Sábado, 06.08.11

Em Pristina estão cansados de esperar. Mais de dois anos depois continuam num beco sem saída. A bola não rola, espera pacientemente uma decisão. Depois de tantos nãos, esperar é mesmo tudo aquilo que têm. O Kosovo quer ser independente. Os kosovares querem jogar futebol. Com a sua bandeira ao peito. A FIFA e a UEFA dizem que não é a hora mas a bola está farta de esperar...

Em Fevereiro de 2008 o Kosovo declarou unilateralmente a independência da Sérvia.

Foi, talvez, o derradeiro capitulo de um conflicto nos Balcãs com 17 anos de história. A Sérvia, destroçada por dentro depois de tantas guerras e sanções, fez um ultimo esforço diplomático e rejeitou aceitar a existência dessa República do Kosovo. Por uma vez o Mundo teve paciência e decidiu ouvir Belgrado antes de tomar uma decisão. De tanto ouvir as palavras ficaram presas no ar e a rápida decisão prometida pela ONU eternizou-se. E eterniza-se ainda hoje para desespero dos quase dois milhões de kosovares. O país não conseguiu a unanimidade necessária para ser considerado oficialmente um país - que conceito mais repelente esse de depender da vontade alheia para ser alguém - e procurou desfraldar a recém imaginada bandeira por outra via. O futebol, como sempre, era o caminho mais rápido. E eficaz.

Um mês depois da declaração unilateral representantes kosovares apresentaram-se na Suiça para convencer os executivos da FIFA e da UEFA a deixá-los entrar nas suas "célebres" familias. Futebolisticamente o Kosovo pertence à última divisão europeia, a mesma por onde andam as Ilhas Faroe, Malta, Lieschtenstein ou São Marino, por exemplo. Só um clube kosovar, o FC Pristina, passou pela primeira divisão sérvia. A maioria dos jogadores que podiam fazer parte de uma hipótetica equipa nacional kosovar estão divididos entre Albânia, Finlândia ou Suiça. E nenhum deles mostrou um exacerbado patriotismo que os fizesse sequer considerar a possibilidade de abdicar das regalias que têm hoje para cantar o novo hino nacional. A sua estrela mais cintilante, Lorik Cana, jogador da Lazio joga actualmente pela Albânia e não parece ter pressa para mudar. Ele, como muitos, vive também na sua encruzilhada particular.

 

Blatter e Platini foram peremptórios. Enquanto o Kosovo não for reconhecido pela ONU os kosovares têm de pensar noutras opções para jogar futebol. Oficialmente eles são uma não-nação, seja lá o que isso for. Irritar os russos e espanhóis é um preço que os dirigentes desportivos não estão dispostos a pagar. Os kosovares não têm culpa, afinal às restantes repúblicanas balcânicas houve até uma pressa ensurdecedora para dizer que sim antes do tempo. Eles pagam a factura de tempos pretéritos e sensibilidades agudas.

Mas a federação kosovar não desistiu. Os contactos com a Albânia, o país que mais apoiou o recém-constituido estado kosovar, levaram à realização do primeiro jogo amigável - que não oficial - para a selecção do Kosovo. Claro que os albaneses ganharam (3-1) mas isso importava muito pouco. Mas, mesmo assim, o Kosovo continuou a ser visto por tudo e todos como um desses estados malditos condenados a jogar entre si vezes sem conta. Estados como o Chipre do Norte, Monaco, as comunidades autonómicas espanholas, Sapmi, Greenland, Crimeia, Padania, Ocitânia, Gibraltar ou as ilhas de Man e Guernsey.

No último ano e meio os kosovares têm tentado organizar amigáveis com a maioria das federações mas a complexa situação politica tem sido, até a esse nivel, um sério impedimento. O apoio da Arábia Saudita (o Kosovo, como a Albânia, é um país iminentemente muçulmano) e da comunidade emigrante na Suiça deram a possibilidade ao seleccionador Albert Bunjaku de começar a fazer rodar alguns dos jogadores que decidiram assumir a sua condição de kosovares desde o principio. Jogadores como o guardião do Novara, Samir Ujkani, o lateral do Tottenham Ajet Sehu ou o médio do Hannover 96, Valdet Rama, jovens promessas que há dois anos teriam sido repescadas pelas selecções dos países onde cresceram (e o caso albanês continua a ser o mais evidente) e que agora começam a desenhar o futuro do futebol kosovar.

 

Parece impossível que o Kosovo possa estar na linha de partida para a qualificação para o Europeu de 2016 em França. Os timings das principais instituições não facilitam e a burocracia a essas estâncias é ainda mais gritante. Mas o sonho do futebol kosovar está bem vivo. Uma nação que espera por um milagre para não cair no esquecimento a que o futebol internacional muitas vezes devota os países de onde não saem os Messis do futuro.



Miguel Lourenço Pereira às 09:59 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Domingo, 31.07.11

A ressaca do sucesso do escrete canarinho no Mundial de 1970 durou uma década. Até 1980 o Brasil andou sem rumo, perdido entre o sucesso individual de 70 e a certeza de que essa geração tinha-se tornado num mito irrepetivel. Telé Santana encontrou a chave do futuro e desenhou um sistema capaz de emular o modelo de jogo das camisolas amarelas de Pelé e companhia. O Quadrilátero Mágico brasileiro tornou-se a chave da europeização do futebol brasileiro até aos dias de hoje, mas na sua concepção foi um último piscar de olhos a uma realidade mitológica que nunca mais ninguém foi capaz de repetir.

O golo de Carlos Alberto que culminou o triunfo mais espectacular de uma equipa na final de um torneio internacional marcou o fim de uma era.

Não só a geração de 70 era única no talento e na entrega como as condições em que se formou o projecto de Zagallo acabaram por se revelar tremendamente circunstanciais e, portanto, irrepetíveis. Um Mundial de altitude que asfixiou, à partida, qualquer ideia de pressing que começava a tornar-se popular na Europa e, sobretudo, um Mundial onde as equipas, pela última vez, prestaram mais atenção ao homem e menos ao espaço. O 4-2-3-1 que Zagallo desenhou para albergar tantos génios só funcionou porque nenhum dos rivais que o Brasil encontrou, nem mesmo a Itália, se preocuparam minimamente em aplicar um pressing eficaz. Gerson, Clodoaldo, Pelé e Rivelino tiveram a eternidade nos pés e tempo e espaço para desenvolver o seu melhor futebol. Mas esse espirito livre e romântico do jogo já tinha os dias contados antes do Mundial e depois o desmoronar do projecto brasileiro acabou por ser inevitável. O Mundial de 74 confirmou a mudança de guarda no histórico duelo com a Holanda e quatro anos depois o Brasil esteve perto de chegar à final de uma forma timida e absolutamente imerecida. Tanto Zagallo como Coutinho continuavam a acreditar que os individuos superavam o sistema mas ambos tentaram instituir um sistema europeizado que acabou por ir contra o próprio modelo de jogo individual dos seus principais astros. Numa década onde a qualidade do futebol brasileiro decaiu, a selecção foi incapaz de aguentar o futebol mais musculado, temporizado e, sobretudo, pressionante, dos conjuntos europeus. Parecia inevitável que o Brasil procurasse uma fórmula que permitisse recuperar o tempo perdido. Mas havia também uma imensa nostalgia com os dias gloriosos do Tri que ninguém queria perder. Telé Santana, então maestro do Fluminense, chegou a Espanha em 1982 com o modelo ideal na sua cabeça. Um modelo que não funcionou mas que iria forçosamente condicionar o futuro do futebol brasileiro nos 30 anos seguintes.

 

O Quadrilátero Mágico de Santana resumia os principios da geração de 70 (jogam os melhores jogadores com total liberdade) com a aplicação do ideário do Futebol Total (pressing, movimentação no terreno de jogo, verticalidade e velocidade).

O sistema táctico idealizado pelo brasileiro acentava num claro 4-2-2-2 abdicando totalmente do jogo de extremos, uma ideia já defendida por Maslov e Ramsey nos anos 60 e que Zagallo adaptou ao transformar dois avançados, Jairzinho e Rivelino, em falsos extremos. Em 1982 o futebol brasileiro tinha uma grande variedade de médios centro e uma profunda escassez de dianteiros de renome. Em lugar de emular Zagallo, o técnico nacional optou por dar total liberdade a Sócrates e Zico, com Serginho e Éder à frente e Toninho Cerezo e Dirceu como médios mais recuados. As alas eram entregues a dois laterais rápidos, na escola de Nilton Santos, Leandro e Júnior que tinham a função de abrir o campo e cercar as defesas contrárias. Um modelo que garantia pressing no miolo com um quarteto de luxo, dois dianteiros móveis (que só jogaram porque Careca, lesionado, e Dinamite, fora de forma, não estavam em condições) e laterais ofensivos. O plano resultou na fase de grupos (com Falcão a "roubar" o posto a Toninho) e a vitória clara sobre a Argentina deu a sensação de que a equipa tinha encontrado o equilibrio necessário. Não foi assim.

Contra a Itália o sistema bateu o individuo e marcou o fim de uma era. O Brasil nunca soube controlar os tempos do jogo, viu-se prejudicado pela concentração massiva de jogadores no meio-campo e deixou as alas abertas às investidas de Cabrini e Tardelli. A derrota significou o fim do futebol-arte brasileiro (nunca mais repetido a esse nivel) e reforçou a ideia da europeização do jogo. No entanto, o 4-2-2-2 manteve-se como o santo graal. Quatro anos depois Santana repetiu o esquema e voltou a fracassar frente a uma equipa com um esquema táctico similar, a França, nos penaltys. Em 1990 Carpeggiani decidiu emular o billardismo argentino e fracassou ainda mais estrepitosamente levando o seu sucessor, Carlos Alberto Parreira a regressar ao 4-2-2-2. Com Jorginho e Branco nas alas, Dunga e Mauro Silva no miolo, Bebeto e Romário no ataque e atrás de si uma dupla móvel de criativos, Zinho e Mazinho. Uma equipa sem brilhantismo mas com a eficácia europeia que faltou aos génios de 82. O sucesso do Quadrilatero levou Zagallo, o homem que tinha liderado a geração de 70, a não mudar no esquema para 98, trocando Romário por Ronaldo e Zinho e Mazinho por Rivaldo e Leonardo. A equipa brasileira voltou a uma final mas saiu derrotada, por uma França que soube anular o 4-2-2-2 ocupando o meio-campo de forma mais organizada num 4-5-1 letal. Scolari voltou ao billardismo (e com sucesso porque, tal como o argentino, contou na frente com um jogador inspirado, Ronaldo) mas Parreira decidiu recuperar o Quadrilatera para o Mundial de 2006. Um erro absoluto porque emulou o ideário de 1982 (grandes jogadores, total liberdade, desorganização táctica) e não o de 1994. O falhanço levou os brasileiros a questionar a eficácia de um modelo que, para o bem e para o mal tinha moldado o futebol brasileiro mas quando Dunga decidiu repetir a dose em 2010, com Robinho e Fabiano diante de Kaká e Elano que por sua vez jogavam com Melo e Gilberto a proteger a medular, o Brasil entrou em desespero. O insucesso da campanha do escrete canarinho significou também o fim do Quadrilatero. Mano Menezes entendeu que não havia nenhuma possibilidade de alterar o ciclo vicioso sem abdicar de uma profunda mutação táctica. O técnico apostou num 4-2-3-1, recuperou o jogo de extremos com Robinho, Neymar ou Lucas e na figura solitária do ponta-de-lança, tão de voga na Europa. Mas nem isso lhe valeu, talvez por culpa mais dos rostos do que, propriamente, do sistema.

 

A metamorfose táctica do país que inventou o 4-2-4, explorou o 4-3-3 e consolidou o 4-2-2-2 continua agora numa normalização com o resto do planeta futebol em que o homem passa a ser apenas parte da engrenagem táctica. A falta de tempo e espaço no futebol de alta competição acabou com o espirito malandro dos grandes "malandros" brasileiros que durante anos fizeram a delicia do público. Hoje não há tempo nem paciência para fenómenos individuais se não existe antes e depois uma forte contundência colectiva. O Brasil, o mais individualista dos amantes do futebol, ainda não conseguiu verdadeiro unir método e homem num só esquema. Perdeu a magia de antes, a eficácia de antes e o ritmo cadente de titulos de antes. O que ainda não perdeu foi o sonho utópico de juntar a mestria dos génios individuais com as necessidades tácticas do futebol moderno. Talvez algum dia o escrete canarinho descubra o que todos já desistiram de procurar...



