Sábado, 01.09.12

Em dois anos o Atlético de Madrid venceu duas Supertaças Europeias. Com duas equipas totalmente distintas. Só Gonzalo Godin, central uruguaio, participou como titular nos dois jogos. Uma revolução que contrasta com o sucesso europeu do clube. Dois projectos diferentes, duas Europe Leagues e Supertaças Europeias conquistadas com todo o mérito. Como é possível vencer depois de desmantelar uma equipa vencedora? Em Madrid o Atlético tem uma fórmula. Cheia de sombras escuras.

 

Falcao.

Um nome próprio que para os colchoneros vale ouro. E títulos. Mais do que os adeptos do segundo clube da capital espanhola podiam esperar. Especialmente depois da direcção do clube ter desmantelado uma equipa forjada para ganhar e que superou todas as expectativas, apenas dois anos antes. Em 2010, com Espanha ainda a desfrutar do título mundial conquistado em Joannesburgo, a equipa colchonera chegou ao Mónaco para disputar a Supertaça Europeia frente ao campeão europeu em título, o Inter de Milão.

Os homens de Quique Sanchez Flores tinham vencido a Europe League numa final intensa contra o Fulham inglês. Não eram favoritos. Mas venceram. E convenceram. Deixando a ideia de que o projecto forjado anos antes tinha finalmente pernas para andar. Mas a realidade seria bem distinta. Aguero, Forlan, De Gea, Simão, Tiago, Raul Garcia, Perea, Antonio Lopez, Ujfalusi, Dominguez, nomes próprios e titulares indiscutiveis dessa equipa. Nomes ausentes na noite de ontem. No mesmo cenário. Na luta pelo mesmo troféu.

O projecto de Quique terminou de forma abrupta. O treinador saiu em choque com a direcção e atrás dele foram todas as estrelas. Os adeptos não podiam acreditar que, meses depois de atingir a glória do primeiro titulo europeu, o projecto se estivesse a desmantelar de forma tão rápida. Mas não havia volta atrás. Esperavam-se dias sombrias no Manzanares para a paróquia colchonera. Ou talvez não.

Apenas dois anos depois, os adeptos do Atleti voltaram a percorrer os 1300 kms que os separava do Mónaco. Em carro, autocarro ou avião. Para ver Falcao, Adrian, Arda Turan ou Courtois, os novos ídolos do Calderon.

 

Que um clube europeu vença dois titulos europeus num espaço tão curto de tempo não é anormal. 

O Sevilla venceu duas Taças UEFA de forma consecutiva, o domínio do Barcelona no futebol europeu tem existido de forma, quase ininterrupta, desde 2006 e o próprio Real Madrid, entre 1998 e 2002 ganhou três Champions League. Mas em nenhum caso houve um corte tão drástico de um projecto para o outro. 

O Atlético de Madrid vendeu a 15 dos jogadores do plantel da sua equipa campeã em 2010. Godin e Raul Garcia são os únicos nomes que estiveram nas duas finais no espaço de dois anos. O que torna o feito ainda mais difícil de explicar se não se conhece a forma como o clube colchonero se move pelos meandros do futebol.

A herança de Jesus Gil y Gil é pesada. Tanto pelo seu carisma como pelo passivo gigantesco que deixou para o seu filho, Miguel Angel Gil Marin, e o seu braço direito, o productor cinematográfico Enrique Cerezo, gerirem. O clube foi forçado pelas finanças espanholas a assinar um protocolo para abater a dividia gigantesca que ainda mantém com o estado espanhol. E que tardará largos anos em pagar-se na sua totalidade. O acordo prevê que 20% da percentagem de cada venda de um jogador do clube seja directamente remetida para pagar a dívida. Sem sequer entrar nos cofres do clube. Uma realidade que obriga o Atlético a vender sempre que surge uma boa oferta. E que obriga o clube a procurar bons negócios. E a desenhar o seu plantel a baixo custo. A esmagadora maioria dos seus jogadores chegou ao Calderon a custo zero ou por valores ridículos, tendo em conta o mercado actual. Adrian, Arda Turan, Emre, Cebolla Rodriguez, Raul Garcia, Juanfran e Cata Diaz foram todos contratados a custo zero. Courtois está emprestado pelo Chelsea e assim seguirá, fruto de um protocolo de colaboração entre os dois clubes. Desenhado por Jorge Mendes, figura fundamental na vida do clube.

O empresário português é um dos homens fortes do clube desde a sombra. Uma das suas holdings tem fortes interesses no clube, ajuda a gerir os contratos publicitários e utiliza o nome do Atlético para servir de ponte para a maioria dos seus negócios. Pizzi, Julio Alves, Ruben Micael, Diego Costa, Tiago são meros exemplos. Não há homem que entre no clube sem o visto de Mendes, hábil em conseguir dinheiro onde mais ninguém consegue. Foi ele o valedor do negócio de Radamel Falcao. O homem que permitiu que os colchoneros voltassem a viver um dia da marmota.

Depois da perda de Aguero e Forlan, o ataque órfão do Atlético precisava de uma referência. O empresário português persuadiu o colombiano a mudar de homem de confiança, renovou o seu contrato com o FC Porto ampliando a cláusula (e ganhando uma comissão) e depois geriu a sua venda ao Atlético de Madrid (ganhando outra comissão) em moldes muito mais atractivos para os espanhóis. 20 milhões pago a prontos (dos quais os azuis e brancos só viram 10, entre comissões e dividas pendentes) e outros 20 milhões a pagar em dez anos. Ruben Micael, outro dos seus homens, entrou no negócio para maquilhar as contas mas em Madrid ninguém o viu. Acabou em Zaragoza e agora está em Braga. De onde veio Pizzi que está na Corunha, onde Mendes tem mais seis jogadores e de onde veio Adrian. Entendem? 

 

Falcao é o nome próprio deste Atlético. 

Atrás de si, Diego Simeone, velha glória do clube e técnico que fez nome na Argentina antes de dar o salto à Serie A, montou uma equipa repleta de talento mas, sobretudo, de musculo. Um meio campo com o trabalho duro de Mario Suarez, Gabi, Koke e Tiago, que dá asas ao jogo vertical de Adrian, Arda e Falcao. Falta Diego, outro jogador que chegou cedido para ser fundamental no titulo europeu conquistado em Bucareste frente ao Athletic Bilbao, mas cuja massa salarial é incomportável para os colchoneros. É no entanto o colombiano quem faz toda a diferença. Não foi só o terceiro melhor marcador da liga - insuficiente para levar a equipa à Champions League, o grande objectivo - mas também carregou com a equipa durante a Europe League até decidir a final. No Mónaco foi igual a si mesmo. Cinco remates, dois postes, três golos, tudo em 45 minutos. Um fenómeno apenas equiparável, em tempos recentes, ao de Ronaldo Nazário. 

Com o colombiano na equipa, o Atlético sabe que tem um projecto de rentabilidade a curto prazo. A directiva sabe que o objectivo é a Champions League e depois, com 15 milhões garantidos, é certo que Falcao será colocado de novo por Mendes, que muitos dos jogadores que chegaram a zero serão vendidos a peso de ouro e que o processo recomeçará de novo, desde o zero. Pelo caminho estão os jogadores ainda não pagos, como Fórlan, os sucessivos empréstimos conseguidos por Cerezo para pagar os salários a tempo e horas e o fantasma do novo estádio, La Peineta, para que o clube possa realizar o fundamental encaixe da venda dos terrenos do Calderon, numa zona privilegiada de Madrid. Números que, se não se concretizem, deixam o Atlético com a corda ao pescoço. 

