Quinta-feira, 18.10.12

De Portugal já ninguém se surpreende no "planeta futebol" que acabe tropeçando nos jogos de qualificação mais fáceis. Não é uma sina, como os mais supersticiosos podem pensar, mas sim reflexo de uma selecção que funciona melhor como "underdog", em elemento de bunker mental e num futebol de reacção. Os resultados superlativos do último Europeu deixam claro que o problema de jogo continua a agravar-se nos jogos mais menosprezados na mente de técnicos e jogadores pela absoluta falta de mentalidade competitiva que está por detrás do sucesso de qualquer equipa ganhadora.

 

Se perder em Moscovo é um mau resultado, porque uma qualificação num grupo destas características quase sempre é um mano a mano, empatar em casa com a Irlanda do Norte é voltar às calculadoras precoces, ao sentimento de pequenez que transmite a selecção portuguesa longe dos grandes palcos. Empatar num jogo de qualificação não é um fenómeno anormal. Mas o empate de Portugal tem pouco a ver com o épico 4-4 do Alemanha e Suécia ou o agónico 1-1 do Espanha vs França.

Primeiro porque estes foram duelos entre rivais directos, algo que a Irlanda do Norte jamais será. E depois porque, sobretudo, não é novidade. Qualificação atrás de qualificação, desde 2004, que Portugal tropeça com os mais inesperados rivais e obriga-se a si mesma a fazer cálculos com os dedos, como um miúdo da primária, para sonhar com grandes gestas. Há três anos um jornal português publicou na capa, depois de um resultado similar, "Adeus África". Portugal acabou por se qualificar. Tem-no feito de forma consecutiva desde 2000 para todos os grandes torneios, um feito histórico. Mas sempre com essa dose de sofrimento que nos reduz à condição de pequenez futebolística aos olhos do Mundo.

A presença de Cristiano Ronaldo, como antes de Luis Figo, Deco e Rui Costa, dá a Portugal uma aura de importância aos olhos do Mundo mas quem está dentro do Mundo do futebol sabe que, em fases de qualificação, o comportamento da equipa das Quinas assemelha-se sempre mais ao de uma selecção de segundo nível a quem o cartaz de cabeça de série nunca funciona muito bem. 

Portugal não sabe competir como favorito. Não sabe pensar e organizar o jogo, ditar os tempos e os modos em que o rival é forçado a jogar. Deixa-se levar sempre pela corrente, pelos humores do adversário e acaba sempre por ter de reagir quando se lhe exige controlo e acção. Esteve a perder com o modesto Luxemburgo, com a Rússia e com a Irlanda do Norte e na soma dos três jogos conseguiu quatro pontos contra os nove dos russos. Não que a equipa de leste seja uma superpotência, apesar de ter todas as condições para vir a sê-lo nos próximos anos, a começar pelo seleccionador, um competitivo nato chamado Fabio Capello. Mas nestes duelos a condição de superioridade técnica, evidente, conta menos que a vontade de vencer e o savoir faire que sempre faltou a Portugal. Nos sprints finais a mentalidade dos jogadores e técnicos é alterada pelas urgências e os play-offs transformam-se numa cruzada de sofrimento rumo à glória. Fica bem à selecção esse espírito épico mas desnecessário se as coisas fossem bem feitas desde a raiz. Ninguém dúvida agora que recuperar seis pontos a esta Rússia é missão quase impossível e que os duelos contra Israel serão fundamentais para garantir o lugar no terceiro play-off consecutivo.

 

O fenómeno é extensível a vários mandatos de seleccionadores e a vários jogadores que é difícil repartir culpas com facilidade.

Trata-se, sobretudo, da falta de gene ganhador da selecção lusa, aquela que pior ratio histórico tem em grandes provas internacionais, a única que nunca venceu um torneio apesar de quatro semi-finais e uma final disputadas. Num país de 10 milhões isso poderia até ser um êxito, e de certa forma é-o, se não se desse o facto de países mais pequenos tivessem ultrapassado essa realidade sócio-económica precisamente por possuir o killer-instinct que sempre falha quando Portugal sobe ao terreno de jogo.

A equipa das Quinas jogou com a Irlanda do Norte da mesma forma que joga sempre quando não tem de temer o rival.

Desconcentrada, tímida, sem vontade de competir. Uma sensação de falsa superioridade moral que acredita que a bola acabará por entrar porque nós somos quem somos e eles só são quem são. A história está cheia de exemplos de rivais como os irlandeses que fizeram a Portugal o que a equipa lusa costuma fazer às selecções grandes nos torneios onde realmente brilha. Nessas provas, o espirito de bunker formado nas concentrações, a sensação de nunca ser favorito e partir sem pressão, é suficiente para deixar ver outro rosto de Portugal. Em 2004 os nervos puderam com a estreia num Europeu que estávamos fadados a ganhar. Em 2006, num dos grupos mais acessiveis da história, ninguém deslumbrou nos jogos iniciais e quatro anos depois Portugal voltou a ter dificuldades em afirmar-se como uma selecção a respeitar. Para não falar no medo com que se jogou com Brasil, Espanha e Alemanha nos torneios seguintes. Mudam os técnicos, mantêm-se os problemas emocionais.

Tacticamente este Portugal é igual ao do último Europeu, mas sem a pressão e critério que desaparecem quando a cabeça não acompanha. Ronaldo não brilha tanto nestes jogos talvez porque sabe que não há tantos olhos em cima, tantos votos por contar. Nani desaparece ainda mais no buraco negro em que se está a transformar a sua carreira e a defesa desliga de forma colectiva abrindo espaços e deixando Patricio exposto ao mais inesperado dos rivais. O golo irlandês não foi muito diferente do golo russo e a falta de reacção foi idêntico. Num país sem um lote de jogadores de qualidade para escolher até as baixas de Coentrão e Meireles se notam, especialmente quando o seleccionador aposta na versão de "sargentão" e na sua família e prefere excluir Eliseu e Paulo Machado, jogadores que aportariam muito mais do que Miguel Lopes e Ruben Micael. Sem um goleador, especialmente porque o jogador das 100 internacionalizações tem um ratio goleador monumentalmente inferior com a sua selecção do que com os seus clubes, e sem um pensador de jogo, que João Moutinho voltou a provar ser incapaz de ser, a coluna vertebral da selecção desfaz-se com tremenda facilidade e deixa as suas fragilidades expostas á mais cínica e oportunista das selecções. 

 

Esse velho fado dificilmente mudará no futuro se não houver uma profunda mudança de mentalidade a nível geral no futebol português, similar às produzidas em França, Espanha e Alemanha, países que estão agora a capitalizar as metamorfoses internas da última década ao nível de todos os escalões do seu futebol. Portugal terá de jogar contra o tempo e provavelmente vencerá com solvência os duelos com Israel e numa boa noite pode até mesmo bater os russos em casa, particularmente se jogar com a mesma atitude que tanta falta lhe faz nos jogos que realmente importam. Mas dificilmente se livrará de um novo play-off para chegar de novo ao Brasil sem a aura de favorita como tanto gosta. Depois, será a altura dos seleccionadores e jogadores que se mostraram incapazes de competir contra selecções dos últimos escalões do futebol europeu reclamar o protagonismo e grandeza nos resultados. Ídolos de pés de barro.



Miguel Lourenço Pereira às 13:02 | link do post | comentar | ver comentários (17)

Quarta-feira, 17.10.12

Sai Leandro Damião, entra Kaká. Uma mudança que provoca um verdadeiro terramoto táctico no jogo ofensivo do Brasil de Mano Menezes. Uma mudança que aproxima o escrete canarinho da sua herança histórica, defensora do conceito de falso 9 muito antes do futebol actual sequer ter sonhado com tamanha "inovação". Este Brasil ainda apresenta falhas importantes para ser considerado favorito no terreno de jogo a vencer o seu Mundial. Mas se a experiência da última semana se tornar em realidade, o concerto de classe e futebol dos brasileiros está garantido para o próximo Campeonato do Mundo.

 

Circula a bola com fluidez. Move-se de lado a lado do campo.

Sem posições fixas, sem ataduras tácticas visíveis a olho nu (porque elas estão sempre lá), o quarteto ofensivo brasileiro desdobra-se com naturalidade, talvez lembrando-se de outras eras, de outras histórias, de um futebol que foi perdendo com a sua progressiva europeização. Em 1990 Carpeggiani chocou o Mundo apresentando um 3-5-2 calcado ao modelo argentino tão em voga na América Latina e o Brasil desiludiu como nunca. Quatro anos depois o músculo substituiu o talento, os buldozzers jogaram no lugar dos pintores e a eficácia do único génio irreverente fez a diferença e o Mundial chegou, 24 anos depois. Em França, Zagallo procurou aproximar-se mais ao modelo europeu mas cedendo alguma criatividade ao seu ataque e o titulo ficou a um pequeno passo para os brasileiros e um imenso salto para Ronaldo. O homem que apareceu, quatro anos depois, para ajustar contas com a história numa equipa que jogava num 3-5-2 que só era viável porque Roberto Carlos e Cafú são tão inimitáveis como os três R´s da frente. Para os dois Mundiais seguintes passou-se do 8 (um ataque só de avançados e sem trabalho de meio-campo) ao 80 (uma equipa sem alma de ataque que apostava tudo no músculo do miolo). Nenhum dos projectos resultou. Mais do que isso, nenhum destes modelos tinha sequer similaridades à escola brasileira. À dos três Mundiais, entre 1958 e 1970, à do Brasil de Telé Santana, à que acreditava no papel do individuo dentro do colectivo como elemento realmente diferenciador na hora da verdade.

Talvez este seja um ponto de inflexão. 

O Brasil que renegou da sua condição parece interessado em redescobrir-se. Talvez porque jogará o Mundial em casa e tem contas para ajustar. Nenhuma selecção grande que teve recebido alguma vez um Mundial falhou em vencê-lo. Uruguai em 1930, Itália em 1938, Inglaterra em 1966, Alemanha em 1974, Argentina quatro anos depois e França em 1998. Os brasileiros são a única grande nação que falhou em casa na hora da verdade. Nunca nenhum país que tenha recebido por duas vezes um Mundial, salvo o México, viveu duas derrotas do anfitrião. Esse é um peso sério para os ombros de Menezes. Especialmente se desiludir não só no resultado mas, sobretudo, no terreno de jogo.

 

O falso 9 é uma falsa questão, uma invenção tão antiga como os mágicos magiares de princípios da década de 50.

Não foi uma invenção actual, espanhola ou blaugrana, e ninguém a levou ao nível de lenda como a selecção brasileira de 1970. A de Zagallo, o homem por detrás da metamorfose do 4-2-4 para o 4-3-3 e o homem que tem igualmente o crédito de ter inventado o 4-2-3-1 no Mundial do México. A diferença é que esse um, esse elemento avançado diferenciador, Tostão, actuava no terreno de jogo como um mais do tridente que o precedia composto por Jairzinho, Rivelino e o imenso Pelé. Nenhum dos quatro jogava numa posição fixa e alternavam regularmente posições na linha ofensiva. Jairzinho foi o melhor marcador do escrete, apontando em todos os jogos, um feito histórico, aparecendo tantas vezes no espaço que a movimentação de Tostão deixava para os colegas. A consagração dessa selecção, uma das melhores e mais excitantes da história, foi também a consagração de um modelo sem amarras tácticas que muitos pensavam ser possível só no Brasil.

Doze anos depois o Brasil de Telé Santana tentou emular o mesmo ideário, num 4-2-2-2 em que os quatro da frente trocavam de posição de forma constante, com a maioria dos golos a ser marcados pelos médios ofensivos e não pelos dianteiros. Mas a ausência de um título pesou na imagem que deixou no futuro e à medida que o futebol se metia em corsets tácticos vários, a ideia perdeu-se no tempo até que Pep Guardiola, primeiro, e Del Bosque, depois, a aplicaram com sucesso no futebol espanhol.

Kaká foi a pedra basilar no modelo de Menezes que recupera essa herança.

Até agora o seleccionador tinha procurado jogar quase sempre com uma figura de ataque, habitualmente Leandro Damião. Mas a verdade é que ao Brasil falta-lhe essa figura de goleador com que a história tem abençoado os brasileiros nas grandes gestas desportivas. Talvez com essa consciência, talvez porque a herança táctica brasileira pedia algo especial, Menezes decidiu reunir os seus jogadores mais criativos e distribui-los pela linha de ataque sem posições fixas.

A movimentação de Hulk, Neymar, Kaká e Óscar é o grande quebra-cabeça das defesas contrárias. Jogam no espaço, pedem a bola, movem-se e descolocam os rivais com a precisão de um relógio. Apoiam-se no imenso trabalho físico e táctico da dupla Ramires-Paulinho, herdeiros dessa memória de carregadores de piano do passado, e pintam o seu futebol de forma tranquila e cúmplice. Quando saem, é para dar lugar a outros interpretes da mesma sinfonia, a Lucas Moura, a Giuliano, a Thiago Neves e só, ocasionalmente, ao caça-golos Damião.

Menezes pode avançar com uma linha de individualidades com que talvez só o futebol espanhol e alemão possa competir. Pode dar-se ao luxo de abdicar de um renascido Ronaldinho Gaúcho. Pode esquecer-se até de Jadson ou Willian. Para não falar de Paulo "Ganso" Henriques, que parece ter perdido definitivamente este comboio. De certa forma conta com as condições perfeitas para montar uma orquestra deste estilo. Dois laterais ofensivos - Alves e Marcelo - dois centrais de garantias - Thiago e David Luiz - e um meio-campo tacticamente impecável. Os jogos mais recentes, frente a dois rivais asiáticos, deixaram a nu alguma falta de coordenação entre o ataque e a defesa e talvez por isso o seleccionador brasileiro tenha guardado sempre as substituições para os momentos finais. Para ganhar o grupo, o onze, a equipa que os pode levar ao hexacampeonato do Mundo.