Miguel Lourenço Pereira às 14:16 | link do post | comentar

Sábado, 25.06.11

A preocupante situação financeira do Barcelona levou Sandro Rossell a adoptar uma postura que vai totalmente contra o ideário desportivo que a filosofia de Guardiola tem implementado, com um sucesso inquestionável, no futebol do clube. Apadrinhada por Johan Cruyff, sempre omnipresente em assuntos de estado, a ideia de abdicar de alguns dos maiores talentos da Masia para mergulhar no complexo mercado de transferências é um sério ponto de inflexão na filosofia do clube blaugrana e afasta o clube do ideário romântico que tanto sucesso tem tido junto do público mundial.

 

Bojan Krkic parece ser o primeiro. Mas seguramente não será o último.

O Barcelona, segundo Cruyff, deixou de ser "Més Que un Club" no momento em que aceitou "manchar" as camisolas blaugranas com publicidade. Depois do truque publicitário - e algo hipócrita - chamado UNICEF (que permitiu à UEFA dobrar, uma vez mais, as suas regras em prol do clube blaugrana ao permitir que o clube tenha duplo patrocinio na próxima Champions ao contrário do que está nos seus estatutos) chegaram os petrodólares da Qatar Foundation, a mesma organização que pagou o apoio de Guardiola à candidatura mundialista do país que organizará o Campeonato do Mundo de 2022. Mas o buraco financeiro deixado na era Luis Nuñez (e engordado com a gestão de Joan Laporta) é tal, que nem esse negócio das Arábias se revelou suficiente.

Juntamos a essa vicissitude as incursões pontuais do clube no mercado de transferências e o quadro complica-se.  Em quatro anos o Barcelona gastou mais de 280 milhões de euros em contratações, com alguns flops consideráveis como foi o caso de Chygrinski (30 milhões), Zlatan Ibrahimovic (40 milhões mais o passe de Samuel Etoo) ou um conjunto de jogadores que mal vestiu a camisola da equipa principal (Henrique, Keirrison, Cáceres e Hleb). Ao mesmo tempo o clube não conseguiu sacar proveito das suas vendas (Henry saiu de forma gratuita, Etoo foi oferecido, Ronaldinho idem, Ibrahimovic chegou emprestado ao Milan que tem agora de pagar 24 milhões pelo seu passe, metade do que custou, ...) e agrandou ainda mais o buraco financeiro. A aposta pessoal de Guardiola na cantera que conhecia como ninguém resultou ser um brilhante negócio para a presidência do clube. A prata da casa não só permitia ao técnico manter a competitividade e filosofia do seu projecto como garantia, ao mesmo tempo, uma imensa poupança em gastos que a médio prazo poderiam salvar as arcas do clube. Mais do que uma filosofia desportiva, apostar na Masia foi sobretudo uma brilhante jogada de gestão. Guardiola evitava ter, como tem o Real Madrid, jogadores de primeiro nivel internacional com salários principescos sentados no banco, e o clube baixava o que gastava em salários e comissões e rentabilizava as suas instalações desportivas de formação como nunca tinha logrado no passado. Mas depois de três anos de máximo sucesso desportivo e algum reequilibrio económico, Sandro Rossell quer inverter a tendência. A Masia, mais do que funcionar como apoio à primeira equipa, ameaça em transformar-se num apoio para a conta bancária do clube.

 

Cruyff deu o tiro de saída num dos seus artigos semanais no El Periodico de Catalunya.

O holandês, que está a caminho do Ajax para reorganizar o futebol base do seu clube de origem, lançou o desafio à directiva e equipa técnica. Afinal o clube conta com mais de uma dezena de jovens "canteranos" com mercado e projecção de futuro e outra dezena com uma projecção menor mas que, com o rotulo de escola Barcelona, vale mais no mercado que muitos jogadores mais bem preparados. A notável temporada do Barcelona B, terceira na Liga Adelante, deu a conhecer ao mundo o génio de Thiago, Sergi Robert, Jonathan dos Santos, Rafa, Oriol, Jonathan Soriano e companhia. Esses nomes juntavam-se aos já habituais da primeira equipa, Bojan, Jeffren e às promessas Botia, Muniesa e Miño. Um onze titular praticamente com um potencial de primeiro nível assinalável.

A maioria treinou com a equipa principal durante o ano e muitos estrearam-se mesmo ao serviço de Pep Guardiola que sabe quais são as pérolas de maior projecção da sua cantera. Mas hoje em dia os próprios jogadores da Masia olham para si com outros olhos. Inspirados pelo sucesso do clube e, sobretudo, pelo impacto de Busquets e Pedro, todos querem a sua oportunidade junto a Messi e companhia. Mas nem todos a terão. Continuar na equipa B é um desafio cada vez menos estimulante para alguns e sair um risco, para eles e para o clube. Não segundo Cruyff.

O homem que criticou o Real Madrid por vender os seus melhores canteranos com direito a opção de recompra agora aconselha precisamente isso mesmo ao clube, para equilibrar as contas e investir no mercado de transferência. Negociar o futuro de Bojan, Jeffren, Thiago, Soriano, Muniesa e companhia parecia uma utopia há uns meses. Agora começa a soar como uma inevitabilidade.

No meio desta jogada aparece a figura de Sandro Rossell. O ex-directivo da Nike, responsável pela chegada do primeiro batalhão de brasileiros durante o mandato inaugural de Laporta, quer deixar a sua influência no projecto do clube. O seu medo de que Guardiola deixe o banco do Camp Nou no final deste ano estimula-o ainda mais a tomar controlo da situação. O caso Fabregas representa o primeiro confronto directo entre direcção e técnico. Guardiola quer o capitão do Arsenal, sente-o como um dos seus e quer repetir o processo de Piqué. Mas Rossel não está disposto a pagar o que o Arsenal pede (algo que a Nike, sua antiga empresa, não veria com bons olhos porque precisa do espanhol para aumentar as suas vendas com o merchandising dos gunners) e prefere gastar o mesmo dinheiro em jovens promessas sul-americanas. Alexis Sanchez e Neymar são sonhos seus, não de Guardiola, que preferia Fabregas e Rossi (por quem o clube ofereceu uns miseros 25 milhões, mais Bojan). 

Guardiola não quer perder o seu backup, a sua cantera, mas começa a ser dificil manter a jogadores como Jeffren e Bojan contentes com o facto de serem os eternos suplentes de Messi e Villa. O próprio Thiago, talvez a maior promessa do clube em muito tempo, sabe que se chega Cesc, como quer o treinador e o plantel, o seu espaço de manobra desaparece. E o técnico de Santpedor entende a situação financeira do clube. Por isso avalou a saída de Bojan para a AS Roma, onde está o seu anterior adjunto Luis Enrique, e ao jovem dianteiro podem brevemente seguir-se muitos mais. O jovem avançado que explodiu no último ano de Rijkaard pagou o preço do seu nervosismo e da mutação táctica de Leo Messi, um génio que nunca falha e raramente perde um jogo. Depois de três anos onde actuou muito pouco, Bojan precisa de jogos para demonstrar que o mais concretizador avançado da história da Masia pode repetir o feito junto dos mais velhos. A sua venda, por 10 milhões, é o principio do fim do romantismo ideológico de Guardiola. Utilizar a sua cantera como meio de reforçar as contas do clube - como fez o R. Madrid com Negredo, Albiol, Arbeloa, Granero, Soldado, de la Red, Mata, Parejo e companhia - significa que os back-ups da primeira equipa passarão a ser jogadores de fora, sem a cultura de base da escola que tanto tem encantado o mundo.

Com uma primeira equipa de sonho é fácil perceber que - salvo a posição de defesa-esquerdo - há pouco onde se possa melhorar o actual Pep Team. Qualquer entrada será, como a de Affellay ou Keita, para servir como apoio. Enquadrar nomes consagrados como Rossi ou Cesc ou promessas do nivel de Sanchez, Neymar ou Pastore nessa politica pode dar mais do que uma séria dor de cabeça a Pep Guardiola. Ao mesmo tempo, vender o melhor que a cantera de Barcelona tem para oferecer diminuiu o prestigio moral do clube ao mesmo tempo que também permite que o ideário blaugrana encontre refúgio noutros projectos que pretendem emular a filosofia do clube da cidade Condal. A Masia tem, desde já, ordem para voar. É uma decisão que financeiramente pode funcionar a curto prazo mas que num futuro pode multiplicar os casos como o de Cesc Fabregas e acabar por ser um erro de planeamento a médio e longo prazo. Com esta jogada, Rossell demonstra também que o presidencialismo também já chegou ao Camp Nou.



Miguel Lourenço Pereira às 00:06 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Terça-feira, 21.06.11

Champions League e Europe League, essas são fáceis. Também já devem ter ouvido falar da Supertaça Europeia e dos torneios de selecções, desde o Europeu para graúdos até às provas dos mais pequenos. Mas a UEFA tem uma competição europeia de que poucos ouviram falar. E que vai disputar-se em solo português a partir de hoje no Minho. A Taça Europeia das Regiões permite imaginar o futebol como outrora foi num ano de festa para o futebol minhoto.

Em 1996 a UEFA decidiu criar o primeiro Campeonato da Europa de Futebol Amador.

Desde os anos 70 que não existia um torneio oficial europeu que colocasse frente a frente equipas amadoras. O crescente profissionalismo rasgou por completo o ideário original do jogo e na década de 70 não subsistia na Europa uma liga exclusivamente dedicada a equipas amadoras. O torneio perdeu interesse e assim foi durante os vinte anos seguintes. No entanto, depois do Euro 96, a UEFA foi confrontada com a petição de várias organizações amadoras para potenciar um evento continental que devolvesse um pouco do protagonismo às equipas fora do espectro profissional. O torneio demorou três anos a acontecer. A grande dificuldade que a UEFA encontrou foi o formato a aplicar.

Inicialmente um torneio de clubes amadores, a ideia rapidamente perdeu força porque existia um crescente desequilíbrio entre os inscritos, maioritariamente representantes britânicos. Foi então que alguns dos directivos de Lennardt Johanssen propuseram a criação de um torneio de selecções nacionais, representadas por conjuntos regionais. A ideia foi bem aceite pelas federações nacionais e finalmente em 1999 o torneio teve lugar em Itália. Para representar os transalpinos a Federação Italiana criou um torneio de duas semanas. Saiu vencedora a região de Venetto que organizou e venceu o torneio frente aos espanhóis da Comunidade de Madrid. O sucesso da prova - com mais de 32 inscritos - garantiu que dois anos depois os melhores amadores da Europa se voltassem a encontrar, desta feita em terras checas Por essa altura a UEFA tinha alterado o critério de inscrição. Cada associação apresentava o conjunto que representava a região que tinha ganho o torneio nacional doméstico de futebol amador. No caso de não existir um torneio oficial como tal, era obrigatória uma ronda preliminar, supervisada pela Federação nacional, para dictar o representante oficial na prova. O torneio de 2001 disputou-se na Morávia e uma vez mais a equipa da casa triunfou, desta feita sob o conjunto representante do futebol amador português, a equipa de Braga.

 

Dez anos depois a cidade dos Arcebispos volta a fazer história no historial do torneio amador.

O jogo inaugural da edição 2011 arranca no Estádio 1º de Maio, antigo recinto do Sporting de Braga e hoje utilizado essencialmente por formações amadoras. Mas os jogos serão igualmente disputados noutras cidades minhotas. O Grupo A, que conta, para lá do conjunto bracarense, com os checos de Zlin, os alemães de Wurttemberg e os ucranianos da zona de Yednist, joga igualmente em Barcelos, Vila Verde e Fão. Os portugueses são favoritos para passar, como é habitual entre as equipas da casa, e seguir para a fase seguinte, a antecipada final. Do outro lado da poule de apuramento, o Grupo B inclui uma selecção do sul da Rússia, uma equipa dos arredores de Belgrado, um conjunto exclusivo da capital turca Ancara e um representante da região de Munster na Irlanda.

Se os bracarenses conseguiram o apuramento automático quando a UEFA anunciou, em 2009 o organizador da 7º edição do torneio, as restantes sete equipas tiveram de ultrapassar uma dupla fase de apuramento, resultado da crescente popularidade do torneio no Velho Continente.

Portugal foi inicialmente representado pelo Algarve, em 1999, uma equipa que não passou a fase preliminar, resultado que repetiu em 2003. Depois do brilharete do conjunto colectivo de Braga em 2001 o melhor resultado de um conjunto português foi conseguido pela equipa de Aveiro, terceira no Europeu de 2007. Para trás ficaram as eliminações precoces dos conjuntos de Portalegre e Braga em 2005 e 2009. É a terceira fase final para um conjunto luso e também o regresso do torneio ao sul da Europa desde a edição inaugural.