 

Ninguém duvida que, com Radamel Falcao, os madrileños são de novo favoritos a vencer a Europe League e têm condições para acabar no pódio da liga espanhola. A segurança defensiva, a grande obsessão do Cholo Simeone, será fundamental bem como a crescente aposta na formação, uma linguagem que os espanhóis aprenderam a saborear com os troféus recentes da sua selecção. Mas os seus adeptos sabem também que enquanto o clube viver entre dividas, nenhuma festa se poderá prolongar no tempo. Talvez por isso cada vitória tenha um sabor ainda mais especial, talvez por isso sentir que Falcao, um jogador por quem se pagou tão pouco e que seguramente renderá tanto, é o exemplo perfeito desta gestão. Com os contactos certos, sem dinheiro fresco na mão e pensando apenas no hoje também se desenha um projecto ganhador.



Miguel Lourenço Pereira às 12:38 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quinta-feira, 30.08.12

Os prémios individuais em desportos colectivos são sempre dificeis de justificar. O mediatismo de um individuo supera sempre o trabalho de um todo e o glamour de um troféu ajuda a definir o contorno de uma carreira. No caso de jogadores que jogam debaixo dos focos, surgem sempre como uma curiosa surpresa. Mas nenhum jogador, entre o trio eleito, merecia mais o troféu de jogador europeu do ano do que don Andrés, o malabarista manchego.

Iniesta não tem o perfil de vencedor de prémios.

Vende poucas camisolas, não gera uma especie de palpitação única no coração das mulheres e não inspira, precisamente, os mais novos a ser como ele. Calado, branco como nenhum outro filho do calor de Albacete, cabeça baixa, está para o futebol moderno como outros gentlemans do passado estiveram para os grandes nomes da sua era. Mas por cada Messi, estrela global em todos os sentidos, está sempre um Iniesta. E há quem arrisque, ás vezes como se fosse pecado, a dizer em voz baixa que talvez o lado humilde do espelho seja maior do que o lado mediático. No caso de Iniesta, poucos duvidam.

O médio espanhol é o herdeiro natural de Zinedine Zidane. O francês também demorou largos anos a habituar-se ao protagonismo. Em Bordeaux e Turim já exibia todo o seu talento, já vencia competições nacionais e internacionais, já liderava a sua selecção à glória suprema. Mas, de certa forma, ainda vivia longe da imagem de glamour que herdou com a camisola 5 quando Florentino Perez fez dele o seu segundo Galáctico. Se os melhores anos da sua carreira foram os passados na Juve, a memória colectiva lembra-se dele de branco ao peito, essa associação de um clube e projecto mediático ao seu ser tranquilo e longe de qualquer suspeita. Iniesta seguiu-lhe as pisadas. Começou por baixo e sofreu as duras penas de ser suplente de um Deco estelar na sua chegada ao Camp Nou. Foi encontrando, a pouco e pouco, o seu espaço no projecto de Rijkaard mas, como dizia Guardiola, o manchego estava destinado a outros voos.

Pep tinha dito a Xavi que este seria o responsável pela sua reforma, mas que Iniesta os acabaria por superar aos dois. Partindo do principio que Xavi Hernandez já não voltará a vencer um troféu individual depois de três anos a bater à porta, mediaticamente o Mundo partilha da ideia do ex-técnico blaugrana. Se o AC Milan de Sacchi viu Gullit e van Basten vencerem o Ballon D´Or, agora é o Barcelona do projecto guardilesco que tem em Messi e Iniesta duas estrelas premiadas a ouro.

 

Há quem diga que troféus como este pecam pela dificuldade do adepto em perceber o que realmente se premeia.

Se um ano natural concreto, se uma temporada, se uma carreira, se o talento puro e genuino ou se um evento marcante em que um jogador deixou a sua marca. O desaparecimento do FIFA Award e a posterior fusão com o Ballon D´Or da France Football trouxe ainda mais confusão porque afastou os jornalistas do papel de protagonistas, à hora de votar, e entregou aos capitães e seleccionadores do mundo o poder de decidir. É dificil de compreender a decisão porque a principal consequência, como se viu em 2010 com a ausência de Wesley Sneijder do pódio, centra-se na excessiva mediatização do prémio. Por esse mundo fora serão sempre os jogadores mais mediáticos, leia-se Messi e Ronaldo, a somar mais votos simplesmente porque são aqueles que o Mundo realmente conhece de memória. Votar em Falcao, Drogba, Xavi ou Casillas torna-se num problema quando se pode eleger, ano atrás ano, entre o argentino e o português.

Michel Platini, num gesto oportuno, daqueles que domina bem como fazia com a bola nos pés, aproveitou o vácuo deixado pela publicação francesa e juntou de novo a imprensa que o coroou como o primeiro jogador a vencer 3 Ballon D´Ors consecutivos para um novo prémio. Um prémio que relembra a ideia inicial da France Football, com a introdução de jogadores não-europeus (que impediu Pelé e Maradona de vencer uns quantos troféus), como alternativa lógica. Ainda não tem, se é que alguma vez terá, o peso mediático da Bola de Ouro, mas a ideia é louvável. 

Que o vencedor de este ano seja Andrés Iniesta contribui, ainda mais, para abrir essa terceira via.

Lionel Messi é o jogador mais espectacular do Mundo. Se o talento puro fosse o único condicionante, provavelmente o argentino iria vencer ano sim, ano também. Mas Messi, dentro de toda a sua grandeza, já venceu dois prémios da France Football sem merecê-lo e não viveu em 2011/12 o seu melhor ano individual. Cristiano Ronaldo, que vive amargado na sombra do argentino, ficou duas vezes à porta da glória. Penaltys fatidicos, um falhado e outro que nem se atreveu a marcar, que ditaram o seu destino. Tivesse o Real Madrid vencido a Champions League ou Portugal eliminado Espanha e ninguém questionaria o seu triunfo. Mas a hora de Iniesta tinha de chegar.

Foi o melhor jogador espanhol do Europeu. Foi um dos melhores jogadores do Barcelona durante a época, carregando tantas vezes com a equipa às costas quando o Real Madrid fugia na tabela classificativa e contra o Chelsea o seu desaparecimento condenou os blaugrana a uma derrota inesperado. Podia tê-lo ganho em 2010. Podia tê-lo ganho em 2011. Venceu em 2012 e não há uma voz no mundo que se alce indignada.

 

Iniesta é o herói humilde do jogo de todos. Não tem a preparação fisica de Cristiano Ronaldo e o espirito potrero de Messi. Mas tem a magia do futebolista tranquilo. O conhecimento táctico que lhe permite ler os jogos como nenhum dos outros dois é capaz. Lidera desde o silêncio e decide jogos decisivos com a frieza dos maiores. Desde Zidane que nenhum jogador do seu perfil tinha chamado a atenção do Mundo, nesse imediatismo voraz de procurar o espectáculo pelo espectáculo, o golo pelo golo. O espanhol é filho da escola que, mais do que os artistas individuais, ajudou o mundo do futebol a crescer, a fazer-se popular, a fazer-se arte. Iniesta nasceu para triunfar. Finalmente o Mundo parece ter-se dado conta.