 

De certa forma, a este Brasil falta-lhe a estrela planetária (que Neymar ainda não é) que tem a Argentina, o espírito coral da selecção alemã e a classe superlativa da equipa espanhola, aqueles que são os reais favoritos a vencer o próximo Mundial. Mas a um ano e meio de arrancar o torneio, Menezes tem tempo para trabalhar a sua ideia. Ter encontrado com o modelo ideal é o primeiro passo. A partir daí a herança histórica brasileira e o talento genuíno dos seus interpretes terá de fazer o resto para fazer dessa condição de favorito emocional o primeiro passo para um torneio para a posteridade.



Miguel Lourenço Pereira às 00:01 | link do post | comentar | ver comentários (24)

Sábado, 15.09.12

Espanha bateu o recorde de posse de bola num só jogo. 80%, um número que seria assustador não fosse habitual ver as exibições da Roja em números que não dormem tão longe como isso do novo recorde obtido. Foi em Tiblissi. Foi com a Geórgia. E terminou com uma apertada vitória a 1, com um golo a cinco minutos do fim. Espanha sente a bola como nenhuma selecção do Mundo. Por isso sente-se e transforma-se numa equipa quase invencível. Mas ter sempre a bola não significa vencer sempre e as vitórias pela mínima transformaram-se, mais do que numa imagem de marca, num suspiro de ansiedade que gera nos seus adeptos o jogo rendilhado dos espanhóis.

 

Há quem prefira um futebol intenso, rápido, de trocas sucessivas de golpes. De lances, de oportunidades, de golos. De muitos golos.

Quem goste de um modelo mais britânico, mais parecido a um combate de boxe onde ambos os lutadores se olham nos olhos, sem medo, e desferrem murros sem piedade até que, seja por pontos seja por k.o., vença. Essa é a escola original, aquela que mais perto se encontra da verdadeira origem do futebol moderno. Um futebol que privilegia os golos por cima de tudo, que os valoriza a eles e aos seus autores por cima de todos os outros. Um futebol de acção, de emoção, de suspense, de intensidade. 

E no entanto esses adeptos vivem dias negros, dias em que o futebol de ataque e contra-ataque, de troca de golpes, tem-se visto suplantado pelo futebol de posse. O futebol em que a bola, e não as balizas, é protagonista. O futebol onde a bola é minha e de mais ninguém, onde a equipa descansa com a bola nos pés, em trocas de bola controladas, em longos momentos de possessão, um futebol onde as oportunidades se contam pelos dedos das mãos mas, quando surgem, parecem inevitáveis. E, sobretudo, um futebol onde o golo parece um complemento e não um fim, um complemento que tarde ou cedo chegará, inevitavelmente. Um futebol que deriva sobretudo da abordagem centro-europeia, dessa que se divorciou das origens, primeiro com a Escócia e mais tarde com os escoceses que viajaram por esse mundo fora e encontraram sobretudo na bacia do Danúbio, espaço para explicar as suas ideias. Esse é o futebol dos dias de hoje, o futebol mais admirado e, sobretudo, o mais titulado.

É o futebol de Espanha, de uma selecção que aprendeu a fazer da bola a sua arma, e da posse a sua grande filosofia. 80% de posse de bola significa, mais do que os outros 20% possam significar, uma asfixia absoluta. Um futebol monólogo que vence troféus com uma regularidade histórica ao mesmo tempo que perde adeptos entre os neutrais que se deixam levar pela ilusão da emoção.

 

A bola é para o jogador espanhol uma continuação da chuteira. 

Ao contrário da maioria dos futebolistas, o espanhol não quer desprender-se da bola da mesma forma que não quer jogar descalço apesar de, na maioria dos casos, se o fizesse nem se notaria a diferença. A bola trata por tu jogadores internacionais respeitados em todo o planeta de Xavi a Iniesta, passando por Silva, Cazorla ou Fabregas. Mas vejam um jogo da liga do país vizinho e entendam como para Isco, Thiago, Iturraspe, De Marcos, Gabi e Beñat, sem esse protagonismo mediático, a sentem da mesma forma, com a mesma paixão, com a mesma inevitável sensação de familiaridade.

O jogo da selecção espanhola tem sobretudo uma falha que o separa da mais absoluta perfeição. A eficácia. Contando com homens que sabem criar, planear e sonhar com os melhores assaltos, o estranho é ver a equipa espanhola assaltar com regularidade as redes contrárias. Se na final do Euro 2012 os italianos sofrerem uma humilhação igual à de 1970, com os mesmos golos à mistura, a verdade é que em torneios de prestigio internacional o jogo da equipa espanhola se mede pela falta de eficácia dos seus dianteiros. 

A questão não está em vencer por 1-0 apenas porque é suficiente. Um 1-0 nunca o é e grandes equipas descobriram que os deuses de futebol não permitem em demasia que se jogue tanto no limite. A derrota com a Suiça, em 2010, e o sofrimento com a Croácia, em 2012, são bons exemplos dessa realidade.

Espanha sabe que dificilmente sofrerá golos. Não porque tem o melhor guarda-redes do mundo (e o melhor suplente), nem uma das melhores linhas defensivas do planeta. Sabe porque tem a bola, porque não a perde, porque o rival tem entre 20 a 30% de posse num jogo e isso significa que as oportunidades serão escassas e estão, quase sempre, debaixo controlo. Casillas não sofre golos num jogo oficial há seis encontros. Quase nada. Aragonés e Del Bosque sabiam o mesmo que Hogan e Sebes já ensinavam há tantos anos atrás: a bola é tua, o jogo é teu, o resultado eventualmente também o será.

Mas o que continua a marcar distâncias entre esta Espanha e as grandes equipas da história está no outro lado. Se no meio-campo (onde está a esmagadora maioria dessa posse de bola, uma posse de controlo, de descanso, de artimanha) dificilmente houve na história uma equipa com o mesmo à vontade desta selecção, na área Espanha continua a ser uma selecção dubitativa, uma selecção sem esse killer-instinct que se tornou na trademark de outras das suas rivais nesse hall of fame futebolístico.

 

Espanha continua a aparentar ser uma selecção invencível, sobretudo porque faz da defesa a sua virtude, sem ter necessidade de defender em excesso. É uma selecção que se define exclusivamente pela bola que conduz como ninguém. Mas como é uma selecção de bola e não de baliza, Espanha também tem criado um complexo de angustia nos seus adeptos, habituados a sofrer em demasia até ao momento final em que surge o golo, habituados a esperar levantar-se da cadeira uma vez em cada 90 minutos. Falta ao futebol da Roja aproveitar ainda mais as poucas oportunidades que gera, com autoridade, para aproximar-se um pouco mais desse Olimpo futebolístico, deixando de ser uma selecção de bola para passar a ser uma selecção da bola.



Miguel Lourenço Pereira às 16:51 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Sexta-feira, 07.09.12

Arranca a fase de qualificação para o Mundial de 2014 na zona europeia. Com o resto do mundo em etapas mais avançadas, os europeus começam o sprint maratoniano que abre as portas a um torneio que ninguém quer perder. Portugal repete como cabeça de série e como máximo favorito a marcar um lugar antes de tempo nesse reencontro lusófono com Vera Cruz. Um caminho traiçoeiro e que procura saber se a equipa das Quinas aprendeu a meter-se por desvios perigosos.

 

Desde 2006 que Portugal não consegue vencer o seu grupo de apuramento e nas últimas duas ocasiões falhou mesmo a qualificação directa para um grande torneio internacional.

No entanto, nas provas em que acaba sempre por chegar, a performance acaba por superar a maioria das equipas que manejam com mais tranquilidade e eficácia a fase de qualificação. Dirão os adeptos que preferem sofrer antes para desfrutar depois, mas o problema não está nem na prestação final nem na angústia que significa decidir um ano de trabalho num jogo de ida e volta. Se em 2008 o segundo lugar do grupo, ganho pela Polónia, serviu pelas contas que evitaram que os segundos fossem forçados a mergulhar num play-off, a partir daí Portugal por duas vezes encontrou a Bósnia no caminho para a África do Sul e Ucrânia. 

Sempre partindo como cabeça de série, consequência da brilhante trajectória da última década e meia, o conjunto das Quinas encontra sérios problemas em exibir-se de acordo com o prestigio acumulado em fases de apuramento. É uma velha doença do futebol português que durante 32 anos marcou presença apenas em quatro provas internacionais tropeçando sempre na fase prévia por este ou aquele motivo. Desde o França 98, e dessa maldita expulsão de Rui Costa na Alemanha, a equipa das Quinas nunca falhou um grande torneio mas isso não significa que não tenha deixado para os últimos dias a confirmação do bilhete de avião. 

Paulo Bento mostrou no último Europeu que é capaz, num microcosmos particular, de criar um grupo motivado, disciplinado tacticamente e preparado para saber sofrer. A prestação de Portugal superou todas as expectativas e o terceiro posto, medalha de bronze merecidíssima, foi um prémio a essa postura profissional que tantas vezes falhou no passado. No entanto, os problemas crónicos do futebol português não desaparecem por um bom torneio de Verão, e notam-se sempre mais nas longas viagens por esse continente fora e nesse pulso com os clubes mais poderosos do continente do que propriamente em Mundiais e Europeus.

 

Bento sabe que tem um grupo traiçoeiro. 

Na teoria o apuramento directo tem de ser assumido desde o primeiro dia, sob pena de Portugal continuar a cair nesse eterno fado de vitimização que tão bem cai na pele lusa. Portugal não é só a melhor equipa entre as seis do grupo como é também aquela que parece mais preparada para chegar comodamente ao Brasil.

Está a anos-luz do futebol duro e intenso dos irlandeses de Belfast e arredores, dos homens de Israel e, evidentemente, de luxamburgueses e azerbeijanos. No duelo directo com a Rússia, uma potência por direito próprio, Portugal tem a vantagem de ser um projecto em desenvolvimento avançado enquanto que os russos apostam forte não em 2014 mas sim no seu próprio torneio de 2018. Para isso contrataram Fabio Capello, um homem duro que fará progressivamente a triagem da geração que falhou na Polónia estrepitosamente e que dará passo a uma nova vaga de promessas que estão ainda a dar os primeiros passos como internacionais. 

Portugal, pelo contrário, não apresentará mudanças face aos últimos anos. Por um lado é um aspecto positivo porque garante ao técnico que a sua "família", como sucedeu com Scolari, lhe dará tranquilidade e confiança, seguro que os seus conceitos tácticos e posturas serão bem assimilados. Ninguém espera que em dois anos o papel de Cristiano Ronaldo, Nani, Raul Meireles, João Moutinho, Pepe, João Pereira, Fábio Coentrão e Bruno Alves seja questionado e com Rui Patricio como homem de confiança nas redes, só o eterno debate do dianteiro e do médio mais defensivo podem levar Bento a fazer alterações a médio prazo.

Nelson Oliveira terá em Espanha a oportunidade e os minutos que não teve na Luz para justificar a aposta que o técnico tem feito e Miguel Veloso, na Ucrânia, passará um curso intensivo que não lhe dará espaço para erros. Não se vêm caras novas no horizonte para um primeiro plano que nos planos do seleccionador é fundamental. O técnico utilizou apenas 16 jogadores no último torneio e salvo lesões, é dificil pensar que aumente em demasia o leque nos jogos a eliminar. 

No entanto esta realidade, como já sucedeu no final dos dias de Scolari, esconde sobretudo a incapacidade do futebol português de produzir ao mesmo ritmo de sempre novas esperanças para o futuro. Os projectos das equipas B podem ser uma opção mas demorarão até se afirmarem definitivamente como alternativas e só a crise económica dos clubes os poderá forçar a apostar no producto nacional, quase sempre mais barato, e na sua própria formação. Os fracos desempenhos das selecções de sub-21 e sub-19 no entanto não escondem uma realidade difícil para um futuro próximo e até bem depois de 2014 ninguém espera uma mudança de cromos substancial nos planos da equipa das Quinas.

 

A fase de qualificação arranca com um jogo fácil. Desses em que Portugal se maneja francamente mal. 

Portugal ensinou o mundo a preparar-se para uma equipa que rende muito bem com nomes consagrados e sofre em demasia com selecções sem perfil competitivo. As viagens ao leste da Europa tornaram-se, na última década, num problema sério e lidar com o kick-and-rush das Irlandas sempre foi um problema no esquema de jogo dos lusos. E serão esses os jogos fundamentais da fase.

Portugal poderá ter um duplo duelo com os russos - que em 2005 foram presas fáceis, eles que viviam então também uma fase de profunda reestruturação que resultou no excelente Euro 2008 - mas se não somar a totalidade dos pontos contra os restantes rivais, acabará por ser forçada a jogar demasiado em pouco tempo. Os oito confrontos com israelitas, irlandeses, luxemburgueses e azerbeijanos não podem saldar-se com menos do que 22 pontos conquistados, vantagem que permitirá um tropeção ou uma má noite em Moscovo ou na recepção a uma selecção russa que está orientada por um homem especialista em duelos de elevada pressão psicológica e que terá também a oportunidade de limpar a imagem depois de um período à frente da selecção inglesa cheia de interrogantes.

Bento, que fez parte como jogador de muitos desses jogos onde se perderam pontos infantilmente no passado, sabe perfeitamente que a margem de manobra é reduzida. Estar no Mundial de 2014 mais do que uma obrigatoriedade, é uma profunda necessidade.