Desconhecido para o grande público, os organizadores do evento esperam atrair mais público do esperado com o apelo dos sucessos do Sporting de Braga nas últimas épocas para apoiar a equipa local. O conjunto orientado pelo ex-internacional Dito não utilizará o símbolo da FPF, afinal este torneio nacional está disfarçado como um torneio regional, mas certamente que tentará lograr um feito histórico para o futebol português, mesmo que seja ao nível do futebol amador. Afinal a magia do futebol amador tem o seu encanto. Que o diga Tony, que marcou presença na final de 2001 do torneio ao serviço da equipa de Braga para mais tarde ser repescado profissionalmente pelo Desportivo de Chaves. Em 2008, sete anos depois de se ter afirmado como um dos melhores futebolistas amadores europeus, cumpriu o sonho da sua carreira e disputou pela primeira vez a Champions League, ao serviço do Cluj. Foi o fechar de um ciclo perfeito, um ciclo que muitos dos atletas presentes neste torneio sabem que é muito complicado de repetir. Mas às vezes basta deixar cair o muito da frase, para ela ganhar outro sentido. E outra esperança!

 

Até aos anos 50 o futebol amador era, ainda, o motor do futebol europeu. À medida que o profissionalismo se tornou inevitável a atenção e curiosidade à volta dos amadores foi-se esmorecendo a ponto de que muitos nem sequer imaginam que exista uma competição internacional destas características. Certamente que em campo não se verá nenhuma cena que relembre o glamour dos grandes torneios da UEFA, nem os gestos técnicos de Messi, nem os ajustes tácticos de Mourinho. Mas a ilusão e diversão que o futebol amador consegue reproduzir permite-nos embarcar numa cápsula do tempo e contemplar o jogo, tal como era, quando tudo começou.



Miguel Lourenço Pereira às 11:08 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Segunda-feira, 20.06.11

Em 1983 o presidente Rafael Cabrera marcou uma reunião com os máximos dirigentes da Federação Argentina. Liderava um séquito dos principais clubes da liga local e estava preparado a boicotar o torneio nacional se a AFA não aceitasse a sua temerária proposta. Depois de uma dura ronda de negociações o dirigente do River Plate conseguiu o que queria. 38 anos os Milionários de Buenos Aires reencontram-se com o destino que iludiram há 38 anos. Só um milagre pode permitir ao River Plate fintar uma despromoção pendente há quatro décadas.

 

A derrota frente ao modesto Lanús confirmou as piores expectativas no Monumental. O River terá de lutar até ao fim para não cair no poço da 2º Divisão do futebol argentino. Um feito impensável se tivermos em conta que não há campeonato do mundo onde os grandes estejam tão protegidos como o argentino. Por culpa do River Plate e agora, apesar deles.

A equipa de Buenos Aires liderou em 1981 uma rebelião contra o sistema instaurado nos anos 30 pela AFA, a federação argentina. A queda de outro histórico, o San Lorenzo de Almagro, na 2º Divisão, levou a que os directivos dos principais clubes (que incluíam o Boca Juniores, Estudiantes, Independiente, San Lorenzo, River e Racing Avellaneda) instigassem a federação a protege-los contra os mais pequenos. A perda de categoria do San Lorenzo significava um rombo nas contas do clube e era um sério aviso aos restantes grandes do futebol albiceleste. Depois de dois anos de duras negociações a federação capitulou. Foi instaurado um sistema de pontuação altamente complexo que protegia as costas dos grandes locais perante qualquer deslize pontual. As equipas seriam despromovidas não pelo resultado de um ano mas sim pela média das pontuações acumuladas nas três temporadas anteriores. Além do mais, para reforçar ainda mais esse conceito de liga fechada, só os dois últimos seriam despromovidos. Os penúltimos e antepenúltimos classificados podiam ainda jogar um play-off contra o 3º e 4º classificados da 2º Divisão. É nessa situação que se encontra o conjunto buenarense.

A negociação de Cabrera revelou-se fundamental para o clube. Precisamente em 1983, o ano em que o novo sistema foi inaugurado, a equipa terminou no 18º e antepenúltimo posto da tabela. Mas livrou-se de disputar o play-off porque, evidentemente, a sua classificação média das três épocas anteriores (onde contava com dois títulos conquistados com Alfredo Di Stefano no banco de suplentes) garantia a sua sobrevivência. O modelo revelou-se um sucesso para os clubes grandes de tal forma que nas décadas seguintes nenhum deles perdeu a categoria. Havia sempre um ano pretérito com a pontuação necessária para evitar males maiores. Até agora.

 

O descalabro desportivo do River Plate não é recente.

O clube começou a cair do trono a meados da década com a sucessiva venda dos seus melhores activos para o futebol europeu de forma a paliar a imensa divida acumulada nos anos de bonança. Depois da vitória no Torneo de Clausura de 2008 , com Diego Simeone no banco e o jovem Diego Buonanotte como estrela mais reluzente, o clube entrou numa espiral negativa que o levou à dramática situação com que se depara. Em 2009 a equipa somou apenas 14 pontos e terminou o ano no final da tabela depois de uma série de dez derrotas consecutivas. Mas salvou-se. Já sabemos porquê. Aliás, no topo da tabela classificativa por médias, o River ainda era líder, apesar do annus horribilis. Não seria assim por muito tempo. Um ano depois os fracos resultados repetiram-se. O clube, sob a gestão desportiva de Nestor Gorosito e com os veteranos Almeyda e Gallardo no onze titular, terminou o ano no 14º posto com apenas 25 pontos. Daniel Passarella, antiga glória nos anos 70 e 80, chegou à presidência e com ele trouxe dois velhos nomes, Leonardo Astrada e Angel Cappa. Apesar do arranque promissor - e do reforço do plantel - a equipa voltou a desiludir e a tropeçar na tabela.

Em 2010/11 a classificação final do Torneo de Clausura não foi tão má como se imaginaria. O clube, com as promessas Erik Lamella e Funes Mori em destaque, logrou terminar o ano no 9º posto. Mas a soma dos resultados dos anos anteriores atiraram com os Milionários para o 17º posto da tabela classificativa colectiva. E para o duelo desesperado contra o Belgrano. A duas mãos o River terá de evitar o destino. Juntamente com o Boca Juniores, Independiente e Arsenal de Sarandi é uma das poucas equipas que não sabe o que é jogar na 2º Divisão argentina. Conta com o maior estádio do país, o mais espectacular dos historiais mas também uma das dividas mais assustadores. O duelo contra o modesto Belgrano é apenas o primeiro passo que o clube de Buenos Aires tem de dar rumo a melhores dias. A partir da próxima época a posição do clube na tabela classificativa geral baixa ainda mais. O River começaria o próximo ano já despromovido e teria de lutar contra o inevitável. O espectro da descida.

Para muitos a situação actual do River Plate é apenas o espelho da desorganização institucional em que vive o futebol argentino. Num complexo sistema criado para proteger os grandes, o futebol argentino mergulhou numa letargia tremenda que se transformou, de certa forma, num peso difícil de suportar. Os clubes grandes hoje em dia lutam para não perder a sua supremacia moral mas são muitas vezes os pequenos projectos que levam para casa os títulos e as participações nas provas continentais. A liga argentina tem vindo a perder peso na própria América do Sul e os dirigentes têm consciência dessa crua realidade. Reformular o campeonato num país que prima pela desorganização institucional é um desafio que Julio Grondona, actual presidente da AFA, não está disposto a realizar. A longo prazo essa decisão pode significar o estrangulamento de um dos campeonatos que ensinou ao mundo a jogar futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 08:52 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Terça-feira, 31.05.11

Pode dizer-se que hoje diz adeus o mais completo jogador inglês dos últimos 20 anos. Talvez Alex Ferguson o saibi melhor do que ninguém. O seu jeito calado, o seu estilo guerreiro, essa pose de miúdo introvertido afastou-o do crédito que realmente nunca teve. A verdade é que houve poucos jogadores que personificaram tão bem a classe futebolística do que Paul Scholes. A bússola de Old Trafford anuncia a retirada e o "Teatro dos Sonhos" nunca mais será o mesmo...

 

Scholes foi, verdadeiramente, único. O mais completo de todos eles.

Houve o Ballon D´Or de Michael Owen. Os flashes à volta de David Beckham. As capas de jornais de Wayne Rooney. A reverência à figura de Alan Shearer. Os duelos entre Frank Lampard e Steven Gerrard e as lembranças de Steve McManamman, Paul Gascoine, David Platt e Paul Ince. Mas nenhum deles, e a lista podia prolongar-se um pouco mais, soube entender de forma tão completa a complexidade do futebol como Scholes.

O número 18 do Manchester United personificou, ao largo da sua carreira, todos os valores que Alex Ferguson procurou evidenciar. Foi um dos seus campeões de juniores daquela célebre geração de 1992. Demorou um ano mais que os restantes colegas a chegar à primeira equipa mas quando o logrou tornou-se imediatamente em peça nuclear na estratégia de jogo dos Red Devils. Enquanto a maioria dos jogadores se tornavam estrelas mediáticas por direito próprio, Scholes viveu sempre no anonimato. Até hoje poucos sabem algo da sua vida privada. Até mesmo a sua retirada, de que se falava em voz baixa, só foi conhecida antes de tempo por Ferguson e Giggs, o seu eterno parceiro.

Paul Scholes definiu com a bola nos pés o futebol inglês das últimas duas décadas. Como toda essa geração faltou-lhe um titulo com a selecção. Era peça importante na estratégia de Glenn Hoddle para atacar o Mundial de França e foi um dos homens de confiança do projecto de Kevin Keegan. Com Sven Goren Erikson participou em duas provas, o Mundial de 2002 e o Europeu de 2004. No final do torneio anunciou a sua retirado quando entendeu que o sueco iria preferir sempre os nomes que a imprensa defendia a unhas e dentes, Lampard e Gerrard. A partir daí a Inglaterra nunca mais teve critério com a bola nos pés. Ao contrário do seu United. Depois de afirmar-se em 1996 como titular indiscutível, a sua grande mágoa foi falhar a final de Barcelona de 1999 por acumular de amarelos na meia-final com a Juventus. Nove anos tirou a espinha da garganta marcando presença na final de Moscovo. Depois voltou a participar em mais duas, ambas perdidas para o Barcelona. Onde jogava Xavi, talvez o jogador que mais se tenha assemelhado ao inglês na última década e meia.

 

Com uma visão de águia de rapina, Scholes sabia onde e como colocar a bola.

Com o passar dos anos foi recuando estrategicamente a sua posição no terreno de jogo onde podia pensar e fazer jogar com mais tranquilidade. O seu magnifico pé direito permitiu-lhe por diversas vezes marcar golos decisivos do nada. Logrou um total de 102 golos em 466 jogos pelo Manchester United. Durante meia década teve invariavelmente o mesmo parceiro, o irlandês Roy Keane. O "carrot" (cenoura) colocava tranquilidade onde Keane semeava o pânico. Com o irlandês, Beckham e Giggs formou o meio-campo mais celebre da história do Manchester United. Um quarteto que se manteve unidos durante seis anos. As saídas de Keane e Beckham significaram uma mutação no estilo de jogo, mais directo, do clube. O individualismo de Cristiano Ronaldo e a chegada de jogadores com mais musculo mas menos critério com a bola, como foram Hargreaves, Carrick e Fletcher, foram isolando Scholes.

Com menos parceiros para associar-se, o número 18 foi perdendo protagonismo. O jogo do United deixou de trabalhar-se no miolo e apostou na velocidade do ataque, menos associativo do que a dupla Cole-Yorke, primeiro com van Nistelrooy e depois com Rooney. Ao seu médio criativo Ferguson passou a pedir mais passes a rasgar e o jogo de Scholes mutou-se uma vez mais e tornou-se, também ele, mais físico. Apesar de nunca ter sido um jogador excessivamente duro, o médio interpretou bem o papel e soube manter-se vivo na equipa principal apesar da idade. Da sua estreia na primeira equipa, aos 20 anos, já só havia longas lembranças. Como Ryan Giggs soube entender os novos tempos e o ritmo dos novos colegas, todos eles recrutados fora do espírito de Carrington Road que tinha apresentado ao mundo o seu talento bem como o de Nicky Butt, os irmãos Neville ou o carismático Beckham. Nas últimas épocas Scholes continuou a ser um dos jokers preferidos do treinador escocês mas o tempo de jogo foi diminuindo consideravelmente. Em Roma, na final de 2009, ficou evidente que Scholes não aguentava já o ritmo intenso da alta competição exigida pelo sangue jovem do Barcelona e desde então a retirada começou a sobrevoar a sua cabeça. Deixou até ao último jogo do ano, o jogo que mais queria ganhar, até fazer pública a sua decisão.