Miguel Lourenço Pereira às 15:26 | link do post | comentar | ver comentários (27)

Terça-feira, 21.08.12

Messi marca dois golos em cinco minutos. O Valencia mostra ser o único capaz de resistir à ditadura goleadora do Real Madrid. O Barcelona arranca a época com goleada. Os golos escondem a pobreza da maioria dos duelos. A época é nova mas a realidade mantém-se igual. O futebol espanhol parte para a nova temporada com o orgulho do título europeu renovado e a certeza que o duelo Barça-Madrid vai voltar a ser até ao fim.

 

Higuain. Jonás. Puyol. Castro. Messi. Messi. Pedro. Villa.

Entre eles se repartem os oito primeiros golos marcados nos dois jogos de Barcelona e Real Madrid, esse clube exclusivo que mantém o interesse do  Mundo numa liga cada vez mais mal organizada, cada vez mais dividida entre uns e outros e cada vez mais distante da imagem de supremacia absoluta que exibe, com orgulho, a selecção do país vizinho.

Semana após semana adeptos dos quatro cantos do Planeta vão parar para ver, ler, ouvir e seguir atentamente os combates à distância entre os dois máximos candidatos a todos os títulos da época, espanhóis e europeus. A diferença de planteis e orçamentos dos dois clubes com o resto é tal que esse duopólio se torna inevitável. Sem resolver a negociação dos direitos televisivos, o fosso aumenta e com ele esse espirito quase claustrofóbico em que vive o futebol espanhol. O Valencia demonstrou no primeiro jogo o que tem vindo a conseguir nos últimos cinco anos. É o único clube que, apesar dos problemas financeiros, se mantém minimamente perto do duo da frente. Mas com uma distância considerável. O empate no jogo inaugural do Bernabeu não é novidado. O ano passado houve menos dois golos mas os pontos foram divididos da mesma forma. O Real venceu o título, o Valencia venceu o título da outra liga. E o Barcelona, em casa, goleou. Como fez quase semrpe nos 19 jogos disputados no último ano de Guardiola. O novo comandante da nau blaugrana, Tito Vilanova, prometeu manter-se fiel ao guardiolismo sem guardiola. Os números e o estilo de jogo dão-lhe razão. Poucos deram pela diferença. Messi continua a ser Messi, e quando é assim, os golos surgem com uma naturalidade única. Foram dois em cinco minutos. Podiam ter sido mais dois. Ninguém teria ficado demasiado surpreendido. A vitória do Barcelona entrega-lhe não só a liderança matemática na primeira ronda, o que é irrelevante, como deixa boas sensações para o primeiro combate de boxe a sério entre blaugranas e merengues, uma Supertaça express a decidir em poucas horas e com muito simbolismo à mistura.

 

Na passada época o Real Madrid começou a dar sinais de que esse podia ser o seu ano no duplo confronto inicial com o Barça.

Perdeu o titulo mas ganhou em futebol, ganhou em confiança e autoridade. A pré-época tinha sido feita a pensar na simbologia desse duelo e no final as pernas começaram a faltar também por culpa dessa obsessão de Mourinho. Este ano o português prometeu pensar mais na liga e na Champions e menos no seu duelo pessoal com o clube catalão. Já lhes venceu na Copa del Rey, já lhes venceu na Liga e agora a Champions é a última fronteira. Com ou sem simbolismo a Supertaça pareça, nesse sentido, algo supérfulo a todos os sentidos. Mas em Barcelona não o é.

O clube é um leão ferido e depois de uma semana dolorosa, onde perdeu liga, Champions e um treinador de lenda, vencer o primeiro confronto directo com o eterno rival pode ser um bálsamo precioso. A chegada de Song traduz-se numa adaptação definitiva de Mascherano a central. O golo de Villa garante que o Guaje é o reforço no ataque que fazia falta e com os mesmos de sempre, Vilanova sabe que tem o melhor plantel da Europa à sua disposição. A pressão é imensa mas a margem de crescimento é evidente.

O Mundo, esse, continuará a ver nos duelos Barcelona-Madrid a essência do futebol espanhol, passando ao lado da crua realidade.

Clubes com salários em atraso há meses, contratos televisivos desrespeitados, horários insultuosos, guerras de poder nos bastidores, jogadores de talento que se vão e poucos que chegam e, sobretudo, uma progressiva perda de qualidade nas equipas de meio da tabela. As baixas no Athletic de Bilbao de Bielsa, a juventude do Atlético de Simeone, entregue agora a um rapaz de 17 anos que despontou no Europeu de sub-19, a falta de liquidez do projecto de Pellegrini com o Málaga e os orçamento apertados de Sevilla, Bétis, Espanyol, Mallorca, Deportivo, Real Sociedad, Getafe ou Levante não deixam de preocupar o adepto neutral que, face a esse cenário, não se pode surpreender quando, semana atrás semana, Messi e Ronaldo goleiam a seu belo prazer defesas que, na totalidade, valem metade das suas botas. 

 

O futebol espanhol continua entretido a brincar aos títulos europeus e mundiais e aos duelos de capa e espada de Barcelona e Madrid. Por detrás da glória há um imenso problema estrutural que foi a base da depressão que vive agora a Série A. O dinheiro começou a faltar, os clubes que aspiravam a algo foram desaparecendo, a televisão não acompanhou as mudanças e a Liga estagnou até morrer à sede. Mediaticamente continua a ser um torneio apaixonante por esse duelo maratoniano, mas futebolisticamente a Liga espanhola vai caminhando, progressivamente, para uma long depressão. Novo ano, nada de novo! 



Miguel Lourenço Pereira às 00:08 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 07.06.12

Paulo Bento não surpreendeu muito com a sua convocatória e Portugal será, na Ucrânia, um fiel espelho do que foi na fase de qualificação. Uma selecção desiquilibrada da cabeça aos pés, sem figuras individuais capazes de acompanhar o jogo pelas alas de Nani e Cristiano Ronaldo e que terá no duelo contra duas das três melhores equipas em prova, o teste de fogo mais claro que alguma versão da equipa das Quinas teve. Ao contrário de 2000, onde Inglaterra e Alemanha eram apenas grandes de nome, futebolisticamente esta equipa portuguesa não está ao nivel de holandeses e alemães. O apuramento, impossível, seria o milagre que Portugal nunca logrou verdadeiramente na sua história. Voltar para casa cedo parece inevitável, Cristiano Ronaldo e os restantes 22 tentarão provar que o futebol ainda é uma caixa de surpresas.

Contar com o jogador mais em forma do futebol mundial é um luxo com que poucos podem contar. 

Mas Cristiano Ronaldo chegou em 2008 no mesmo estado de graça - mais ainda, talvez, pela conquista da Champions League - e com uma lesão inoportuna no pé e no torneio na Áustria e Suiça foi inconsequente ao ponto de nem ter sido o melhor do conjunto luso. Se o corpo o respeitar, Ronaldo quererá trazer para Portugal a mesma fome de titulos que começa a saciar em Madrid nesse duelo invisivel que mantém com Messi sobre quem é o melhor jogador do Mundo. O Europeu, uma vez mais, será o seu palco de espectáculo.

