Quinta-feira, 09.09.10

Na crónica ao estado depressiva da selecção lusa, o jornalista do Público, Hugo Daniel Sousa, comparou com precisão o actual estado da equipa das Quinas com o quadro "O Grito" de Edward Munch. Um estádio de psicose interna que caminha a passos largos para o precipicio. Mais do que resultados, o que está em causa é toda a estruturação do futebol português que começa a pagar agora pecados capitais muito antigos.

Na mesma semana em que o Sindicato de Jogadores divulga um estudo que se limita a confirmar uma realidade que tem mais de uma década, a expressão máxima do futebol nacional, a selecção AA, completou a sua pior jornada internacional de apuramento em largos anos. Um ponto conquistado contra duas equipas acessíveis para um conjunto que aspira a tudo é um retrocesso aos dias da calculadora aberta desde as primeiras rondas. Um cenário do qual Portugal não se vai livrar tão cedo. Em Novembro a equipa das Quinas pode estar praticamente fora do próximo Europeu de Futebol caso não consiga inverter o suícidio colectivo entre o empate disparatado face ao Chipre e a derrota cinzenta na Noruega. Um encontro com o rival directo (aparentemente) e um duelo na fria e perigosa Islândia serão fulcrais (já) para determinar o futuro de Portugal. Falhar a primeira prova internacional em 12 anos (e seis edições, entre Europeus e Mundiais) seria o culminar efectivo do final da era de ouro do futebol nacional. Uma realidade há muito acabada mas que imprensa, equipa federativa e corpo técnico teimam em querer eternizar sem que estejam reunidas as condições para que Portugal se possa sentir como uma equipa de primeiro plano internacional como foi, legitimamente, durante a última década, onde atingiu uma final e duas semi-finais de provas internacionais, num registo apenas superado na Europa pela Alemanha e igualado pela Holanda. As derrotas na fase de apuramento são apenas o espelho de uma realidade podre, negra e aparentemente sem solução que tem vindo a minar o futebol português à vários anos. A caça às bruxas levantada contra Carlos Queiroz, precisamente o homem contratado para inverter o processo, depois da "vaca" ter deixado de dar leite, é mais um sinal de que as perspectivas de futuro continuam a ser uma miragem para os principais agentes desportivos lusos.

 

Portugal é um país vendedor que compra em demasia.

Nos últimos anos os jogadores portugueses têm abandonado a liga nacional em busca de melhor sorte. Às vendas milionárias logradas essencialmente por FC Porto e SL Benfica (e em menor dimensão, Sporting), juntam-se os jogadores de pequena expressão que procuram em países como a Roménia, Suiça, Chipre, Noruega, Escócia, Rússia ou Holanda as oportunidades que os clubes locais não estão dispostos a conceder. Essa razia está acompanhada pelo aumento impressionante da importação de jogadores, muitas vezes de valor inferior, que transformou a liga portuguesa na terceira da Europa com mais estrangeiros, numa percentagem superior à metade. O plantel dos grandes é o exemplo perfeito dessa dicotomia mas até mesmo os clubes conhecidos pelo seu passado na formação há muito que abandonaram a politica do producto interno. Outros, históricos, pagaram caro esse erro caindo em falência ou agonizando em ligas inferiores, um destino que está hoje em dia ao alcance de qualquer clube português, face à incapacidade destes (e da Liga) de gerar receitas.

A redução de equipas da Liga Zon/Sagres para 16 (acompanhada pela Liga Orangina) e o anunciado final da III Divisão, não trouxe nenhuma alteração visivel à competitividade interna, a cair a pique nos últimos 10 anos. Os jogadores portugueses de formação são obrigados a ganhar experiência em equipas com tipologia defensiva e sem ambição, perdendo a oportunidade de actuar nos principais clubes e provas, ao contrário do que sucede com as suas congéneres europeias. Sem espaço nos seus clubes de origem, presos a um campeonato mediocre, a sua evolução estagna quando deveria florescer. Portugal há mais de uma década que abandonou o futuro, a partir do momento em que fechou as portas aos seus próprios jogadores, uma politica seguida pela Federação, pelos principais clubes e pelas equipas técnicas de Humberto Coelho a António Oliveira passando por Luis Filipe Scolari. Essa realidade, aliada ao pequeno campo de recrutação que um país de 10 milhões de pessoas oferece, abriu caminho às naturalizações express e à falta de opções de nível para a selecção principal. Na catastrófica dupla ronda internacional, Agostinho Oliveira utilizou vários elementos que nem sequer são utilizados nos seus clubes, chamando apenas oito jogadores a actuar na liga nacional. Muito pouco. Espelho de uma ideia de "piloto automático" de um projecto suícida capaz de interpor interesses pessoais à qualificação lusa para o próximo Campeonato da Europa.

 

Sem margem de manobra para o presente, o principal labor da FPF deveria ser preparar o futuro.

Bem recentes são os exemplos do suícidio desportivo de uma das grandes potências dos anos 80, a Bélgica. País de curta dimensão, a Bélgica foi figura omnipresente nos grandes torneios internacionais de 1980 a 2002. Desde então caiu na terceira divisão europeia tendo recorrido anos a fio a jogadores veteraníssimos face à incapacidade dos clubes e da respectiva federação de renovar os quadros competitivos. Actualmente a geração jovem belga é uma das mais quotadas do futebol europeu e apesar de ter uma dificil missão em apurar-se num grupo que inclui Alemanha e Turquia, todos são unânimes em considerar os belgas como uma força a ter em consideração nos próximos anos.

A própria Holanda, rainha dos anos 70, teve o seu hiato desportivo de uma década entre a final de 1978 e a conquista do Euro 1988. Tempo de pausa para preparar o futuro que chegou sob a forma de van Basten, Gullit, Rijkaard, Koeman e companhia. No caso português a questão é ainda mais critica porque o final da Geração de Ouro, há muito confirmado, só foi protelado pelo final tardio da Geração Mourinho, onde podemos incluir Ricardo Carvalho, Bruno Alves, Raul Meireles ou Hugo Almeida, todos a cruzar perigosamente a fronteira dos 30. Em dez anos, com as pontuais excepções da formação sportinguista (Cristiano Ronaldo, Nani, Miguel Veloso, João Moutinho, Yannick Djaló) os clubes grandes estancaram em dar novos jogadores ao país e os clubes de média e pequena dimensão desapareceram do mapa. As gerações de 2004 (os Postiga, Lourenço, Zé Castro e companhia) e de 2008 (Bruno Gama, Helder Barbosa, Vieirinha, Manuel Fernandes), são exemplos do falhanço dessa politica. Sem margem de solução imediata.

E no meio de toda esta problemática (a que podiamos juntar a ausência de infra-estruturas para a FPF como uma Cidade Desportiva, a falta de receitas e apoio do público das ligas profissionais e a falta de limitação de jogadores estrangeiros) a equipa federativa e o governo luso preferem tapar o sol com a cabeça de um seleccionador com dois anos de serviço que incluem o cumprimento de todos os serviços minimos esperados nesta circunstância. Uma ironia que preocupa pelo facto de ser um sinal claro de que o futuro será tão negro como o presente.

Queiroz não é um génio da táctica e seria certamente melhor coordenador das selecções (algo que não existiu sequer durante os 15 anos da sua ausência) do que seleccionador. Mas esperar que seja outro técnico a mudar o rumo, quando os problemas são puramente estruturais, é um grave atentado à inteligência do adepto e contribuinte português. Paulo Bento, Manuel Cajuda, Luis Aragonés ou Luis Filipe Scolari não são melhores treinadores do que o actual seleccionador. Nem têm escondido um contentor de jovens e talentosos jogadores lusos capazes de crescer e comer o Mundo. Basta pensar que a superior Espanha que há dois anos domina o futebol internacional é resultado de uma aposta séria de 10 anos na formação e estruturação de um país habituado a desiludir. Nada é imediato. E nada se resolve com uma destituição que, a acontecer, deveria ser acompanhada com uma limpeza geral de todo o projecto federativo, caducado quando a aposta num projecto de quatro anos se desfaz com um insulto e uma derrota face à campeã mundial. Portugal precisa de um projecto com futuro, tentando no presente cumprir objectivos minimos que garantam uma presença regular nas provas internacionais. Mais, é impossível. Mais, é utópico. Mais, é o Conto do Vigário.


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Miguel Lourenço Pereira às 00:01 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quarta-feira, 08.09.10

Na terra onde o tango ganhou forma e feitio, a selecção argentina bailou sobre a equipa campeã do Mundo com uma voracidade digna de qualquer marinheiro carpido das secas ruas de La Boca. Um diapasão musical iluminado por um Sargento Messi e a sua banda de Corações Solitários, capaz de orquestrar um jogo digno de roçar os limites perfeição. Como qualquer álbum dos The Beatles.

Messi teve, finalmente, "a little help from his friends" e deixou Vicente Del Bosque a suspirar por um "A Day in Life" enquanto que a aficcion espanhola certamente sentiu que estava sob o efeito de um qualquer "Lucy in the Sky With Diamonds". A hinchada argentina, que lotou por completo o imenso Monumental, sentiu a vida começava a ficar "Getting Better" a cada segundo de jogo. A orquestra funcionou à perfeição, a Argentina renasceu. E do outro lado ninguém suspeitava que estava a equipa campeã Mundial, apanágio do jogo belo do último biénio desportivo.

Sem a loucura de Maradona, esse profeta do desiquilibrio, e diante dos seus próprios adeptos, sedentos de sangue - o dos rivais ou, em última instância, o seu - o conjunto comandado por Sergio Batista afinou os acordes e aplicou-se num concerto inesquecível. Digno de entrar na história do futebol da albiceleste, pouco habituada a dar recitais de tamanha classe depois de anos de desprestigio internacional e desenganos inoportunos. O 4-3-2-1 que Batista montou na recepção à toda-poderosa Espanha, em pouco se parecia à ambiciosa aventura maradoniana que terminou aos pés da fria e rápida Alemanha, impedindo o duelo hispânico nas meias-finais do último Mundial. Os regressados Banega e Cambiasso deram o critério que faltava ao miolo argentino e a experiência de Zanetti frustrou o jogo pelos flancos da bem organizada Espanha. E à frente havia Messi, finalmente havia Messi.

O número 10 argentino realizou aquela que é, até hoje, a sua melhor exibição com a camisola do seu país ao peito.