Quase silenciosamente, Paul Scholes recolheu as suas coisas e deixou Old Trafford sem fazer o mínimo de ruído. Com ele - e Gary Neville e muito proximamente Ryan Giggs - termina oficialmente a era mais espantosa dos Red Devils. Durante quase 20 anos o pequeno grande médio centro encarnou o espírito guerreiro da filosofia fergusoniana. Ao mesmo tempo demonstrou que no futebol inglês há muito mais classe e imaginação do que os preconceitos convidam a imaginar. Talvez olhe para o presente e veja Jack Whilshire como o seu herdeiro moral, o passar do testemunho geracional. Em Old Trafford sentirão, e muito, a sua falta. Não há no mundo do futebol um jogador da sua dimensão para tapar o vazio que deixa atrás um jogador que definiu, com os seus pés, muitos capítulos da história do futebol inglês.  



Miguel Lourenço Pereira às 14:13 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 30.05.11

Como num filme de espionagem americano o volte-face na guerra de poder que tomou conta da FIFA nos últimos meses vai seguramente prender os espectadores até ao minuto final. Sepp Blatter venceu o pulso com Bin Hamman e forçou a sua retirada e exclusão do máximo comité desportivo da organização que gere o futebol profissional em todo o mundo. Mas se calhar o suíço não contava com a reviravolta protagonizada por um dos seus homens de confiança que está disposto a tudo, menos a ser usado como cabeça de turco. Os documentos divulgados hoje por Jack Warner simplesmente confirmam o que aqui já tínhamos avançado. A podridão que gere a FIFA é agora de domínio público e a organização vive momentos críticos. Os seus directivos estão num encruzilhada e não sabem que peça mover.

 

Não foi há muito tempo que escrevemos aqui sobre o duelo presidencial que se antevia entre Sepp Blatter e Mohammed Bin Hamman.

As dúvidas que deixamos então, em modo de reflexão, tornaram-se espelho da dura realidade. Os dois candidatos, reconhecidos nos corredores do poder como duas figuras altamente ligadas à corrupção no futebol actual, acusaram-se mutuamente, esgrimindo todas as armas que tinham em mãos. Blatter parecia ter ganho a luta quando conseguiu que o qatari, figura chave no processo de eleição do seu país como sede do Mundial de 2022, abandonasse a corrida. Mais ainda, Blatter logrou escapar das acusações de corrupção sobre a sua gestão e aproveitou o momento para limpar os fantasmas do seu armário. Fez com que a FIFA conseguisse passar a imagem de que as ovelhas negras eram Bin Hamman e Jack Warner. O tobaguenho foi o rosto escolhido por Lord Triestman, lider da candidatura inglesa ao Mundial de 2018, para exemplificar a corrupção que se encontra no topo da escada de poder da FIFA. Acusado de suborno, Warner rejeitou as acusações e Blatter defendeu-o, com um discurso profundamente critico aos dirigentes ingleses. Meses depois deixou cair o homem que utilizou várias vezes com emissário juntamente com o asiático que controlava tudo o que se passava nos mercados emergentes do oriente. Pensava assim Blatter que iria sair da eleição de 1 de Junho com um novo mandato e a cara lavada. Mas a jogada não ocorreu como previsto. Como nos filmes, havia uma subplot.

 

Hoje Jack Warner decidiu incendiar o que restava da moral da FIFA.

Divulgou um correio electrónico de Jerome Valcke, o braço-direito de Blatter secretário-geral da FIFA, em que este confessava ao tobaguenho que tanto ele como Blatter tinham conhecimento - e implicitamente aprovado - que Bin Hamman teria comprado os votos necessários para que o seu país fosse eleito organizador do Mundial. O Qatar, o mais pequeno país a quem foi atribuido o mais importante torneio do mundo futebol, não era sequer considerado favorito. No entanto os qataris bateram Estados Unidos e Austrália e venceram a eleição. Nos meses prévios muito se especulou sobre as jogadas dos qataris nos bastidores, que ora incluíam o apoio implícito da candidatura Espanha/Portugal ora a ajuda da candidatura russa, que ganharia a organização para o Mundial de 2018. Lord Tristeman confesso que fora abordado para garantir uma troca de votos e influências entre a candidatura do médio oriente e a britânica. A FIFA então negou todas as acusações. Valcke confirmava neste email que tinham perfeita consciência de tudo. 

Warner não deixa a nu o processo de eleição do Mundial. Também desvela, em palavras de Valcke - que já confirmou a autenticidade do email - que o grupo de influência liderado por Blatter estaria disposto a tudo para impedir a eleição do qatari, incluindo desprestigiá-lo junto dos meios de comunicação e eventualmente nos próprios comités da FIFA, como veio a acontecer. Ao não alinhar com o grupo de Blatter, o tobaguenho foi igualmente suspenso por financiação ilicita de algumas federações caribenhas. No entanto, no passado congresso da CONCAF em Miami foi Blatter quem prometeu mais de 1 milhão de dólares em apoio à federação regional em troca de apoio directo nas eleições, utilizando dinheiro da própria FIFA, no que foi criticado por Michel Platini, presidente da UEFA e um dos mais sérios candidatos a suceder ao suíço em 2016. As suspensões indefinidas de Bin Hamman e Warner - vice-presidente da FIFA à 30 anos, o mais veterano dos membros do comité executivo em serviço - juntam-se às dos dirigentes nigeriano e taitiano, também membros do conselho e peças chave na última votação para a organização dos Mundiais de 2018 e 2022. A FIFA de Blatter suspende quatro dos 24 membros com direito a voto meses depois de os apoiar publicamente, precisamente pelo mesmo motivo.

 

O presidente da FIFA será reeleito por aclamação no congresso do próximo dia 1. Nem Jack Warner nem Bin Hamman estarão em Zurique em pessoa mas os seus fantasmas vão assombrar todo o evento feito à medida para idolatrar o reeleito Sepp Blatter. O suíço não será capaz de esconder do Mundo no entanto os problemas morais e legais que envolvem o seu mandato e que relembram também a crise da ISL, a eleição da África do Sul, a polémica com a MasterCard e agora, o afastamento de alguns dos seus homens-fortes. Tal como sucedeu com o COI, a quem vários analistas comparam a situação actual da FIFA, o fantasma da corrupção está demasiado presente para se ignorar. Olhar para o lado e assobiar ou tomar cartas no assunto são as únicas opções sobre a mesa. Conhecendo o historial do presidente Blatter não é difícil imaginar o caminho que a FIFA irá seguir...



Miguel Lourenço Pereira às 14:47 | link do post | comentar

Quinta-feira, 24.02.11

A dinâmica é irreversível. O futebol alemão está mais vivo do que nunca. Revigorado com a confirmação de que a barragem psicológica está, definitivamente, ultrapassada. A partir de agora a Bundesliga já é, oficialmente, a terceira liga mais importante do futebol europeu. O ranking da UEFA coroa uma irresistível ascensão preparada ao mais mínimo detalhe durante os últimos dez anos. Qual é o limite da Bundesliga?

 

 

 

Se a vitória do Internazionale, na final de Madrid em Maio, privou a Alemanha do primeiro troféu europeu em 9 anos, a desforra na noite passada do Bayern é, infinitamente, mais importante. Espelha a força de uma nação que soube ressuscitar das cinzas e plantar cara às grandes ligas europeias. O Calcio, que há quinze anos atrás era, unanimemente, a liga mais importante da Europa, sofreu mais um duro golpe. Apesar do triunfo in extremis do Inter de Mourinho, poucos em Itália acreditavam que a Serie A teria capacidade de aguentar o terceiro lugar do ranking europeu, o último que permite a entrada de 4 equipas na Champions League (mais 3 na Europe League). E tinham razão. A debacle da Sampdoria , Palermo e Juventus na segunda prova da UEFA obrigavam os restantes clubes italianos na prova a vencer todos os jogos - e ambas as competições - para resistir ao assédio germânico. Depois de Tottenham e Shaktar terem aberto a cova, coube ao Bayern a honra de sepultar o caixão. Serie A è piu sul podio...

Apesar de haver múltiplas razões para a queda desportiva da liga italiana (que a meados dos anos 90 era a rainha da Europa e que durante essa década teve mais representantes nas três finais europeias do que as ligas espanhola e inglesa juntas) é a espantosa afirmação da Bundesliga que marca esta mudança de rumo. A partir de 2012/2013 os alemães terão quatro vagas na Champions League onde, este ano, contam na fase a eliminar com dois dos três representantes (o Werder Bremen caiu na fase de grupos). Um êxito histórico mas previsível se atendermos à brutal diferença de números do campeonato alemão com os seus principais rivais europeus. A inversão começou a ganhar forma em 2006. A Itália, acabada de sagrar-se campeã do Mundo, saía também de um escândalo interno profundo (o Moggigate) que mudou definitivamente o rosto das equipas de top. Sem Juventus ou Fiorentina como representantes europeus, os italianos somaram nessa época (onde, curiosamente o AC Milan até se sagrou campeão da Europa) 11.928 pontos, a terceira melhor marca. Mas os alemães estavam a ganhar terreno, chegando a uns históricos 9.500, ultrapassando a Ligue 1 francesa, até então a quarta prova europeia. No ano seguinte, 2007/2008, os italianos somaram apenas 10.575 pontos contra os 13.500 dos alemães, segundos apenas atrás dos ingleses (que ocuparam os dois postos da final da Champions League e três dos semifinalistas). Quando 2008/2009 acabou, a Bundesliga voltou a recuperar terreno com 13.666 face aos 11.375 italianos. Mas foi em 2009/2010 que os alemães chegaram a números históricos (18.083) coroando-se como o pais com mais pontos somados ao longo da época e muito distantes dos 15.428 dos italianos (quartos na classificação geral após o titulo europeu do Inter). A nova temporada, que ainda vai a meio, limitou-se a servir como estocada final. A vantagem é tal que os alemães estão mais perto do segundo posto na tabela (da Liga espanhola que corre o risco de perder a maioria das suas equipas em prova nesta ronda) do que do calcio italiano.

 

 

 

 

 

Mas o que está por detrás desta profunda recuperação de uma liga que só foi, consensualmente, a mais forte da Europa durante um curto período dos anos 80?

O ranking da UEFA que corou a Bundesliga entre 1978 e 1982 como a liga mais forte do futebol europeu (numa altura em que o ranking contava para muito pouco) baseia-se na distribuição de pontos obtidos (que variam entre vitórias, empates, rondas ultrapassadas e competições ganhas) pelas equipas presentes nesse ano nas provas europeias como representantes de um país. Quanto mais equipas estão, menor é o lucro se as performances ficarem aquém da expectativa. Um cenário que Portugal viveu igualmente depois das brilhantes campanhas europeias de FC Porto e Boavista no inicio da década terem dado três equipas na Champions League à liga lusa (então quotada como a sexta liga europeia). Mas os fracos resultados do número exagerado de representantes lusos nas provas europeias comparativamente com a qualidade real da Liga Sagres significou a soma acumulada de um baixo quoficiente (sétimo no ranking em 2007, oitavo em 2008, décimo em 2009) que levou a uma inevitável queda na classificação que só se alterou com um regresso ao sexto posto final na época passada. A Serie A experimentou o mesmo problema. Enquanto que o AC Milan mantinha-se no topo da elite europeia, as performances de Inter, Juventus, Fiorentina, AS Roma, AS Lazio, Udinese, Sampdoria, Genoa, Palermo ou Napoli eram, sucessivamente, decepcionantes.

Enquanto isso os alemães, com seis equipas em prova mas com resultados gerais muito superiores, conseguiam trepar na classificação mesmo sem somar um único titulo (contra os dois italianos). As campanhas regulares de Bayern Munchen, Stuttgart, Schalke 04 ou Werder Bremen foram fundamentais para a soma de pontos. Mas se o ranking é a confirmação oficial, a realidade é que o estatuto de liga top há muito que ninguém discute ao futebol alemão.

Depois de uns anos 90 para esquecer - com problemas organizativos, falta de público nos estádios, dificuldade em gerir o fluxo de equipas e jogadores que vinham da liga da antiga-RDA - a Federação Alemã de Futebol propôs-se, no inicio dos anos 2000, a mudar profundamente a estrutura do futebol alemão a nível de clubes e de selecções. Uma mudança que demorou o seu tempo a concretizar-se e que ganhou um reforço substancial com a realização do Mundial 2006 que provou que o país centro-europeu estava no caminho certo.

 

A uma alteração profunda nas infra-estruturas (com o perfeito pretexto do Mundial) houve também uma alteração de mentalidade.