Portugal tem vivido de um ranking favorável que lhe tem permitido escapar a confrontos com rivais mais poderosos. Se não há uma geração de futuro capaz de pegar na herança deixada por Cristiano Ronaldo e companhia, a selecção tem de pelo menos manter as performances desportivas em alta quando ainda dispõe de jogadores de elite como o extremo do Real Madrid, para garantir que ao longo desta década, as fases de qualificação que venham sejam igualmente caminhos com rosas mas sem espinhos.

Depois de falhar um Mundial, em França, que podia ter significado o arranque precoce da "Geração de Ouro" junto de uma imensa comunidade emigrante que ficou sem ver os seus heróis, falhar um torneio num país com quem Portugal partilha mais do que a língua seria um desastre não só futebolístico mas também sociocultural. 

 

Uma das principais vantagens do calendário que esperam os homens de Bento está no facto de que nenhum dos duelos com os russos ficam reservados para o sprint final. Em Outubro e Junho os mano a manos entre eslavos e ibéricos deixaram pistas mas não serão determinantes. Portugal tem espaço para progredir com tranquilidade e conseguir assim o feito histórico de somar a sua oitava fase final consecutiva, um feito reservado apenas às grandes selecções mundiais.  



Miguel Lourenço Pereira às 12:24 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 03.05.12

algo no futebol inglês que seduz. Talvez a sua eterna incapacidade para impressionar a todos. Ao contrário de holandeses, brasileiros, espanhóis, franceses ou argentinos, ninguém se lembra de uma selecção inglesa que tenha reunido um consenso universal. É sempre o patinho-feio dos torneios, a equipa que quer e não pode, a selecção de uma liga que só encanta pela legião estrangeira que lhe dá cor e forma. Nesse panorama cinzento a FA já tentou seleccionadores de distintas personalidades e experiência. Agora opta por Roy Hodgson. O técnico mais cinzento para uma selecção em que já ninguém consegue acreditar.

Fabio Capello saiu pela porta pequena como não lhe é habitual. Estava farto. E Capello farta-se depressa das coisas.

Farto da pressão dos media, da relação dos jogadores e da incapacidade crónica do futebolista inglês a aprender conceitos de jogo colectivos. A prestação no Mundial da África do Sul foi um desastre. Muitos culpam a falta de arrojo do italiano, outros o espírito bélico dos próprios jogadores, incapazes de lidar com o ritiro inventado por Capello. Estava claro que este casamento não ia ter final feliz porque Capello, ao contrário de Giovanni Trapattoni, é demasiado inflexível. E só alguém ainda mais hermético do que um técnico italiano. Um jogador inglês.

O cinzentismo da equipa que deixou Capello contrasta com o excesso de juventude e inexperiência que parece estar reservada para as próximas concentrações dos Pross. Como sucede com o caso português, a Geração de Ouro inglesa afinal não o foi e há um hiato tremendo entre jogadores com lugar cativo no onze e novos nomes que bebem já outros conceitos aprendidos numa Premier League que começa a assimilar algumas das características do jogo de toque continental. É preciso relembrar que a única vez que a Inglaterra não jogou como a Inglaterra é suposto jogar, os leões foram campeões do Mundo. Essa ideia ronda pela cabeça de muitos jornalistas e treinadores britânicos e depois da consagração do modelo espanhol, há quem tenha a tentação de seguir esse ideário deixando para trás décadas de kick-and-rush e desilusões. A tentação inicial era procurar dentro de casa alguém que fosse seguir esse caminho. O treinador inglês é um oásis de originalidade e há tão poucos técnicos de sucesso na Premier de origem inglês (a maioria são os escoceses ou irlandeses) que reduzir o leque de candidatos não era tarefa complexa. Harry Redknapp parecia, desde o primeiro instante, o mais claro favorito. Mas este não é um país para suspeitos, pode dizer-se, e apesar de ilibado o nome de Redknapp ficará sempre ligado ao escândalo de fuga de impostos, algo que a FA nunca viu com bons olhos. A recusa do treinador em abandonar de imediato o Tottenham Hotspurs - então a lutar pelo titulo - também não ajudou e a federação quis provar com o treinador dos sub-21, Stuart Pearce. A falta notória de habilidade de Pearce e a péssima segunda volta dos homens de Redknapp acabaram com as duas opçoes e o vazio voltou a aparentar ser maior do que nunca. O dinheiro não comprou Mourinho e Guardiola e no meio do desnorte, o cinzentismo voltou a imperar.

 

Roy Hodgson é o mais continental dos treinadores ingleses.

Por continental não digo pelo estilo de jogo. Não é uma reencarnação de Jimmy Hogan como Niels Egen era um primo afastado de Stan Cullis. Mas grande parte da sua carreira foi feita longe da Velha Albion. Foi seleccionador da Finlândia, dos Emirados Arabes Unidos e, sobretudo, da Suiça a quem levou ao Mundial de 1994 em grande estilo para depois assinar uma fase final deprimente. Foi treinador principal do Inter de Milão e não só não venceu o Scudetto como perdeu a final da Taça UEFA com o Schalke 04. Em Inglaterra passou toda a carreira em equipas de low profile até que levou o modesto Fulham à final da Europe League, perdida, claro está, nos últimos minutos diante do Atlético de Madrid. Um logro emocional que o levou a Anfield Road onde assinou talvez o pior arranque de época da história do Liverpool. Não durou meio ano (não que Kenny Dalglish tenha feito muito melhor esta época) e acabou no West Bromwich equipa que luta por sobreviver com poucos recursos e menos imaginação ainda.

A um mês de que arranque o Europeu poderíamos imaginar mil treinadores diferentes para orientar a selecção inglesa. Menos Hodgson.

Talvez por isso tenha sido o escolhido.

Dele não se espera nada a não ser um low profile. Não é um inovador táctico apesar de ter bebido de várias culturas. Não é um lider de balneário e nem sequer é uma inspiração para os adeptos. E como já poucos esperam algo de uma equipa sorteada no mesmo grupo de uma França revitalizada, uma sempre complicada Suécia e a equipa da casa, Ucrânia, há quem pense mesmo que passar à segunda fase é algo a que os ingleses não podem ambicionar. Redknapp teria sido uma escolha de inspiração genuína mas o seu estilo de liderança provavelmente entraria em choque com o balneário. Hoddson formará consensos. Apesar de todos saberem que a geração de John Terry, Ashley Cole, Rio Ferdinand, Frank Lampard e Steven Gerrard tem os dias contados, a verdade é que não há jogadores de nivel internacional para substituir-lhes. Jack Whilshire, talvez a melhor aposta de futuro, está de fora do torneio por lesão. Wayne Rooney não jogará os dois primeiros jogos e nem Ashley Young, Danny Wellbeck, Phil Jones, Kyle Walker, Tom Cleverley ou Micah Richards têm o espirito de liderança e sangue frio que se exige nestes momentos.

Hodgson sabe que terá de formar uma equipa que capte o melhor de dois mundos. Terry jogará, Lampard também, Ferdinand e Gerrard terão os seus momentos. Hart resolveu, de momento, o problema da baliza mas a falta de cabeça de Rooney abriu outro no ataque. Entre Bent, Defoe, Wellbeck, Carroll e Sturridge estará a solução momentânea. No meio o enigma, entre o 4-4-1-1 e o 4-3-3, mais do que no dispositivo táctico nos nomes que sobem ao terreno de jogo e que podem fazer dos Pross uma equipa mais especulativa ou frontal. Conhecendo Hodgson, não esperemos milagres.

 

A eleição de Roy Hodgson como novo seleccionador inglês deixa claro que há federações que continuam a querer acreditar que um seleccionador é uma figura menor, de perfil baixo, que existe apenas para resolver problemas humanos durante duas semanas. São os que acreditam que os jogadores já vêm com as lições tácticas debaixo do braço e que apenas é necessário ordenar os nomes no tabuleiro. Essa postura britânico não é nova e não tem dado frutos positivos. O último grande técnico de vertente táctica que orientou a selecção foi campeão do Mundo. Todos os que o seguiram tentaram encarar as fases finais como meros torneios motivacionais. Todos falharam e o novo seleccionador sabe-o bem. O problema para os ingleses é que tão poucas expectativas num homem tão cinzento como é Hodgson podem ter precisamente o efeito contrário no balneário e o feitiço virar-se contra o feiticeiro. Sven-Goren Erikson sofreu-o na pele na Alemanha em 2006. E todos sabemos como esse filme acabou. 



Miguel Lourenço Pereira às 13:29 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 02.12.11

Se o futebol fosse um jogo de pura sorte, Portugal podia ter razões de queixa. Uma selecção que começa a ser conhecida como a eterna candidata entalada num grupo com três campeãs europeias e duas das três máximas candidatas ao troféu. Mas se a sorte faz parte da linguagem do jogo também é verdade que sempre foi nos momentos mais complicados que Portugal mostrou a sua face mais competitiva. Com a embaixada mais débil dos últimos 16 anos, Portugal tentará contornar um destino que não só parece inevitável como é tremendamente lógico.

Brasil, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Bulgária, Hungria, Roménia, Dinamarca, Croácia, Costa do Marfim...

Selecções que á priori tinham todas as condições para eliminar Portugal numa qualquer fase prévia pretérita do historial luso. Todas foram surpreendidas por essa capacidade de resposta que, desde 1966, faz parte do ADN da selecção nacional. De 1966 a 2010 o desafio de um grupo complexo sempre foi um aliciante extra para os destinos de Portugal. Pelo contrário, grupos acessíveis, como os de 1986, 2002 e 2008, de certa forma, convidam a um relaxamento que já pregou demasiadas partidas. Pensando assim o sorteio do próximo Europeu pode ter sido um sorteio de sorte.

E no entanto olhamos para os futuros rivais da selecção portuguesa e é dificl pensar noutro cenário que não seja um adeus tão precoce como o de 2002, a última vez que Portugal ficou de fora na fase de grupos de uma prova internacional. As duas melhores selecções europeias da actualidade, equipas que podem verdadeiramente desafiar a hegemonia de uma Espanha que no último ano foi perdendo gás mas que continua a ser a grande favorita. E uma equipa que nos últimos dois torneios venceu o grupo de qualificação em que Portugal ficou inserido, com vitórias claras e uma superioridade de jogo inequívoca. Portugal pode ter melhores individualidades que a Dinamarca, mas desde 2008 que parece incapaz de o demonstrar num confronto directo. Não era um rival apetecível. E no entanto será o mais importante.

A partida inaugural frente a super-favorita Alemanha - provavelmente a melhor equipa do mundo da actualidade - não será determinante. O duelo com os nórdicos sim. Qualquer resultado que não passe pela vitória pode significar um adeus precoce. Uma vitória e o duelo directo com a Holanda pode ser verdadeiramente apaixonante. As tulipas são a grande incógnita do torneio. Finalista do último Mundial, grandes figuras da fase de grupo do último Europeu (antes de cair diante de uma surpreendente Rússia nos Quartos), é uma equipa de altos e baixos. Um rival com as caracteristicas que tanto estimulam o histórico português.

 

Paulo Bento tem consciência das limitações do seu quadro.

A sua politica como seleccionador reduziu ainda mais a margem de manobra ao abdicar de José Bosingwa de forma unilateral e por isso qualquer lesão ou problema físico até Junho pode ser um problema mais sério do que parece á primeira vista. Contra a Bósnia viu-se o melhor rosto de Portugal, um jogo de transições rápidas onde a velocidade de Nani e Ronaldo e o trabalho no miolo de Moutinho e Meireles, e sobretudo Veloso, faz sentido. Essa será a melhor arma frente a duas equipas tecnicamente mais poderosas como os teutões e holandeses mas frente á Dinamarca a equipa de Bento terá de se preocupar em ter a bola e saber fazê-la circular como foi incapaz em Copenhaga no passado mês de Outubro. E aí faz falta um jogador de outras características para o meio-campo. Um jogador que não existe no leque de seleccionáveis. E que ajuda a perceber porque é que Portugal, neste Grupo da Morte mediático, é o elo mais fraco.

A lógica ditará que os lusos terminem em último lugar do grupo e no entanto essa perspectiva foi a mesma que marcou o arranque do Euro 2000 (onde também defrontamos uma Roménia capaz de bater Portugal na qualificação para ser derrotada por um golo de Costinha) onde a equipa inglesa era vista como máxima candidata e a Alemanha não deixava de ser...a Alemanha.

Claro que não há João Pinto, Rui Costa, Figo e Nuno Gomes, que realizaram aquele que foi talvez o melhor torneio do historial luso. Mas essa pressão de favorito, que tanto pesou dois anos depois, não existia e o futebol dos lusos foi muito mais fluido e preciso talvez porque a mente dos jogadores estava tranquila. Será a missão principal do seleccionador, imitar o feito de Humberto Coelho e desaparecer por detrás dos jogadores para dar-lhes essa dose de confiança de quem não tem nada a perder.

 

Se o futebol fosse um jogo só de sorte, Portugal podia aspirar a ser campeã da Europa. Mas não o é e por isso os números jogam um papel importante e dictam que os lusos são hoje um dia um rival simpático. Mas como a sorte, tal como os números, não sobe ao relvado, a relatividade de um desporto que faz disso a sua principal arma de sedução permite a Portugal aspirar a tudo sabendo que o mais provável é que saia sem nada. O mérito de qualificação para um torneio como este é tremendo porque melhores equipas ficaram pelo caminho. O público português tem direito ao sonho mas também tem forçosamente de sentir a chapada na cara da realidade. Talvez seja esse o click necessário para inverter o destino de uma bola que entra no momento exacto e nos convida a ficar, só um pouco mais.