Como se viu no último Mundial, não basta ter Ronaldo para que Portugal repita os êxitos logrados na primeira metade da década passada. O forte da equipa lusa, desde 2000, foi o seu colectivo e é aí que estão os maiores problemas, agravados pela gestão de Paulo Bento. O seleccionador nacional utilizou a convocatória final para pagar os favores que deve ao grupo de empresários que estão por detrás da sua nomeação como treinador principal da equipa nacional portuguesa. Uma prática habitual na América Latina, que já levou até um seleccionador brasileiro a ser destituído e processado, mas que em Portugal, sob a benção de Jorge Mendes, passa ao lado com pretextos futebolisticos incoerentes.

Em casa ficaram Quim, Nélson, Eliseu, Hugo Vieira, João Tomás, Manuel Fernandes e Nuno André Coelho, todos eles com uma mais que digna temporada ás costas. No seu lugar chegam à Ucrânia Ruben Micael (inconsequente no Zaragoza), Eduardo (não utilizado por Jesus durante quase toda a época), Nélson Oliveira (nenhum golo apontado em provas de alto nível), Miguel Lopes (despontou apenas nas últimas doze jornadas) e Varela, Rolando e Ricardo Costa, todos eles autores de épocas bastante irregulares. 

Claro que o facto da esmagadora maioria destes jogadores serem representados pela Gestifute seguramente que nada tem a ver com as opções de Bento, isto apesar de Hugo Viana, jogador com uma das melhores temporadas do lote de seleccionáveis só ter chegado à equipa depois da lesão de Carlos Martins, e, talvez pior ainda, depois do pretexto dado por Bento ser a sua total falta de capacidade para se adaptar ao jogo da selecção. Paulo Bento sabe que o seu onze base está definido e que, portanto, os restantes doze elementos serão mais figuras de corpo presente do que alternativas válidas. Optou por criar um grupo à sua medida em vez de escolher os melhores ou os mais aptos. É uma aposta pessoal e tem todo o direito em optar por ela, para isso é o seleccionador. Se o resultado final não acompanhar, a responsabilidade também será sua.

 

Portugal chega à Ucrânia fiel ao seu 4-3-3 e a um jogo sem criatividade e transições rápidas.

Ronaldo e Nani pelas alas serão os alvos preferenciais dos lançamentos largos de Meireles e Moutinho, ficando a dúvida se jogará Hugo Viana no meio do miolo ou se o técnico opta por uma versão mais defensiva com Miguel Veloso ou até Custódio como elementos mais recuados do triângulo. No centro de ataque a mobilidade de Hélder Postiga pode ganhar metros ao jogo mais fisico e estático de Hugo Almeida, especialmente no duelo inaugural contra uma Alemanha que conta com dois centrais imponentes.

Na defesa está, curiosamente, o sector mais coerente do projecto Paulo Bento. Pepe e Bruno Alves serão a dupla titular, como tem sucedido no último ano, e Fábio Coentrão e João Pereira os responsáveis pelas alas. O defesa do Real Madrid teve uma época mediana, perdeu o combustivel que o fez destacar no último Mundial precisamente mas dentro do leque de opções em Portugal continua a ser a escolha mais óbvia. Com João Pereira o seleccionador resolveu o problema com a não-convocatória crónica de Bosingwa e a opção por deixar Nélson de fora. O defesa do Sporting, competente quanto baste, terá pela frente Podolski, Rommedahl e Robben, tarefa nada fácil. Nas redes o seleccionador optou pelo seu protegido, Rui Patricio, importante na campanha europeia do Sporting mas ainda verde para os grandes torneios internacionais. Com Eduardo sem jogos e Beto como figura secundária de favor, ninguém questiona a titularidade do jovem guardião.

Se o onze base e as poucas opções são óbvias, o destino de Portugal não parece alentador.

A comunicação social relembrará seguramente os casos de 1966 e 2000, a única vez na história em que Portugal se encontrou em grupos com rivais complicados. Se em 1966 a lesão de Pelé fez muito pela má performance do Brasil, em 2000 a Alemanha e Inglaterra foram tão decepcionantes que nenhuma delas seguiu em frente. E então falava-se de duas gerações únicas na história do futebol português. Noutros casos, como 1986, 1996, 2002, 2010 ou 2008, a performance lusa passou do mediocre ao satisfaz e entre 1984, 2004 e 2006 encontramos os outros episódios em que Portugal pôde sentir-se orgulho da sua selecção. Mas em nenhum deles a equipa das Quinas teve de arrancar com dois rivais de este calibre. Isto, sem esquecer, que a equipa de Bento terminou a fase de grupos atrás da Dinamarca, o terceiro adversário na primeira fase.

Sendo assim o normal é pensar, se o futebol fosse lógica pura, que Portugal seria o último do grupo. A lógica dos resultados prévios, a falta de capacidade de gerar jogo convincente e entusiasmante e a profunda debilidade do plantel de 23 não convida a sonhar muito alto. Em 2008 e 2010, já com Portugal a entrar numa profunda fase de decadência, um grupo acessivel permitiu passar à fase seguinte, onde a selecção acabou eliminada de imediato por Alemanha e Espanha. Se é certo que historicamente o futebol português cresceu nas grandes e agónicas noites de glória, não é menos certo que este muro parece ser realmente alto demais para trepar.

 

E isso significa realmente o quê? O azar do sorteio de uns é a sorte de outros e Portugal viveu durante 12 anos o lado afortunado das bolinhas amarelas. Ser eliminada num grupo desta qualidade não tem nenhum inconveniente a médio prazo se o futebol português tivesse um plano de futuro estável. A França caiu nos últimos dois torneios na primeira fase e não é por isso que deixa de ser uma potência do futebol mundial. Portugal já não está ao nivel de favoritos que viveu entre 2000 e 2008 mas continua a ser uma selecção que marca presenças em grandes eventos, algo que contraria o estado real de um país que até 1996 vivia os Europeus e Mundiais sempre desde casa. É pena que a presença dos vice-campeões do Mundo de sub20 seja reduzida a um elemento, que os interesses pessoais de um grupo que gere o futebol da Federação falem mais alto que uma ideia de futebol e que Portugal não tenha aprendido absolutamente nada dos exemplos espanhóis, alemães e franceses. Mas vencer ou perder um Europeu, como provou a Dinamarca ou a Grécia, não faz uma potência futebolistica. Sem nunca ter ganho nada, Portugal foi um exemplo de formação e de longevidade da sua melhor geração. Agora esqueceu-se de como se fazem as coisas e chegar cedo da Ucrânia pode servir como o despertar emocional que tanta falta parece fazer ao futebol português.

 



Miguel Lourenço Pereira às 11:50 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 06.06.12

Á partida a Ucrânia é, da dupla organizadora, a que tem mais condições para sonhar com um lugar nos Quartos de Final. Mas o grupo D é traiçoeiro, nem que seja pela profunda regeneração que atravessam as seleções francesa e inglesa, dentro e fora de campo, que transforma o seu histórico papel de favoritos numa incógnita. Os suecos, equipa que tradicionalmente se fica pela primeira fase, poderão acabar por ser o juiz do apuramento nos seus três duelos com os favoritos.