Os clubes alemães começaram a apostar seriamente na formação, incentivando os mais novos a desenvolver habilidades técnicas que vinte anos antes seriam impensáveis. Ao mesmo tempo começou uma significativa - e profunda - assimilação da forte imigração presente na Alemanha, seguindo o exemplo francês algo que foi sempre negado, por exemplo, a espanhóis e portugueses durante os anos 70 e 80. Com esse novo leque de jovens talentos começaram-se a construir equipas extremamente interessantes - Hoffenheim, 1860 Munchen, Dortmund, Leverkusen, Stuttgart e, sobretudo, Werder Bremen - que plantaram cara às grandes potências históricas, particularmente o Bayern que viveu entre altos e baixos durante toda a década. O público, agradado com as novas condições e - sobretudo - com a nova distribuição horária (para o qual ajudou muito a profunda melhora nos contractos televisivos num país onde toda a liga é dada em canais por pago) voltou aos estádios e permitiu em três anos aos clubes alemães igualarem os ingleses como os que apresentam melhor percentagem de espectadores por jogo. 

As multidões respondiam também à profunda melhora da qualidade de jogo e à nova mentalidade ofensiva que jovens treinadores como Schaff  Klinsmman ou Magath traziam às suas equipas. E com a profunda recuperação financeira germânica e a melhoria dos contractos com patrocinadores e televisão - num modelo que emulou o sucesso da Premier League - chegou também dinheiro fresco aos cofres dos clubes que souberam gastá-lo bem, criando equipas que funcionavam como um mixto do melhor da formação com nomes de grande talento e futura projecção. As chegadas de Arjen Robben, Franck Ribery, Diego, Ruud van Nistelrooy, Luca Toni ou Rafael van der Vaart deram outro glamour a uma liga que perdia, a pouco e pouco, a predominância germânica. Se é sabido que os jogadores alemães não gostam de sair do seu país natal (o que permite à Bundesliga manter quase exclusivamente a nata de uma selecção de top) a chegada de jovens promessas centro-europeias, sul-americanas e asiáticas e a inclusão de jovens de minorias étnicas locais (particularmente turcos, espanhóis e africanos) funcionou como um cocktail de primeira elevando, profundamente, o nivel médio qualitativo das equipas de uma liga que preferiu, contra toda a expectativa, manter-se com 18 clubes. Uma aposta que - aliada à pausa de Inverno, sabiamente administrada com uma organização de calendário exemplar - reforçou ainda mais a competitividade do torneio. Ano após ano o nível subiu e a Europa deixou de poder ignorar a profunda mutação do futebol alemão.

 

 

 

Uma mudança profunda e que veio para ficar. Os muitos torneios juvenis ganhos por selecções e equipas alemães garantem um futuro promissor. A perda de algumas figuras mediáticas é constantemente contrabalançada com a chegada de outros nomes sonantes. As performances dos clubes alemães na Europa não enganam e a qualidade de jogo da Mannschafft só encontra rival no igualmente maturo futebol espanhol. Apesar das distâncias serem ainda significativas - e da Liga BBVA não estar a passar pela mesma crise que o calcio - será curioso ver até que ponto o futebol alemão pode aproximar-se ainda mais do topo europeu e disputar a hegemonia do velho continente a ingleses e espanhóis. Para um país dinâmico e competitivo por natureza, o céu é sempre o limite.



Miguel Lourenço Pereira às 10:12 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quarta-feira, 15.12.10

Hoje cumprem-se 50 anos da chegada de Eusébio da Silva Ferreira a Portugal. Ontem cumpriram-se 10 desde que Lionel Messi aterrou em Barcelona. Dois nomes que já ganharam merecidamente o seu lugar na história do jogo. Duas aventuras intercontinentais que marcaram uma era desportiva e que explicam também como um jogador na equipa certa e no momento certo pode ser suficiente para definir uma era.

 

 

 

Eusébio tinha cumprido há poucos os 18 anos e chegou a Lisboa escondido sob um falso nome, de mulher, para escapar à vigilância dos dirigentes do Sporting. Passou umas férias forçadas no Algarve e teve de contemplar de longe a primeira grande noite de glória europeia do Benfica, do seu Benfica. Quarenta anos depois um pequeno argentino com um grave problema de crescimento colocou-se nas mãos do destino e com o pai, rubricou num guardanapo de papel a sua tremida assinatura que iria definir toda a sua vida. Duas aterragens sem pompa e circunstância, sem o poder da ribalta das milionárias apresentações do Real Madrid de Florentino Perez, da revolução moral que significou a chegada de Johan Cruyff a Barcelona ou sem a esperança recuperada dos milhares de napolitanos que acorreram a vitoriar Maradona. Não, estes dois humildes da bola chegaram incógnitos e assim ficaram durante meses, até chegar a hora de dizer presente.

Se houve um futebolista que pode ter rivalizado de igual para igual com Pelé e Di Stefano, esse foi Eusébio da Silva Ferreira. Se há jogador hoje que gera facilmente consensos no mundo do desporto, esse é Leo Messi. Dois atletas profundamente distintos na forma de interpretar o jogo mas com demasiadas similaritudes de caracter e historial para serem produto de um mero acaso. Eusébio e Messi marcaram (o argentino ainda o faz) uma era na história do futebol. Porque destilavam genialidades a cada momento no relvado. Mas essencialmente porque aterraram no sitio certo, à hora certa. Porque encontraram os projectos idóneos para crescer e explodir no momento exacto. Porque o Benfica dos anos 60 e o Barcelona contemporâneo foram, na sua medida, os expoentes máximos do futebol de ataque, do futebol espectáculo, do futebol que apaixonava os adeptos onde quer que estivessem. No filme In the Name of the Father, história de um irlandês injustamente acusado de pertencer ao IRA, as paredes de uma prisão britânica de alta segurança estão forradas com posters de Eusébio e galhardetes do Benfica, adorado em terras de sua Majestade desde que vergou as potências espanholas e bateu o popular Tottenham. Hoje Messi é o espelho do herói global, atleta reconhecido e apreciado onde quer que caminhe, com admiradores que vão das ruas de Rosario aos bairros de lata de Bangkok. Ambos tiveram rivais dignos à sua altura. Messi cresceu com Xavi e Eusébio com Coluna. O jovem moçambicano aterrou numa equipa campeã europeia onde gravitavam já grandes nomes (José Aguas, Germano, José Augusto) e grandes promessas (Torres, Simões). O argentino cresceu à sombra imensa de Ronaldinho e Etoo e viu explodir a seu lado o talento inato de Iniesta ou Busquets. Nada é obra do acaso.

 

A história já nos tratou de ensinar mil vezes a vida de um jovem moçambicano que se fez estrela e acabou por se tornar no icone futebolistico dos anos 60, a meio caminho entre o génio inato de Pelé e Di Stefano e o futebol total dos Beckenbauer e Cruyff. Ultrapassou Best, Charlton, Suarez, Fachetti, Garrincha, Gento, Greaves e companhia e pegou num pequeno clube e num pequeno país e fez deles alguém no panorama internacional. As condições daquele Benfica foram inigualáveis. Clube bem estruturado, com importante apoio estatal e financeiro, o clube encarnado aproveitou-se de Eusébio para despegar da luta de galos no futebol luso durante os quinze anos de mandato do marechal luso. Montou uma equipa de talentos à sua volta, explorou-o fisicamente para lá dos limites e afirmou um estilo e um modelo de jogo impar no panorama europeu. Utilizou a "cantera" africana como nenhum outro clube e definiu um projecto que durou até ao final dos anos 70. No meio dessa associação,

Quarenta anos depois, quando o pequeno argentino Messi chegou a Barcelona, a Masia vivia a sua época mais apagada, com os sucessivos mandatos de Louis van Gaal a deixarem para segundo plano o projecto de formação arrancado dez anos antes com Cruyff e Rexach. O desenvolvimento sustentado do jovem, auxiliado por um programa de crescimento hormonal fulcral para a sua sobrevivência como desportista, ocorreu tranquilamente longe dos holofotes. Com ele cresceram os génios de Pique, Fabregas, Iniesta, Busquets, Pedro e companhia, num estilo de aprendizagem que hoje espelha o trabalho de bastidores que há por detrás. Como Eusébio, o argentino foi recrutado novo e no estrangeiro e passou por um processo de assimilação que explica bem as similiaritudes entre a politica daquele Benfica e do actual conjunto blaugrana. Quando se estreou, quatro anos depois, no estádio do Dragão, bem ao lado de um terreno onde Eusébio exorcizou muitas vezes os seus fantasmas com tardes de gala, a formação estava completa. Com professores de luxo e essamentalidade incutida desde cedo, Messi transformou-se e com ele o jogo do Barcelona. O seu encontro com Guardiola funcionou como uma dessas raras simbioses que existe na história do jogo, muito similar à relação entre Michels e Cruyff, mentor do catalão. Pep pegou num jovem já consagrado e fez dele a peça nuclear do seu projecto. Retirou-o da ala, onde já se podia afirmar como  um dos mais completos futebolistas da história, e soltou-o no meio do terreno de jogo. Precisamente como Eusébio.

O luso não tinha posição no terreno de jogo. Num 4-2-4 clássico, Eusébio era a incógnita que destruia qualquer equação rival. Deambulava pelo terreno de jogo a seu belo prazer, associava-se com os colegas do miolo, das alas e da frente de ataque. E quando era necessário, decidia sozinho o que o colectivo era incapaz de fazer. Usava o seu temido arranque, a sua incomum força e o seu remate indefensável. Um estilo hoje mais similar ao do português Ronaldo do que aquele que destila o matreiro argentino, sempre de regate curto, bola colada ao pé, dribles estonteantes e remates colocados, mais em jeito que força, como uma suave brisa em comparação com o tornado africano.

Mas ambos tornaram-se vectores fulcrais na evolução táctica das suas equipas. Messi é hoje tudo  no ataque do Barça. Funciona como falso 9, apesar de estar Villa em campo. Descai para as alas para procurar a velocidade e vem até ao miolo começar o processo criativo que mamou desde pequeno, desde aqueles 13 anos com que aterrou em Can Barça. Por conhecer a história de trás para a frente, sabe onde tem de estar quando a jogada acaba. E por isso marca como poucos jogadores do seu estilo marcaram, aliando a técnica da criação, a diferença da explosão ao espirito certeiro do golo. Exacto, precisamente como...

 

 

 

Há 50 anos a história do futebol português conheceu uma reviravolta inesperado que se materializaria seis anos depois com a presença quase imaculada no Mundial de 66. No curriculum do "rei" Eusébio tinham ficado duas taças europeias, um Ballon D´Or, Botas de Ouro e uma admiração impar no Mundo, habituado a ouvir falar dos feitos de Pelé à distância. Messi continua por aí, a deambular sobre o tapete verde com o olhar perdido no mais abstracto dos sentidos. Depois a bola chega-lhe aos pés, e futebol acontece. Como há 50 anos. Como há 10 anos. Como sempre que a faísca da magia toca enrabietada na superfice da bola. Se na Luz ou se no Camp Nou, se na era gentleman dos 60 ou no exarcebado globalismo de hoje.  Génios e circunstâncias, assim se definem eras.



Miguel Lourenço Pereira às 08:33 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 18.11.10

No futebol conta o talento, a intensidade, a disciplina e a dedicação. Mas, acima de tudo, a atitude. Portugal é um país de 8 e 80´s, de depressões incuráveis e de euforias sem controlo. Está no ADN luso. Frente aos melhores do Mundo Portugal foi muito melhor. Em talento, intensidade, disciplina, dedicação. Mas, sobretudo, em atitude. A mesma que falhou na depressão da África do Sul, a mesma que pinta a euforia do dia depois. Uma goleada para a memória. Futura.

 

Errar é humano, rectificar é de sábios. E Paulo Bento merece, hoje, uma rectificação.

Portugal humilhou a selecção espanhola, a meritória campeã do Mundo (afinal ganha sempre quem merece), graças a uma das melhores exibições da década. E tudo fruto de uma clara mudança de atitude do onze luso que não estava para homenagens, cerimónias e parcimónias. Fez o favor à La Roja de estrear o seu novo equipamento com estrelinha incluida apenas para dar-se o gosto de provocar a segunda derrota humilhante em coisa de dois meses para os espanhóis. Depois do 4-1 em Buenos Aires (onde a Espanha foi mais Espanha), nova goleada em Lisboa. Sem espinhas, como a giria popular bem aponta. E num jogo praticamente sem defeitos por parte do onze luso.