 

PS: Em relação aos restantes grupos, deixarei para o mês de Maio uma análise mais cuidada. No entanto ficou claro que a politica de ranking da UEFA permite a existência de um grupo como o A - talvez o mais fraco de toda a história dos Europeus de Futebol - e um grupo como o D onde suecos, franceses, ingleses e ucranianos partem ao mesmo nível no verdadeiro Grupo da Morte. Quanto á Espanha, que pode fazer um tri histórico, terá Trapatonni, Modric e, sobretudo, a sua besta negra, a Itália, pela frente. Junho promete ser um mês inesquecível!



Miguel Lourenço Pereira às 20:36 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Terça-feira, 22.11.11

Durante a última década formou-se uma corrente de pensamento que consagrava a carreira do genial Zinedine Zidane como a súmula perfeita de uma época clássico no jogo. Chamaram-lhe o "Quinto Grande" por alusão ao lugar vazio atrás do poker Di Stefano-Pelé-Cruyff-Maradona (assim, temporalmente, para evitar discussões) tornando a sua roleta, frieza e camisola suada num icone de uma era. Mas a grandeza de Zinedine - indiscutível - talvez não tenha sido tão evidente que uma boa campanha de marketing não tenha ajudado a mistificar. E quando a bola rola, dorme, beija e toca a chuteira de Don Andrés, é difícil não imaginar que o "Sancho Panza" manchego mereça - como mínimo - o mesmo tratamento que o filho da nova Gália.

Movimento, roleta, movimento, cabeça alta, olhar fixo, gota de suor, movimento, leitura, suavidade, segurança, passe, cheque...mate.

Zinedine Zidane tratava a bola com a mesma devoção com que Paulo de Tarso perseguia cristãos. Com essa agressividade dissimulada no olhar, esse suor de guerreiro desde os primeiros sprints, esse ar de cavaleiro berbere, habituado a migrar pelas grutas do monte Atlas. "Zizou" foi, durante meia década, a diferença. O seu jogo não vivia do arranque e da velocidade como Figo, Ronaldo ou Owen (para citar os Ballon D´Or contemporâneos) nem era tão incisivo como o toque de Rivaldo ou Nedved. Com ele a bola parava em movimento, adormecia com tranquilidade e despertava com destino certo. A classe de cada gesto, os braços erguidos, a cabeça levantada, foram mais do que uma imagem de marca, foram a definição de um estilo iminentemente clássico num jogador indiscutivelmente moderno.

Zidane não defendia, queixavam-se muitos, e no entanto defendia melhor do que ninguém. Mantendo a bola nos pés, fazendo-a rodar pelos seus, Zizou garantia o equilíbrio que o musculo de Makelele ou as corridas de Figo eram incapazes de entender. Talvez por isso foi admirado até à exaustão, talvez por isso a história se esqueça com mais facilidade desse seu ritmo tão próprio em detrimento daquele passe, daquele remate de cabeça, daquele volley em Hampden, daquela cabeçada infame...Zidane definiu-se a si mesmo como esse filho perfeito do Mediterrâneo, sempre com essa brisa de mar no rosto a dar-lhe esse ar desafiante, o mesmo que guiou a França a uma era de prosperidade inédita, o mesmo que transformou o jogo do Real Madrid num prazer inconfessável. O mesmo que, reformado por tudo e por todos, demonstrou que a bola, nos pés de quem a ama, é um servo obediente do seu amo.

 

A magia do gaulês parecia guardada numa cápsula do tempo, inimitável, pedaço de vídeo para gerações futuras tropeçarem como hoje os mais novos não conseguem entender o mecanismo dos movimentos de Cruyff, as cavalgadas heróicas de Beckenbauer, o toque subtil de Pelé ou até mesmo o estilo de rufia de bairro de Maradona. Muitos guardavam-no seu relicário, como a São Paulo na evangelização dos cristãos, como irrepetível. Não, o futebol não entende de credos e súplicas mas algo começou a despontar quando a luz de Zizou se foi apagando lentamente.

A brisa do mar não lhe toca e isso nota-se numa pele desenhada a pensar na sombra das oliveiras que rodeiam os caminhos de terra à volta dos seus vinhedos. Talvez contemplando a imensidão do planalto manchego, Don Andrés tenha entendido o mesmo que Zidane a olhar para um mar sem fim. A eternidade conquista-se com um suspiro.

A bola seca pelo sol ardente só procurava um amigo com quem conversar mas em Iniesta encontrou um amor. Inconfessável devoção de um estilo, de uma era que não morre por muitos sinos que toquem a rebate. Nos pés do génio espanhol o esférico encontra o aconchego do lar, levanta-se e anda com a firmeza de Lázaro, por cima dos comuns mortais. Iniesta é para a bola de futebol o que a areia é para o mar, inseparável. Em Barcelona, há largos anos, ainda Guardiola era um jogador com inquietudes, Messi um miúdo traquinas e Xavi um aspirante assobiado jogo sim, jogo sim, o actual treinador blaugrana virou-se para o seu sucessor e disse-lhe com a sua habitual tranquilidade: "Tu vais-me retirar a mim, mas este aqui vai retirar-nos aos dois". Não foi assim. A história guardou-os para uma missão em conjunto.

Se Xavi é o cérebro futebolístico de uma era, o pensador perfeito, e se Messi a estrela mediática que qualquer projecto necessita (que o diga Gerson de Pelé, Hidgekuti de Puskas, Netzer de Beckenbauer, Schuster de Rummenige, Rui Costa de Figo...) o futebol em Barcelona é responsabilidade de Iniesta.

O espanhol joga, faz jogar e existe, com a sua presença, como um espectro indiscutível sobre a cabeça dos rivais. Os treinadores perdem horas a falar na marcação ao homem a Messi mas o mérito do argentino foi saber-se rodear dos melhores. E o melhor encontrou-o em Iniesta. O herói silencioso, o pistoleiro do velho Oeste de poucas palavras. Cada sprint de Messi encontra a tabela no segundo perfeito com Don Andrés. Cada drible do herói de qualquer Cervantes moderno, cada vez que levanta a bola por cima da teoria de relatividade de qualquer Einstein pretérito, acontece futebol. Iniesta está para além do gostar ou não gostar em que os mitos como Messi e Ronaldo vivem. Iniesta é a pura essência do jogo moderno, o médio que defende com a bola, que ataca com a bola, que dorme com a bola, que regressa aos balneários com a bola e que dorme com a bola. Em campo o seu deambular anárquico ordena, as suas diagonais desorganizam e o seu olhar condena. É o homem das noites mágicas, o herói das causas perdidas, do sofrimento incontrolável. É tudo aquilo que o futebol quer ser mas não ousa pedir. Por cada Iniesta há mil Busquets, há 100 Messis e 10 Xavis.

 

Zidane jogou sempre com o peso do seu mundo às costas. O peso da herança berbere, o peso de uma França fragmentada que se uniu no seu corte de monge para desafiar as probabilidades. Às vezes avançava com as costas curvadas, sentindo essa necessidade de liderar o rebanho como quem se sabe incapaz de fintar todos os lobos. Don Andrés não se curva, não sente qualquer peso a não ser o da aragem quente que rasga Fuentalbilla. Ganhou tudo o que havia para ganhar - e antes que muitos nomes ilustres - e no entanto continua a olhar para a bola com a mesma inocência com que driblava todos os pedregulhos que se deparavam pelo caminho. Filho dessa Espanha insólita, perdida no tempo e no espaço, a Iniesta nem Cervantes seria capaz de resumir em dez tomos. A ele define-o a bola que podemos ver, cada vez que se despede do seu mágico pé, a despedir-se com um piscar de olhos...



Miguel Lourenço Pereira às 09:43 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Sexta-feira, 18.11.11

Agora que se conhecem oficialmente as 16 equipas que em Junho disputarão um titulo que só espanhóis, alemães e holandeses parecem poder verdadeiramente aspirar, voltamos atrás no tempo para tomar o pulso àquela que foi talvez a mais interessante revelação da fase prévia. Não chegou sequer aos play-offs mas durante ano e meio mudou definitivamente a percepção e os estereótipos que a tinham condenado ao desconhecimento geral. A Arménia foi, provavelmente, a selecção que mais merecia ter carimbado o passaporte para o Europeu. Agora o futuro dirá se o crescimento do futebol arménio é real e sustentável.

No historial da antiga União Soviética o futebol arménio nunca teve direito a grande destaque.

Entre Moscovo e Kiev moldavam-se as relações de poder e o único clube do Cáucaso que chegou a bater, com alguma regularidade, o pé aos grandes, encontra-se na vizinha Georgia. No entanto a classe dos arménios sempre foi reconhecida como única dentro do espectro soviético. Com a independência, esse toque de classe ganhou ainda mais sentido. Ao contrário dos físicos vizinhos do norte, a bola na Arménia rola por tapetes débeis mas pés delicados, capazes de trazer um ritmo próprio a cada respiração do jogo. Sem a disciplina táctica de ucranianos ou russos, o futebol nas imediações do mitológico monte Ararat sempre foi mais uma questão de sentimentos do que puro racionalismo. Talvez essa displicência com o aspecto organizativo do jogo tenha causado problemas no passado mas a progressiva migração de alguns dos maiores talentos locais nos últimos 20 anos começa a transformar essa realidade. A Arménia de hoje é, sem dúvida, uma selecção muito mais compacta e responsável do que qualquer formação do seu passado.

Esse trabalho deve muito à experiência que o escocês Ian Porterfield trouxe a Yerevan quando em 2006 foi nomeado seleccionador do combinado nacional. Era o quinto estrangeiro escolhido pela federação local em quatro anos e muitos imaginavam que o seu destino seria em tudo igual ao dos seus antecessores. O antigo técnico do Chelsea tornou-se um trota-mundos e quando chegou ao Cáucaso causou imediato impacto pela sua natureza mas, sobretudo, pela sua abordagem. Entendeu que o grande erro dos técnicos anteriores foi a imposição de um estilo e modelo que não se adequava com o espírito dos jogadores locais. Porterfield rodeou-se de autóctones e decidiu imprimir um cunho verdadeiramente arménio à sua equipa. A mudança começou a notar-se de imediato mas, um ano depois da sua chegada, o seleccionador faleceu, vitima de um cancro implacável. Deixou as sementes que o seu sucessor, o adjunto Vardan Minasyan, soube recolher. O artífice desta magnifica selecção não convenceu de imediato a federação que voltou a optar por um estrangeiro - o dinamarquês Jan Poulsen - antes de entender que o anterior número dois estava finalmente preparado para a missão mais difícil da sua vida.

 

Minasyan é um metódico onde a maioria desfruta do jogo em plena anarquia.

antigo internacional, soube rodear-se de jogadores a disputar o débil campeonato local a quem juntou apenas aqueles expatriados que demonstravam verdadeiro interesse em actuar pelo combinado nacional. Transformou um leque de atletas num grupo e decidiu entregar os galões do seu projecto ao promissor Henrikh Mkhitaryan, a maior promessa da história do futebol local em muitos anos. À volta do médio centro montou uma equipa organizada mas capaz de tratar a bola com a reverência habitual dos locais. Elegeu a Yedigaryan, Mkrtchyan e Manucharyan como acompanhantes de luxo da sua jovem estrela e deu-lhes liberdade para jogar. Um meio campo profundamente criativo mas rodeado de um colectivo profundamente organizado que, no entanto, foi incapaz de superar a muralha defensiva montada por Giovanni Trapattoni no jogo inaugural da qualificação. Essa derrota injusta - depois de um jogo totalmente dominado pelos locais - acabou por motivar ainda mais os underdogs que partiram para uma série de quatro jogos sem perder (vitórias sobre a mundialista Eslováquia e a selecção de Andorra e empates na Macedónia e com a Rússia). O duelo com os russos teve contornos de épica pura, importantes para quem ainda se lembra do opressivo regime de Moscovo e da forma como o grande clube local, o Ararat Yerevan foi tratado durante a época soviética. A derrota em San Petersburg doeu menos do que muitos esperavam, talvez porque os arménios até começaram o jogo a vencer ou, talvez, porque durante grande parte dos 90 minutos foram melhores com a bola nos pés que os imensos vizinhos.

Terminada a primeira ronda de jogos, surpreendentemente, a Arménia ombreava com irlandeses e eslovacos pelo segundo lugar de qualificação - o tal do play-off - e apesar de muitos perspectivarem uma queda livre, a qualidade de jogo dos caucasianos veio ao de cima na histórica goleada em Zilina contra a Eslováquia. Uma vitória por 4-0 implacável e que deixou a nu a diferença entre uma selecção que marcou presença nos oitavos de final do último Mundial e uma equipa que começava a funcionar como tal. O sucesso de Minasyan era evidente mas o sonho com o segundo lugar começava a fazer cada vez mais sentido. Em teoria o jogo na Irlanda avizinhava-se como determinante mas antes era necessário domar a Macedónia, equipa complicada e do mesmo nível que os arménios. Outros 4 golos marcaram claramente as diferenças e deixaram os irlandeses num compromisso. Vencer era obrigatório e as habituais tácticas defensivas da velha raposa tinham de dar lugar a algo mais de ousadia. Os arménios sabiam que não eram favoritos e rapidamente entenderam que o futebol europeu tem truques a própria razão desconhece. Muito superiores em jogo aos locais, os arménios sofreram na pele talvez a sensação de injustiça que custou aos irlandeses a viagem à África do Sul. Uma expulsão duvidosa do guarda-redes Roman Berezovsky, determinante em toda a campanha, por mão fora da área, determinou o jogo. Um infeliz auto-golo, pouco depois, rematou as poucas possibilidades dos visitantes que ainda reduziram pela estrela do costume depois de Dunne ter ampliado a vantagem. Os irlandeses marcaram menos (mas também sofreram menos) golos que os arménios mas seguiram em frente. O sonho evaporou-se.