O estádio do River Plate levantou-se para aplaudir o pequeno grande génio, ao minuto 88 (pouco antes tinha falhado um golo que teria consumado a humilhação espanhola), um verdadeiro Sgt Pepper´s capaz de organizar sozinho uma banda de talentosos solistas que, por uma vez, souberam actuar em conjunto com harmonia e paixão. Leo foi demoníaco na forma como desmembrou um meio-campo espanhol a quem só faltou Xavi (durante a primeira parte, rendido por Fabregas), mas que foi incapaz de o travar. O primeiro golo, um hino aos talentos do argentino, foi o exemplo de como o extremo é capaz de se transformar num tornado em movimento, verdadeiramente imparável. O segundo, com o selo de Gonzalo Higuain, confirmou o mérito da aposta do seleccionador da albiceleste em Carlitos Tevez. Descaído para o lado esquerdo do tridente ofensivo, o avançado do Manchester City encarnou a garra mágica da música bailada pelos argentinos. Um rift de guitarra para o primeiro golo de Messi. Um solo de breves instantes para o tento de Higuain e um grito de explosão capaz de arrebentar com qualquer cenário quando Pepe Reina (que parece sempre falhar nos momentos chave, que o digam os adeptos do Liverpool) tropeçou no imenso esférico e permitiu à Argentina marcar o terceiro golo com meia hora de jogo.

Uma meia-hora demoníaca em que os espanhóis se limitaram a ouvir a música que tocava no palco, aplaudindo timidamente. Se a Argentina até abrandou na segunda parte - com a Espanha, forçosamente, a procurar maquilhar o resultado com um quarteto ofensivo composto por Navas, Pedro, Llorente e Cazorla, com Xavi já com a batuta nas mãos - a verdade é que, tal como no maravilhoso álbum de 1966 que arranca furioso nos primeiros vinte minutos e depois abranda com uns suaves Within You Without You, Whem I´m Sixty Four - uma bela homenagem à longevidade de Zanetti e Heinze - e Lovely Rita, o final é imenso. A entrada de Aguero e D´Alessandro dá outra raiva ao ataque argentino que entre ambos - com o apoio do lateral-esquerdo - criam o quarto tento da equipa da casa. 

A Espanha até tinha reduzido, por intremédio de Llorente, que rendeu David Villa ao intervalo. Mas nunca existiu realmente, asfixiada pela pressão argentina e pelo ritmo diabólico dos Beatles de Buenos Aires.

Del Bosque alinhou uma equipa onde só Nacho Monreal não ostentava o titulo de campeão do Mundo. Silva, Fabregas, Iniesta, Villa, Busquets e Xabi Alonso compunham o sexteto ofensivo, mas o conjunto espanhol esteve muito longe daquilo que é capaz. Houve três bolas nos ferros, é certo, e alguma dinâmica ofensiva bem orquestrada no segundo tempo, especialmente quando Navas e Pedro abriram o jogo, até então demasiado afunilado pelo eixo central. Mas sem qualquer resultado prático, a não ser um tento de consolação que impediu uma humilhação maior.

Se o festival de futebol argentino se assemelhou em tudo ao mítico álbum da banda de Liverpool, o jogo da super-favorita Espanha (que aproveitou para fazer campanha de charme para a candidatura mundialista) parecia-se mais a Between the Buttons, o álbum contemporâneo de uns Rolling Stones ainda demasiado verdes para aguentar o ritmo alucinante da "Beatlemania". Se o traço de génio está lá - como estava nesse desvio de rota de "Suas Satânicas Majestades" - e o passado não se apaga, a verdade é que ficaram os primeiros sinais de alarme numa equipa que em dois anos ganhou tudo mas que nunca teve, realmente, de se medir a adversários na máxima força fisica e psicológica. Num terreno adverso, contra uma equipa motivadíssima, a Espanha encolheu-se cedo e demorou a esticar o seu futebol que rapidamente abandonou o preciosismo do toque lateral para uma maior verticalidade apontada nos solos de guitarra de Pedro e Navas, quais Keith Richards solitários numa banda mergulhada numa piscina de dúvidas e tropeções inesperados. Até porque a Between Buttons se seguiu Their Satanic Majesties Request, um flop ainda maior, e um periodo de incertezas que só acabaram com a morte de Brian Jones e o arranque de um novo ciclo musical com a dupla Richards-Jaggers já ao comando. A Espanha de ontem mostrou esses traços de grandeza que só se encontram em faixas perdidas no coração de albúns sem chama.

O triunfo musical dos argentinos é uma nota positiva com vista à próxima Copa América, especialmente porque demonstra que o génio que é Leo Messi começa a encontrar o seu espaço no futebol menos associativo e mais solidário do conjunto argentino. A sua demoníaca velocidade, aplicada sem piedade, será a grande arma de Batista para atacar o dominio continental, uma vez mais. Do outro lado do Oceano, a equipa espanhola lamberá tranquilamente as feridas de uma humilhação inesperada. Têm o tempo do seu lado para preparar uma renovação tranquila, com um apuramento facilitado rumo a um Europeu repleto de selecções, também elas, com as suas particulares psicoses musicais para resolver.



Miguel Lourenço Pereira às 09:09 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 06.09.10

A debacle de Guimarães não surpreende quem antevia já o naufrágio de uma selecção que hoje existe apenas no nome. Não bastaram as criticas e dissidências após o último Mundial. O hara-kiri incompreensível da FPF na sua insaciável perseguição a Carlos Queiroz ajudou a aumentar o clima de instabilidade numa equipa das quinas onde ninguém sabe como será o dia de amanhã.

Não foi a primeira vez que Portugal cedeu pontos com um rival acessível.

Houve os miticos empates com Malta, Azerbeijão, Arménia e afins, alguns deles conseguidos por "ilustres" seleccionadores do combinado nacional. Mas nem o Chipre está nesse patamar, nem o resultado de sexta-feira deixa uma imagem tão surpreendente. Os cipriotas, afinal de contas, têm melhorado muito o seu pedigree internacional. A nivel de clubes estrearam-se na passada edição europeia na Champions League e a própria selecção revelou-se um osso duro de roer para Itália e Irlanda, os seus rivais directos no apuramento para o último Campeonato do Mundo. A imagem romântica de uma débil equipa mediterrânica deixou de fazer sentido. O Chipre é uma selecção competitiva e preparada para a alta roda. E o Mundo do futebol hoje já não admite a minima falha. Que o diga a reformatada França de Laurent Blanc, que diante de 75 mil expectantes gauleses baqueou diante da Bielorrúsia, uma equipa bem ao nível da formação cipriota.

No entanto, o grande problema de Portugal foi...Portugal.

Uma equipa que aponta 4 golos - particularmente quando é uma equipa reconhecida internacionalmente pela sua inépcia diante das redes contrárias - e sofre outros tantos é, claramente, o maior inimigo de si mesma. E não apenas porque a equipa lusa foi a segunda menos batida do último Mundial. Mas também porque foi um conjunto emocionalmente distante, partido. Ausente. Como seria de prever.

 

Só um lirico pode imaginar que uma selecção nacional, particularmente no arranque de uma época com vários jogadores ainda sem minutos nas pernas e rotinas competitivas, no estado de auto-destruição que vive a portuguesa pode ambicionar a mais. Vencer a dupla ronda europeia seria a grande surpresa numa equipa assumidamente em "piloto automático".

A FPF temeu em despedir Carlos Queiroz quando era a hora, para os detractores do actual seleccionador. Numa avaliação de performance, se a prestação na África do Sul tivesse sido tão negra, o técnico seria inevitavelmente substituido. Mas tanto a equipa técnica como a federação concordaram, tacitamente, que os objectivos minimos estavam cumpridos e que reeditar uma meia-final não era mais que um sonho, um feeling que não se concretizou. Fechado esse ponto, e com a expectativa de uma séria renovação geracional (que Queiroz não pode fazer durante a campanha prévia, a quente), a questão parecia solucionada. Longe disso.

Nos últimos meses temos assistido a um mini-Saltillo, uma triste reedição do episódio mais funesto da história da FPF com alguns participantes repetentes. Despedir Carlos Queiroz passou a ser o objectivo comum de entidades governativas e federativas, mesmo correndo o risco de hipotecar a presença de Portugal na sua séptima prova internacional consecutiva. A suspensão do seleccionador e as seguintes sanções, aplicadas com o único propósito de lograr uma rescisão com justa causa (e sem os 2 milhões de euros de indmenização a que o técnico teria direito) tornaram-se no eixo central da vida da selecção. Os naturais abandonos internacionais de Simão e Paulo Ferreira foram transformados em casos de rebelião, o silêncio prolongado do (ainda) capitão nacional ganhou contornos de tabu à portuguesa e a nomeação de Oliveira como seleccionador interino abriu as portas à ideia de uma clara sucessão futura. Afinal, só Portugal parte para esta campanha sem seleccionador. O resto é somar 2+2.

Se a convocatória a meias entre Queiroz e Oliveira já deixou a entender por onde caminha a renovação lusa (Silvio, Djaló e os regressados Nani, Quaresma, Varela e Micael) também deixa claro que os problemas estruturais de Portugal continuarão, seja qual for o seleccionador. A ausência de um ponta-de-lança ou de um criador de jogo será um assunto bem mais sério do que o posto do homem que coordena o futebol internacional. A mudança de Queiroz, quase inevitável, garantirá o triunfo do status quo federativo e até poderá proporcionar um regresso ao scolarismo ou uma abertura ibérico ao aragonismo. Mas não deixará de ser incapaz de arrancar Portugal da mediania europeia, onde se encontra, tranquilamente. Sem espirito competitivo, sem noção de conjunto, equipa ou grupo, Portugal joga em Oslo a sua sobrevivência mental, mais do que os três preciosos pontos. O apuramento é longo e permite deslizes. Mas o que não admite são equipas sem estofo competitivo. Sem sentido profissional. E aí é que está o problema português. Mas a culpa, é do Queiroz! 



Miguel Lourenço Pereira às 16:32 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Sexta-feira, 03.09.10

Pediu uma vez que o deixassem sonhar mas a memória atraiçoou-o e reservou-lhe um final que não se merecia. José Torres, o eterno "Bom Gigante", figura chave do futebol luso, faleceu hoje aos 71 anos, depois de uma longa e perdida luta contra o Alzheimer. Passou pela era dourada do futebol luso como uma das suas máximas estrelas acabando por testemunhar o final de um dos maiores pesadelos da história do futebol português.

Uns recordarão o Torres técnico, e as suas esperançosas declarações previas à viagem de Estugarda que garantiu o histórico regresso de Portugal a um Mundial. Outros lembram-se dele no primeiro Campeonato do Mundo de Portugal, dos seus golos, assistências e gestos técnicos primorosos. Em qualquer caso, Torres foi uma figura impar.

O ponta de lança que o SL Benfica contratou em 1959 ao Torres Novas fez parte da equipa encarnada que dominou por completo o futebol português nos anos 60. A sua altura (media 2 metros e 3 cm) garantiu-lhe o apelido que o eternizaria, mas a verdade é que durante três anos foi presença mais assidua na equipa de reservas do que no onze tipo daa equipa treinada por Bella Guttman. Depois do triunfo europeu de Berna, Torres passou a ser figura chave na estrutura ofensiva encarnada, rendendo a pouco e pouco o histórico José Águas. Ao lado de Eusébio, António Simões e José Augusto, compôs a mágica dianteira que venceu seis ligas nacionais em oito anos e chegou a três finais da Taça dos Campeões Europeus, todas perdidas. Na sua primeira época como titular absoluto apontou 26 golos, o que lhe valeu então a Bota de Prata, prémio que não voltaria a vencer apesar de ter estado perto dos números atingidos pelo seu parceiro de ataque, Eusébio.