O talento e disciplina táctica que havia foi finalmente acompanhado por um jogo de intensidade e dedicação. O ferido onze luso engoliu a equipa espanhola desde o primeiro instante e passou os 90 minutos a digeri-lo com o prazer obrigatório para uma boa mesa. E a culpa não pode ser atribuida aos vizinhos. Vieram com o onze de gala, o mesmo que subiu ao relvado do Soccer City (com Silva no lugar do lesionado Pedro) e manteve a mesma estrutura e filosofia, a que fizeram da equipa espanhola a mais admirada do Mundo nos últimos dois anos. Inesqueciveis para o futebol do país vizinho. Mas o que Portugal fez foi o que nenhuma equipa ainda tinha conseguido. Com autoridade, pressão asfixiante e velocidade na transição ofensiva. A equipa das Quinas fez tudo aquilo que nunca foi feito na África do Sul (e na Áustria/Suiça também). Não empastelou o jogo no miolo, não recuou demasiado e não abdicou de ganhar. Todo o contrário. A mesma táctica, sensivelmente os mesmos interpretes, uma atitude diferente. Foi o que bastou para destroçar os melhores.

 

O trabalho de Paulo Bento começa também a dar nas vistas pela capacidade de recuperar jogadores dados como perdidos para a equipa das Quinas.

A maça podre de Alvalade, João Moutinho, é talvez hoje o jogador luso mais em forma (exceptuando o caso excepcional de um renascido Cristiano Ronaldo, e em muito aqui a labor é de Mourinho) e mais determinante no onze nacional. O pequeno hobbit que tem pautado o excelente jogo do Futebol Clube do Porto não deixou Xavi, ainda o melhor do Mundo apesar do jogo mais do que cinzento de ontem, pensar. Existir. Reagir. Sufocou o médio catalão e emperrou a máquina espanhola. Carlos Martins, outro recuperado, trouxe a garra que lhe é reconhecida para ajudar a destruir e começar o processo de construção que culminou no seu excelente primeiro golo. No sector mais recuado, Raul Meireles, no lugar onde Pepe nunca fez muito sentido, capaz de patrulhar as movimentações de Iniesta e Silva primeiro, e de Cesc e Cazorla depois. Nesse trio Portugal começou a ganhar o jogo. Anulou a máquina espanhola e deu asas ao jogo rápido e concreto dos lusos. O apoio de João Pereira (outro ressuscitado) e Bosingwa foi determinante para a supremacia no miolo, com Ricardo Carvalho (e depois Pepe) e Bruno Alves muito seguros, concedendo pouco espaço de manobra às movimentações do trio mais avançado dos espanhóis. A boa labor no miolo permitiu o uso da velocidade de um Nani em estado de grçaa e de um Cristiano Ronaldo hiper-motivado. O jogador do Man Utd deu o primeiro aviso antes do recital CR7. Primeiro apontou um dos golos do ano, mal anulado por um fora-de-jogo que existiria se a bola não tivesse já entrada, o que não foi o caso. Ronaldo destroçou Pique e Busquets antes de bater Casillas. Mal o árbitro, aí e sempre, claramente preocupado em evitar uma goleada que mancharia a noite onde se comemorava a boa nota da candidatura Ibérica e a glória dos campeões do Mundo.

Depois, nova maldade imensa ao médio centro do Barcelona, que tentou de tudo para lesionar o português com vista ao derby do próximo dia 29, o jogador do Real Madrid aplicou um remate indefensável que Casillas não podia agarrar e que Martins terminou com mais alma do que outra coisa. Portugal há muito que merecia estar a vencer (Pique tinha tirado já um golo feito na linha de golo) e os espanhóis, em clara inferioridade técnica, acusaram o golpe. Na segunda parte seriam presa fácil para o jogo de transições rápidas instaurado por Bento. Danny (no lugar de Ronaldo), Nani e Moutinho, imenso como sempre, pautaram a goleada. O último dos renascidos, Hélder Postiga, apontou os dois golos seguintes (o primeiro depois de um gesto técnico primoroso) e Hugo Almeida fechou a conta já aos 90, para desespero dos espanhóis que pensavam vir a uma festa de confraternização e que acabaram por sofrer a goleada das suas vidas. Nunca Portugal tinha ganho por tantas a Espanha. Nunca a Espanha tinha sido tão boa selecção. O que faz com que a selecção portuguesa seja, realmente, o quê?

 

Mais do que humilhar os campeões do Mundo (que começam a sentir o peso da responsabilidade nos ombros), o que ficou foi uma excelente imagem do conjunto luso que destoa dos jogos a sério que têm sido um verdadeiro problema nos últimos cinco anos. Portugal jogou com a atitude e eficácia de uma equipa campeã. Num jogo a feijões. O trabalho de Paulo Bento começa a dar frutos. O lote de selecionáveis tem-se alargado (apesar de continuar a haver algum défice de correcção urgente), as rotinas tácticas estão assimiladas e os problemas de egos parecem ter-se resolvido por magia. O fundamental é transportar essa atitude aos jogos com equipas sem o prestigio da Espanha. Jogos esses que são os que dão apuramentos e finais. Jogos que podem ser ganhos com a espectacularidade da noite passada, mas que têm de ser enfrentados com a mesma atitude e eficácia. Assim se moldam grandes equipas. A de ontem de Portugal foi uma das melhores da última década. Afinal, a esperança é mesmo a última a morrer.



Miguel Lourenço Pereira às 09:46 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Domingo, 31.10.10

Houve muitos jogadores na história do futebol italiano a roçar a perfeição. Mas só um chegou a lograr realmente tocar o céu. Foi uma estrela numa era onde o marketing começava a criar os seus próprios mitos e marcou a magia do Calcio dos anos 80 e 90. Passou pelos três grandes de Itália e em todos deixou saudades. Il Divino só houve um. Roberto Baggio.

 
Houve poucos jogadores tão perfeitos como Roberto Baggio em campo.
O seu estilo de jogo era simplesmente magnético. Foi o maior exemplo do “regista” italiano, o falso ponta de lança criativo capaz de trazer magia a um estilo de jogo iminentemente táctico. Um craque entre vários que povoaram a liga italiana entre 1985 e 2000, o seu período áureo. Retirou-se em 2004 quase com 40 anos, 18 anos depois de ter começado a deslumbrar meio mundo. Com estilo, como sempre actuou.
Quando deu os primeiros pontapés na bola como futebolista profissional, naquele quente Verão de 1986 em Florença, o Calcio estava ferido de morte. As equipas tinham falhado nas provas europeias, a selecção campeã do Mundo em 1982 tinha sido derrotada sem apelo nem agravo nos Oitavos de Final do Mundial do México pela França de Platini e toda a geração de talentosos craques italianos estava a chegar ao seu fim. No meio de tanta maré negra poucos repararam naquele jovem de trato simples, ar honesto e toque genial. Durante a segunda metade dos anos 80 foi a inveja de Itália. Com a camisola viola da Fiorentina elevou á glória o pequeno clube toscano, conquistando vitórias históricas nos campos dos temidos Napoli, Inter, Juventus e AC Milan. Tinha-se estreado com 18 anos e nesse período falhou-lhe apenas um titulo. A paixão que despertava tornou-o em elemento chave da equipa italiana que ia receber o resto do Mundo no seu Mundial. Com uma selecção a anos luz daquela que oito anos antes fora campeã, Roberto Baggio tornou-se o patrão do futebol italiano, apontando golos de antologia como o que derrotou a Checoslováquia. Contra todos os prognósticos a Itália chegou até ás meias finais onde só caiu diante da Argentina de Maradona. Acabaria a prova em terceiro e agora tinha um novo ídolo para glorificar. 

 

A Juventus não perdeu tempo e assinou o contrato histórico no Verão que se seguiu ao Mundial. Baggio era o substituto de Platini no ataque de Turim e durante cinco anos foi o santo e senha do Calcio. A Juve logrou interromper o domínio do AC Milan e em 1995 sagrou-se dez anos depois campeã de Itália. No mesmo ano ganhou a Taça e iniciou uma nova era de triunfos. Baggio, que já tinha sido fundamental na conquista da Taça UEFA de 1993, vivia então o seu melhor momento. Em 1993 venceu o Ballon D´Or, apenas o quarto  italiano a lográ-lo depois de Sivori, Rivera e Paolo Rossi. Foi então que chegou o Mundial dos Estados Unidos. Depois de uma problemática fase de grupos, Baggio pegou na azurra ás costas e arrancou até à final. Eliminou praticamente sozinho Nigéria, Espanha e Bulgária para marcar presença na final de Los Angeles. Aí não logrou bater a bem organizada defesa do Brasil. Na série de penaltis foi chamado a marcar o decisivo. Nunca falhara. Falhou. O Brasil venceu e a Itália caiu em depressão. O rosto abandonado de Baggio no relvado marcou toda uma geração. Seriam precisos esperar mais doze anos para voltar a uma final de um Mundial. 

Com 27 anos, Baggio decidiu que era hora de abandonar Turim. O seu delfim, Del Piero, tornou-se no seu sucessor e o “regista” mudou-se para o eterno rival, o AC Milan, em 1996. No primeiro ano liderou a armada milanesa de volta ao Scudetto mas falhou na Europa e depois de dois anos o médio passou-se para a pequena cidade de Bologna, onde muitos o deram por acabado. A época brilhante que realizou devolveu-o ao onze da azurra disputando o Mundial de 98. Nesta ocasião não falhou o penalti decisivo mas foi traído por Di Biaggio e voltou para casa mais cedo. Mas de cabeça alta. Voltou a Milão mas desta feita para vestir a camisola neroazurri do Inter mas as duas temporadas em S. Siro foram complicadas. Já passada a casa dos 30 decidiu voltar a um clube pequeno, o Brescia. Aí deu o ponto final à sua carreira, mas só após quatro anos notáveis que fizeram mesmo os tiffosi a suplicar pela sua inclusão na equipa que disputou o Euro 2004. Não o foi e nesse Verão disse adeus aos relvados.  

 

 

Durante vinte anos foi o rosto mais emblemático do futebol italiano. Mais, elegido pela FIFA como um dos maiores desportistas de todos os tempos, é hoje natural olhar para trás no tempo e perceber que a magia italiana condensou-se toda em Roberto Baggio ao largo de toda a sua carreira. O espírito latino, a magia de rua, a disciplina táctica, o gosto pelo toque, a destreza técnica, o remate assassino. O jogador italiano perfeito, capaz de superar a magia de génios como Meazza. Mazolla, Riva ou Conti e o fantasma sobre o qual todos os “registas” posteriores tiveram de suportar. Seis anos depois de ter abandonado os relvados é fácil sentir saudades dos lances geniais com a imagem de marca de “Il Codino”, o eterno calciogiocattore.


Miguel Lourenço Pereira às 09:27 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Segunda-feira, 11.10.10

No futebol internacional estagnar é morrer. Talvez por isso se torne inevitável que depois de cada prova, a elite que saiu vergada por um rival mais poderoso insista na necessidade de começar do zero. Renascer, reconstruir, recomeçar. Sinónimos de uma realidade que não admite a ideia de que pode estar-se no caminho correcto perdendo. A finais de 2010 só duas equipas seguem à margem de revoluções. Espanha, porque ganhou e Alemanha, porque mereceu ganhar. Todos os outros continuam à procura de si mesmos num processo sem fim à vista...

Vicente del Bosque é um homem feliz. E com razões para sê-lo.

O afável seleccionador espanhol, homem impossíve de não admirar, confirmou esta sexta-feira que a sua Roja está para dar e durar. A ameaça de supremacia espanhola para a próxima década é real. Como era com a França de Zidane e companhia em 2000, quando juntaram a coroa europeia à mundial. Depois viu-se o que se passou. Mas na história tudo se repete e tudo está aberto à dúvida e no país vizinho há matéria prima para dar e vender. E, acima de tudo, há uma ideia de futebol, inatacável. Mas adaptável, a arma da sobrevivência. Contra a Lituânia a Espanha não tinha o seu maestro, Xavi Hernandez. O futebol rendilhado e estético não fazia muito sentido com uma defesa posicional perfeita. Funcionou o centro e remate, à inglesa, graças à presença de um homem de área que impõe respeito, Fernando Llorente. O plano B espanhol funcionou porque tem armas (centradores e cabeceadores) e atitude para que funcione. Saber jogar de maneira diferente é o primeiro passo para manter-se na elite. Del Bosque sabe-o e repete-o incessantemente. Por isso Espanha continua aí, inalcançável, no topo. Ele é o primordial constructor de catedrais moderno, o constructor de selecções.

Mas se é fácil ganhar e regenerar-se com tranquilidade (a última convocatória espanhol deu a entender isso mesmo), mais dificil é perder e manter-se fiel a si mesmo. Joachim Low é um homem coerente e é essa ideia que vem defendendo desde 2004, quando se juntou a Klinsmann no banco da Nationalmanschaft, que decidiu imprimir o seu cunho pessoal custe o que custar. Em seis anos conseguiu duas meias-finais de um Mundial e a final de um Europeu, sempre perdendo com o vencedor final. E a ideia não mudou. Em 2010 surgiram novos rostos e novas pernas. Mas a ideia ofensiva e atractiva é a mesma. Low vai trazendo a pouco e pouco as maravilhas que despontam no futebol germânico para render os veteranos. Mas o mais importante é transformar as jovens promessas em jogadores maduros e preparados para a alta competição. Foi essa a chave do sucesso espanhol. Espanha sempre teve jogadores e técnicos. Nunca teve foi um nivel competitivo capaz de aguentar até ao limite sem pestanejar. Esta nova Espanha é letal. Como o foi a Alemanha. Como Low quer que volte a ser. Que Ozil, Muller, Podolski, Kroos e companhia sejam autênticos matadores como os Villa, Xavi, Iniesta, Torres e companhia. Só assim poderão tirar a espinha espanhola da garganta.

