benfica, Sporting CP ou Maritimo a actuar eternamente contra jogadores amadores da 2º Divisão B. Perante esse cenário frustante tornou-se evidente que o projecto das equipas B era mais um encargo que uma solução. Os clubes acabaram por entender que era mais prático recuperar a velha fórmula do empréstimo, tão em voga desde finais dos anos 80, do que perder rendimento com um projecto sem futuro. Doze anos depois só a equipa do Maritimo sobreviveu, provavelmente devida à sua particular condição insular, e com um sucesso digno de menção honrosa.

Resgatar então o ideário das equipas B pode parecer um erro à primeira vista. Mas o contexto é outro. E a necessidade evidente.

Em 1999 o futebol português ainda não tinha entrado na sua era de ouro. A selecção A estava prestes a apurar-se para o Euro 2000, apenas a sua quinta grande competição em 80 anos. Os clubes portugueses não marcavam presença numa final europeia há uma década e os grandes nomes lusos contavam-se pelos dedos das mãos. A vitalidade de clubes de médio nivel era evidente na figura do Boavista, Guimarães, Maritimo e Braga de então e a liga lusa, apesar da invasão brasileira, ainda era maioritariamente composta por jogadores da casa. Doze anos depois, o dilúvio, como diria Luis XV, é evidente.

Entre a ilusão de uma década imaculada da selecção A, de três titulos europeus (e dois finalistas vencidos) e da consagração mundial de Figo, Mourinho e Ronaldo esconderam-se os problemas graves e estruturais do futebol nacional. Do descontrolo das contas dos clubes, do desaparecimento das equipas médias, da redução de equipas do futebol profissional, dos excedentes de jogadores estrangeiros e, sobretudo, do abandono da formação, aquilo que, precisamente, ajudou a transformar Portugal numa nação periférica num país capaz de olhar nos olhos das grandes potências desportivas. O final da herança do projecto Queiroz, apoiado pelos clubes nas suas próprias estruturas internas e, sobretudo, alimentado pelos clubes médios, abriu um fosso tremendo que começa agora a ser evidente. Entre as decisões mais importantes para reverter o rumo a formação ocupa um papel fulcral num país sem rendimentos para competir com o poderio financeiro doutras ligas. As equipas B são uma das soluções possíveis. Não a única, não a mais importante mas, seguramente, uma das mais certeiras, especialmente com a confirmação da UEFA da utilização definitiva da regra 6+5.

 

Segundo o projecto que será levado à próxima reunião da Liga de Clubes, o projecto federativo propõe o ressuscitar das equipas B apoiado por seis clubes. Ao Maritimo juntam-se Braga, Guimarães e os três grandes. As equipas só poderiam inscrever por cada jogo a três jogadores com mais de 23 anos (para recuperar atletas fora de forma da equipa principal, como sucede nas ligas de reservas inglesas) e tinham de ter inscritos 22 jogadores de formação do próprio clube que nunca poderiam alinhar pela equipa principal num periodo minimo de 72 horas.

A grande questão das equipas B foi a sua colocação errada num contexto amador como é a 2º Divisão B. Por isso foi fundamental a ideia de abrir definitivamente as portas da Liga Orangina com o inevitável impedimento de promoção à Liga Sagres, como sucede em Espanha ou Alemanha, por exemplo (o Barcelona B, na época passada, não só alimentou os campeões da Europa com jogadores como Thiago ou Fontás como terminou em lugares de play-off a liga regular). No entanto a forma como se introduzem as equipas obriga às habituais soluções de compromisso das entidades lusas. Em lugar de estruturar a competição a Liga toma o caminho mais fácil e aumenta para 22 equipas a competição, insinuando que pode contribuir também para mudar o número de promovidos e despromovidos entre as ligas profissionais de dois para três conjuntos bem como a despromoção progressiva de mais uma equipa para a 2º Divisão B nos próximos seis anos até voltar a nivelar os seus números de participantes a um minimo de 18. 