Em 1963 Torres foi pela primeira vez chamado à selecção nacional, onde rapidamente reeditou o quarteto ofensivo que maravilhava o estádio da Luz. Com essa linha atacante Portugal chegou a Inglaterra e tornou-se no conjunto revelação do torneio. Durante a prova Torres sagrar-se-ia como o segundo melhor marcador da equipa portuguesa, com 3 golos, só atrás de Eusébio. No final da década de 60, com as chegadas de Toni e Artur Jorge, começou a revolução geracional que ditaria o final da etapa do "Bom Gigante" na Luz. Determinado a demonstrar a sua valia, o dianteiro rumou ao Vitória de Setúbal, então orientado por Fernando Vaz.

 

Em 1971 chegou ao Sado onde disputou quatro épocas com os sadinos, conseguindo aí as suas últimas convocatórias para a equipa das Quinas, despedindo-se num Portugal-Bulgária de 1973, curiosamente no mesmo dia que os seus eternos parceiros, Simões e Eusébio. Depois da aventura em Setúbal, Torres retirou-se definitivamente do futebol ao serviço do Estoril-Praia, em 1980. Aí arrancou igualmente a sua carreira como treinador principal.

Orientou o Estrela da Amadora, Varzim e Boavista antes de ser chamado, surpreendentemente, em 1984 para o cargo de seleccionador nacional. A Federação Portuguesa de Futebol procurava um técnico de baixo perfil depois dos graves problemas vividos pelo quadriuvirato composto por Toni, Morais, José Augusto e Cabrita durante o Europeu de França. A escolha do simpático Torres tinha como principal propósito, desanuviar as tensas relações entre a FPF e os jogadores, e entre os atletas do Benfica e FC Porto. Um trabalho nada fácil que teve de ser compaginado com a dura qualificação para o Mundial de 1986. Depois de vários resultados adversos, Portugal beneficiou da sorte, com a derrota da Suécia diante da Checoslováquia o que levou o técnico a proferir a célebre frase "deixem-me sonhar" à partida para Estugarda. Portugal precisava de ganhar à já apurada RF Alemanha e assim o fez, com um remate monumental de Carlos Manuel. Conseguido o apuramento, voltaram os problemas. Em Fevereiro de 1986 começa a gestar-se o que viria a ser a base do caso Saltillo, circunstância em que o seleccionador nunca soube impor a sua voz. Falhou como o mediador que a FPF e os jogadores precisavam e falhou depois no terreno de jogo. Após a vitória inaugural contra a Inglaterra, num jogo em que Portugal foi claramente inferior, e das declarações explosivas de Paulo Futre, o seleccionador perdeu o controlo da situação e Portugal viu-se superado por Polónia e Marrocos. À chegada a Lisboa a equipa federativa não lhe perdoou a falta de apoio no conflito com os jogadores e Torres foi despedido.

A partir daí a sua carreira tornou-se errática até que abandonou, definitivamente, o futebol quando lhe foi diagnosticado um principio de Alzheimer que marcou profundamente os seus últimos anos de vida. A morte de um dos melhores pontas-de-lança do futebol marca assim o dia que deveria significar um renascimento da equipa nacional por quem tanto lutou. Quanto a José Torres, o jogador e o técnico, há muito que garantiu o imortal lugar na história do nosso futebol. Como poucos lograram antes dele.



Miguel Lourenço Pereira às 12:22 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 02.09.10

Ficou para a história como o número 1 da etapa mais bem sucedida da história do futebol luso. Aposta pessoal de um seleccionador polémico, Ricardo Pereira foi sempre um guarda-redes capaz de despertar ódios e paixões. Três anos depois do inicio da sua aventura espanhola, o homem que parava penaltys sem luvas caiu no abismo do esquecimento. Já não há lugar para ele no mundo do futebol.

A noticia surpreende poucos.

Quem seguiu a decepcionante campanha do Bétis da passada época, cedo percebeu que Ricardo estava destinado a não voltar a pisar o relvado do Benito Villamarin, ainda conhecido actualmente pelo nome do seu último e polémico presidente, Ruiz de Lopera. O guardião português foi um dos investimentos mais caros da equipa andaluza há três temporadas, mas revelou-se igualmente um dos maiores fiascos do clube bético. A porta da saída ficou aberta mas ninguém mostrou interesse em arriscar uma contratação repleta de riscos. Altos riscos. Inevitavelmente, o mercado fechou e com ele o fim da aventura no Bétis de Ricardo Pereira. Em 25 vagas livres, nenhuma sobrou para o guardião. O jogador está, actualmente, no limbo desportivo. De onde talvez nunca mais volte a sair.

A polémica à volta de Ricardo em Sevilla ganhou contornos bem similares aqueles que marcaram a carreira do guarda-redes em Portugal. A intermitência das suas exibições, oscilando entre o genial e o deprimente, rapidamente dividiu as bancadas verde e brancas de Sevilla. Até que a queda na Liga Adelante ditou a sentença final para Ricardo. Os adeptos nunca mais o perdoariam, os treinadores raramente voltariam a correr o risco de lhe entregar as redes do clube bético. Nem a última etapa com Luis Filipe Scolari ao mando salvou a sua reputação. Os seus erros frente à Alemanha nos Quartos de Final do Europeu de 2008 fecharam as poucas portas que ainda se podiam abrir para um homem habituado a desafiar o inevitável.

 

Ricardo conheceu os seus primeiros dias de glória no histórico Boavista de Jaime Pacheco.

Natural do Montijo (nasceu em Janeiro de 1976), o guardião começou a carreira no clube local antes de se transferir para o Boavista, onde surgiu como a terceira opção durante dois anos. O final da carreira do histórico Alfredo abriu-lhe a oportunidade de estrear-se, em Fevereiro de 1997, como titular dos axadrezados. Conservou o posto e tornou-se elemento chave da equipa boavisteira que disputou em 1998/99 o titulo ao FC Porto. Com Pedro Emanuel, Petit, Martelinho, Sanchez Jorge Silva tornou-se o esteio da equipa que dois anos depois faria história ao sagrar-se, pela primeira vez, campeã nacional. Ricardo foi o guardião menos batido da época e a sua voz de comando na área tornou-o automaticamente num dos guarda-redes mais quotados da liga lusa. A chamada à selecção nacional surgiu em 2001, pela mão de António Oliveira. O seleccionador levou o guardião ao Mundial da Coreia do Sul e Japão como titular, mas um jogo inesquecível frente à China do até então lesionado Vitor Baía, fez o técnico mudar de ideias. Baía seria o titular durante a campanha, Ricardo teria de esperar. O final da prova significou também o final da carreira do portista na equipa das Quinas. Agostinho Oliveira, primeiro, e logo Luis Filipe Scolari, recusaram-se a convocar o portista, que nos dois anos seguintes seria duplamente coroado pela UEFA como o melhor guardião europeu, e Ricardo assumiu o posto de titular. Iria mantê-lo durante seis anos, sem nunca chegar a convencer plenamente os criticos e adeptos.

Dele fazem parte alguns dos momentos mais memoráveis da história do futebol luso, mas também algumas das noites mais desastradas. Já ao serviço do Sporting, para onde se transfere, não sem polémica, em 2003, o guarda-redes mostra a sua cara e cruz durante o Europeu de 2004. Ao máximo nivel contra Espanha e Rússia, Ricardo torna-se no herói do duelo frente à Inglaterra, travando dois penaltys britânicos - o último dos quais sem luvas, num gesto heróico - e apontando ele o penalty ganhador. Uma das suas especialidades que o tornaram numa celebridade europeia. Uma semana depois, no entanto, um erro de precipitação permitiria a Angelos Charisteas confirmar a surpresa, o titulo europeu grego, e lançaram nuvens sobre o futuro de Ricardo na selecção. Scolari manteve-se inflexível. Nem Baía, nem mais tarde Quim, conseguiram chegar ao posto de titular durante as campanhas do Mundial de 2006 (onde voltou a brilhar na marca das grandes penalidades frente aos ingleses, para depois ser o principal responsável da derrota com a Alemanha no último jogo) e no Euro 2008, onde voltou a mostrar o seu lado mais negro.

Por essa altura já Ricardo actuava na liga espanhola, onde a sua chegada tinha despertado muito interesse. O péssimo ano de estreia, aliado à despromoção do histórico Bétis e à sua má performance no Europeu de futebol foram o principio do fim. Carlos Queiroz, o novo seleccionador, riscou o guardião da lista (apostando primeiro em Quim e logo em Eduardo) apesar de o manter em várias pré-convocatórias. E em Sevilla os técnicos que se foram sucedendo deixaram de confiar no luso. Até à chegada de Pepe Mel, técnico recrutado ao Rayo Vallecano que tomou a imediata decisão de prescindir do homem que defendia penaltys sem luvas. Sem lugar em Sevilla, sem lugar em Portugal, sem lugar na Europa, aos 34 anos a carreira de Ricardo vive à beira do abismo. Poucos se recordam das suas memoráveis exibições durante as campanhas europeias do Boavista. O final da carreira daquele que foi, talvez, o mais polémico guarda-redes internacional português (chegou às 75 internacionalizações) pode estar perto do fim. Só o seu sangue-frio em momentos de alto risco nos permite duvidar. Haverá espaço para a ressurreição do anti-herói português?  



Miguel Lourenço Pereira às 12:29 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Terça-feira, 31.08.10

Aqueles capazes de fazer memória recordar-se-ão, certamente, do drama desportivo que resultou ser a estância portuguesa na pequena localidade mexicana de Saltillo. Uma memória fácil de evocar quando nos deparamos, quase 25 anos depois, com uma parte activa desse embróglio que destroçou a imagem internacional do futebol português na sua perseguição ao homem que, precisamente, mudou o curso da nau rumo ao abismo.

Haverá muitos portugueses que queiram ver Carlos Queiroz na rua.

Pelo seu futebol defensivo, dirão uns. Pela incapacidade de se impôr como um lider de balneário, preferirão outros. Ou, pura e simplesmente, por acharem que o seu perfil de erudito e estudioso do jogo e das suas variantes não é compatível com a selecção portuguesa, ainda patrocinada por uma Federação Portuguesa de Futebol a roçar o puro amadorismo. A questão central é que, todos os motivos poderiam ser válidos para substituir o seleccionador que logrou o apuramento para os Oitavos de Final do último Mundial, onde caiu diante dos futuros campeões do Mundo sob o olhar critico e dedo levantado de Deco, Cristiano Ronaldo, comentadores desportivos e mundo do futebol em geral.

O despedimento de Queiroz nessas circunstâncias seria igual ao de tantos outros técnicos, face ao poder do determinismo dos resultados, a performance que para muitos mede o real sucesso de um treinador. Os mesmos que se esquecem quem é, realmente, o técnico com mais titulos a nível de selecções com Portugal. Ou até daqueles que glorificam treinadores de muita prosápia e poucos troféus, mas que apostam no marketing apaixonante do jogo bonito, desse beautiful game mágico, que ajuda a esconder a decepção da derrota. Nem Queiroz é Arsene Wenger, nem nunca o poderá ser. Pelo menos em Portugal.