 

À medida que o futebol de clubes se tenta reorganizar no Cáucaso, as selecções continuam a ser o grande emblema dos países. A Arménia sofreu na pele os anos da opressão soviética mas desde o empate a zero contra Portugal no apuramento para o Mundial de França (os pontos que custaram a passagem aos lusos) que tem vindo a melhorar progressivamente. Pela primeira vez discutiu de tu a tu com nações com outros recursos e historial a qualificação e depois de ser colocados num grupo com Itália, Dinamarca, Republica Checa e Bulgária para os duelos de apuramento ao próximo Mundial muitos imaginam que o trabalho de Minasyan pode acabar por ter um final feliz. A estrutura começa a solidificar-se, a classe individual está à vista de todos e o perfume do futebol arménio pode ser inebriante. Talvez os arménios merecessem mais que os irlandeses esse bilhete (como sucedeu há dois anos com insulares e gauleses) mas o futuro pode reservar-lhes surpresas inesperadas que façam com que momentos como este sejam vistos como apenas mais um passo rumo ao sonho.



Miguel Lourenço Pereira às 21:29 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 16.11.11

A vitória tem destas coisas. Um triunfo categórico nos números, complicado na forma, carimbou a passagem de Portugal para o seu quinto Campeonato da Europa consecutivo, um logro ao alcance apenas da verdadeira elite do futebol europeu. Mas nesse clima de euforia tão habitual a quem não está habituado a ganhar começam a distinguir-se os traços de arrogância que costumam ser maus companheiros de viagem. Portugal estará em Junho na Europa de Leste, mas não deixará de ser um convidado secundário numa festa com outros protagonistas.

O estádio da Luz não encheu mas foi suficiente. Para os bósnios pelo menos.

A equipa dos Balcãs não quis jogar os primeiros 90 minutos, recorrendo a tácticas tão legitimas como pré-histórica. Na hora e meia que passou no tapete verde impecavelmente cuidado do estádio onde Portugal já se habituou a resolver noites difíceis, não conseguiu. Os nervos, a combustão interna de Safet Susic e a primeira meia-hora das estrelas portuguesa fizeram o resto. A equipa da Bósnia esteve mais dentro da eliminatória pelos erros arbitrais do que por méritos próprios. Dzeko nunca fez juz à sua merecida fama internacional e nem Misimovic nem Pjanic souberam ter a tranquilidade mental para explorar as constantes debilidades defensivas de um Portugal que, mesmo com tudo a favor, acabou por sofrer demasiado.

Ficou evidente que a selecção lusa continua a ser mais uma manta de retalhos individuais que uma verdadeira equipa. Decidiu o génio individual de Cristiano Ronaldo e Nani na primeira parte e culminou a noite um golpe magistral de Miguel Veloso, naquele que foi talvez o seu mais completo jogo pela equipa das quinas. Desiludiu profundamente o trabalho do quarteto defensivo com Fábio Coentrão apagadíssimo (e infantil como poucos no lance da grande penalidade) e um Rui Patricio que, com a bola nos pés, continua a ser um terror para os próprios colegas. Mas como os bósnios tinham a bola exíguos minutos nos pés, o público não notou e fez a festa com que a maioria não contava. Depois da sofrida vitória por 1-0, frente aos mesmos bósnios, em 2009, ou os triunfos diante de Hungria e Estónia em 1999 e 2001, a Luz voltou a ser o talismã para uma noite de gala. Uma noite de enganos.

 

Paulo Bento continua a ser um técnico com debilidades tão evidentes que só mesmo a imagem do arregaçar nas mangas explica bem o que vai por aquela cabeça. Homem mais de acção do que planificação, o seleccionador apresenta-se como um novo Scolari, figura militarizada que aposta mais no esforço, na raça e no querer do que, propriamente, nos conceitos de preparação técnico-tácticos. O 4-3-3 que aplicou na selecção lusa continua a ser um tapete de espaços mortos onde os conceitos se confundem com os indivíduos. Quando algum jogador falta e um ou outro está em baixo de forma, a inépcia de Bento é mais do que evidente. Viu-se na Dinamarca onde Portugal podia ter sido humilhado com profunda naturalidade. Um seleccionador que marca toda a linha do seu trabalho em homens e não em conceitos corre o risco de se transformar numa presa fácil da sua própria fortuna. Ontem, pela primeira vez em largos anos, Portugal brilhou. Mas realmente brilhou no individual - como uma constelação onde as estrelas Nani, Cristiano, Meireles e até Moutinho fizeram das suas - enquanto que voltou a não convencer no colectivo.

Aqueles que habitualmente se deixam levar pelo frio na espinha que os hinos nacionais costumam provocar encontrarão mil e um motivos para sufragar Bento que tem a seu favor um registo de resultados mais do que aceitável. O mesmo sucedeu com Queiroz antes da viagem à África do Sul, onde se percebeu que uma brilhante fase de qualificação contava pouco quando os jogos a doer eram com rivais de outro calibre.

Portugal continua a ser uma equipa da parte média do futebol europeu, não demasiado longe de uma Bósnia que cometeu dois erros crassos na preparação deste play-off e que, por isso, mereceu a eliminação.

A batalha de Zenica era escusada e acabou, paradoxalmente, por beneficiar Portugal. Em lugar de aproveitar, como se viu nos últimos 20 minutos, a fragilidade mental dos lusos a equipa da casa preferiu a provocação e o anti-jogo e acreditou que um golo em Portugal seria suficiente para quebrar uma malapata de seis anos. Não foi. Portugal soube responder com categoria com dois golos de bola parada, um gesto técnico irrepreensível e três tentos de ponta-de-lança que transformaram uma qualificação numa orgia nacionalista. E no entanto o rival pareceu incomodar menos os jogadores de vermelho do que a péssima (outra vez) arbitragem de Wolfgang Stark que parece não se dar bem com jogadores lusos. Os golos, a celebração, escondem a realidade, como sempre.

 

A decadência lusa é um fenómeno evidente e facilmente reconhecível desde 2006.

O último biénio da era Scolari pautou-se por uma mensagem em tudo similar à que preconiza hoje Bento, o habitual discurso do guerrilha de bairro sem ideias que se apoia, sobretudo, no génio de quem o rodeia. Seleccionador que gostava de deixar vitimas pelo caminho como Bento(e mostrar-se orgulhoso disso), seleccionador que gosta de criar o "grupo" antes que premiar os melhores, (como Bento) e, sobretudo,  seleccionador sem um conceito de jogo na cabeça. Depois de suar desnecessariamente num grupo acessível, Portugal fez fraca figura no Europeu de 2008 e deixou claro que a elite europeia, por onde tinha andado desde 2000, era uma utopia. Mas não deveria ser um drama, até porque é fácil constatar que a selecção francesa, carrasco preferencial dos lusos, vive na mesma situação sensivelmente desde então. Mas para os portugueses, sempre fáceis de ferir no seu orgulho, parece um insulto reconhecer a realidade. Não o é, até porque ser parte da elite, partir como favorito, sempre foi mais um handicaap para países pequenos do que propriamente uma bênção.

A falta de realismo de Paulo Bento é atroz e a sua reencarnação no espírito de José Torres deixa maus augúrios para um futuro. Sonhar com os pés no chão é algo que Portugal nunca soube e quando o máximo responsável pela selecção se arroga ao direito de que lhe deixem sonhar está a passar a mensagem sufragada pelos jogadores - de que Portugal pode repetir noites históricas no próximo mês de Junho. E, no entanto, pode tanto como qualquer outra das 16 equipas presentes e, sobretudo, pode muito menos do que aqueles que realmente vão ser o centro das atenções. Apesar de Cristiano Ronaldo, os lusos vão ser convidados secundários na festa de espanhóis, alemães, holandeses e italianos, seguramente os verdadeiros protagonistas. Portugal apresentará os seus problemas estruturais crónicos (falta de um guarda-redes e ponta-de-lança de nível máximo, falta de profundidade de um plantel que tem de recorrer a figuras secundárias de clubes de ranking baixo do campeonato espanhol em posições chave) e dependendo da fortuna do sorteio, pode dar-se por contente por ter participado. Afinal uma equipa sem um único criativo, uma equipa onde cabem jogadores tão medianos como Micael, Postiga, Almeida, Pereira, Patricio, Bruno Alves, Martins, Quaresma ou Rolando que pode fazer numa prova internacional que não possam fazer suecos, dinamarqueses, croatas, gregos ou russos, todos eles seguramente sem uma estrela mediática do nível de Ronaldo, mas com valores individuais seguros e um colectivo (e mais do que isso, uma estrutura táctica e mental) muito mais forte que a lusa?

 

Em 2008 a fortuna permitiu que o decadente projecto de Scolari se encontrasse com o grupo mais fácil do certame. A reedição do modelo de duplos cabeças de série pode reservar o mesmo destino, com Ucrânia e Polónia, Rússia e Inglaterra, Irlanda e República Checa como companheiros de viagem ideais. Mas tudo o que é bom acaba e será fácil entender que num hipotético Espanha-Alemanha-Portugal-França/Dinamarca, os lusos sejam os últimos de grupo. É essa a realidade que os 6-2 da noite de ontem já começaram a esconder em jornais, blogues e nas conversas de café. Onde ninguém vai perder tempo a entender o desajuste defensivo de Portugal no final da primeira parte, a falta de nervos de Patricio, a inépcia do jogo ofensivo dos laterais ou, sobretudo, a falta de opções de nivel quando o génio individual de Ronaldo-Nani não funciona. Em Portugal continua a pensar-se pouco futebol e por isso, para muitos, Junho pode ser um mês de frustrações quando devia ser um mês de celebração e festa. Hoje Portugal está num top 16 europeu, mas de pertencer ao top 4 passou a ser parte do último lote de quatro, por muito que o ranking da UEFA tenha sido mais amigo do que habitual. Querer criar uma sensação de vitória futura com base num só jogo é apenas poeira para os olhos de quem procura agarrar-se a algo no meio do lodo. Mas como os deuses gregos já provaram uma vez, o realismo no mundo da bola vem sempre ao de cima, por muito que doa.



Miguel Lourenço Pereira às 07:51 | link do post | comentar | ver comentários (20)

Quinta-feira, 10.11.11

poucos países que apelam tanto à veia nacionalista quando a bola começa a rolar sobre o terreno de jogo. Duas selecções que desde há 15 anos que vêm lançando a ideia de que estão perto de dar o salto para outro patamar mas que acabam sempre por escorregar no momento mais inoportuno. Há três anos e meio Croácia e Turquia disputavam um lugar nas meias-finais do Europeu de 2008. Agora um deles ficará de fora. E o outro fará da gesta mais uma demonstração de espírito nacional. Como em nenhum outro sitio.

O inferno turco é uma realidade que nenhuma equipa pode ignorar.

Para clubes e selecções viajar até ao ponto do união de dois continentes é um verdadeiro martírio. Não só pela qualidade futebolística - tremenda em alguns casos - mas sobretudo pelo ambiente que se recria, do vetusta Ali Semin ao espectacular Ataturk. Jogar na Turquia é jogar contra 72 milhões de pessoas. Uma nação que vive com um pé num laicismo contido e com outro num fanatismo religioso que utiliza o futebol como mais uma de muitas ferramentas para reforçar o cariz de união nacional. Como os alemães sabem, jogar com a Turquia é também jogar com a população turca espalhada por esse mundo fora - e na Croácia há bastantes - e com essa ideia de estado-nação que começa a fazer cada vez menos sentido no contexto dessas organizações plurinacionais que tanto estão na moda. A Turquia é provavelmente uma das potências futebolísticas com melhor futuro pela frente. E no entanto este mesmo discurso, por muito verdadeiro que o seja, já o temos ouvido desde há muito. Exceptuando 2002 - e a memorável campanha no Mundial - e o último campeonato da Europa - derrotados também nas meias-finais num dos jogos mais apaixonantes da prova - o futebol turco nunca registou grandes resultados. E dá sempre a sensação de ser capaz de algo mais. Algo que fica por dar.

O grito dos 72 milhões transforma os jogos em Istambul num verdadeiro inferno, numa parada militar imponente e assustadora, mas fora de portas os turcos continuam a ser uma selecção mentalmente frágil. É certo que cair no mesmo grupo que a Alemanha - hoje, a par da Espanha, a mais forte selecção do Mundo - é um sério handicaap, mas os tropeções dos otomanos deixaram quase até ao último dia a sensação de esperança para uma Bélgica reencontrada. E é essa ferida que o exército croata, essa milicia modriciana, vai tentar explorar.

 

Se os turcos roçam a histeria nacionalista, os croatas levam essa realidade a outros extremos.

País com 20 anos de vida, sofreram na pele a dureza de libertar-se da Jugoslávia e desde então agarraram-se como poucos países nos Balcâs a uma fervorosa paixão por eles mesmos, por uma nação historicamente real mas politicamente ainda muito tenra. O idealismo da extrema direita de Tudjman foi transportado ao futebol - o vermelho e branco axadrezado eram, sobretudo, as cores da bandeira do partido nacionalista que liderou a secessão - e à forma dos croatas entender o jogo e as performances da sua selecção. Tal como os turcos, a Croácia falhou a viagem à África do Sul por muito pouco e em 2008 foi diante dos otomanos que caíram, sem pena nem glória. Depois de uma fase de grupos de altíssimo nível, em que lograram arrebatar a liderança do grupo à finalista Alemanha, algo falhou na cabeça dos Modric e companhia nesse primeiro jogo a eliminar. E os velhos fantasmas voltaram para nunca mais abandonar o céu azul de Zagreb.