Na prática esta medida revela condições importantes. Hoje clubes como Sporting, Benfica ou FC Porto têm listas de dezenas de jogadores emprestados por vários clubes lusos e estrangeiros. Esta medida permitirá a Domingos, Jesus e Pereira a possibilidade de trabalhar lado a lado com esses Miguel Rosa, André Almeida, Nuno Reis, Cedric, Atsu ou Diogo Viana que significam, de certa forma, o futuro dos grandes de Portugal. Uma medida que também permitirá aos clubes grandes aligeirar a ficha de gastos no plantel principal já que dispõem de uma equipa alternativa que pode alimentar o plantel principal. Para os jovens de 18 anos saídos dos juniores (ou alguns titulares menos usados) competir com Belenenses, Leixões, Santa Clara ou Oliveirense não será muito diferente do desafio de defrontar os Feirense, Olhanense ou Gil Vicente que irão encontrar na Liga Sagres. Enquanto competem com rivais de maior nivel estão às ordens da equipa principal em lugar de passar um longo interregno, longe de casa, muitas vezes passando desapercebidos dos directivos e técnicos. Assim acabaram os Paulo Machado, Helder Barbosa, Vieirinha, Fábio Paim, Danilo Pereira e companhia do passado.

 

Se essa medida é importante para reforçar o papel dos jovens de formação nos seus clubes base (recordamos o gritante exemplo do FC Porto que não conta com um só jogador da sua formação na equipa principal o que implicou a penalizou da UEFA de inscrever apenas 21 jogadores na Champions League) a verdade é que também tem o seu reverso da medalha.

Desde há vários anos para cá que a politica de contratações dos clubes lusos se tornou numa máquina de importação fora do controlo. Os grandes (mais o FC Porto e menos o Sporting com o Benfica a inverter, agora, a tendência) lideraram o processo mas os pequenos e médios rapidamente os imitaram e de certa forma abandonaram também a sua formação. Se Figo, Baía e Rui Costa sairam dos grandes, Pedro Barbosa, Sá Pinto, Nuno Gomes ou Costinha sairam de clubes médios e pequenos. Esse fenómeno tornou-se um oásis no Bessa, Restelo, D. Afonso Henriques, AXA, Bonfim, Municipal de Coimbra...desde há muitos anos. Os clubes passaram a limitar-se a importar de forma impulsiva e a depender dos empréstimos dos jovens (e erros de casting) dos grandes para fechar os planteis. Isso significava menos gastos e uma dependência politica que Porto e Benfica souberam aproveitar bem criando verdadeiras relações de dependência com várias instituições.

Sem dinheiro, sem jogadores da casa, muitos desses clubes irão passar graves problemas quando os grandes deixarem de emprestar jogadores, desviando-os para a sua equipa B. Terão de encontrar rapidamente soluções para não cair no erro do Boavista ou Belenenses, clubes que andaram anos na corda bamba até que a corda finalmente se rompeu.

Um problema que terá consequências em projectos que acabarão como os Salgueiros, Alverca ou Estrela da Amadora do passado mas que será inverso na Liga Orangina. Com rivais das equipas B as equipas da segunda liga terão mais atenção, mais espaço mediático e estarão mais expostos aos clubes de primeira que queiram observar as jovens promessas em acção. Um aumento do interesse pelas equipas da prova pode equilibrar, e muito, o equilibrio da balança desportiva de várias instituições até hoje relegadas para segundo plano.

No fim de isto tudo está o futebol nacional como tal. A presença de equipas B dinamiza uma liga profissional abandonada, fomenta a formação, especialmente entre os grandes e sobretudo dá espaço e minutos para jogadores jovens começarem a ganhar o seu espaço. Se essa foi a bandeira do futebol luso até 2002 - e a base do seu sucesso - esse terá de ser o ponto de partida desta nova etapa. Se Nelson Oliveira, Miguel Rosa, André Almeida, Mika, Nuno Reis, Cedric, Sanu, Atsu, Viana e companhia começarem a ter minutos nas pernas, chamadas às equipas principais e reconhecimento público pode ser que a renovação geracional que se adivinha tão dificil se transforme num processo menos turbulento.