A sua suspensão por seis meses, a tornar-se efectivo, significa naturalmente o final do seu mandato como seleccionador. É impensável que um candidato ao ceptro europeu, a disputar daqui a ano e meio na Polónia e Ucrânia, esteja inabilitado de gerir a sua própria equipa nacional. Especialmente no arranque da fase de qualificação. A sua ausência do duplo encontro desta semana abre já a ideia de que este Portugal será mais um projecto interrompido antes de tempo, depois de suceder a um outro que se eternizou tempo demais.

 

Os insultos que Carlos Queiroz dirigiu aos responsáveis por um controlo anti-doping durante o estágio da Covilhã nunca deveriam colocar em causa a imagem da selecção de Portugal, dentro e fora de portas. Um seleccionador nacional - Luiz Felipe Scolari - agrediu um jogador em pleno desafio, e o máximo que sofreu na pele foram quatro jogos de suspensão, calculados ao milimetro. Nunca o seu posto foi colocado em causa. E, no entanto, a sua agressão fisica, visivel por tudo e tudos, incluindo FIFA e UEFA, parece desvalorizada face à atitude compreensivel de um treinador que vê o seu trabalho - gestor de homens - interrompido sem sentido por uma brigada vampirica que se preparava para antecipar o despertar da comitiva lusa sem qualquer aviso prévio ou noção do ridiculo. Palavras leva-os o vento, lá diz o dito, mas em Portugal a coisa é bem diferente. Uma palavra só pode valer mais que uma agressão? Pode, se atrás do palco se estiver a mover o imenso polvo que é, ainda, a FPF.

Amândio Carvalho foi rotulado como a cabeça do polvo pelo próprio seleccionador, numa entrevista enraivecida e algo inocente. O mesmo homem que ajudou a tornar Saltillo no pesadelo que acabou com as aspirações dos Patricios em 1986, volta agora à carga. O homem que então foi incapaz de coordenar um estágio pré-Mundial, com uma equipa nacional isolada no meio do deserto mexicano, num hotel sem condições, sem ter rivais com que treinar e com uma estância de quase um mês face à curta semana que outros rivais, directos, tiveram de suportar. O mesmo homem que se revelou inapto para coordenar com o então presidente federativo, Silva Resende, a questão dos prémios de jogo, acusando posteriomente o seleccionador de então, José Torres, e o grupo de jogadores - que justamente se rebelou durante um ano - de serem os responsáveis pelo descalabro em que se tornou a precoce eliminação dos lusos. O homem que se tem mantido na sombra de três presidentes da FPF, mantendo sempre o seu posto, misterioso como poucos, e a sua influência. O homem que, em véspera de um play-off decisivo, teve o despeito de dizer ao próprio Queiroz - já contestado - e a quem quisesse ouvir que ele, "não é o meu seleccionador". O homem que lançou os cães e agora se prepara para recolher os dividendos. O homem que encarna na perfeição, o futebol português.

 

Carlos Queiroz, inevitavelmente, está de mãos atadas.

Se é suspenso, finalmente, o seu mandato chegará ao fim, com ou sem indmenização, por muito que recorra à FIFA e UEFA como justamente ameaçou. Se não o é, o seu lugar acabará por ser constantemente contestado por todos aqueles que têm pactado com a campanha mais desprestigiante do futebol luso desde a suspensão muda, surda e inexplicavel de Vitor Baía e João Vieira Pinto da selecção lusa, após o Mundial de 2002. O seu prestigio está já pelas ruas da amargura. O respeito dos jogadores e staff técnico visivelmente afectado. E a necessidade de ter de trabalhar diariamente com as mesmas pessoas agora preparadas para assistir à sua queda, será um verdadeiro suplicio de Tântalo. 

E mesmo que o técnico tenha já dado sinais de que quer seguir em frente, lançando a anunciada renovação que Scolari foi incapaz de fazer e que uma classificação a quente para o Mundial da África do Sul inabilitou, a situação parece estar fadada para um final infeliz. Os Silvio, Varela, Ruben Micael, Beto, Eduardo, Yannick, Paulo Machado, Duda, Fábio Coentrão, Ruben Amorim ou Nuno André Coelho com que Queiroz quer começar a construir o futuro luso, poderão ter de esperar. O quase anunciado regresso de Scolari - ou pior, a inversão de uma aliança espanhola com Luis Aragonés - será também um rude golpe para os que aspiram a uma renovação séria do futebol internacional luso, abandonado durante anos nas camadas mais jovens - que começam a ressurgir, a pouco e pouco - e que deixou uma selecção A esgotada e sem futuro. Um futuro que se vai preparando, sem os Deco, Simão, Paulo Ferreira e afins do passado e com os rostos que se quer do agora e do amanhã. A mesma mudança para a qual o seleccionador foi contratado e que um resultado menos bom para os seguidores das campanhas de Scolari (curiosamente, também ele, eliminado à primeira em 2008) poderá precipitar num final agónico.

Poucos confiam que Queiroz siga no seu posto. O sonho de um José Mourinho a orientar Portugal depende exclusivamente da vontade, já anunciada para um futuro longinquo (seis anos, talvez) pelo próprio. Entretanto, Portugal continua a manifestar uma incapacidade crónica para lidar com as altas expectativas que a imprensa, o público e a própria FPF criam. Queiroz não será o treinador mais popular, capaz e talentoso da história do futebol luso. Mas, ao contrário daqueles que navegam ao sabor do vento, tem uma ideia muito clara do presente e futuro da selecção portuguesa. Só isso deveria ser suficiente. Evitar as guerras civis do passado longinquo ou os regimes ditatoriais de um passado bem mais presente na mente de qualquer adepto deveria ser suficiente. Mas, também por isso, há sempre um polvo por detrás a mover as marionetas. As que continuam a ser o corpo e rosto do futebol luso.



Miguel Lourenço Pereira às 15:45 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Quinta-feira, 01.07.10

 

"Maybe, after all, he is just the soccer world's most expensive fraud"

 

Grahame Jones, LA Times

 

No final do Portugal vs Espanha, que dictou o afastamento da equipa das Quinas do Mundial, todos os olhos estavam no derrotado.

As camaras pouco queriam filmar a festa dos espanhóis, os campeões europeus em titulo. O importante era captar o olhar do jogador mais caro do Mundo, aquele que gosta de dizer que é o "primeiro, segundo e terceiro" melhor jogador do Mundo. Aquele que capitaneava a equipa das Quinas numa noite que podia ter passado do drama ao extase facilmente. Revelando o seu já constante péssimo perder, Cristiano Ronaldo insultou os assistentes de camâra da FIFA e cuspiu-lhes como faria, quase uma hora depois, ao rosto dos portugueses e do seu seleccionador, ao dizer que as respostas da derrota, que não fiasco, e da sua exibição não eram com ele. Eram com "o Queiroz".

 

Cristiano Ronaldo emerge como o grande derrotado pessoal deste Mundial.

Certamente não perdeu sozinho. Carlos Queiroz tem a sua culpa no cartório, em alguns lances chave, desde o não arriscar frente ao Brasil quando sabia que o apuramento estava confirmado, até à escolha de Ricardo Costa como marcador directo de David Villa. Também é preciso refrescar a memória de quem se lembra de ver Simão Sabrosa em campo. Especialmente no lance do golo espanhol. Ou as trapalhadas constantes de Danny, ou os passes errados de Tiago frente a Brasil e Espanha. Todos eles contribuiram, de certa forma, à eliminação de Portugal. Mas nenhum deles era o capitão de equipa. E nenhum deles era o "melhor do Mundo", rótulo com que o extremo chegou ao Mundial, nesse duelo com Messi que dura já três anos, com vantagem clara para o argentino nos últimos dois. O seu rosto de desalento dizia tudo. Depois de um ano em branco com o Real Madrid (outra vez Messi, outra vez os espanhóis) também a selecção o afastava dos titulos colectivos, porta para os titulos pessoais. O que lhe interessa realmente. De tal forma que até Carlos Queiroz, o seu principal valedor e homem por detrás da sua nomeação como capitão - e responsável por este excesso de ronaldismo na selecção - reforçou isso na conferência prévia ao jogo. O importante não parecia ser Portugal passar, mas sim que o CR7 vencesse qualquer coisinha. Para o puto não ficar chateado, va lá.

Futebolisticamente o extremo dos 100 milhões não existiu no torneio.

Queixou-se de que a táctica não era do seu agrado. Jogou sozinho na frente mas também jogou a extremo. Não rendeu em nenhuma das posições. Em Madrid jogou nas mesmas posições e soube marcar, soube assistir, soube brilhar. Deve ser um problema com o equipamento.

No jogo inaugural frente à Costa do Marfim, entrou bem durante meia-hora. Depois, prenuncio futuro, escondeu-se do jogo. Frente à Coreia do Norte fez parte da excelente segunda parte colectiva, porque na agonia da primeira meia-hora pouco se lhe viu. Contra o escrete canarinho, no jogo que sabia que era um prato mediático forte, queixou-se mais do trabalho dos colegas e do árbitro do que dos seus remates estapafúrdios a kilómetros de distância de Júlio César. Foi um jogador amador, egoista e debilitado psicologicamente. Prenúncio, hellas, do jogo chave. Desse jogo onde nunca apareceu. Ao contrário de Villa, o homem golo do torneio, os seus remates nunca assustaram as redes espanholas. Foram só quatro, contra dez do dianteiro do Barcelona. Também não assistiu nenhum colega, nem sequer ajudou no processo defensivo. Quando caía, vitima ou não da insensibilidade arbitral, a camara fixava-se no seu olhar de menino a quem lhe roubaram o doce e que espera um novo. Até que ajeita as meias, lentamente, e se decide levantar. Durante esse largo periodo os colegas suam para tapar os buracos que o capitão deixa. Ninguém se queixa, só ele. Os livres, apontados por outros, passam a ser seus, exclusivamente. Não tivessem em campo Bruno Alves, Simão ou Raul Meireles, jogadores que sabem bem o que é marcar de livre directo. Mas que têm o problema de não ter os seus remates como um trademark. "Tomahawk" chama-lhe. Ele saberá. Deve ser a rotação da terra que muda a trajectória do missil. Tevez, Lampard e Honda não pareceram queixar-se. Gente estranha essa.

 

Ao contrário de Leo Messi, Robinho ou Arjen Robben, apenas para citar dois exemplos, o futebol de CR7 estagnou.