A Croácia surpreendeu os mais desatentos no Europeu de 1996 - esquecendo muitos que a maioria das estrelas da geração jugoslava de 1987 vinham do país do Adriático - e fez ainda melhor dois anos depois no Mundial de França, arrebatando um terceiro lugar que valeu para os croatas talvez mais do que o Mundial ganho pelos franceses. Significou, sobretudo, o sucesso de um projecto de nação diante do mundo. Os sucessivos fracassos até 2008 deixaram a sensação que aquele era um fenómeno pontual de uma geração inimitável mas quando Krankjcar juntou as jovens estrelas que deram forma à equipa que viajou à Suiça, um sentimento de esperança renasceu no coração de um país que faz de cada jogo uma batalha sem tréguas. Falhar 2012 para os croatas é um golpe mais duro do que se possa supor.

A nação croata continua a sonhar com a sua integração europeia - tal como os turcos - e o sucesso desportivo é o atalho mais próximo para lográ-lo segundo a opinião generalizada. A presença do Dynamo Zagreb na fase de grupos da Champions League despertou o futebol croata de clubes de uma longa letargia e agora muitos esperam transportar esse momentum para o sucesso da equipa nacional. Durante quatro jornadas os croatas estiveram perto de assegurar o apuramento directo mas nas horas finais claudicaram diante da Grécia de Fernando Santos. 180 minutos serão muito longos mas também são a última esperança para não cair no esquecimento.

 

Pensando que selecções com muito menos qualidade individual como a Irlanda vs Estónia ou a República Checa vs Montenegro irão lograr dois lugares num torneio onde certamente quer croatas quer turcos irão fazer muita falta deveria obrigar a UEFA a rever de uma vez por todas os seus critérios de selecção para play-offs como este. Já se sabe que a partir de 2016 o Europeu será muito mais acessível a qualquer nação mas é curioso pensar que a Irlanda tenha uma posição como cabeça de serie - mais pelo drama criado à volta da polémica mão de Henry há dois anos - e uma selecção com registos notáveis como os turcos sejam relegados para um sofrimento talvez desnecessário. Nenhuma das oito selecções merece passar por este suplicio, mas talvez as duas equipas que mais mereciam estar na Ucrânia e Polónia tenham de se matar, qual gladiadores, num combate à morte. A bem da (respectiva) nação!



Miguel Lourenço Pereira às 09:42 | link do post | comentar

Quarta-feira, 09.11.11

São a mais jovem selecção do Mundo e nesse arrojo típico dos recém-chegados desafiaram os prognósticos, emudeceram os críticos e desafiaram a história. Tiveram a Inglaterra a seus pés, destroçaram o projecto de futuro da Suiça e agora estão preparados para defrontar a selecção mais bipolar da história recente do futebol europeu. Quais são os limites dos rookies do ano?

Passou pelo Benfica sem pena nem glória e em Vallecas muitos continuam a desconfiar do seu jeito molengão.

Mas em Podgorica, Andrija Delibasic é o equivalente mais próximo que podemos encontrar a um mito vivo.

O golo do dianteiro do Rayo Vallecano não garantiu só o empate frente à toda poderosa Inglaterra. À distância de um anúncio radiofónico, confirmou o conto de fadas que há um ano se estava a escrever em letras maiúsculas no último filho do Mundo, na derradeira bandeira independente a desfraldar pelos Balcâs, no quinto país da ex-Jugoslávia a entrar em disputa por um lugar ao sol.

Durante anos o Montenegro viveu à sombra do seu vizinho maior, a Sérvia, e foi nessa condição que os montenegrinos marcaram presença - apesar de ninguém ter notado - no Europeu de 2000. Mas jogar com bandeira e luz própria é outra sensação. Só em 2007 a FIFA e a UEFA aceitaram a inscrição dos montenegrinos como selecção oficial e permitiram a participação na fase de qualificação para o Mundial da África do Sul. Montar uma equipa de um país novo era um desafio ao alcance de poucos e só a apaixonada labor de Zoran Filipovic, filho da terra, permitiu montar um plantel competitivo mas cheio de baixas. A maioria dos jogadores montenegrinos preferiu continuar a actuar com a Sérvia e entre os veteranos Basa, Pavicevic, Novakovic e o próprio Delibasic e as novas promessas locais Vukcevic, Vucivic , Savic e Jovetic, formou-se um onze sui generis que daria muito de que falar. Há dois anos pagaram o preço da inexperiência apesar de surpreendentes resultados a abrir. Em 2010 arrancaram para uma campanha a roçar o inacreditável. E estão a dois jogos do paraíso.

 

Desde o desmembramento do Jugoslávia que três nações do país inventado por Tito marcaram presença numa grande competição internacional. Das três só a Croácia está na disputa deste play-off mas aos homens do Adriático acompanham-nos os novos filhos dos Balcâs, os guerreiros da Bósnia e os falcões do Montenegro.

Na altura do sorteio os montenegrinos eram a equipa pior quotada do grupo G, por detrás de bulgaros, suiços, galeses e ingleses. Ninguém imaginava que no último dia os recém-chegados tenham ficado a apenas 4 pontos do apuramento directo para o torneio disputado entre a Polónia e a Ucrânia. O arranque sublime (três vitórias por 1-0 com golos de Vucinic contra Gales, Bulgária e Suiça) foi seguido de um épico duelo em Wembley com a Inglaterra de Fabio Capello. Num jogo onde os papeis pareciam trocados, os montenegrinos encostaram os ingleses às cordas e o próprio seleccionador italiano confessou que o empate era um mal menor.

Depois de uma série inesquecível começaram a chegar os primeiros revezes. A selecção já tinha perdido a fluidez de jogo de Jovetic - lesionado durante um ano - e ninguém se surpreendeu com o empate contra os búlgaros e a primeira derrota em Gales. Os ingleses pareciam escapar-se finalmente e os suíços de Shaquiri e companhia aproximavam-se perigosamente antes de um duplo confronto determinante contra ingleses e suíços para decidir as posições finais do grupo. O clima de histeria depois da derrota em Gales custou a cabeça ao mentor da fábula, o seleccionador croata Zlatko Kranjcar e para o seu lugar a federação - que parecia ter perdido a crença num apuramento que chegou a estar perto de ser directo - nomeou o técnico Branko Brnovic, secundado pelo ex-internacional jugoslavo Savo Milosevic. A nomeação, juntamente com o regresso de Jovetic à equipa nacional, deu o plus de motivação que faltava. Podgorica encheu para receber a Old Albion e apesar dos dois golos inaugurais dos ingleses na primeira parte, os locais nunca perderam a cabeça. As noticias que chegavam de Gales (onde a Suiça perdia também por 2-0) eram motivadoras suficientes e no segundo tempo os ingleses sofreram uma pressão asfixiante que culminou no tento de Zverotic e depois no salto milagroso de Delibasic. O salto em suspensão de todo um povo. 

 

O empate garantiu a qualificação matemática para o play-off, algo que nem a derrota por 2-0 com a própria Suiça foi capaz de alterar. O destino traçou um duelo com a República Checa, selecção facilmente reconhecível pelo transtorno bipolar na grande prova europeia. Uma final e uma semi-final caminham lado a lado com duas campanhas em que a eliminação na fase de grupos foi o melhor que conseguiram. Os checos contam com uma das melhores gerações jovens do continente mas terão de medir-se contra uma pequena nação que olhará para os 180 minutos como um encontro com a história. O jogo decisivo em Podgorica, mais do que um duelo entre duas selecções, promete ser o grito de um povo que só quer que o Mundo sinta que eles também existem.



Miguel Lourenço Pereira às 10:36 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 08.11.11

Num país onde o futebol não é, nem de longe, um dos três desportos mais populares, quanto vale um apuramento histórico para um Campeonato da Europa? O peso da tradição joga todo do lado da República da Irlanda mas a grande sensação chega de uma Estónia que há uma dúzia de anos era apenas mais uma equipa entre muitas a abater e que agora se pode tornar na quarta ex-república soviética a marcar presença numa grande prova internacional.

 

É curioso que uma super-potência futebolistica como foi a União Soviética tenha tido, até hoje, apenas três descendentes directos nos palcos mais sonantes do futebol mundial. O apuramento da Rússia em 1994 foi o primeiro de uma ex-república soviética a brilhar com luz própria. Foi preciso esperar 10 anos para um replay, com a insuspeita Letónia a bater todas as previsões. Foi sol de pouca dura e para os letónios hoje a lembrança desse Verão português é algo que não provoca demasiado entusiasmo. Para fechar o trio, dois anos depois, a Ucrânia que sempre parecia estar a ponto de marcar os bilhetes e que sempre ficava apeada no aeroporto, marcou a sua estreia de forma categórica no Mundial da Alemanha. Agora regressa como anfitriã e juntamente com os russos, no próximo mês de Junho está garantida a presença de uma forte herança do futebol dos primeiros campeões europeus. Mas e se em lugar de duas selecções, sejam três as ex-repúblicas a disputar o ceptro continental?

Para os estónios esse fenómeno era surreal apenas há um ano atrás. Afinal o país do Báltico está longe de ser um entusiasta do beautiful game. Em Tallin e arredores qualquer desporto com gelo, e até mesmo o basquetebol, é muito mais popular que o futebol e isso sempre se fez notar. Os clubes estónios primavam pela sua ausência na poderosa liga soviética e as suas equipas, já recém-independentizadas, nunca deram um ar da sua graça nas provas europeias (ao contrário de letões e lituanos, por exemplo). A selecção azul e negra era um rival simpático e bem-vindo em qualquer sorteio. E talvez no futuro tudo volte a ser como dantes. Mas esta semana o mundo do futebol para obrigatoriamente aqui.

O frio de Riga será um rival tão ou mais intenso para os irlandeses como a qualidade da selecção orientada por Tarmo Ruttli.

Quando o seleccionador chegou ao banco da equipa nacional, durante a fase de qualificação para o Mundial da África do Sul, a Estónia estava no 137º lugar do ranking FIFA. Dois anos depois encontra-se no 57º posto, uma metamorfose que poucos conseguem explicar. Não apareceu nenhuma estrela internacional, não há uma verdadeira geração de prodigios e, sobretudo, o país não se apaixonou pela sua equipa nacional. E contra tudo e contra todos, desafiando a pura lógica, os estónios estão a 180 minutos de fazer história.

 

A Irlanda é uma ilha que traz boa sorte aos bálticos.

Nos dois últimos encontros de apuramento a Estónia mediu-se contra a Irlanda do Norte, país que desde 1986 não marca presença numa competição internacional. À partida os irlandeses eram favoritos mas os homens do norte venceram os dois jogos (4-1 em casa e 1-2 fora) e confirmaram uma surpresa absoluta.

Uma viagem que começou um ano e meio antes com um vitória surpreendente em Belgrado contra uma Sérvia que tinha saído do Mundial com a cabeça baixa. Os homens dos Balcâs eram considerados como claros favoritos a disputar a liderança do grupo à Itália de Cesare Prandelli mas os problemas no balneário depois da péssima performance no Mundial ficaram à vista de todos na noite em que a Estónia decidiu começar a tratar a bola por tu. Apesar da derrota com a Itália e a esperada vitória diante das ilhas Faroe muitos imaginavam que o duplo duelo contra a igualmente mundialista Eslovénia iria colocar os estónios no seu respectivo lugar. A derrota no jogo disputado em casa frente aos eslovenos deixou a entender que assim seria mas depois os estónios empataram, também em casa, com a Sérvia e, beneficiando-se de uma campanha exemplar da Itália, viram-se isolados no segundo lugar do grupo. Uma posição que provocou certamente vertigens, de tal forma que a derrota contra a amadora selecção das Faroe funcionou como um verdadeiro choque de realidade. Faltavam três jogos e os estónios necessitavam de somar sete pontos para chegar aos play-off.

E então apareceu Purje.

Numa selecção onde os jogadores actuam todos em clubes de segunda, terceira e quarta linha internacional, que um médio de 26 jogue num modesto cipriota não é novidade. Mas Purje tornou-se num jogador especial quando ao minuto 81 desnivelou a balança (o jogo e o resultado) no duelo na Eslovénia, marcando o agónico 1-2 que deixava tudo nas mão dos homens do Báltico para a ronda final. Só os sérvios lhes poderiam arrebatar o sonho mas a derrota o empate em Itália e a derrota na Eslovénia permitiram à equipa da Estónia fazer história. Sem jogar - depois da dupla vitória contra os irlandeses do Norte - os jogadores celebraram um passaporte único para a fase de play-off onde defrontarão uma Irlanda traumatizada pela derrota diante da França (e dessa mão) há dois anos.

Ninguém espera que os estónios se apurem (aliás, na Irlanda, apesar de Trapatonni, a confiança roça o histerismo) mas a crença nos golos de Konstantin Vassiljev (foram cinco, o melhor registo de sempre da selecção numa fase de apuramento) e no espirito de grupo que Ruttli criou à volta de atletas que roçam quase o amadorismo torna esta eliminatória num dos pratos mais apetecíveis de toda a fase de qualificação. Os irlandeses encontram uma equipa que talvez lhes lembre a eles mesmos, quando Jack Charlton transformou o EIRE num caso sério de popularidade. Quase 25 anos depois, haverá alguém que tenha coragem de não esperar por um milagre no gelo de Riga?



Miguel Lourenço Pereira às 09:25 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 15.10.11

No meio do deserto de ideias em que vive o futebol português a hipotética ideia de ressuscitar as equipas B num formato distinto ao seu modelo original é uma lufada de ar fresco. Insuficiente, dentro de um contexto muito mais lato, mas um passo correcto para uma realidade indismentível e que exige uma resposta imediata por parte de clubes e organizações directivas. No entanto a forma como se arranca o ideário deixa no ar algumas dúvidas pertinentes sobre um outro - e tão grave problema - do futebol luso como é o eventual fim de muitos projectos desportivos que até hoje sobrevivem por um fio.