 

A escola do Dynamo Kiev, o sucesso recento do Shaktar Donetsk e o crescimento sustentado da liga ucraniana ajudam a devolver a ex-república soviética à elite do futebol internacional. Mas depois de falhar o Mundial da África do Sul e o Europeu de 2008, fica a sensação que os ucranianos teriam muitos problemas em viajar ao seu próprio torneio não tivessem garantida à partida a vaga de anfitriões. 

Numa selecção onde ainda joga Andrey Shevchenko, a anos-luz do jogador que foi, pode-se esperar de tudo e há pouca gente que aposte dinheiro na continuidade dos ucranianos no torneio passada a primeira fase. Oleg Blokhin, talvez o melhor jogador ucraniano da história, não tem um grande curriculum como técnico principal e o seu trabalho como seleccionador passa, sobretudo, por manter um equilíbrio entre a velha guarda de Kiev e os novos nomes que começam a despontar em Donetsk, uma relação que nem sempre tem sido fácil.

A titularidade quase garantida de Shevchenko é quase mais um problema do que uma solução, sendo que é dificil ver ao técnico alinhar ao mesmo tempo o Ballon D´Or com Artem Milievsky, o mais talentoso jogador do lote de convocados, mas um jogador sem a disciplina táctica que se vai exigir a uma equipa que terá de defender mais do que atacar e que já tem no seu histórico capitão uma figura fora do baralho defensivo. Blokhin tem baixas sérias na defesa, do guardião Pyatov ao defesa Chygrinski e terá de apostar na juventude de Koval e numa linha composta por Kucher, Rakitsky, Mikhailyk e Shevchuk. No meio-campo a experiência de Tymoschenko, jogador do Bayern Munchen, será fundamental para dar equilíbrio a um desenho por onde se vão mover Alyev, Rotan, Yarmolenko, Garsmah ou Gusev, um quarteto atrás do duo ofensivo que será sempre Shevchenko+um, quem sabe Voronin, longe dos seus melhores dias.

Sem ter o seu melhor onze e com uma profundidade de banco bastante ligeira, os ucranianos sabem que a pressão de ser anfitriões é outro contra numa lista onde há poucos prós. Abrir o torneio com a Suécia, num duelo que pode valer 3 pontos fundamentais para a contagem final, é uma das suas poucas armas, sabendo que qualquer resultado do França-Inglaterra obrigará a uma das selecções jogar o tudo por tudo no duelo com os homens da casa.

A chegada de Laurent Blanc ao leme da selecção francesa foi a lufada de ar fresco que o futebol gaulês necessitava.

Depois de revolucionar Bordeaux, o técnico soube realizar uma limpeza cirúrgica após a hecatombe do Mundial da África do Sul e os grave problemas disciplinares que se seguiram. Separou o trigo do joio, apostou entretanto numa nova vaga de talentos que, apesar de não estarem à altura das duas gerações douradas pretéritas, acabam por dar aos Bleus armas suficientes para ser a surpresa da prova.

Apostando num 4-3-2-1 equilibrado tacticamente, com Benzema, Ribery e Nasri como principais interpretes ofensivos, os franceses chegam à Ucrânia desejosos de reencontrar-se com o bom jogo e os melhores resultados. O grupo é traiçoeiro, especialmente o arranque com a Inglaterra, uma selecção com quem os franceses têm um historial misto cheio de desencontros. Mas Blanc confia que a metamorfose espiritual que foi exercendo nos últimos dois anos faça efeito.

Ribery e Benzema chegam inspirados depois de um ano ao mais alto nível internacional. Nasri acabou de sagrar-se campeão inglês, apesar de não ter tido todo o protagonismo que queria. E Jeremy Menez e Olivier Giroud  vêm de bons anos na liga doméstica. Eles serão os responsáveis de fazer a diferença no ataque mas, como bom central, Blanc soube construir a sua equipa detrás para a frente partindo de um dos melhores guarda-redes da actualidade, Hugo Lloris, para um eixo defensivo onde se movem Mexés, Evra, Rami ou Clichy. A baixa por lesão de Sagna e a doença de Abidal são um duro golpe mas em Reveillere ou Debuchy, o técnico tem alternativas sólidas. O meio-campo, centro nevrálgico onde o futebol francês sempre construiu a sua força, carece de um lider inspirador. Nasri será o criativo de serviço, salvo se Blanc aposta definitivamente na controversa figura de Valbuena. Sem eles a França tem um grande problema criativo mas não pode dizer o mesmo em estabilidade defensiva. Yann Mvilla, Yohan Cabaye, Alou Diarra, Marvin Martin e Blaise Matuidi vêm de excelentes épocas e serão o pulmão da equipa gaulesa que pode aspirar seriamente a romper os prognósticos e apresentar-se como séria alternativa ao trio de favoritos. 

 

Jogar contra os homens da casa é sempre um karma para qualquer selecção, especialmente se não chega a uma prova como favorita. Mas os suecos sabem bem o que isso é. Em 2000 defrontaram a Bélgica e sofreram uma derrota que acabou de imediato com as suas aspirações. E em 1992, como homens da casa, sentiram na pele como um público entusiástico pode fazer a diferença.

Sabendo disso e assumindo que a sua equipa funciona melhor quando Zlatan Ibrahimovic decide aparecer, o seleccionador nórdico Erik Hamren já deixou transparecer a público que é consciente das poucas probabilidades dos suecos de lograr um brilharete. Qualificados como o melhor segundo depois de uma vitória surpreendente diante da Holanda, o colectivo nórdico não vive uma das suas eras mais apaixonantes mas ainda tem individualidades capazes de fazer a diferença. Ibrahimovic, por cima de todas, ele que sofreu uma lesão fatídica no primeiro jogo disputado com a Espanha em 2008 que acabou por fazer toda a diferença para a campanha sueca. Mas o avançado do Milan conta com o apoio de Kallstrom, Willhelmsson, Svensson, Isaksson e Elmander, tudo figuras de uma velha guarda que vem a caminho do seu último torneio, o quarto europeu consecutivo para os suecos. Sem grandes novidades a acrescentar, salvo o bom jogo colectivo de Bajrami e Larsson no meio-campo e a confirmação em Moscovo do talento de Wernbloom, os suecos são á priori uma das selecções mais acessíveis das dezasseis em prova. O que não significa que tenham dito a última palavra. 

 

Eleger o seleccionador para um grande torneio internacional a um mês de que a bola comece a rolar é talvez a pior forma de se preparar um Europeu. Mas a FA tem o seu método tradicional de trabalho e depois da saída de Fabio Capello e dos problemas com a contratação de Harry Redknapp, cabe a Roy Hodgson liderar o exército dos Pross. Não será tarefa fácil.

Nem é o ex-técnico do West Bromwich um treinador que inspire confiança nem esta é, nem de longe nem de perto, a mais forte selecção inglesa do futebol actual. Jack Whilshire, a melhor descoberta britânica dos últimos quatro anos, está de fora do torneio. Frank Lampard, herói finalmente em Londres, depois de vencer a sua primeira Champions League com o Chelsea, também. O barómetro Barry e o lider Ferdinand sofreram lesoes suficientes para que Hogdson apostasse por outras figuras. E Wayne Rooney, génio e figura, será convocado para jogar o terceiro e decisivo encontro. E o que siga, se é que segue algo.