É um portento fisico, resultado de um trabalho cuidado digno de um profissional, verdade seja dita. Mas falta-lhe aquele regate improvisado que o fizeram subir do anonimato até às estrelas. Neste Ronaldo já não há a picardia que levou uma equipa de topo a contratá-lo depois de um jogo de apresentação. Nem a capacidade de improvisação que deixou loucos os defesas da Premier League, que nunca tinham visto nada assim nas suas vidas. Esse CR já não existe. O seu jogo agora é puramente vertical. Cristiano Ronaldo, arranque donde arranque, nunca muda o sentido do lance. Nunca improvisa. Nunca surpreende. Vai em frente, vai em diagonal. Vai até ser travado. Tornou-se demasiado fácil anulá-lo. Basta saber dobrá-lo e esperar que o arbitro, ao vê-lo chocar com um muro imutável, não se deixe levar pelo grito de protesto. Ao contrário do holandês, do argentino e do brasileiro, que rodopiam sobre a bola e sobre si mesmos, desconcertando rivais, o número 7 de Portugal parece estático. Remate sem a inteligência de um jogador que conhece a realidade de um relvado. Egoisticamente quer a bola sempre para si, mas é incapaz de entrar num jogo de associação com Messi faz com o colectivo à sua volta. A bola chega aos seus pés e só acaba fora, nas redes ou no pé do rival. Não há uma quarta via.

Durante muito tempo dizia-se que Cristiano baixara a forma porque não tinha parceiros de associação, como Villa tem Xavi, como Messi tem Tevez como Robinho tem Kaká e como Robben tem Sneijder. Desta vez, nem essa desculpa lhe vale. O olhar dos colegas, a cada remate disparatado, diz tudo. Se alguém quer jogar sozinho, esse alguém é ele.

O Mundial de Futebol é o local da consagração dos mitos. Nem todos o ganharam. mas todos os grandes jogadores da história confirmaram os seus mitos nos Mundiais. Pelé e Maradona ganharam Mundiais praticamente sozinhos. Entre a galeria dos "monstros" que o venceram estão também os Charlton, Garrincha, Muller, Beckenbauer, Romario, ZidaneRonaldos. Os Cruyff, Platini, Eusébio, Puskas, Belanov, Elkjaer, Laudrup, Zico, Socrates, Gascoine ou van Basten não os venceram,  mas marcaram profundamente as edições em que participaram. Em dois Mundiais já disputados, o total da prestação de Cristiano Ronaldo resume-se a dois golos (um penalty e um golo acrobático), duas assistências e pouco futebol. Um fracasso.

Fraude. 

O Los Angeles Times, que de futebol não costuma perceber muito, verdade seja dita, não soube dizer menos.

É esse o sentimento que fica depois da prova. Fraude de liderança. Fraude de futebol em campo. Fraude de espirito de equipa. Fraude de gratidão. Ronaldo atacou o homem que o contratou, ajudou a crescer e acabou por fazer capitão. Atacou os colegas ao referir-se sempre a si e nunca ao colectivo durante a prova (se o ketchup, se os MVP´s, se o "jogo sozinho"). Atacou os adeptos ao virar as costas a mais de 10 milhões de pessoas porque tinha "o direito de sofrer sozinho". E atacou o futebol, o futebol que os admiradores que tem nos quatro cantos do Mundo esperavam ver sair dos seus pés. Nem Messi, nem Robben nem Robinho têm feito um grande Mundial. Ninguém o fez. Até se pode discutir e dizer que Rooney, Ribery, Torres e Kaká têm sido bem piores. Mas nenhum pode ser acusado de não deixar tudo em campo, de respeitar o jogo e fazer-se respeitar a si mesmo.

Cristiano Ronaldo pode ter, porque tem, um talento incomensurável. Uma trajectória de sonho e um futuro brilhante. Mas o que não terá é o respeito de quem via nele o lider desta selecção. O jogador que poderia fazer com este Portugal pautado pela mediania (no banco e no relvado) o que fez Eusébio em 1966. Nesse aspecto, e em tantos outros pequenos grandes detalhes, CR7 transmutou-se em CR0. O CR da fraude!

 



Miguel Lourenço Pereira às 15:03 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Terça-feira, 08.06.10

A inoportuna lesão de Nani deixa uma marca em Portugal bem mais profunda do que se pode imaginar à primeira vista. A escolha de Ruben Amorim como substituto é o espelho da fraca condição em que vive o futebol português actual. Sem o atrevido extremo Portugal será uma equipa mais débil. Mais do que isso, será um onze amputado.

Há quem acredite que a lesão de um jogador, teoricamente suplente, pouco prejudica as reais pretensões de uma equipa.

Nada mais falso, especialmente no caso português. País pequeno, de tamanho e de mente, Portugal prepara-se para pagar muito caro o abandono da politica de formação que tanto celebrizou as hostes lusas durante os últimos 20 anos. Ironia das ironias, será o iniciador dessa certeira aposta quem carregará com o peso de um país morto para o futebol de elite. A lesão de Nani, elemento nuclear na estratégia ofensiva de uma equipa habitualmente inofensiva no ataque, deixa a nu todas as debilidades que existem à volta da selecção portuguesa. O extremo do Manchester United, que supostamente seria suplente de um cansado e mediocre Simão Sabrosa, era o verdadeiro sinal de frescura que um país com uma equipa envelhecida e repleta de jogadores de perfil mediano necessitava. Chamar para o seu lugar mais um obreiro, um suplente durante largos periodos da época, é o toque de finados dos "Navegadores", mesmo antes do barco ter zarpado do porto.

 

Nani era - e será nos próximos anos - fulcral no onze luso.

Com Cristiano Ronaldo a emergir, cada vez mais, como um falso avançado-falso criativo, no centro do terreno de jogo, seria de esperar que um país mundialmente reconhecido pelo valor dos seus extremos (jogadores rápidos, descarados, habéis no cruzamento e nas diagonais) tivesse armas suficientes para dar ao capitão carta branca nas suas deambulações ofensivas. Mas CR7 não poderá fazer com Portugal o que se espera que Messi fará com a Argentina ou Kaká com o Brasil. A orquestra não é do mesmo calibre.

Com Nani por um lado, Ronaldo teria liberdade para alternar com Liedson nas funções ofensivas. Sem o jovem de origem cabo-verdiana, e com Simão, Danny e, pasme-se, Fábio Coentrão, como únicas alternativas ao jogo de alas, o papel de Ronaldo ficará de novo reduzido a uma amarra táctica inexplicável. Se Carlos Queiroz tivesse a destreza intelectual de, face a esta contrariedade, mudar para um 4-4-2, com Ronaldo como um falso avançado, reforçando o bloco de meio-campo (onde lhe sobram jogadores), Portugal poderia apresentar um rosto mais saudável. Caso contrário, e como se espera, entrará em campo amputado de um precioso membro.

 

Chamar Ruben Amorim é um erro inevitável, por parte de Queiroz.

Sem julgar os eventuais méritos do jovem médio interior, o que o seleccionador faz é abdicar de um dos seus jogadores mais ofensivos por um obreiro defensivo. Isso indica que o lateral esquerdo adaptado (Duda ou Fábio Coentrão) poderá tornar-se em extremo, recuperando Paulo Ferreira o lugar onde disputou (e mal) o último Europeu. Ou que, pura e simplesmente, Portugal procurará atacar pelo centro, em vez de usar as alas, especialmente contra equipas que vão sobrepovoar o miolo como são os casos de Brasil, Costa de Marfim e Coreia do Norte. Contra as duas últimas, essencialmente, a velocidade seria uma arma chave. Algo que Amorim não tem. Mas este não tem culpa de que a base de recrutamento seja tão exigua, que Varela se tenha lesionado e que Quaresma tenha deixado de ser há muito um futebolista de projecção. Portugal é um país muito pequenino, de facto, mas mais pequena ainda é a mente retrógada da Federação Portuguesa de Futebol e dos clubes portugueses. Hoje em dia Portugal não tem alternativas a um número 10 sem pernas e sem ritmo, um médio-defensivo adaptado e com uma lesão de 180 dias, não tem alternativas para as laterais ou para a posição de ponta-de-lança. Ou seja, grosso modo, Portugal tem um plantel e uma base de recrutamento de terceira linha. E no entanto a imprensa, a FPF, os jogadores e o seleccionador continuam a falar na ilusão de um pódio. Até nisso a pequenês é visivel na eterna tentativa em por-se em bicos de pés.

Portugal perde um dos seus jogadores mais em forma, o Mundial da África do Sul perde mais um dos mais interessantes executantes individuais (outro de origem africana, já agora) e as contas complicam-se mais ainda para um país que tem mais olhos do que barriga. Os que se alegraram com a inoportuna lesão de Didier Drogba terão agora de fazer contas de cabeça. Dificilmente irá longe uma equipa que já nasce amputada.



Miguel Lourenço Pereira às 14:38 | link do post | comentar

Domingo, 06.06.10

Estavam condenados a um final triste depois de uma década de grandeza. Rejeitaram a cruz e caminharam de cabeça erguida. Eliminaram todos os favoritos pelo caminho apenas para cair, de pé, frente a uma azzurra com mais sorte do que nunca. Um Mundial surpreendente onde veterania e juventude disputaram um duelo único com um vencedor surpreendente e um vencido ainda mais inesperado.

 

As casas de apostas não enganavam ninguém. Brasil, Argentina, Alemanha, Espanha e Portugal arrancavam como favoritos do regresso do futebol à Alemanha. Não havia sinais de Itália ou França entre o lote de principais candidatos. Uns por serem demasiado imprevisíveis. Outros por estarem reformados. Ou isso diziam. Durante as semanas anteriores à prova o seleccionador Domenech foi acusado de continuar a apostar numa geração já acabada. Zidane tinha anunciado o final da carreira. Vieira, Barthez, Desailly e companhia rapidamente iam segui-lo. Parecia uma triste repetição do Mundial anterior. Mais ainda depois dos secos partidos da fase de grupos. Um apuramento in extremis frente ao estreante Togo e com direito a muito sufrimento. E nenhuma emoção.

A casta de campeão é um fenómeno curioso de que poucos países conseguem presumir. Portugal, por exemplo, voltou a demonstrar que não o tinha, depois de uma cavalgada rumo às meias-finais, eliminando os violentos holandeses num jogo inesquecível e aguentando a Inglaterra até aos penaltys. Um golo marcado nos três jogos a eliminar é pouco. Muito pouco. Tal como holandeses - como sempre deslumbrante no principio e decepcionantes no final - ou ingleses, com o carrasco do costume. Mas há paises que conseguem sempre ir até ao fim. Independentemente do que os espera. Assim se exibiu a Itália. Depois de suar muito na fase de grupo aguentou a Austrália até um golo oportuno nos instantes finais. E superou uma débil Ucrânia na fase seguinte. Para se encontrar com a Alemanha. A mesma de que muitos desconfiavam e que acabou por exibir o melhor futebol do torneio. Dominou (e goleou) na fase de grupo, vergou a Suécia e não teve perdão da Argentina. Nesse duelos de imortais, Del Piero emergiu como herói. E acabou com a única equipa alemã realmente atractiva desde 1974.

 

Do outro lado todos esperavam um duelo entre Brasil e Espanha, dois favoritos máximos para os apostadores.