 

Em 1999, quando a Federação Portuguesa de Futebol, através de uma equipa de trabalho que incluia Jesualdo Ferreira, apresentou a ideia das equipas B (um modelo já praticado em Espanha há décadas), capaz de emular a politica de equipas de reservas que existiram durante muitos anos no futebol português e que subsistem, ainda hoje, no futebol britânico, os aplausos foram generalizados.

Mas o projecto foi um fracasso imediato. A forma como se estruturou o projecto tornou-o imediatamente num nado morto. O impedimento das equipas serem promovidos a uma Liga de Honra a 18 equipas condenava no fundo os jovens futebolistas de FC Porto, SL Benfica, Sporting CP ou Maritimo a actuar eternamente contra jogadores amadores da 2º Divisão B. Perante esse cenário frustante tornou-se evidente que o projecto das equipas B era mais um encargo que uma solução. Os clubes acabaram por entender que era mais prático recuperar a velha fórmula do empréstimo, tão em voga desde finais dos anos 80, do que perder rendimento com um projecto sem futuro. Doze anos depois só a equipa do Maritimo sobreviveu, provavelmente devida à sua particular condição insular, e com um sucesso digno de menção honrosa.

Resgatar então o ideário das equipas B pode parecer um erro à primeira vista. Mas o contexto é outro. E a necessidade evidente.

Em 1999 o futebol português ainda não tinha entrado na sua era de ouro. A selecção A estava prestes a apurar-se para o Euro 2000, apenas a sua quinta grande competição em 80 anos. Os clubes portugueses não marcavam presença numa final europeia há uma década e os grandes nomes lusos contavam-se pelos dedos das mãos. A vitalidade de clubes de médio nivel era evidente na figura do Boavista, Guimarães, Maritimo e Braga de então e a liga lusa, apesar da invasão brasileira, ainda era maioritariamente composta por jogadores da casa. Doze anos depois, o dilúvio, como diria Luis XV, é evidente.

Entre a ilusão de uma década imaculada da selecção A, de três titulos europeus (e dois finalistas vencidos) e da consagração mundial de Figo, Mourinho e Ronaldo esconderam-se os problemas graves e estruturais do futebol nacional. Do descontrolo das contas dos clubes, do desaparecimento das equipas médias, da redução de equipas do futebol profissional, dos excedentes de jogadores estrangeiros e, sobretudo, do abandono da formação, aquilo que, precisamente, ajudou a transformar Portugal numa nação periférica num país capaz de olhar nos olhos das grandes potências desportivas. O final da herança do projecto Queiroz, apoiado pelos clubes nas suas próprias estruturas internas e, sobretudo, alimentado pelos clubes médios, abriu um fosso tremendo que começa agora a ser evidente. Entre as decisões mais importantes para reverter o rumo a formação ocupa um papel fulcral num país sem rendimentos para competir com o poderio financeiro doutras ligas. As equipas B são uma das soluções possíveis. Não a única, não a mais importante mas, seguramente, uma das mais certeiras, especialmente com a confirmação da UEFA da utilização definitiva da regra 6+5.

 

Segundo o projecto que será levado à próxima reunião da Liga de Clubes, o projecto federativo propõe o ressuscitar das equipas B apoiado por seis clubes. Ao Maritimo juntam-se Braga, Guimarães e os três grandes. As equipas só poderiam inscrever por cada jogo a três jogadores com mais de 23 anos (para recuperar atletas fora de forma da equipa principal, como sucede nas ligas de reservas inglesas) e tinham de ter inscritos 22 jogadores de formação do próprio clube que nunca poderiam alinhar pela equipa principal num periodo minimo de 72 horas.

A grande questão das equipas B foi a sua colocação errada num contexto amador como é a 2º Divisão B. Por isso foi fundamental a ideia de abrir definitivamente as portas da Liga Orangina com o inevitável impedimento de promoção à Liga Sagres, como sucede em Espanha ou Alemanha, por exemplo (o Barcelona B, na época passada, não só alimentou os campeões da Europa com jogadores como Thiago ou Fontás como terminou em lugares de play-off a liga regular). No entanto a forma como se introduzem as equipas obriga às habituais soluções de compromisso das entidades lusas. Em lugar de estruturar a competição a Liga toma o caminho mais fácil e aumenta para 22 equipas a competição, insinuando que pode contribuir também para mudar o número de promovidos e despromovidos entre as ligas profissionais de dois para três conjuntos bem como a despromoção progressiva de mais uma equipa para a 2º Divisão B nos próximos seis anos até voltar a nivelar os seus números de participantes a um minimo de 18. 

Na prática esta medida revela condições importantes. Hoje clubes como Sporting, Benfica ou FC Porto têm listas de dezenas de jogadores emprestados por vários clubes lusos e estrangeiros. Esta medida permitirá a Domingos, Jesus e Pereira a possibilidade de trabalhar lado a lado com esses Miguel Rosa, André Almeida, Nuno Reis, Cedric, Atsu ou Diogo Viana que significam, de certa forma, o futuro dos grandes de Portugal. Uma medida que também permitirá aos clubes grandes aligeirar a ficha de gastos no plantel principal já que dispõem de uma equipa alternativa que pode alimentar o plantel principal. Para os jovens de 18 anos saídos dos juniores (ou alguns titulares menos usados) competir com Belenenses, Leixões, Santa Clara ou Oliveirense não será muito diferente do desafio de defrontar os Feirense, Olhanense ou Gil Vicente que irão encontrar na Liga Sagres. Enquanto competem com rivais de maior nivel estão às ordens da equipa principal em lugar de passar um longo interregno, longe de casa, muitas vezes passando desapercebidos dos directivos e técnicos. Assim acabaram os Paulo Machado, Helder Barbosa, Vieirinha, Fábio Paim, Danilo Pereira e companhia do passado.

 

Se essa medida é importante para reforçar o papel dos jovens de formação nos seus clubes base (recordamos o gritante exemplo do FC Porto que não conta com um só jogador da sua formação na equipa principal o que implicou a penalizou da UEFA de inscrever apenas 21 jogadores na Champions League) a verdade é que também tem o seu reverso da medalha.

Desde há vários anos para cá que a politica de contratações dos clubes lusos se tornou numa máquina de importação fora do controlo. Os grandes (mais o FC Porto e menos o Sporting com o Benfica a inverter, agora, a tendência) lideraram o processo mas os pequenos e médios rapidamente os imitaram e de certa forma abandonaram também a sua formação. Se Figo, Baía e Rui Costa sairam dos grandes, Pedro Barbosa, Sá Pinto, Nuno Gomes ou Costinha sairam de clubes médios e pequenos. Esse fenómeno tornou-se um oásis no Bessa, Restelo, D. Afonso Henriques, AXA, Bonfim, Municipal de Coimbra...desde há muitos anos. Os clubes passaram a limitar-se a importar de forma impulsiva e a depender dos empréstimos dos jovens (e erros de casting) dos grandes para fechar os planteis. Isso significava menos gastos e uma dependência politica que Porto e Benfica souberam aproveitar bem criando verdadeiras relações de dependência com várias instituições.

Sem dinheiro, sem jogadores da casa, muitos desses clubes irão passar graves problemas quando os grandes deixarem de emprestar jogadores, desviando-os para a sua equipa B. Terão de encontrar rapidamente soluções para não cair no erro do Boavista ou Belenenses, clubes que andaram anos na corda bamba até que a corda finalmente se rompeu.

Um problema que terá consequências em projectos que acabarão como os Salgueiros, Alverca ou Estrela da Amadora do passado mas que será inverso na Liga Orangina. Com rivais das equipas B as equipas da segunda liga terão mais atenção, mais espaço mediático e estarão mais expostos aos clubes de primeira que queiram observar as jovens promessas em acção. Um aumento do interesse pelas equipas da prova pode equilibrar, e muito, o equilibrio da balança desportiva de várias instituições até hoje relegadas para segundo plano.

No fim de isto tudo está o futebol nacional como tal. A presença de equipas B dinamiza uma liga profissional abandonada, fomenta a formação, especialmente entre os grandes e sobretudo dá espaço e minutos para jogadores jovens começarem a ganhar o seu espaço. Se essa foi a bandeira do futebol luso até 2002 - e a base do seu sucesso - esse terá de ser o ponto de partida desta nova etapa. Se Nelson Oliveira, Miguel Rosa, André Almeida, Mika, Nuno Reis, Cedric, Sanu, Atsu, Viana e companhia começarem a ter minutos nas pernas, chamadas às equipas principais e reconhecimento público pode ser que a renovação geracional que se adivinha tão dificil se transforme num processo menos turbulento.

Claro que a ideia no papel funciona sempre melhor do que na prática, especialmente se falamos num futebol como o português, cheio de ratoeiras, armadilhas e corrupção activa e passiva. O projecto tem todas as pernas para andar (o sucesso do Barça ou do Villareal B em Espanha e das equipas de reserva na Alemanha, Inglaterra e Holanda assim o diz) e pode ser uma alavanca económica e social para reinventar o futebol luso. Mas é apenas uma solução de base que necessita muito trabalho estrutural por trás e muita vontade para funcionar. As equipas B são parte de uma ponte para um futuro melhor mas a margem é longa e vai ser necessário muito mais cimento, pedra e alcatrão para chegar ao outro lado do rio...



Miguel Lourenço Pereira às 18:25 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quinta-feira, 13.10.11

Pode ser que T.E. Lawrence, na voz inesquecível de Peter O´Toole, tenha tentado fazer-nos crer que nada estava escrito mas a repetição do duelo entre um Portugal decadente e uma flamante Bósnia parece dizer todo o contrário. Em vinte anos um país que sobreviveu à maior catástrofe humana que o Velho Continente viveu em mais de meio século pode olhar olhos nos olhos no exemplo perfeito da desintegração europeia. Falamos de futebol, claro, desporto em que Portugal começa a perder argumentos e onde os bósnios encabeçam, com certa autoridade, a revolução de uma nova e pujante vaga.

Antes de que o ano acabe falaremos da Arménia, da Estónia e do Montenegro, selecções que hoje por hoje são mais interessantes e meritórias que as decadentes potências da Europa Ocidental perdidas entre elogios pretéritos e sonhos irreais. Potências como a França ou Portugal está claro. Mas entre todas essas selecções a que mais espanta, mais surpreende e, por outro lado, mais encanta, é sem dúvida a da Bósnia-Herzegovina.

Há momentos que marcam gerações. Ninguém que viveu os anos 90 com uso de razão pode esquecer as imagens de uma Sarajevo rasgada na pele, destroçada na alma. Hoje provavelmente a maior parte das ruas da cidade já não são construidas com tijolo e cimento. O mais seguro é que se sustenham com lágrimas e sangue.

Essa cidade, conhecida há séculos como a Jerusalem europeia, sempre foi a mais discriminada das capitais regionais da antiga Jugoslávia, discriminada por Tito e pelos seus seguidores em detrimento de Belgrado e Zagreb, cidades mais cosmopolitas e, sobretudo, mais eslavas. A herança muçulmana e judia fizeram da rainha das montanhas dos alpes dinários um primo pobre, olhado de lado. O mundo demorou a ter pena mas quando as imagens falaram mais alto do que todas as palavras dos corredores diplomáticos o mundo apaixonou-se por Sarajevo.

Vinte anos depois a capital da Bósnia é uma cidade diferente. Os problemas continuam lá, ninguém se engane. A corrupção, a crise económica, o desemprego e as relações institucionais no caldeirão de pólvora balcânico continuam a ser um problema. Mas como em tantos outros sitios esquecidos do mundo uma bola pode mudar muita coisa. Pode transformar uma rua de lágrimas num poço de euforia. Uma bola que rola, no próximo mês, com um objectivo claro e histórico.

 

Desde a separação da antiga Jugoslávia que as várias repúblicas que fizeram parte do ideário nacionalista de Tito usaram o futebol como o meio preferencial de afirmação nacional. Excluidos pelo Ocidente do seu brinquedo, a croatas, eslovénios, sérvios, bósnios, montenegrinos e macedónios tiveram de recorrer ao futebol (e ao basket é certo) para não deixarem o Mundo esquecer-se que eles existiam.

Os croatas foram os primeiros a brilhar, bem alto, e rapidamente se seguiram sérvios e eslovenos. Dez anos depois da extinção da Jugoslávia as três nações já tinha marcado presença tanto em Europeus como Mundiais e de forma bastante satisfatória. No meio da euforia colectiva todos pareciam esquecer-se da Bósnia, da pobre, ostracizada e semi-destruida Bósnia.

Mas a metamorfose do futebol bósnio tornou-se evidente na última década. A sua liga nacional continua a ser, em traços gerais, a mais pequena das três principais da ex-Jugoslávia (a eslovena e montenegrina são ainda mais humildes) mas a sua selecção deu um tremendo salto qualitativo. A aposta na formação local tornou-se uma realidade quando os clubes entenderam que não havia dinheiro para competir com o exterior. As estruturas foram-se melhorando a pouco e pouco e a corrupção federativa, um habitué nos dias da Jugoslávia, tornou-se menos evidente. O último problema, a tripla presidência federativa, espelhava de certa forma a identidade partida de uma Bósnia ainda orfã da guerra. Com o fim dos clãs étnicos a pujança da equipa nacional tornou-se mais evidente do que nunca. Pela primeira vez a nação sentia-se verdadeiramente unida.

No meio de tudo isto a figura tutelar do mitico Miroslav Blazevic.