Claro que a ideia no papel funciona sempre melhor do que na prática, especialmente se falamos num futebol como o português, cheio de ratoeiras, armadilhas e corrupção activa e passiva. O projecto tem todas as pernas para andar (o sucesso do Barça ou do Villareal B em Espanha e das equipas de reserva na Alemanha, Inglaterra e Holanda assim o diz) e pode ser uma alavanca económica e social para reinventar o futebol luso. Mas é apenas uma solução de base que necessita muito trabalho estrutural por trás e muita vontade para funcionar. As equipas B são parte de uma ponte para um futuro melhor mas a margem é longa e vai ser necessário muito mais cimento, pedra e alcatrão para chegar ao outro lado do rio...



Miguel Lourenço Pereira às 18:25 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quinta-feira, 13.10.11

Pode ser que T.E. Lawrence, na voz inesquecível de Peter O´Toole, tenha tentado fazer-nos crer que nada estava escrito mas a repetição do duelo entre um Portugal decadente e uma flamante Bósnia parece dizer todo o contrário. Em vinte anos um país que sobreviveu à maior catástrofe humana que o Velho Continente viveu em mais de meio século pode olhar olhos nos olhos no exemplo perfeito da desintegração europeia. Falamos de futebol, claro, desporto em que Portugal começa a perder argumentos e onde os bósnios encabeçam, com certa autoridade, a revolução de uma nova e pujante vaga.

Antes de que o ano acabe falaremos da Arménia, da Estónia e do Montenegro, selecções que hoje por hoje são mais interessantes e meritórias que as decadentes potências da Europa Ocidental perdidas entre elogios pretéritos e sonhos irreais. Potências como a França ou Portugal está claro. Mas entre todas essas selecções a que mais espanta, mais surpreende e, por outro lado, mais encanta, é sem dúvida a da Bósnia-Herzegovina.

Há momentos que marcam gerações. Ninguém que viveu os anos 90 com uso de razão pode esquecer as imagens de uma Sarajevo rasgada na pele, destroçada na alma. Hoje provavelmente a maior parte das ruas da cidade já não são construidas com tijolo e cimento. O mais seguro é que se sustenham com lágrimas e sangue.

Essa cidade, conhecida há séculos como a Jerusalem europeia, sempre foi a mais discriminada das capitais regionais da antiga Jugoslávia, discriminada por Tito e pelos seus seguidores em detrimento de Belgrado e Zagreb, cidades mais cosmopolitas e, sobretudo, mais eslavas. A herança muçulmana e judia fizeram da rainha das montanhas dos alpes dinários um primo pobre, olhado de lado. O mundo demorou a ter pena mas quando as imagens falaram mais alto do que todas as palavras dos corredores diplomáticos o mundo apaixonou-se por Sarajevo.

Vinte anos depois a capital da Bósnia é uma cidade diferente. Os problemas continuam lá, ninguém se engane. A corrupção, a crise económica, o desemprego e as relações institucionais no caldeirão de pólvora balcânico continuam a ser um problema. Mas como em tantos outros sitios esquecidos do mundo uma bola pode mudar muita coisa. Pode transformar uma rua de lágrimas num poço de euforia. Uma bola que rola, no próximo mês, com um objectivo claro e histórico.

 

Desde a separação da antiga Jugoslávia que as várias repúblicas que fizeram parte do ideário nacionalista de Tito usaram o futebol como o meio preferencial de afirmação nacional. Excluidos pelo Ocidente do seu brinquedo, a croatas, eslovénios, sérvios, bósnios, montenegrinos e macedónios tiveram de recorrer ao futebol (e ao basket é certo) para não deixarem o Mundo esquecer-se que eles existiam.

Os croatas foram os primeiros a brilhar, bem alto, e rapidamente se seguiram sérvios e eslovenos. Dez anos depois da extinção da Jugoslávia as três nações já tinha marcado presença tanto em Europeus como Mundiais e de forma bastante satisfatória. No meio da euforia colectiva todos pareciam esquecer-se da Bósnia, da pobre, ostracizada e semi-destruida Bósnia.