Só que ambos se cruzaram pelo caminho com a elite dos reformados. E sairam penosamente vergados por uma insultante superioridade gaulesa. No dia do jogo contra a Espanha, o jornal Marca publicou a inesquecível foto do colectivo espanhol com o sugestivo titulo "Estes são os homens que vão reformar Zidane". Esqueceram-se que o futebol é coisa de 90 minutos, 120 se for preciso vá lá, e que Zidane, Ribery e Henry estavam mais do que habituados a fanfarronices. Os gauleses destroçaram a ambiciosa equipa espanhola e apuraram-se com um concludente 3-1. Seguiu-se o Brasil dos Ronaldos, e com ele o melhor jogo do torneio. A França repetiu o feito de oito anos antes, neutralizou o jogo brasileiro, e venceu por 1-0. De uma acentada estavam de fora dois favoritos. Faltava o terceiro. De penalty Zidane tratou de bater uma selecção portuguesa que nunca soube ser eficaz. Nem Figo, nem Pauleta, nem Cristiano Ronaldo conseguiram desfeitiar Barthez. O massacre alargou-se pelo tempo mas, na hora H, a equipa dos reformados, a equipa dos acabados, era a equipa finalista. E subitamente, eram favoritos.

Um presente envenenado entregue pela Azzurra de Lippi. O golo inaugural de Zidane na final parecia ser o final perfeito para um conto de fadas. Mas existe Materazzi. O destruidor italiano por excelência, prototipo do anti-jogador, marcou o golo do empate e depois provocou habilmente o temperamento facilmente irritável do francês careca que destroçou o final perfeito de uma carreira de altos e baixos. Doze anos depois a final foi decidida no duelo dentro da grande área. Onde a Squadra Azzurra nunca teve muita sorte. Até essa noite fresca de Berlim.

 

Há quatro anos atrás o Mundo vibrou com um torneio repleto de cartões e escassez de golos. Um torneio onde os melhores de hoje já por lá passeavam, com maior ou menor destaque. Cristiano Ronaldo, Messi, Kaká, Xavi, Ribery, Robben, Rooney, Sneijder, Torres, Villa, Tevez, Pirlo, Drogba, Park Ji Sung, Cahill, Donovan, Castillo e companhia. Os mesmos por quem o Mundo suspira agora. Agora já não vale a pena olhar para trás...o tempo escasseia. A bola vai começar a rolar! 



Miguel Lourenço Pereira às 03:55 | link do post | comentar

Domingo, 30.05.10

Depois de França ter aberto o Mundial a 32 equipas, a FIFA decidiu começar a emendar o atraso de décadas e levou, pela primeira vez, o torneio ao continente asiático. A dupla Coreia do Sul-Japão emergiu como organizadora e montou um torneio onde houve pouco futebol, menos público mas muita emoção. No final o Pentacampeonato ficou no pano de fundo de uma prova marcada pela arbitragem e pelas misteriosas aspirinas dos velozes coreanos.

 

Na fase de grupos caiu a melhor selecção do Mundo. Aparentemente. Cairam também argentinos e portugueses. A Holanda nem viajou. De um só golpe a ordem establecida de favoritos começou a inclinar-se para o campo das improbabilidades. E assim foi até à inédita final de um Brasil surreal e uma Alemanha demasiado cinzenta para ser verdadeira. Dessa final de Ronaldo, e de poucos mais, ninguém se lembra. Da campanha de ambas formações também não há vivalma que se recorde. Da forma como o Brasil superou a Bélgica, passou por cima da frágil Inglaterra e acabou por derrotar - pela segunda vez - a surpreendente Turquia. Dos alemães a história lembrará apenas os golos de Klose ao passar por cima de Paraguai, Estados Unidos e Coreia do Sul. Paramos aqui. Na selecção coreana. A sensação da prova. Por mil e uma razões.

Quando o torneio arrancou poucos apostavam nas equipas da casa. Eram selecções historicamente frágeis e sem historial de sucesso. No entanto as fichas estavam todas no Japão de Nakata. Ninguém pensou na Coreia de Hiddink. O mago holandês. A pouco e pouco, no entanto, a balança foi mudando. Os coreanos mostraram-se aguerridos. Estranhamento velozes. Irredutivelmente resistentes. E sempre com um piscar de olho ao homem de negro de turno. Assim, a passo e passo, fizeram história. Que provavelmente nunca igualarão.

Primeiro empataram com a Polónia. Resultado normal. Logo a seguir foram vencer os Estados Unidos, que por sua vez tinham espantado o Mundo ao bater um débil, eternamente débil, combinado português. No jogo final o empate servia às duas equipas. João Vieira Pinto deu uma ajuda, Park Ji Sung fez história. Portugal para casa, Coreia do Sul em frente. No duelo dos Oitavos começou a outra parte da história.

 

Na primeira fase poucas equipas tinham realmente entusiasmado. O Brasil mostrou-se eficaz e a Espanha voltou a dar o seu melhor rosto. A Itália, sempre presente, surgia como uma possível outsider graças aos golos de Del Piero e Vieri. Relembrando o feito dos vizinhos do norte, em 1966, os coreanos lograram bater o onze italiano por 2-1. Com a diferença de que, por várias vezes, a equipa de arbitragem foi negando o empate à azzurra depois da Itália ter começado o jogo praticamente a vencer. Começava um debate cruel que, a seguir, levou a Espanha a voltar a cair antes de tempo. O jogo foi um longo e agonizante duelo com vários foras-de-jogo e penaltys por assinalar a favor dos espanhois. Estoicos, os coreanos aguentaram até aos penaltys. Aí a malapata voltou a levar consigo o exército castelhano para casa. E pela primeira vez uma equipa asiática cometia o feito de chegar até às meias-finais. Tudo podia acontecer. Em Seul sonhou-se demasiado. Do outro lado, apesar de cinzenta, estava a Alemanha. Uma equipa que não entende de arbitros ou favoritismos nem de misteriosas aspirnas. O cinismo alemão funcionou, o sonho coreano terminou.

 

O Brasil agradeceu as ajudas externas. Sem grandes rivais pelo caminho suou apenas o necessário e indispensável. Rivaldo esteve a serviços minimos, Ronaldinho ainda não era ele e Ronaldo ia facturando rumo à história. Chegado o dia final já ninguém se lembrava do Senegal, da Turquia ou até mesmo do onze coreano. Mas poucos queriam lembrar-se desde escrete que acabou por conquistar o histórico Penta. O futebol recebeu um fraco favor da FIFA nesta viagem ao Oriente e jurou não voltar a viver tamanha aventura. Agora prepara-se para mergulhar em África.



Miguel Lourenço Pereira às 11:34 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 23.05.10

A vitória da França no seu Mundial não foi apenas o primeiro triunfo gaulês na história do torneio. Foi a consumação final da evolução desportiva do jogo para um evento global. Um triunfo de uma selecção com elementos dos quatro cantos do Mundo num torneio onde brilharam selecções de todos os continentes. No final o herói foi um filho de argelinos transformado em principe da Europa. E rei do Mundo. O Hexágono adormeceu em paz consigo mesmo à medida que nos Champs Elysées a foto de Zidane iluminava o Mundo.

 

O Brasil tentou voltar a ser uma equipa especial mas algo batia mal no ritmo cardíaco de um conjunto que misturava a classe dos virtuosos como um espirito obreiro inusual. A velocidade substituiu o toque de bole e as vitórias foram mais dificeis. Mas iam chegando. A conta-gotas. A Holanda, fascinante em cada movimentação, voltou a cair no momento mais temido. Às portas da glória. Itália, Argentina e Alemanha, em versões bem mais soft de outras edições, não superaram os Quartos, enquanto que a ambiciosa Nigéria, a veloz Dinamarca e a ousada Croácia iam pondo emoção a um torneio global. Os naturalizados começaram a emergir com naturalidade. Os representantes dos quatro cantos do Mundo mostraram que o futebol se estava a tornar mais competitivo onde menos se esperava. A Nigéria mostrou um ar da sua graça. O México voltou a provar ser uma formação temível enquanto que a França acabou por resumir em cada traço do seu jogo o espirito do Mundo. A vitória dos Bleus foi sentida como uma vitória de todos. Não pelo longo historial de malapatas passadas que ainda persegue equipas como Holanda, Espanha ou Portugal. Mas pela forma como Aimee Jacquet, odiado por tudo e todos, abdicou do galicismo tradicional e abriu as portas da sua selecção a jogadores vindos de todos os lados. Até mesmo do Hexágono. À medida que confeccionou um onze multi-racial, Jacquet mandou uma mensagem ao mundo. A cor, raça e origem não contam quando a bola começa a rolar.

 

Barthez, Guivarch, Deschamps, Petit, Dugarry, Lebouef e Blanc eram os únicos gauleses puros. Tudo o resto misturava o perfume das pampas argentinas (David Trezeguet) com as areias do deserto do Magrebe (Zidane). Havia espaço para os ecos das montanhas arménias (Djorkaeff), das ilhas das Caraíbas (Thuram, Henry) ou de recantos escondidos de África (Vieira, Desailly, Makelelé) ou do País Basco (Lizarazu). A mistura de tantas etnias e filosofias foram a chave para definir o modelo de jogo francês. Uma defesa sólida, um meio-campo que misturava a força africana, a cerebralidade europeia e a magia magrebina e um ataque veloz com as aves das Caraíbas. Com esta formação os gauleses foram ultrapassando os obstáculos. A expulsão de Zidane manchou a primeira ronda, mas a equipa superou sem sobressaltos os principais rivais. Depois sofreu, e mostrou saber sofrer, até a cabeça de Blanc inaugural o infame historial de golos de ouro. Os penaltys, outro sofrimento largo demais para o majestuoso Stade de France, valeram o apuramento face à Itália. E nas meias-finais, o eterno carrasco não apareceu. Em seu lugar a Croácia do genial Suker, o homem que podia ter definido o torneio com a sua eficácia. Não fosse, claro está, o perfume veloz de Guadaloupe a surgir pelos pés do improvável Thuram, convertido em herói por uma noite. Longa noite parisina.

 

No dia da grande final a polémica tomou controlo de tudo e todos. O Brasil de Ronaldo esteve para não o ser. As voltas e reviravoltas valeram de pouco ao escrete. O "Fenomeno", ainda o era, estava lá. Mas ausente. Passou ao lado do jogo. Mas não esteve só. Nem Bebeto, Rivaldo ou Djalminha souberam sambar o onze gaulês. E Zizou, sempre ele, desaparecido durante boa parte do torneio, emergiu de cabeça, essa cabeça calva de berbere do deserto, e levantou o Mundo. Dois golpes e um soco dado por Petit bem no estomago de Taffarel. O Mundo descansava sobre os gritos de eternidade de um país que nunca percebeu realmente o que era e quem lá cabia. Naquela noite, em França viveu o Mundo. Viveu o futebol global. Viveu o presente e o futuro. E os gritos não tiveram dialecto. Só emoção.  