Apesar de ter resolvido o histórico problema das redes, com um Joe Hart em excelente momento de forma, esta Inglaterra continua a viver do trauma de uma Geração de Ouro que nunca o foi mas que ainda é fantasma que paira sobre o onze inicial. Hodgson terá problemas no balneário se optar por deixar de fora John Terry de fora e apostar numa dupla Cahill-Lescott. O mesmo se Gerrard der lugar no onze a Downing ou Young. O mais provável é os veteranos sobreviventes sejam titulares fixos, com os crónicos problemas de jogo que têm gerado. Os problemas físicos de Scott Parker, a falta de um homem golo inspirado e de um médio criativo em forma são puzzles para os quais Hodgson tem pouco tempo para resolver naquele que será, agora sim, o último torneio de uma velha guarda que caminha lentamente para o seu ocaso.

 

O Em Jogo aposta:

1º França

2º Ucrânia



Miguel Lourenço Pereira às 17:31 | link do post | comentar

Terça-feira, 05.06.12

É preciso recuar até 1974 para descobrir a última equipa europeia que conseguiu vencer de forma consecutiva um Europeu e um Mundial. Os espanhóis estão a cinco jogos de fazer história. Se à Alemanha de Beckenbauer parou Panenka e o seu penalty, à Espanha de Xavi e companhia vão levar a exame um trio de equipas sem nada a perder e com vista a conseguir um lugar imortal na história, derrubar a super-campeã. Italianos, croatas e irlandeses estão claramente num segundo plano futebolístico mas a motivação de seguir em frente será maior do que nunca e o equilíbrio entre as três selecções pode ditar muitas surpresas.

 

Não chegam com a frescura fisica e mental de outras vezes, mas quem se atreve a apostar contra a Espanha?

Depois de vencer o Mundial de 2010, perdendo o jogo inicial (algo inédito), apontando apenas quatro golos em quatro jogos na fase a eliminar (também inédito), Espanha entrou em crise existencial. Perdeu de forma estrepitosa amigáveis com várias selecções, venceu um grupo acessível sofrendo até aos últimos minutos na Lituânia e Escócia, sobretudo, e afronta agora um último desafio para uma geração que se despede. A Vicente del Bosque caberá realizar essa transição da forma mais tranquila possível mas o clima quente entre jogadores do Real Madrid e Barcelona, o desgaste físico e emocional dos blaugranas e a afirmação noutras paragens de novas figuras, não só tornam a Espanha uma equipa mais forte como, ironicamente, também a fazem mais débil.

Se parece evidente que o estilo é inegociável, também é certo que a necessidade de novas variantes resulta da metamorfose do onze titular. Llorente é o avançado referência mas a sua presença em campo exige outro jogo. Apostar num 4-6-0, como já fez em alguns amigáveis, devolve o ideário táctico de 2008, com os "bajitos" a controlar o jogo, com mais protagonismo para Silva e Mata e o apoio de Xabi Alonso, Busquets, Xavi e Iniesta. E ainda há Cazorla, Fabregas, Torres...

No papel os espanhóis parecem invencíveis mas atrás, a defesa sem Puyol e sem um lateral-esquerdo fiável (agora que Arbeloa se mutará para a direita com Ramos e Pique no miolo central), parece mais frágil do que nunca. O problema é saber roubar a bola e aproveitar os espaços que vão ficar atrás do carrossel da Roja, uma equipa de tracção à frente que lida muito mal com equipas que, tal como com o Barcelona, se negam a jogar de corpo e corpo e esperam a sua oportunidade. Foi assim no Mundial com Portugal, Paraguai e Holanda e foi assim na fase de qualificação e nos amigáveis que perderam. Contra croatas, irlandeses e italianos é difícil pensar noutro cenário, pelo que a paciência será a grande arma dos espanhóis para seguir em frente e fazer história, outra vez!

 

A Itália de Cesare Prandelli tem a clara ambição de ser uma "pequena Espanha" mas no jogo inaugural, com os campeões em titulo, é fácil adivinhar que a Azzurra vai ser tão italiana como sempre. E com o enésimo estágio caótico, depois de mais uma polémica judicial à volta dos azzurri, que se  pensar? A Itália é uma equipa que se dá mal com os Europeus mas bem quando chega a uma prova contestada por escândalos domésticos. Foi assim em 1982, foi assim em 2006 e agora repete-se o mesmo cenário.

Criscito abandonou a concentração, Bonucci e Buffon vivem debaixo da sombra da suspeita e entre os desejos de Mario Monti, a resignação do seleccionador e a raiva dos adeptos, tudo pode suceder.

No plantel de jogadores que aterram na Polónia há muitas variantes da equipa que fez uma péssima figura no último Mundial mas é sobretudo a condição física de elementos nucleares (Pirlo, Di Natale, Marchisio) que realmente medirá o valor deste novo projecto. Prandelli exibiu-se em Roma como um treinador de ideias e de profundo sentido táctico e aliando a sua experiência aos novos rostos que vai incorporando ao conjunto italiano pode-se esperar uma equipa atractiva da que se pode questionar, de momento, a sua real fiabilidade.

Sem um goleador puro - um ataque com Di Natale, Balotelli e Cassano não é um ataque demolidor - o jogo italiano procurará sobretudo explorar a sua riqueza defensiva (Buffon volta, talvez para o seu último torneio, e Chellini, Bonucci, Maggio, Bochetti e Balzaretti são opções de grande quilate) e, como sucedeu com a campeã Juventus, procurar Andrea Pirlo como o seu eixo nuclear. O veterano médio, fisicamente "ausente" na sua melhor versão no último Mundial, será a vara de medir deste conjunto. Ao seu lado Marchisio, Giovinco, Nocerino, De Rossi e Montolivo trazem criatividade e pausa, armas de Prandelli para por em prática o seu estilo de jogo. O facto de ter apostado claramente na juventude nesta convocatória anuncia uma nova era do futebol italiano, uma mutação que terá de resistir aos resultados, sejam quais sejam, para triunfar a longo prazo.

 

Slaven Bilic já anunciou que este é o seu canto do cisne ao leme dos croatas.

Chegar ao torneio, depois de eliminar a Turquia num play-off onde foi claramente superior, permitiu-lhe cumprir os objectivos mínimos. Passar à seguinte fase, como logrou em 2008, um objectivo realista mas que dependerá, sobretudo, do nível de implicação de uma selecção que oscila entre as grandes noites e as tardes mais desastrosas com uma assiduidade assombrosa. O jogo técnico da Croácia continua a ser um dos seus principais emblemas e Luka Modric o seu lider espiritual. O médio do Tottenham não viveu este ano uma época tão brilhante mas continua a ser o elemento à volta de qual Bilic confia em ultrapassar os dificeis obstáculos dos favoritos Espanha e Itália. 