Mas a metamorfose do futebol bósnio tornou-se evidente na última década. A sua liga nacional continua a ser, em traços gerais, a mais pequena das três principais da ex-Jugoslávia (a eslovena e montenegrina são ainda mais humildes) mas a sua selecção deu um tremendo salto qualitativo. A aposta na formação local tornou-se uma realidade quando os clubes entenderam que não havia dinheiro para competir com o exterior. As estruturas foram-se melhorando a pouco e pouco e a corrupção federativa, um habitué nos dias da Jugoslávia, tornou-se menos evidente. O último problema, a tripla presidência federativa, espelhava de certa forma a identidade partida de uma Bósnia ainda orfã da guerra. Com o fim dos clãs étnicos a pujança da equipa nacional tornou-se mais evidente do que nunca. Pela primeira vez a nação sentia-se verdadeiramente unida.

No meio de tudo isto a figura tutelar do mitico Miroslav Blazevic.

Um treinador que sobrevive, sobretudo, graças ao seu tremendo carisma e que nos anos 90 foi o grande responsável pela reestruturação de outra nação recém-criada, a Croácia de Boban, Suker, Prosinecki e companhia. Com Blazevic ao leme a Bósnia começou a melhorar os seus resultados nas fases de apuramento. A isso ajudou também a chegada de uma nova vaga de jovens valores como Edin Dzeko, Asmir Begovic, Miroslav Pjanic, Vedad Ibisevic ou Haris Medunjanin que se juntaram aos veteranos Spahic, Rahimic, Muzlimovic ou Misimovic. Um onze espalhado pelas principais ligas da Europa e que se tornou num adversário temivel para qualquer selecção europeia. Ao contrário do que se supõe, um onze repleto de pequenas grandes estrelas.

A transformação arrancou em 2008. A Federação transferiu a esmagadora maioria dos jogos em casa para o mais pequeno - mas mais "quente" e intenso - estádio de Zenica que se transfou num verdadeiro fortim. A equipa começou a olhar de igual para igual com as nações do seu nivel. Em 2010 falhou o apuramento directo para o Mundial depois de sofrer na pele a superioridade da Espanha (mas batendo no sprint a Turquia) e caiu diante de Portugal no play-off. Na passada terça-feira foi outra campeã do Mundo, a França, a garantir o apuramento directo num grupo onde os bósnios voltaram a superar outra selecção com mais tradição como é o caso da Roménia. E mais uma vez o destino, esse que afinal parece estar escrito, colocou Portugal no caminho dos bósnios. 

 

Exceptuando dois ou três jogadores (se muito) o onze base português não é substancialmente diferente do melhor onze bósnio.

Zenica pode ser um inferno tão intenso como a Luz ou o Dragão (e muito mais que Alvalade) e o novo seleccionador, Safet Susic, goza de muito mais prestigio e respeito dentro e fora de portas do que o próprio Paulo Bento. O prestigio recente parece indicar, aos mais despitados, que Portugal é favorito. Longe disso, a dinâmica do momento parece indicar precisamente o contrário e são os bósnios, feridos pelo empate em Paris, quem surgem como o alvo a abater. O seu 4-2-3-1, acente no jogo ofensivo de Pjanic, Dzeko, Medjunjanin apoiado na segurança defensiva de Begovic, Spahic, Misimovic e Rahimic, propõe um modelo de jogo equilibrado e com várias soluções para os momentos mais complicados. Da solvência de Pjanic nas bolas paradas à eficácia goleadora de Edin Dzeko sem esquecer uma das defesas menos batidas na fase de qualificação, liderada por um Begovic em plena maturidade desportiva, transformam o onze dos Lirios, como são popularmente conhecidos, num durissimo rival.