Miguel Lourenço Pereira às 20:56 | link do post | comentar

Domingo, 16.05.10

No Mundial mais atipico de que há memória venceu o Brasil menos brasileiro da história. Pelo meio o espectáculo ficou a cargo das selecções convidadas, equipas por quem ninguém apostava que seguissem em frente na fase de grupos e que acabaram por ser os responsáveis pelos melhores momentos de um torneio feito à medida para o Tio Sam mas de que não se guardam saudades.

 

Jogos à tarde com um calor abrasivo para que a Europa seguisse o torneio feito pela FIFA para o mercado americano.

A entrega do Mundial aos Estados Unidos seguiu-se aos pedidos dos norte-americanos depois do sucesso do torneio mexicano. Os gigantes estádios de futebol americano foram adaptados para receber o soccer. Os hinos e as bandeiras encheram as ruas. O futebol ficou preso na alfândega e poucos imigrantes clandestinos conseguiram passar. Não veio do Brasil mais tristonho. Da Itália mais resultadista. Nem da sempre irreverente Holanda. Muito menos da Argentina do ET caído em desgraça. Ou da Alemanha destroçada. O futebol chegou dos pés das pequenas equipas europeias que foram rasgando a monotonia de jogos calculados ao mais minimo detalhe. Mas sem pingo de emoção. No final só o futebol de Bulgária, Roménia e Suécia soube encandilar os milhões de espectadores sedentos de uma prova à altura do torneio depois do magro sabor de boca do torneio anterior. E se no final a hipocrisia do jogo belo que o foi menos levou as duas selecções mais cansativas à primeira final decidida por penaltys, ninguém se esquecerá dos gritos de Hagi, Stoichkov e Ravelli, underdogs à americana.

 

A prova teve milhões dentro e fora dos estádios. Mas poucos jogos para lembrar.

Na fase inaugural houve poucas surpresas, salvo a eliminação precoce e trágica da ambiciosa Colombia. Os favoritos seguiram, a conta gotas, num torneio onde não havia França, Inglaterra, Portugal ou Dinamarca. Até que chegou o momento dos convidados. Num jogo inesquecível George Hagi, conhecido como o "Maradona dos Carpatos", mostrou que o titulo lhe acentava que nem uma luva. O verdadeiro 10 via o jogo da bancada, depois de mais uma suspensão, a última. A Roménia vulgarizou a favorita Argentina e o golo memorável do artista romeno foi um dos momentos mais altos do torneio. Os romenos seguiam em frente para defrontar o frio onze sueco, repleto de futebol alegre e despreocupado. Os golos de Thomas Brolin, o herói loiro que depois desapareceu tão rápido como irrompeu, tinham levado a Suécia a empatar com o Brasil e logo a bater a surpreendente Arábia Saudita. No confronto europeu que se seguiu os romenos começaram melhor mas os golos só chegaram no final. Brolin, inevitavelmente, abriu a contagem. Três minutos depois o empate do igualmente loiro e letal Raducioiu. O mesmo deu a volta ao marcador já bem entrado no prolongamento até que a cabeça de Kenneth Anderson levou o jogo para penaltys. Aí erigiu-se a figura mitica de Thomas Ravelli. O guardião fez defesas impossíveis e prolongou o sonho. Que terminaria aos pés do Brasil, cinco dias depois, do baixinho mortal chamado Romário.

 

No entanto o Mundial de 1994 será sempre da Bulgária de Stoichkov e companhia.

O dianteiro do Barcelona foi o melhor marcador do torneio (empatado com Salenko que marcou todos os seus cinco golos num jogo) e uma das mais espantosas figuras da prova. Os bulgaros sobreviveram a um grupo onde estavam também nigerianos, argentinos e gregos. Depois de baterem o México do florescente Jorge Campos a equipa de Kostadinov, Letchkov e Penev defrontou a titubeante Alemanha. Não houve história e apesar do golo inaugural germânico a superiordade bulgaro foi constante. Os golos de Stoichkov e Letchkov fizeram história. Pela primeira vez a Bulgária chegava às meias-finais de um Mundial. Subitamente a equipa de leste via-se a lutar pelo titulo. Mas faltava um último obstáculo. O sempre irritante degrau chamado Itália. Num encontro tenso, repleto de pequenas faltas a meio campo, outro génio decidiu o jogo. Os dois golos de Roberto Baggio em cinco minutos paralizaram o ataque bulgaro que tentou, sem sorte, remar contra a maré. No final a equipa ficou tão desanimada que acabou injustamente goleada pela Suécia no jogo do terceiro e quarto lugar.

Quando Baggio falhou o penalty, os bulgaros suspiraram pela ocasião perdida. E Stoickhov teve de ver o seu rival Romário levantar o trofeu. O quarto e mais penoso da história canarinha. Um trofeu ganho à americana.



Miguel Lourenço Pereira às 10:18 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sábado, 08.05.10

Um Mundial em África é, já por si, uma imensa incógnita. No entanto, dentro do espectro de países africanos poucos podem oferecer tanta diversidade como a África do Sul. Durante um mês de prova (ou quinze dias para os menos afortunados), as 32 selecções participantes terão de viajar mais de 1000 kms em avião e conhecer três climas bem distintos. Razões mais do que suficientes para pensar que o primeiro passo para vencer o Mundial é acertar com o centro de estágio.

Enquanto a imprensa se preocupa com a lista dos 23 de cada país, as equipas técnicas olham para outros detalhes que, a longo prazo, podem ser mais importantes do que o terceiro guarda-redes ou o quarto central escolhido pelo seleccionador. A experiência do Mundial de 2002 ainda está bem presente. As equipas europeias chegaram à Coreia do Sul e Japão com relatórios errados e escolheram estagiar, na maioria dos casos, em locais que nada tinham a ver com o clima humido e quente que iriam encontrar. Viu-se na forma fisica de muitos dos colossos europeus e Portugal foi apenas o caso mais gritante. Agora que a prova máxima do beautiful game abandona de novo o território europeu, as dúvidas regressam. Viajar até ao ponto mais a sul do continente africano pode bem ser uma odisseia. Não é só que a África do Sul esteja a entrar no seu Inverno. É que durante o torneio as equipas terão de circular pelo país. Acabou-se há muito o conceito de cidade-sede que esteve vigente até 2002. Essas deslocações implicam longas viagens de avião antes e depois dos jogos. E passar de um clima seco e frio de altitude a um clima chuvoso e húmido da costa, atravessando a longa e temperada savana. Muitos ses numa equação que se começa a resolver com uma escolha fundamental: onde se instalam os quarteis-generais de cada selecção.

 

As condições e ofertas da África do Sul em matéria hoteleira não estão na vanguarda do mundo. Mas terão de servir. Num país onde nenhuma das três capitais (Pretória, Bloemfontein e Cape Town) é a maior cidade (Joannesburg), há que espalhar o espectáculo por uma linha de mais de 4000 mil kms.

A decisão da FIFA de ter jogos em lugares tão distintos como a ventosa Cape Town, no extremo sudoeste, ou Polokwane, junto à fronteira com o tropical Moçambique, é um sério quebra-cabeças para as equipas participantes. Perante este desafio às equipas participantes, principalmente as selecções europeias que, historicamente, se dão mal longe do seu habitat natural, foi exigido que encontrassem um centro de estágio localizado num local estratégico. Um local onde tivessem a certeza de que as variações climatéricas seriam as minimas sempre que tivessem de se deslocar para um desafio. Apesar da lógica indicar a zona norte do país (onde se concentram cinco das nove cidades-sede) como a ideal, a verdade é que há uma grande diferença entre a altitude fria e seca de Rustenburg com o tempo ventoso e chuvoso dos jogos na costa, ou na tropical Bloemfontein. E nesses centros irão disputar-se grande parte dos jogos chave a eliminar.

A maioria das equipas sul-americanas e africanas partilham com a África do Sul a estação outonal e estarão habituados às constantes variações de tempo. A média habitual para os meses de Junho e Julho oscila entre os 8 graus de minima e os 18 de máxima. Mas podem atingir valores de 2 graus no norte e 23 no centro. Isso sem esquecer que Junho é, por defeito, o mês das chuvas por excelência do periodo outonal na costa sul de África. A juntar ao vento, que historicamente faz parte do quotidiano local, e fica montado um verdadeiro cocktail de alterações climáticas dificeis de prever.

A esmagadora maioria das equipas chegarão o mais tarde possível à África do Sul. Muitos preferirão um estágio em altitude nos seus habitats naturais para garantir um reforço das reservas de oxigénio. Chegar tarde ao local do certame significa também um choque menor às mudanças climatéricas já que os primeiros dias não afectam a performance desportiva dos atletas. Outros haverá, como México ou as Coreias, que chegarão muito antes às suas sedes para garantir uma assimilação total do clima autóctone. Portugal irá seguir o exemplo da maioria europeia. Um estágio na Serra da Estrela, em altitude, e uma passagem por Moçambique antes de rumar ao centro de estágio. Uma decisão que faz lembrar, em parte, a escolha nefasta de Macau para estagiar, apenas pelas ligações históricas dos dois estados. Porque o clima moçambicano, apesar de ter algumas semelhanças com a costa leste sul-africana, nada tem a ver com o que irá encontrar Portugal na fase de grupos já que todos os jogos serão disputados na costa. Isso implica um clima humido, ventoso, frio e em constante mutação. Mas também significa uma distância percorrida de muitos kilómetros. E não ajuda a explicar o porquê da escolha de um centro de estágio em altitude, em Magaliesburg, cidade localizada entre Pretória e Joannesburg, no norte do país. Para cada desafio Portugal terá de voar e muito. No jogo inaugural, frente à Costa do Marfim em Port Elizabeth, a comitiva terá de percorrer 2400 kms. Contra a Coreia do Norte, em Cape Town, serão 3000 kms. E por fim, o encontro final face ao Brasil em Durban, levará a uma viagem de ida e volta de 1500 kms. São quase 7000 mil kms para disputar três encontros, sem esquecer que, caso se apure, Portugal poderá efectuar, como muito, um jogo em Joannesburg. Todos os restantes voltarão a disputar-se ao largo da costa até à final. Então porquê este risco?

Portugal procurará provavelmente a altitude antes da comodidade. Os jogos espaçados em quatro dias dão algum tempo de recuperação. Mas fazem levantar dúvidas sobre se a escolha foi, realmente, a mais adequada. Treinar diariamente com um clima e jogar com outro poderá ser um erro mais grave do que um ponta-de-lança a mais ou a menos. Curiosamente, Espanha, que chega com legitimas ambições para fazer história, elegeu uma cidade bem perto de Portugal. Com a diferença de que os jogos que disputará estão todos num raio de "só" 600 kms de distância. O futuro dirá quem conseguiu fazer do centro de estágio um elemento chave na campanha mundialista.