Um treinador que sobrevive, sobretudo, graças ao seu tremendo carisma e que nos anos 90 foi o grande responsável pela reestruturação de outra nação recém-criada, a Croácia de Boban, Suker, Prosinecki e companhia. Com Blazevic ao leme a Bósnia começou a melhorar os seus resultados nas fases de apuramento. A isso ajudou também a chegada de uma nova vaga de jovens valores como Edin Dzeko, Asmir Begovic, Miroslav Pjanic, Vedad Ibisevic ou Haris Medunjanin que se juntaram aos veteranos Spahic, Rahimic, Muzlimovic ou Misimovic. Um onze espalhado pelas principais ligas da Europa e que se tornou num adversário temivel para qualquer selecção europeia. Ao contrário do que se supõe, um onze repleto de pequenas grandes estrelas.

A transformação arrancou em 2008. A Federação transferiu a esmagadora maioria dos jogos em casa para o mais pequeno - mas mais "quente" e intenso - estádio de Zenica que se transfou num verdadeiro fortim. A equipa começou a olhar de igual para igual com as nações do seu nivel. Em 2010 falhou o apuramento directo para o Mundial depois de sofrer na pele a superioridade da Espanha (mas batendo no sprint a Turquia) e caiu diante de Portugal no play-off. Na passada terça-feira foi outra campeã do Mundo, a França, a garantir o apuramento directo num grupo onde os bósnios voltaram a superar outra selecção com mais tradição como é o caso da Roménia. E mais uma vez o destino, esse que afinal parece estar escrito, colocou Portugal no caminho dos bósnios. 

 

Exceptuando dois ou três jogadores (se muito) o onze base português não é substancialmente diferente do melhor onze bósnio.

Zenica pode ser um inferno tão intenso como a Luz ou o Dragão (e muito mais que Alvalade) e o novo seleccionador, Safet Susic, goza de muito mais prestigio e respeito dentro e fora de portas do que o próprio Paulo Bento. O prestigio recente parece indicar, aos mais despitados, que Portugal é favorito. Longe disso, a dinâmica do momento parece indicar precisamente o contrário e são os bósnios, feridos pelo empate em Paris, quem surgem como o alvo a abater. O seu 4-2-3-1, acente no jogo ofensivo de Pjanic, Dzeko, Medjunjanin apoiado na segurança defensiva de Begovic, Spahic, Misimovic e Rahimic, propõe um modelo de jogo equilibrado e com várias soluções para os momentos mais complicados. Da solvência de Pjanic nas bolas paradas à eficácia goleadora de Edin Dzeko sem esquecer uma das defesas menos batidas na fase de qualificação, liderada por um Begovic em plena maturidade desportiva, transformam o onze dos Lirios, como são popularmente conhecidos, num durissimo rival.

Num país de 3,8 milhões de habitantes, sem uma imensa tradição futebolistica e com uma liga que anda entre a terceira e quarta divisão europeia, o mérito desta campanha é imenso. Um espelho perfeito de uma nova Europa de que fazem parte várias nações do antigo bloco de Leste que começam a superar nações históricas do Velho Continente que vivem em perfeito estado de estagnamento desportivo.

Portugal provou em Copenhague que está num lento mas claro processo de desintegração, incapaz de manter-se já nos bicos de pés que aguentou durante uma década junto das grandes potências. Faltam-lhes as forças, faltam-lhe os argumentos, faltam-lhe as ideias. À medida que nações como a portuguesa (e a belga, e a austriaca, e a escocesa, e a hungara, e a norueguesa) vão perdendo competitividade, consequência de várias decisões erradas a distintos niveis, novas nações como a Bósnia representam aquilo que estes próprios países, no passado, chegaram a representar face às potências de sempre que ainda o são hoje em melhor (Alemanha, Holanda, Espanha) e menor (Inglaterra, Itália, França, Russia) medida.

 

Uma semana servirá de pulso para entender se o processo de crescimento bósnio é decisivo e irreversível da mesma forma que os portugueses acabarão por se ver confrontados, mais tarde do que cedo, com a inevitabilidade do final dos seus dias de ouro. Portugal surge como favorito para a imprensa internacional mas na Bósnia o amor a uma pátria que há vinte anos não tinham e a lembrança dos dias de Sarajevo podem fazer a diferença. Para os adeptos neutrais, quando esse conceito ganha sentido num desporto de amor e ódios, entre ambas as nações ficará evidente quem representa o passado e quem representa o futuro. E muitos deles se lembrem das lágrimas e sintam essa canção de amor, de amor a Sarajevo, a cidade de um povo que quer quer o futebol sirva - pela enésima vez - para transformar as lágrimas em gritos de genuina alegria. Para eles o destino de sofrimento também é algo que não está escrito...



Miguel Lourenço Pereira às 22:17 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Segunda-feira, 10.10.11

Pode um país de 10 milhões de habitantes, com uma economia decadente, uma sociedade congelada no tempo e sem um projecto de futuro definido ambicionar a ser potência de alguma coisa? Portugal continua a pensar que sim. Em véspera do derradeiro duelo de qualificação directa para o Euro 2012 voltam a assombrar os fantasmas da calculadora sem que adeptos e analistas entendam a crua, dura mas certeira realidade. Esta selecção é apenas o espelho de um país. Talvez por isso, futebolisticamente, valha menos e moralmente, hoje em dia, valha tão pouco.

 

Antes da última noite de qualificação só cinco potências europeias garantiram o apuramento automático para o Europeu organizado no próximo mês de Junho pela primeira vez na Europa de Leste. Nas já apuradas Ucrânia e Polónia.

Cinco países que definem a história do jogo, de Itália e Alemanha a Espanha e Inglaterra sem esquecer a omnipresente Holanda. Cinco realidades desportivas e sociais que espelham bem como se pode analisar de forma objectivo o fenómeno futebolístico no Velho Continente. A imprensa "especializada" volta a falar em nações com tradição, tentando enxotar Portugal para uma lista que vive num universo à parte, como quem exige notas de excelência quando as condições de trabalho são inexistentes. Há algo (não, há muito) nesses cinco países que explica o seu papel na evolução e na estruturação do futebol europeu. E por isso, sobretudo por isso, não é casualidade que sejam eles os primeiros a carimbar o passaporte para o torneio estival que nos espera em 2012.

O futebol é, hoje mais do que nunca, um fenómeno económico e social. Um espelho profundo onde as grandes diferenças se acentuam mais do que nunca. Em campo já não entram apenas 11 contra 11 jogadores. Apesar de ser um jogo, onde tudo pode suceder (que dizer da Grécia em 2004) em cada jogador entra também um símbolo da evolução do seu país no esquema politico, social e económico. Na aposta feita no desporto mas, sobretudo, na mentalidade incutida na sociedade que dá ou tira o grau de importância que se atribuiu a cada evento.

É uma mistura curiosa onde vários factores entram em jogo. Mas se há elementos que unem de forma inequívoca os cinco qualificados são a sua aposta na formação, o seu poderio económico e o leque de opções que o seu campo de recrutamento possibilita.

 

Portugal há muito que se distanciou das principais selecções europeias por muito que o brilhante registo logrado na última década diga o contrário.

Um país de 10 milhões com uma economia débil tem pouco que dizer quando se fala num contexto mais alargado e profundamente profissional como o que defendem as federações holandesa, alemã, italiana, espanhola ou inglesa. Mesmo o caso francês resulta paradigmático porque espelha um verdadeiro ponto de inflexão num país que tem os seus próprios fantasmas, espelhados pela polémica à volta das declarações de Laurent Blanc sobre o futebol de formação gaulês. Um país órfão da sua melhor geração sabe que tem de passar por um período de sofrimento que se acentua quando a escolha de excelência formativa ao mais alto nível mundial também acaba por se ver questionada dentro e fora das fronteiras do hexágono.

No meio desta salada de frutas, Portugal é um dos productos secundários por excelência. Não tem o campo de recrutamento da Rússia ou Turquia por exemplo. Nem a solidez económica dos países nórdicos (habitualmente mais interessados noutros desportos onde valem a sua condição para serem verdadeiras superpotências) ou a consciente aposta no futebol de formação de suíços, croatas ou gregos. Portugal, pura e simplesmente, transformou-se numa nação sem um trunfo na manga mas com muito prestigio.

Finalista de um Europeu, semifinalista de outro, quarto finalista em 2008, semifinalista de um Mundial e nono classificado no último campeonato do Mundo são números de uma potência que Portugal não é. O futebol luso tem vivido muito por cima das suas reais possibilidades, consequência directa de uma forte aposta na formação que deu os seus frutos durante 15 anos, da bonança económica que permitiu nos anos 90 esse salto de qualidade e, sobretudo, do peso mediático de figuras individuais que, de certa forma, taparam buracos graves que seriam imperdoáveis em nações de outro pedigree. Portugal passou a última década desportiva sem um guarda-redes e um dianteiro de nível mundial, algo impensável para quem aspira a algo mais do que picar o ponto. Viveu uma eterna orfandade de laterais esquerdos, um excesso de extremos e uma profunda carência de criatividade no miolo. No último Mundial actuou com um central de raiz como médio defensivo por não existir nenhum jogador capaz de dar a mesma segurança num lote de 23. Muitos dos jogadores convocados pelos últimos três seleccionadores actuam em equipas de nível médio-baixo e tudo isso tem um preço real. 

Portugal abandonou há uma década atrás o seu papel de referência na formação. O mesmo que devolveu à Espanha uma hegemonia que deteve a nível de clubes mas que nunca se viu plasmada na selecção nacional. O mesmo projecto que permite a um país como a Holanda, mais rico mas com menos população, manter-se eternamente no topo. Os holandeses são, de certa forma, tudo o que Portugal não é e devia ser. Aproveitamento dos emigrantes e imigrantes, desenvolvimento do futebol de formação nos clubes de média e baixa dimensão, fortíssima aposta na estrutura federativa e, sobretudo, a criação e perpetuação de uma identidade de jogo.Condimentos suficientes para garantirem que em Junho eles estarão na linha da frente, com espanhóis e alemães (que aplicam a mesma fórmula), para disputar o ceptro continental.

 

Se Portugal cair diante de uma Dinamarca que até aos anos 70 ainda era uma nação eminentemente amadora será tudo menos surpreendente. Os dinamarqueses estão longe da excelência técnico-táctica da selecção dos anos 80 mas continuam a ser um país economicamente forte e com uma aposta na formação local respeitável. Têm há largos anos o seu ideário de jogo e o que podia ser uma fraqueza transforma-se numa arma de ataque. Sabem que apesar de serem campeões europeus pretéritos (algo que nem Portugal logrou) não podem viver, como os lusos, das ilusões do passado e encaram cada fase de qualificação com tremenda seriedade. Talvez por isso tenham falhado tão poucos torneios nos últimos 30 anos. Apesar dos melhores resultados recentes de Portugal, lusos e dinamarqueses estão ao mesmo nível no panorama futebolístico e não fosse o capricho dos rankings FIFA e UEFA e talvez ambas as selecções tivessem defrontado rivais bem mais fortes nos seus respectivos grupos, como sucedeu com a Suécia (com a Holanda), como a Suiça (com Inglaterra) ou com a Turquia e Bélgica (com Alemanha). 

Num grupo com um cabeça de série sonante ninguém exigiria que Portugal lograsse o apuramento directo para o Europeu mas nesse ar armante bem luso, os dinamarqueses são uma nação menor. Nem vale que tenham sido eles a garantir o bilhete directo para o último Mundial mandando Portugal para um duelo agónico com uma Bósnia que representa perfeitamente o melhor da nova Europa a quem poucos prestam a devida atenção. Essa ideia de um Cristiano Ronaldo mais dez, de uma selecção de Figos pretéritos, tapam a realidade de uma nação que não pode ambicionar a mais do que ser nona num Mundial ou sexta num Europeu, como sucedeu nos últimos dois torneios. Esses são os limites reais de Portugal.

Paulo Bento sabe-o mas de certa forma ele também é o espelho desse Portugal dos pequeninos que acredita que vale mais do que realmente vale. Os erros contra a Islândia foram só um reflexo de todos os erros de todas as qualificações portuguesas da última década onde a solvência e o saber estar nunca foram recorrentes. Podem Rui Patricio, João Pereira, Rolando, Eliseu, Carlos Martins, Ruben Micael, Helder Postiga, Ricardo Quaresma, Hugo Almeida, Miguel Veloso, Beto ou Nuno Gomes ser parte importante numa selecção que aspira a tanto mas que continua a valer tão pouco? Olhamos para os centro-campistas espanhóis, ingleses, alemães, holandeses, franceses ou italianos sentados no banco de suplentes e entendemos esse abismo que separa hoje, mais do que nunca, o futebol luso, abandonado às urtigas, do futebol da elite europeia.

Países como Dinamarca, Suécia, Croácia, Bósnia, Montenegro, Sérvia, República Checa, Turquia, Bélgica, Escócia, Eslovénia ou Irlanda, não possuem nomes globais como Ronaldo, mas como selecções hoje por hoje valem tanto como a equipa das Quinas. É perante eles que o futebol português tem de medir a sua bitola em vez de continuar com sonhos quixotescos de olhar olhos nos olhos com nações que fizeram o trabalho de caso a tempo e horas.

Dito isto e Portugal até pode qualificar-se de forma directa para o Europeu mesmo perdendo. Seria o pior que podia passar ao futebol luso porque, uma vez mais, o apuramento directo, sem vencer sequer o grupo, taparia todos os problemas reais e graves do futebol português. Talvez seja necessário para Portugal passar por um período de hibernação, como sucede com países com a Bélgica, Irlanda, Roménia ou Escócia, para entender qual deve voltar a ser o caminho a seguir. O problema é que a ampliação a 24 equipas dos próximos Europeus, uma vez mais, enganará tudo e todos e continuará a funcionar como desculpa perfeita para quem continua a adentrar-se no mar sem remos nem velas.



Miguel Lourenço Pereira às 10:34 | link do post | comentar | ver comentários (5)

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