Num país de 3,8 milhões de habitantes, sem uma imensa tradição futebolistica e com uma liga que anda entre a terceira e quarta divisão europeia, o mérito desta campanha é imenso. Um espelho perfeito de uma nova Europa de que fazem parte várias nações do antigo bloco de Leste que começam a superar nações históricas do Velho Continente que vivem em perfeito estado de estagnamento desportivo.

Portugal provou em Copenhague que está num lento mas claro processo de desintegração, incapaz de manter-se já nos bicos de pés que aguentou durante uma década junto das grandes potências. Faltam-lhes as forças, faltam-lhe os argumentos, faltam-lhe as ideias. À medida que nações como a portuguesa (e a belga, e a austriaca, e a escocesa, e a hungara, e a norueguesa) vão perdendo competitividade, consequência de várias decisões erradas a distintos niveis, novas nações como a Bósnia representam aquilo que estes próprios países, no passado, chegaram a representar face às potências de sempre que ainda o são hoje em melhor (Alemanha, Holanda, Espanha) e menor (Inglaterra, Itália, França, Russia) medida.

 

Uma semana servirá de pulso para entender se o processo de crescimento bósnio é decisivo e irreversível da mesma forma que os portugueses acabarão por se ver confrontados, mais tarde do que cedo, com a inevitabilidade do final dos seus dias de ouro. Portugal surge como favorito para a imprensa internacional mas na Bósnia o amor a uma pátria que há vinte anos não tinham e a lembrança dos dias de Sarajevo podem fazer a diferença. Para os adeptos neutrais, quando esse conceito ganha sentido num desporto de amor e ódios, entre ambas as nações ficará evidente quem representa o passado e quem representa o futuro. E muitos deles se lembrem das lágrimas e sintam essa canção de amor, de amor a Sarajevo, a cidade de um povo que quer quer o futebol sirva - pela enésima vez - para transformar as lágrimas em gritos de genuina alegria. Para eles o destino de sofrimento também é algo que não está escrito...



Miguel Lourenço Pereira às 22:17 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Quarta-feira, 12.10.11

Qualquer adepto seria capaz de citar de memória um eventual top 3 do futebol holandês. Há Cruyff, há van Basten, há Gullit...mas, faz este pódio (ou qualquer outro) algum sentido quando não há espaço para aquele que foi, provavelmente, o jogador tecnicamente mais dotado da história recente do futebol europeu? Para Dennis Bergkamp o futebol era, sobretudo, uma questão de arte...

Não era ballet mas tinha traços desse movimento de pés súbtil e perfeccionista. Mas também não era propriamente futebol.

Certamente que a definição do jogo de Bergkamp estaria sempre a meio caminho de qualquer coisa. Na sua Holanda natal a vide mede-se em ângulos exactos, em regras rigidamente definidas pelo tempo, pela história e pelo espaço. Os holandeses aprendem desde cedo o que custa manter um país ganho ao mar, o que vale cada centimetro de erva. Um país sem montes, um país sem curvas que contornar, onde todos seguem em frente, onde todos podem olhar para lá do horizonte. Mas onde nem todos são capazes de ver tudo o que o horizonte é capaz de esconder.

Sem necessidade de correr, os holandeses aprenderam o valor de fazer as coisas andando. Bergkamp mais do que nenhum outro. Se Cruyff ficou célebre pelas suas arrancadas, se van Basten se posicionava com pequenos passos enquanto Gullit corria de um lado ao outro, o jovem Dennis sempre trabalhou a uma velocidade diferente de todos os outros. Nem demasiado rápido, nem excessivamente lento. E sempre entendeu o valor de uma linha recta.

Como um quadro de Piet Mondrian, esse revolucionário que os holandeses entendem melhor do que se imagina, o jogo de Bergkamp moldou-se sempre na simplificação do complexo. No poder do fácil. Cada gesto técnico era executado com a frieza e limpeza de um cirúrgião, de um verdadeiro profissional. Bergkamp não era um matador, o desfrute dele não fazia sentido num jogo pautado pelo conflito. A sua experiência falhada em Itália, ao serviço do Internazionale, espelhou bem o seu desencontro com um mundo onde a arte, a estética, eram relegados sempre para um apagado segundo plano. Tecnicamente, Bergkamp continuava a ser melhor do que todos. Mas os outros 21 jogadores, pura e simplesmente, estavam a jogar outro jogo. E só, como quase sempre se sentiu, o prazer perdia-se.