 

Se a estabilidade é um bem precioso no futebol, mais o é no mundo das selecções.

Equipas feitas a retalhos, sem tempo para serem trabalhadas, as selecções são mais um case-study humano do que um fenómeno futebolistico. A função do seleccionador é mais a de gestor de grupo e mentor de uma ideia que funcione, seja quem for o jogador convocado. Foi isso que falhou nas grandes equipas nacionais que arrancam este ano um novo periodo de vida. Nenhum soube controlar o balneário, nenhum soube transmitir correctamente a sua ideia. A classe do atleta é algo que o técnico não pode controlar. Que Cristiano Ronaldo, Andrea Pirlo, Wayne Rooney e Frank Ribery desapareçam é mais culpa do jogador do que do técnico. Mas este tem de saber ter opções, planos B´s, alternativas. Não o teve nenhuma selecção da elite mundial. Algumas nem plano A realmente apresentaram. Agora toca recomeçar do zero, num contra-relógio angustiante.

Laurent Blanc teve um inicio pouco auspicioso. O treinador campeão no Girondins Bordeaux tem uma ideia. Futebol rápido, alegre e colectivo, acente numa estrutura defensiva forte e um ataque eficaz. Funcionou na Ligue 1. Tinha as armas certas. Em Clarefontaine terá algo pior, egos imensos que gerir. Benzema, Ribery, Evra, Gallas, Diarra são atletas problemáticos. O fantasma dos grandes da era do técnico ainda está aí, na cabeça dos franceses. Dar tempo e espaço a que os Remy, Briand, Mvila, Tremoulinas e afins assimilem essa ideia do técnico é a sua principal tarefa. Mais do que o 4-4-2 ou 4-3-3 por onde se movem no espaço, os jogadores terão de aprender a mover-se na mente do técnico. E a tornarem-se parte da engrenagem. Parte da solução. Nunca do problema.

Cesare Prandelli, o homem que recuperou a herança de Lippi, sabe como fazê-lo. Inverter tendência. A Itália campeã do Mundo jogava com a classe de um número 10 e o espirito colectivo reforçado. Quatro anos depois não havia nem fantasista, nem grupo. Os italianos nunca precisaram de goleadores (Toni quase que passou ao lado do Mundial da Alemanha), mas sempre tiveram um artista nas suas fileiras. Antonio Cassano foi resgatado do exilio e deu outro ar à azurra. Com ele a criar os operários desfrutam do jogo. São nomes pouco sonantes, jovens e com muito caminho que percorrer. Mas têm a quem admirar ao seu lado e isso ajuda-os a integrar-se numa equipa que vive da mesma ideia há cinquenta anos.

Mais complicada será a missão de Inglaterra e Holanda. Porque mantêm técnico e estrutura (leia-se jogadores), mas porque deixaram uma imagem agridoce. Estão no limbo. No perigoso limbo. Os ingleses tentaram ser continentais e perderam a sua fleuma e originalidade. Depois de Capello ter tentado convencer a Inglaterra a ser mais Itália agora são os ingleses a tentar convencer o italiano a ser mais inglês. Adam Johnson, Theo Walcott e Andy Carroll estão aí para recuperar o jogo de bandas com um killer na área. Na Holanda a final perdida foi uma ocasião flagrante para testemunhar o impalidecer do mais belo futebol da Europa. Uma tendência que já levava dez anos e que agora ficou a nú. Bert van Maarjwick sabe que tem de apresentar futebol, para lá dos resultados. Tem a matéria prima, tem os novos rostos, falta saber moldar a sua ideia ultra-competitiva a um modelo mais amigo do espectador. Ás vezes esse é o grande desafio. Aquele que Espanha e Alemanha superaram há muito e que todos os outros têm forçosamente de seguir. Para sobreviver a outro renascimento. Reconstrução. Recomeço. Chamem-lhe como quiserem. Os constructores de catedrais modernas nunca têm maus a medir.



Miguel Lourenço Pereira às 12:03 | link do post | comentar

Quinta-feira, 16.09.10

Nos jogos mediáticos que dão o pão aos milhares de jornalistas desportivos que sobrevivem para lá dos 90 minutos, a voz dos treinadores é fulcral para abrir ou fechar uma polémica sem sentido. Há os técnicos que apostam nesta guerra diária para manter os seus soldados firmes e outros que optam por responder em campo. Guardiola, talvez pela primeira vez, passou a linha e optou por entrar no confronto mediático. Acabou-se a "inocência" em Can Barça.

Quando irrompeu em Barcelona poucos davam algo, o que fosse, pelo sucesso de um treinador de 37 anos que tinha sido um brilhante jogador mas que no banco apenas passara uma época ao serviço da filial azulgrana. Três anos passaram e hoje esse mesmo treinador, Josep Guardiola, é uma das referências máximas nos bancos europeus. O seu Barcelona recuperou o fulgor do Dream Team de Johan Cruyff e a magia vertical do conjunto orientado por Frank Rijkaard. Aperfeiçoou o método e criou escola. Serviu como a base da equipa espanhola que se sagrou campeã europeia e mundial e criou um novo paradigma de jogo bonito.

Para lá dos seus indiscutiveis méritos tácticos - especialmente na relação de transições defesa-ataque onde explorou a defesa alta graças ao talento de Pique e à velocidade de Alves, sobretudo este, e Abidal - o catalão de Sant Pedor ganhou também a merecida reputação de gentleman dos bancos. Ao contrário dos seus rivais directos sempre procurou afastar-se de debates estéreis, desses que vendem jornais, criam egos, facilitam as campanhas de marketing mas que, para o jogo em si, têm pouca ou nenhuma importância. Escapou às discussões sobre Ronaldinho, vendido antes da sua chegada, e lidou com um silêncio sepulcral com a falta de "feeling" que teve com o camaronês Samuel Eto´o. Mimou sempre os seus jogadores, productos muitos deles da cantera que orientou, mas com uma profunda dose de realismo que não dava margem para grandes debates. E quando teve de defrontar-se nos jogos mentais dos rivais, predominantemente com José Mourinho, sempre se manteve à margem dos truques e dardos que poderiam ter beliscado a sua imagem quase esfingica. Mas o inocente Guardiola é já um rastro perdido do passado.

 

Para alguns é a presença de Mourinho - amigo mas eterno rival, nas disputas de paradigmas, métodos de trabalho e no duelo de génios criativos - que contribui para este novo Guardiola, mais arisco e menos conciliador. Para outros é a mudança na equipa directiva. Homem de confiança de Joan Laporta, a quem disse num principio que "no tendrás cojones" para o elevar a técnico principal do Camp Nou (falhada a contratação de...Mourinho) o técnico terá agora de trabalhar com uma nova direcção. Sem o seu amigo Txiki Begiristain como director-desportivo (substituido por outro velho colega, Andoni Zubizarreta), Guardiola sente-se mais distante do que nunca da direcção presidida por Sandro Rossell, o homem forte da Nike na Europa, valedor da chegada de Etoo e Ronaldinho e um homem que procura sempre o beneficio económico antes de qualquer coisa. A não-contratação de Cesc Fabregas, petição expressa do técnico, foi reflexo da politica de Rossell, de gastar pouco e manter boas relações com clubes patrocinados pela Nike, como é o caso do próprio Arsenal. Presidência essa que se manteve muda e calada durante a guerra de quase um mês que o treinador manteve com Zlatan Ibrahimovic. O sueco deixou de ser opção para Guardiola quando este teve de escolher entre Ibrahimovic e Messi. O primeiro foi relegado ao banco, o segundo ganhou a batuta ofensiva da equipa. Os problemas começaram no burburinho de um balneário composto por catalães e homens de confiança do treinador (Puyol, Xavi, Valdés, Pique, Iniesta, Messi, ...) e saltaram cá para fora quando o agente do avançado sueco começou a atacar pessoalmente o técnico. Guardiola estava isolado e teve de sair na sua própria defensa. E entrou no jogo. Para não mais sair.

O seu erro com Ibrahimovic (depois da saída de Etoo) deixou claro que Guardiola trabalha melhor com os seus homens de confiança do que com as suas apostas no mercado (Henrique, Keirisson, Chrygrinski que o digam). E entre todos, a sua debilidade é Leo Messi. Apesar de saber que conta com Xavi (um upgrade seu superlativo) e Iniesta (o médio avançado perfeito que nos anos 50 e 60 seria uma estrela mundial), a sua opção para número um é o argentino. Com ele no banco, Messi soltou-se da sombra de Ronaldinho e de Etoo, tornou-se no protagonista da orquestra, associou-se com Xavi e Alves e é o santo e senha do clube blaugrana. Uma debilidade tal que levou mesmo Guardiola a abdicar do seu papel neutral, onde se manteve durante dois longos anos com breves declarações repletas de desportivismo, e afirmar categoricamente que Messi "É o maior de todos. O segundo, seja ele qual for, nunca o alcançará". Palavras para quê.

Apesar dos inúmeros candidatos a "segundo", desde os flamantes holandeses Robben e Sneijder aos geniais espanhóis Xavi e Iniesta, supondo que Messi é, realmente, o primeiro, a ninguém lhe escapa que esta frase tem um destinatário: Cristiano Ronaldo. E com ele, José Mourinho.

Guardiola sempre escapou do duelo verbal com a entidade madrileña. Foi respeituoso com Schuster, Ramos e Pellegrini como poucos em Espanha souberam sê-lo. Nunca comentou as prestações de jogadores rivais nem os comparou directamente com os seus. Nem nas atribuições de prémios individuais, nem na antevisão de duelos directos. Mas agora, cercado por uma imprensa impactada com um José Mourinho mais cordial do que imaginavam, Guardiola teve a necessidade de reinvindicar o jogo do seu astro, e com ele, o do colectivo que orienta. Declarar Messi como o indiscutível número 1 - inalcançavel, intocável - é também atirar mais lenha à fogueira do eterno debate entre o argentino e o português. Um debate que agora perde força, essencialmente porque o novo número 7 do Real Madrid há muito que perdeu o ritmo e capacidade de surpreender que fizeram dele uma estrela em Old Trafford. Entre ambos é evidente que, hoje por hoje, Messi é mais completo, mais certeiro e mais constante. A Ronaldo falta-lhe a capacidade de surpreender, de improvisar e a regularidade que fez dele o número um indiscutivel em 2008. Mas se Messi está por diante de Ronaldo, a verdade é que o Mundial da África do Sul demonstrou que o argentino é um melhor interprete quando a orquestra que o rodeia (Pedro, Xavi, Busquets, Iniesta e agora também Villa) o potencia como um notável solista. Com uma equipa feita à sua medida - ao contrário dos seus "rivais", a sua superioridade perde força.

Mesmo perante essa evidência, a opção de Guardiola espelha, essencialmente, o final da tranquilidade em Can Barça. Adivinha-se um ano quente, com um ambiente de cortar à faca, entre Mourinho e Guardiola, entre Madrid e Barcelona. No meio dessa luta, dois artistas que se expressam melhor em campo que fora dele, são eleitos porta-estandartes dessa luta. Nem Messi reclamou para si esse protagonismo, nem Cristiano Ronaldo abriu um debate que não faz sentido. E quando todos imaginavam que sairia de Mourinho o primeiro dardo envenenado, eis que surge Guardiola como o "vilão desbocado", a abdicar dos seus principios de "gentleman", para ganhar o foco mediático. O técnico catalão ganhou a pulso o direito de exprimir a sua opinião como uma autoridade, mas a redundância do seu discurso implica, acima de tudo, um grito de guerra contra o eterno rival. Um grito disfarçado que vem em consequência de uma clara mudança de atitude desde o arranque da nova época.

 

O Barcelona continua a ser a avassaladora máquina de fazer futebol que tem marcado os últimos três anos do planeta futebol. Uma equipa que criou um paradigma de jogo, uma equipa que conta com um onze tipo perto da perfeição e que é orientado por um treinador que, apesar de não ser revolucionário, é alguém que soube interpretar com acerto a mutação genética que este Barça necessitiva. Mas o discurso de superioridade que chega de Barcelona deixa adivinhar que a humildade e o racionalismo que pautaram os dois primeiros anos do consulado de Guardiola têm os dias contados. O Barça de Guardiola (e de Messi, e de Xavi, e de Iniesta, e de Villa, e de....) quer-se agora acima dos demais. Mas no campo já se provou que a sua superioridade natural é contrariável. Nas conferências de imprensa, há uma guerra paralela que vai começar agora e que se estenderá até Junho. Sem inocência. E sem piedade.