Mas nesta geração croata low profile, longe das suas mais brilhantes épocas, há muitos jogadores capazes de proteger Modric e dar asas aos sonhos dos croatas. Perisic é, actualmente, um dos médios mais sedutores do futebol europeu. Jelavic realizou uma segunda volta memorável em Goodison Park. A experiência de Srna, Krankjar, Olic, Rakitic, Pranjic e Corluka um plus de qualidade que fazem da Croácia uma séria candidata a ser, uma vez mais, a surpresa da prova.

Em 2008 a classe do jogo dos axadrezados permitiu-lhes sonhar mais alto do que nunca mas o choque de realidade provocou uma pequena metamorfose a curto prazo. Conscientes dessa experiência, Bilic e os seus jogadores sabem que têm de entrar na Polónia com os pés no chão, sabendo que partem desde atrás para dessa forma surpreenderem e quebrarem os mais cinzentos prognósticos.

 

Quando Giovanni Trapatonni aterrou na ilha de esmeralda, os mais cinicos anunciaram a lenta destruição do que restava do futebol irlandês.

Mas a "Velha Raposa" italiana fez o que sabe fazer melhor e mudou por completo o rosto dos irlandeses, ausentes dos grandes torneios desde 2002. A mão de Henry impediu-os de chegar á África do Sul mas ninguém foi capaz de deter a sua marcha até à Polónia.

É a última oportunidade para a velha geração de Shay Given, Damien Duff, John O´Shea e Robbie Keane. Mas o grande mérito de Trapattoni foi conjugar essa geração com novos talentos que fazem parte do colorido nacional da Premier League, desde os golos do gigante Shane Long ao talento inato de James MacClean, a grande surpresa na lista de convocados depois de só ter despontado na equipa titular do Sunderland esta época. O jovem extremo é um dos ex-líbris dos irlandeses que chegam a esta prova como em 1988, num grupo complexo e sem qualquer pressão. Aí começou a desenhar-se a lenda do futebol irlandês, habituada a superar os mais negros cenários, de tal forma que sempre que participou num grande torneio internacional, a República da Irlanda logrou passar da fase de grupos. Foi assim no Euro 88 e nos Mundiais de 90, 94 e 2002. 

Um aviso sério para a concorrência que sabe que na Irlanda encontrará uma equipa tacticamente muito organizada, apostada em aproveitar ao máximo as poucas oportunidades que vai gerar e apoiada, emocionalmente, no grito de guerra dos seus velhos heróis e na vontade de comer o Mundo dos seus novos legionários.

 

O Em Jogo aposta:

1º Espanha

2º Itália



Miguel Lourenço Pereira às 15:58 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Segunda-feira, 04.06.12

Sucede em todos os torneios e a maior parte das vezes com algumas surpresas. Em 2008 ficou a França pelo caminho. Em 2004 foi a Alemanha e quatro anos antes ingleses e germânicos. Tal como sucedeu no Euro 2004, Holanda e Alemanha voltam a medir-se. Mas agora os papeis invertem-se. São, com a campeã em titulo, os máximos favoritos ao ceptro europeu o que não deixa em bom lugar Portugal e uma Dinamarca que já venceu o grupo de apuramento ao conjunto luso. Três campeões em titulo, um eterno aspirante, as máximas figuras individuais do futebol europeu e seis jogos de cortar a respiração.

 

Neste carro desportivo de alta gama só cabem dois passageiros. Há quem volte a pé para casa. Quem, é o dilema.

A Dinamarca chega a este Europeu em processo de renovação. O mítico Morten Olsen, figura chave da Danish Dynamite dos anos 80, sabe que se há selecção em prova de quem nada espera algo, depois do sorteio da fase final, é da sua. E pretende jogar com isso a favor. Se no último Mundial os dinamarqueses defrontaram a Holanda, sem mostrar uma grande inferioridade, e se na fase de grupos bateram Portugal, outro rival directo, cabe pensar que a distância entre os dinamarqueses e o apuramento não é tão grande como se possa imaginar. Mas é certo que desde 1992, quando vieram de férias para sagrar-se campeões da Europa, os dinamarqueses apenas se apuraram para a seguinte fase em Portugal, sendo eliminados imediatamente pela República Checa. Um cenário que se adequa ao perfil dos nórdicos, equipa sem figuras mas com um forte sentido colectivo, liderada pela experiência de Thomas Sorensen e pelo talento inato de Christian Eriksen, a mais flamante promessa do futebol dinamarquês desde os dias dos irmãos Laudrup. 

Entre os dois movem-se jogadores que vêm de uma boa época - casos de Niklas Bentner, Simon Kjaer, Daniel Agger, Dennis Rommedahl e Christian Poulsen - e que funcionam bem em conjunto, num futebol bastante pragmático, onde o jogo dos laterais (Wass e Jacobsen) ajuda a dar velocidade e abertura de campo a um ataque que se move bem nas bolas áreas e é hábil na reorganização do meio-campo. Os dinamarqueses são uma das equipas com maior low profile da prova e no entanto um dos rivais mais difíceis de bater em 90 minutos onde a pressão estará sempre do lado do rival. O jogo inaugural, contra a Holanda, pode ditar o rumo que a prova tomará para a armada nórdica.

A Holanda chegou à África do Sul sem ser favorita e saiu da final com o sabor ágrio de ter perdido um titulo mundial por culpa própria.

Os holandeses fizeram um torneio pragmático e no último jogo preferiram jogar pouco e esperar muito, demasiado. A Bert van Maarjwick a jogada não saiu perfeita mas deu-lhe pistas que seguramente irá seguir neste torneio. Da Holanda não se espera o dilúvio ofensivo da fase de qualificação e sim uma versão mais cautelosa, expectante, com a bola nos pés mas sem desgastar-se em demasia, procurando o espaço e a velocidade de Arjen Robben e Robbie van Persie, dois jogadores que chegam ao torneio em estado de graça. 

Atrás desse duo de bailarinos estão Wesley Sneijder, Dirk Kuyt, Rafael van der Vaart, Mark van Bommell e Nigel de Jong, o mesmo esqueleto da campanha da África do Sul, o verdadeiro segredo do sucesso desta "Laranja Mecânica" mas pouco espectacular. Resta saber como se comportará uma linha defensiva que foi no Mundial exemplar, apesar da ausência de nomes de vulto e, sobretudo, de quanto tempo nas pernas vão ter os jogadores mais jovens (e mais em forma) que chegam ao torneio sob a sombra dos titularissimos consagrados. Strootman, de Jong, Janssen e Huntelaar são alguns dos jogadores de maior destaque da época europeia mas terão o duplo trabalho de convencer ao seleccionador que podem jogar lado a lado com o seu bloco bem definido. Essa profundidade de banco pode ser uma vantagem a longo prazo mas nos dois primeiros duelos - com Dinamarca e Alemanha - será menos influente do que saber o estado real de forma de alguns dos titulares absolutos.

 

Ficou no último Mundial a sensação que, apesar de cair nas meias-finais, a selecção mais espectacular tinha sido a Alemanha de Low. O técnico que herdou o projecto de Klinsmann soube levar uma versão menor da Mannschaft à final em 2008. Agora que chega com aquela que é seguramente a sua melhor geração em 30 anos, o titulo é o objectivo único. 