 

A sua fama de filósofo moderno dos relvados embate com a crença actual de que um jogador de futebol pode ser tudo menos um artista culto.

Bergkamp pode sentar-se num qualquer café de Amesterdam e debater sobre o mais erudito dos temas sem que deixe transparecer que foi na verdade um futebolista de elite. Entre todos os seus treinadores só Arsene Wenger o entendeu, só ele soube falar o mesmo idioma.

Nem Cruyff, o seu primeiro técnico, dono de um vocabulário e uma mente própria, nem Hiddink, o seleccionador que não o soube aproveitar da melhor forma ao serviço da Orange, souberam decifrar o seu eterno enigma. O do homem que não voava por pavor a morrer numa queda violenta mas que era capaz de adentrar-se na selva de pernas dos defesas napolitanos num derby quente no San Paolo.

Quando chegou a Inglaterra, em 1995, a Premier League ainda não era no que se tornou e salvo Eric Cantona e David Ginola, dois franceses desterrados, os estrangeiros continuavam a ser olhados com desconfiança. Com ele o "boring Arsenal" transformou-se numa ópera clássica de requinte especial. O seu jogo de pés, a sua visão e, sobretudo, a parceria que estableceu com o cosmopolita Ian Wright, mudaram a face do jogo nas ilhas britânicas e transformou radicalmente o rosto de um clube adormecido.

Ao serviço do Arsenal o genial holandês executou as suas maiores obras de arte. Para Bergkamp um golo não era mais do que uma tela nua, preenchida com o seu apurado pincel e depois exposto com orgulho diante dos olhares atónitos do mundo. Essa falta de espirito killer provocou-lhe demasiadas criticas mas, por outro lado, reforçou ainda mais a sensação de grandeza cada vez que Dennis se transformava em Bergkamp.

Perder a conta aos golos, passes, desmacarcações ou sublimes remates de Bergkamp tornou-se num hobby tão respeitável como o de passar horas sentados no Louvre a contemplar, em adoração, as obras mais ousadas de da Vinci. A forma como abria e fechava o campo com um só gesto, autoritário como um general, diletante como um pintor da rive gauche parisina, tornaram-no num jogador especial. Wenger posicinou-o atrás do ponta-de-lança, primeiro Wright e depois Henry, dois jogadores que falavam o mesmo idioma intelectual e refinado que o holandês. Emulou assim a Cantona, que então se retirava, num gesto táctico que significou a morte definitiva (mas não imediata) do histórico 4-4-2 britânico. Esse posicionamento, que não repetiu numa Holanda repleta de outros artesões com egos muito maiores que o seu, permitiu ao Arsenal voltar a saber o que era ser campeão e durante meia década tornou-se igualmente no santo e senha dos amantes do futebol champagne, que os gunners herdavam do Milan de Sacchi com uma tremenda e insuspeita naturalidade.

 

Como muitos dos grandes génios, o seu reconhecimento passou ao lado dos grandes momentos. Com a sua Holanda falhou um Mundial que lhe parecia destinado, especialmente depois de, com três movimentos astairianos, desmembrar a jugular da nação argentina. Com os "gunners" faltou-lhe a consagração europeia que tinha servido à santa trindade holandesa que citamos ao inicio para confirmar o seu papel como estrela absoluta do jogo. Num desporto baseado em números, os de Bergkamp parecem efectivamente menos impressionantes que os dos seus compatriotas. Mas como a arte, essa revolta interna de um homem contra o mundo, ainda não se pode medir, é possível que haja sempre alguém corajoso o suficiente para proclamar Bergkamp como a tulipa mais resplandecente que o horizonte pode contemplar...



Miguel Lourenço Pereira às 14:23 | link do post | comentar | ver comentários (10)

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