 



Miguel Lourenço Pereira às 05:11 | link do post | comentar

Quarta-feira, 15.09.10

Durante a última década o Atlético de Madrid viveu num constante dilema interno. Cada vez que se aproximava dos seus objectivos parecia que uma qualquer fatalidade deitava tudo a perder. A alcunha de "Pupas" foi ganhando força entre os adeptos mais descontentes incapazes de imaginar que em pouco mais de meio ano o clube que Madrid às vezes esquece daria uma volta de 180 graus.

Ainda hoje é uma imagem impactante.

No estádio Camp Nou de Barcelona, meia hora depois da equipa da capital espanhola ter perdido a final da Copa del Rey frente ao Sevilla, a afición colchonera continuava no seu sitio. De pé. Aplaudindo. Gritando. Saltando. Um sentimento de orgulho numa equipa que meio ano antes parecia destinada ao abismo e que se soube reconverter no momento exacto. Os jogadores, deitados no relvado, não paravam de contemplar as hostes que tinham feito mais de seis horas de viagem para os apoiar. Ninguém prestava atenção ao palco, onde os campeões andaluzes celebravam o novo titulo. A força do Atleti estava ali, nas bancadas.

A equipa madrileña, eterna segunda força da capital desde a explosão definitiva do Real Madrid durante os anos 50, tinha acabado de vencer, dias antes, a Europe League. Um triunfo europeu que matava uma fome de mais de quatro décadas, a maior da história do futebol espanhol nos palcos europeus. Um triunfo sofrido, é certo, contra um inesperado rival, o Fulham inglês, mas que culminou numa noite inesquecível na praça Neptuno, no coração do paseo del Prado. Para inveja da sua vizinha Cibeles.

A vitória europeia do Atlético de Madrid e a presença na final da Copa del Rey ajudou a remendar um ano que arrancou desastroso. Sob o comando de Abel Resino, histórico guardião do conjunto rojiblanco, o Atlético fracassou estrepitosamente na Champions League e navegava em águas perigosas na Liga BBVA. A direcção optou por substituir o técnico pelo mais jovem e mediático Quique Sanchez Flores, com um passado reconhecido em Getafe e Valencia. Uma opção que fez tod a diferença.

 

Quatro meses depois a nave segue orgulhosa o seu caminho.

Dois jogos, duas vitórias no arranque da liga espanhola o que permite ao clube colchonero desfrutar de uma liderança utópica há anos atrás. A isso pode juntar-se a dupla consagração nos palcos europeus, com a vitória sobre o Inter de Rafael Benitez no palco monegasco onde se disputa a Supertaça Europeia. Um ano que arranca em grande e que promete grandes feitos para uma equipa que vive constantemente entre o céu e o inferno.

Diego FórlanSérgio Aguero, as traves mestras do 4-4-2 que mais se parece a um 4-2-4 ultra-ofensivo que Quique Sanchez Flores implementou a partir de Fevereiro passado, continuam aí, como as grandes referências de uma entidade que parecia ter perdido um lider quando Fernando Torres, o precoce capitão, rumou desalentado a Liverpool para esquecer as penas de anos de frustrações sucessivas. Com Torres (e Maxi Rodriguez, e Petrov e tantos outros), o Atlético pareceu sempre um bom projecto de equipa que nunca saiu do papel. Apuramentos europeus inconstantes, muitas jornadas de sofrimento e derrotas quase inevitáveis nos duelos com o eterno rival da capital foram desalentando os adeptos. A imprensa, afecta ao Real Madrid, começou a catalogar os adeptos do clube que não celebra um titulo de liga desde 1996 (ano em que conseguiu o "Doblete" com um onze fora de série), de "Pupas", ou seja, os eternos "doi-dois" infantis, sem estofo para uma prova de adultos. Um rótulo que foi ficando e que levou mesmo a direcção a arrancar uma campanha de marketing para os mais novos que começava sempre com a frase "Papá, porque soy del Atleti?". Anos depois das frustrações acumulados, os mais pequenos já o sabem. O Atleti voltou a ser a equipa de moda, levando os principais analistas a considerar o onze do Vicente Calderón a única equipa capaz de fazer frente ao excessivo poderio que continuam a demonstrar Barcelona e Real Madrid numa liga de estrelas demasiado bipolarizada.

Nem a saída de Jurado, no último dia de inscrições para o Schalke 04, parece esmorecer as ambições dos adeptos. Com o flamante De Gea nas redes, Perea reconvertido num defesa fiável, Ujfalusi e Dominguez certos nas alas e Camacho, Gomez, Mérida, Assunção, Reyes, Simão e Tiago no apoio ao "duo-dourado" do ataque, o Atlético pode, realmente, ambicionar a tudo. 

Num clube com uma história tão grande amor e ódio com o sucesso tudo é possível. Haverá sempre o cínico que pense que no final do ano os foguetes da festa colchenera à muito que estarão no longinquo esquecimento de mais um ano de desilusões. Mas dois triunfos europeus e uma final perdida em três meses é mais do que a maioria dos adeptos e dirigentes seriam capazes de imaginar. Voltar à Champions, repetir o brilharete europeu e bater-se de igual com os dois grandes de Espanha são os desafios do ano. Não são pequenos, mas o Atleti tão pouco o é... 

 



Miguel Lourenço Pereira às 14:00 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quarta-feira, 08.09.10

Na terra onde o tango ganhou forma e feitio, a selecção argentina bailou sobre a equipa campeã do Mundo com uma voracidade digna de qualquer marinheiro carpido das secas ruas de La Boca. Um diapasão musical iluminado por um Sargento Messi e a sua banda de Corações Solitários, capaz de orquestrar um jogo digno de roçar os limites perfeição. Como qualquer álbum dos The Beatles.

Messi teve, finalmente, "a little help from his friends" e deixou Vicente Del Bosque a suspirar por um "A Day in Life" enquanto que a aficcion espanhola certamente sentiu que estava sob o efeito de um qualquer "Lucy in the Sky With Diamonds". A hinchada argentina, que lotou por completo o imenso Monumental, sentiu a vida começava a ficar "Getting Better" a cada segundo de jogo. A orquestra funcionou à perfeição, a Argentina renasceu. E do outro lado ninguém suspeitava que estava a equipa campeã Mundial, apanágio do jogo belo do último biénio desportivo.

Sem a loucura de Maradona, esse profeta do desiquilibrio, e diante dos seus próprios adeptos, sedentos de sangue - o dos rivais ou, em última instância, o seu - o conjunto comandado por Sergio Batista afinou os acordes e aplicou-se num concerto inesquecível. Digno de entrar na história do futebol da albiceleste, pouco habituada a dar recitais de tamanha classe depois de anos de desprestigio internacional e desenganos inoportunos. O 4-3-2-1 que Batista montou na recepção à toda-poderosa Espanha, em pouco se parecia à ambiciosa aventura maradoniana que terminou aos pés da fria e rápida Alemanha, impedindo o duelo hispânico nas meias-finais do último Mundial. Os regressados Banega e Cambiasso deram o critério que faltava ao miolo argentino e a experiência de Zanetti frustrou o jogo pelos flancos da bem organizada Espanha. E à frente havia Messi, finalmente havia Messi.

O número 10 argentino realizou aquela que é, até hoje, a sua melhor exibição com a camisola do seu país ao peito.

O estádio do River Plate levantou-se para aplaudir o pequeno grande génio, ao minuto 88 (pouco antes tinha falhado um golo que teria consumado a humilhação espanhola), um verdadeiro Sgt Pepper´s capaz de organizar sozinho uma banda de talentosos solistas que, por uma vez, souberam actuar em conjunto com harmonia e paixão. Leo foi demoníaco na forma como desmembrou um meio-campo espanhol a quem só faltou Xavi (durante a primeira parte, rendido por Fabregas), mas que foi incapaz de o travar. O primeiro golo, um hino aos talentos do argentino, foi o exemplo de como o extremo é capaz de se transformar num tornado em movimento, verdadeiramente imparável. O segundo, com o selo de Gonzalo Higuain, confirmou o mérito da aposta do seleccionador da albiceleste em Carlitos Tevez. Descaído para o lado esquerdo do tridente ofensivo, o avançado do Manchester City encarnou a garra mágica da música bailada pelos argentinos. Um rift de guitarra para o primeiro golo de Messi. Um solo de breves instantes para o tento de Higuain e um grito de explosão capaz de arrebentar com qualquer cenário quando Pepe Reina (que parece sempre falhar nos momentos chave, que o digam os adeptos do Liverpool) tropeçou no imenso esférico e permitiu à Argentina marcar o terceiro golo com meia hora de jogo.

Uma meia-hora demoníaca em que os espanhóis se limitaram a ouvir a música que tocava no palco, aplaudindo timidamente. Se a Argentina até abrandou na segunda parte - com a Espanha, forçosamente, a procurar maquilhar o resultado com um quarteto ofensivo composto por Navas, Pedro, Llorente e Cazorla, com Xavi já com a batuta nas mãos - a verdade é que, tal como no maravilhoso álbum de 1966 que arranca furioso nos primeiros vinte minutos e depois abranda com uns suaves Within You Without You, Whem I´m Sixty Four - uma bela homenagem à longevidade de Zanetti e Heinze - e Lovely Rita, o final é imenso. A entrada de Aguero e D´Alessandro dá outra raiva ao ataque argentino que entre ambos - com o apoio do lateral-esquerdo - criam o quarto tento da equipa da casa. 

A Espanha até tinha reduzido, por intremédio de Llorente, que rendeu David Villa ao intervalo. Mas nunca existiu realmente, asfixiada pela pressão argentina e pelo ritmo diabólico dos Beatles de Buenos Aires.

Del Bosque alinhou uma equipa onde só Nacho Monreal não ostentava o titulo de campeão do Mundo. Silva, Fabregas, Iniesta, Villa, Busquets e Xabi Alonso compunham o sexteto ofensivo, mas o conjunto espanhol esteve muito longe daquilo que é capaz. Houve três bolas nos ferros, é certo, e alguma dinâmica ofensiva bem orquestrada no segundo tempo, especialmente quando Navas e Pedro abriram o jogo, até então demasiado afunilado pelo eixo central. Mas sem qualquer resultado prático, a não ser um tento de consolação que impediu uma humilhação maior.

Se o festival de futebol argentino se assemelhou em tudo ao mítico álbum da banda de Liverpool, o jogo da super-favorita Espanha (que aproveitou para fazer campanha de charme para a candidatura mundialista) parecia-se mais a Between the Buttons, o álbum contemporâneo de uns Rolling Stones ainda demasiado verdes para aguentar o ritmo alucinante da "Beatlemania". Se o traço de génio está lá - como estava nesse desvio de rota de "Suas Satânicas Majestades" - e o passado não se apaga, a verdade é que ficaram os primeiros sinais de alarme numa equipa que em dois anos ganhou tudo mas que nunca teve, realmente, de se medir a adversários na máxima força fisica e psicológica. Num terreno adverso, contra uma equipa motivadíssima, a Espanha encolheu-se cedo e demorou a esticar o seu futebol que rapidamente abandonou o preciosismo do toque lateral para uma maior verticalidade apontada nos solos de guitarra de Pedro e Navas, quais Keith Richards solitários numa banda mergulhada numa piscina de dúvidas e tropeções inesperados. Até porque a Between Buttons se seguiu Their Satanic Majesties Request, um flop ainda maior, e um periodo de incertezas que só acabaram com a morte de Brian Jones e o arranque de um novo ciclo musical com a dupla Richards-Jaggers já ao comando. A Espanha de ontem mostrou esses traços de grandeza que só se encontram em faixas perdidas no coração de albúns sem chama.

O triunfo musical dos argentinos é uma nota positiva com vista à próxima Copa América, especialmente porque demonstra que o génio que é Leo Messi começa a encontrar o seu espaço no futebol menos associativo e mais solidário do conjunto argentino. A sua demoníaca velocidade, aplicada sem piedade, será a grande arma de Batista para atacar o dominio continental, uma vez mais. Do outro lado do Oceano, a equipa espanhola lamberá tranquilamente as feridas de uma humilhação inesperada. Têm o tempo do seu lado para preparar uma renovação tranquila, com um apuramento facilitado rumo a um Europeu repleto de selecções, também elas, com as suas particulares psicoses musicais para resolver.



Miguel Lourenço Pereira às 09:09 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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