Miguel Lourenço Pereira às 05:23 | link do post | comentar

Quinta-feira, 06.05.10

A cinco dias de divulgar os 23 mundialistas que viajarão à África do Sul, o seleccionador Carlos Queiroz anunciou uma pré-lista com mais do dobro dos nomes que poderá convocar. Uma prova manifesta de falta de confiança e critério no grupo de trabalho habitual? Um receio à pressão previsivel da comunicação social à volta de vários nomes? Ou pura falta de coragem?

Vamos lendo vários jornais europeus e sul-americanos.

Cada seleccionador se desdobra em entrevistas. Sobre lesões, sistemas tácticos, rivais futuros. Mas, sobretudo, sobre os 23 convocados oficiais para o próximo Mundial. E há sempre uma tónica em todos eles. Dúvidas, quase nenhumas. Del Bosque confessa ter ainda duas vagas. Domenech fala em três nomes que baralha para dois postos. Capello, Lippi, Low e van Maarwjick andam pelo mesmo caminho. Maradona prova 100 jogadores para escolher 23, mas isso já o sabiamos. E Dunga, pura e simplesmente, não fala. No meio de todas as dúvidas não é dificil fazer uma pré-lista de cada uma das selecções de primeiro nivel. A FIFA obriga os técnicos a darem 30 nomes oficiais nos próximos dias. Até dia 30 de Maio esses 30 nomes terão de estar reduzidos a 23. Os 23 mundialistas.

Mas Portugal, como sempre, tem de ser especial. Diferente, digamos. A FIFA pede 30 nomes. O Mundial só pode ser disputado com 23. E o número de convocados não variou muitos nos últimos jogos. No entanto, a cinco dias de eleger os seus mundialistas, Queiroz solta uma lista de cinquenta atletas. Uma lista patética que espelha bem todos os medos que rodeiam a selecção lusa. Uma lista que poderia ser até de 60,  não fossem as lesões de Bosingwa, Ruben Micael ou Silvestre Varela. Uma lista muito parecida há que nos próprios, aqui no Em Jogo, fizemos há largos meses. Com uma subtil diferença. Na altura referimos que esses 50 nomes era o máximo a que Carlos Queiroz poderia olhar para seleccionar os 23. O sinal que dá o seleccionador é que, qualquer um deles, poderá ir ao Mundial. E isso não pode ser verdade. A sê-lo, é espelho da falta de organização de uma selecção que parece perder o brilho.

 

Que necessidade tem Queiroz de divulgar 50 nomes. Não estes 50. Qualquer lista de 50.

Pensará realmente ainda em alguns dos nomes que tem nesta larga lista, fruto talvez de uma constante insónia? Em cinco dias irá eliminar 27 jogadores da sua mente? Depois de dois anos de trabalho é necessário alargar tanto o leque de escolhas depois de tantas experiências falhadas que nem aqui constam?  

Nem Espanha, nem Inglaterra, nem Itália, nem Alemanha, que são países com uma base de recrutamento infinitamente superior a Portugal, podem hoje dizer que têm 50 selecionáveis para uma prova como o Mundial 2010. Poderão ter 30 nomes, os que pede a FIFA, sem perder o nível qualitativo alto. Mais do que isso significa baixar o padrão máximo. Não é o mesmo levar Casillas ou Gorka Iraizoz, escolher entre Terry ou Shawcross, duvidar entre Di Natale ou Cerci e por aí fora.

A escolha fora de tempo de Queiroz em divulgar esta lista - que poderia ter feito algum (pouco) sentido há três meses - mostra a fragilidade do seleccionador em fazer escolhas. Ou então um receio das previsiveis guerras na comunicação social. Porque não foi X ou Y? Estava "vetado"? Perguntas tontas que só os jornalistas se lembram de fazer. E que assim ficariam esclarecidas. Porque nessa lista estão quase todos os jogadores portugueses com um minimo de cartel. Ao lado de Cristiano Ronaldo, Pepe, Deco, Simão, Ricardo Carvalho ou Liedson estão Pelé e Sereno do quase despromovido Valladolid, o nunca previamente chamado Paulo Machado ou os já "retirados" Petit e Maniche. Uma lista para agradar aos grandes lusos (Sporting com nove jogadores, Benfica com seis e FC Porto com cinco), onde o vice-campeão Braga só tem dois elementos. Com esta lista Queiroz poderia fazer praticamente cinco equipas. A questão é outra. Que nivel teria cada uma das selecções?

A lista dos 23 é uma coisa séria para se levar à brincadeira. Sabemos que um onze forte titular numa prova de sete jogos no máximo é fundamental. Mas ter alternativas de luxo, que não baixem em demasia o nível dos titulares, é o que faz de uma selecção campeã. Colocar a hipótese de convocar Vieirinha para o lugar de Cristiano Ronaldo é um insulto ao adepto. Algo que Queiroz devia sabê-lo. E no entanto faz todo o oposto. Um listado terceiro-mundista.

Não é preciso ser adivinho para saber quem levará o seleccionador ao Mundial. Eduardo, Beto e Hilário nas redes (apesar de Quim), Paulo Ferreira, Miguel, Ricardo Carvalho, Pepe, Rolando, Bruno Alves, Fábio Coentrão e Duda na defesa (apesar de João Pereira ou Tonel). No meio-campo espera-se por Deco, Raul Meireles, Tiago, Pedro Mendes, Miguel Veloso, Ruben Amorim e Moutinho (ou seja, sem Assis ou Viana). E por fim, Cristiano Ronaldo, Simão, Nani, Liedson e Hugo Almeida na frente (esquecendo-se dos golos de Makukula ou a mobilidade de Danny). Todas as listas são e serão sempre polémicas. Os nomes em parentesis estarão provavelmente na tal lista de 30 que a FIFA exige. Então para quê incomodar os outros 20 com falsas esperanças. Para quê dar este voto de desconfiança quando, mais importante do que nunca, era necessário passar a ideia de um grupo coeso e preparado para a mais alta exigência?

Agradar a gregos e troianos, essa eterna falta de coragem em tomar decisões, sempre foi o calcanhar de Aquiles dos portugueses. Numa viagem que se adivinha turbulenta, as naus partem já do porto com buracos de madeira na base. E com uma curtíssima dose de coragem e inteligência ao leme.



Miguel Lourenço Pereira às 16:27 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 02.05.10

O Mundo percebeu que havia um alienigena à solta no quente Verão mexicano de 1986. Sozinho Maradona ganhou um Mundial. Um dos mais espectaculares de que há memória. Entre os muitos heróis ofuscados pelo endiabrado argentino, destacou-se um abutre solitário que numa tarde inesquecível em Queretaro destroçou a melhor selecção europeia. Chamavam-lhe El Buitre e os dinamarqueses perceberam porquê.

Quem se lembra daquele mês de Junho tórrido de 1986 talvez não saiba que o Mundial esteve para ser disputado na Colombia.

Problemas financeiros levaram a prova pela segunda vez ao México. Havia dúvidas. Viveram-se certezas. Foi o mais espectacular torneio em largos anos. Repleto de heróis improváveis e momentos históricos. Portugal voltou à ribalta e começou em grande. Saiu pela porta pequena, espelho da mentalidade infantil e egoista bem lusa de Saltillo. A campeã em titulo, a Itália, não aguentou o peso do troféu. O mágico Brasil de 82 estava cansado. Passou pela prova sem pena nem glória, tal como a França, que mostrou ser incapaz de derrotar a sua besta negra. As grandes referências do Mundial acabaram por cair mais cedo do que o desenrolar do torneio parecia antever. Se Maradona estava num Mundial à parte, as três grandes selecções foram tropeçando pelo caminho. E facilitaram o resultado final. A explosiva URSS de Igor Belanov, um dos jogadores mais completos do futebol europeu, dominou um grupo onde estava a França de Platini. Depois, numa luta desigual contra a séria Bélgica de Ceulemans e Scifo, a surpresa. O mágico dianteiro do Dynamo Kiev apontou um hat-trick. De nada lhe valeu. Os belgas apontaram 4 golos ao imbatível Dassaev. Chegariam longe. Bem longe. Noutro jogo, em Queretaro, definiu-se o maravilho Mundial azteca. Duas das melhores formações europeias, que tinham precisamente sido rivais dois anos antes em França, mediram forças. Com um resultado inesquecível.

 

A Danish Dynamite foi a sensação da primeira fase.

Mantendo o ritmo endiabrado do Euro 84, os comandados de Sepp Piotnek arrasaram como poucos nas jornadas inaugurais. Bateram o Uruguai por seis golos, derrotaram a Escócia e vergaram a temida Alemanha. O mago Elkjaer Larsen e o jovem Michael Laudrup combinavam à perfeição no ataque, mas era o meio campo com Lerby, Olsen e Arnesen quem fazia o trabalho duro. Considerados como favoritos para a segunda fase, os dinamarqueses teriam de medir forças com La Furia. A selecção espanhola, vencida do Europeu de França, tinha uma das melhores gerações da sua história. Chamaram-lhe Quinta del Buitre. Pelo magro, sério abutre madrileño chamado Emilio Butrageño. O avançado do Real Madrid liderava uma equipa por onde passeavam classe homens como Martin Vazquez, Camacho, Señor, Gallego, Chendo, Salinas, Zubizarretta, Michel ou Goikotxea. A 18 de Junho os rivais mediam forças. Arnesen estava suspeno mas o seu velho amigo, Jesper Olsen, abriu cedo o marcador. De penalty. Confirmava-se o favoritismo dinamarquês e Larssen e Laudrup moviam-se à vontade. Dois minutos antes do intervalo surgiu nos céus o abutre. O empate de Butrageño mudou o ritmo do jogo. A Espanha voltou mais furiosa que nunca para o segundo tempo e aos 56 o avançado deu a volta ao marcador. Os dinamarqueses perderam a confiança em si mesmos e abriram espaços que o médio Goikotxea aproveitou para ampliar a vantagem. A Danish Dynamite lançou-se desesperadamente ao ataque e Butrageño agradeceu. Em oito minutos voltou a bisar apontando o seu quarto golo no jogo. E na prova. Seria também o seu último. Mas a favorita Dinamarca ia para casa. Os espanhois temiam a URSS mas acabaram por defrontar a Bélgica. Pensando já no duelo com Maradona, foram perdulários. E cairam nos penaltys. Sina que está ainda por mudar. E este foi mais o Mundial do alienigena e menos do abutre.

Maradona tinha saído pela porta pequena no Mundial de Espanha. Jurou a si mesmo que não voltaria a passar pela mesma humilhação. Billardo não era Menotti e Valdano, Pascuali, Burruchaga, Pumpido e Brown não eram provavelmente os melhores jogadores da história argentina. Mas isso importava pouco. O número 10 decidiu ganhar o Mundial sozinho e ninguém soube travá-lo. Empatou com a Itália, bateu a Coreia do Sul e Bulgária. Aguentou as violentas entradas dos defesas uruguaios, enganou meio-mundo contra a Inglaterra por duas vezes e deixou pregado ao solo o guardião belga. Na final, frente à sufrível RF Alemanha, não precisou de tanto. Ao sétimo jogo descansou. O Mundial era seu.



Miguel Lourenço Pereira às 09:54 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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