Ozil, Muller, Schweinsteiger, Gomez, Kroos, Gotze, Klose, Khedira, Neuer, Boateng, Lahm, Reus, Hummels ou os irmãos Bender são os nomes próprios deste projecto, uma conjugação de talento individual que mais nenhuma selecção no torneio é capaz de reunir. Não só o projecto de renovação geracional está completo como a própria metamorfose táctica operada por Low parece estar definitivamente assimilada. Esta Alemanha joga com a bola nos pés, joga utilizando o espaço e, sobretudo, exerce a sua autoridade do primeiro ao último instante. Tanta matéria prima dá possibilidades a explorar outras variantes mas é sobretudo a eficácia do onze titular que os alemães esperam que seja decisiva para superar nos dois primeiros jogos rivais temíveis como são Portugal e Holanda.

Low confiará nos seus mas também já demonstrou ser um técnico que privilegia sempre quem está em melhor forma. Schweinsteiger e Muller são, portanto, o seu maior enigma para acompanhar a Khedira, Ozil, Podolski e Gomez na linha de ataque. Toni Kroos e Mario Gotze são as alternativas naturais, Marco Reus e Lars Bender as mais surpreendentes, mas qualquer um dois seis jogadores mantém alto o nível do jogo de transição e posse que os germânicos têm sabido aliar tão bem.

Atrás do sexteto ofensivo - e no caso alemão até o médio mais recuado é uma arma de ataque - está o hipotético ponto débil da Mannschaft. Mas, mesmo aí, a melhoria de Neuer, Boateng, Hummels, Badstuber e Howedes tem sido clara no último ano e meio e a presença de veteranos como Lahm e Meerstzacker garante a estabilidade emocional necessária para aguentar com a pressão de ser um dos máximos favoritos. Os alemães não vencem um troféu há 16 anos mas depois dessa noite em Londres já estiveram em duas finais e duas semi-finais com versões menos estéticas e aclamadas que esta. Olhar para esta equipa e não imaginar o futuro campeão da Europa é um exercício difícil de fazer mas algo que os rivais da Alemanha e o seu próprio seleccionador terão de ser capazes de fazer.

 

 

O Em Jogo aposta em:

1º Alemanha

2º Holanda



Miguel Lourenço Pereira às 15:18 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Sexta-feira, 01.06.12

Foi um ano em que se confirmaram velhas ideais do futebol português. A mais óbvia é que em Portugal a frase de Gary Liniker é facilmente adaptável a "e no final ganhamos os dragões". Num dos anos em que o FC Porto se mostrou menos seguro de si mesmo o bicampeonato logrado por Vitor Pereira deixa em evidência uma vez mais os erros dos rivais directos. Uma péssima gestão, por parte do Sporting, uma má planificação de época pelo Braga, que arrancou tarde, e claro, os ovos em diferentes cestos de um Jorge Jesus que teve o titulo na mão e deixou-o escapar das mãos. Isso num ano em que o futebol português, entretido com ampliações, esqueceu-se de pagar as contas e subiu ao terreno de jogo da forma mais vergonhosa de que há memória.

Não foi um FC Porto vintage, nem de longe nem de perto.

Mas foi uma versão profissional quando teve de ser. Em 18 pontos contra Benfica, Braga e Sporting, os dragões amealharam 16. E com isso selaram mais um titulo de campeão nacional, confirmando a hegemonia quase ditatorial que o clube do Dragão tem vindo a exercer sobre o futebol português nos últimos 30 anos. O sucesso dos azuis e brancos, visível também no espaço europeu, é um eucalipto que seca tudo à sua volta e esse domínio asfixiante que reduz a três os títulos do Sporting, um ao Boavista e sete ao Benfica, em 30 anos, é uma realidade preocupante para quem acredita, ou quer acreditar, que a Liga Sagres é realmente competitiva.

E no entanto dos titulos ganhos pelos azuis e brancos, este foi talvez o mais surpreendente porque parecia perdido muito cedo - um arranque de época penoso dentro e fora de portas, com a colaboração da gestão desportiva da SAD e da pouca vontade de um plantel que só acordou realmente em Fevereiro - para o Benfica de Jesus.

 

O técnico não conseguiu bater Villas-Boas em nenhum dos seus duelos com o anterior técnico portista. Mas para a Liga também foi incapaz de ganhar ao adjunto deste, Vitor Pereira, confirmando uma vez mais que o seu talento como treinador, exacerbado em 2010, continua a ser mais um problema que uma solução para o Benfica. A forma como exprimiu o plantel, deixando-o sem forças para o sprint final, repetiu o mesmo problema das últimas duas épocas (mesmo a do titulo) e deixa claro que o técnico encarnado acaba por ser o grande responsável pelo titulo azul e branco. A vantagem que o Benfica detinha em Dezembro parecia, numa liga tão pouco equilibrada como a lusa, suficiente. Não o foi. O Benfica não só perdeu o titulo em casa como voltou a viver com o bafo de um atrevido Sporting de Braga nas jornadas finais. Conseguiu um segundo lugar que sabe a pouco mas que em dinheiro vale muito. A sensação de supremacia moral dos azuis e brancos ficou, assim, imaculada, apesar da venda de Falcao ter aberto um cisma no balneário e um problema sério que Vitor Pereira teve dificuldades em resolver.

Para o FC Porto ter sido campeão também ajudou o mau arranque do Braga, que quando se lançou ao sprint final já partia com atraso, e o enésimo tiro no pé do Sporting, mudando um plantel de forma integra para depois deixar de apostar no treinador que liderava o projecto. O quarto lugar conquistado por Sá Pinto é um mérito, tendo em conta o desastre emocional dos leões em Janeiro, e reafirma a ideia de que a liga lusa é uma questão de um clube, que perde mais quando quer do que quando os demais realmente podem.

 

Do outro lado do mundo da Alice a União de Leiria tornou-se apenas o espelho da pobreza genuína de um futebol que abandonou a sua formação, os seus adeptos e a sua história para entregar-se a projectos insolventes, jogadores importados de terceiro nível e bancadas vazias graças aos preços e horários impostos por clubes e estruturas directivas.

Nesse mundo de loucos a Académica, que se salvou no último dia de descer de divisão, conquistou um lugar na Europe League porque todos os clubes, do 6º ao 13º posto, decidiram não inscrever-se previamente para disputar as provas da UEFA. Uns por decisão pessoal - os gastos das viagens a Israel ou Cazaquistão não são atractivos - e outros pelas dividas acumuladas que, fosse a liga portuguesa uma prova séria, significava a despromoção automática de quase metade dos participantes no torneio.

 

E no entanto 2011/12 foi o ano em que se falou da ampliação a 18 equipas, do regresso das equipas B, de empréstimos interessados de clubes grandes a "falsas" filiais para fintar a legislação e, sobretudo, da profunda crise de governabilidade num órgão onde os pequenos elegeram um presidente que não consegue governar sem o apoio dos grandes.

No meio desse cocktail molotov útil para um hara-kiri pirotécnico, muitos se esquecem de Pedro Martins e do seu Maritimo, da sustentabilidade dos projectos de Gil Vicente, Olhanense, Paços de Ferreira e mesmo do despromovido Feirense e do "aportuguesamento" do Braga, esquecido por Paulo Bento e pela maioria dos grandes com orçamento. Razões positivas para acreditar que há sustentabilidade futura, noutras condições organizativas e económicas, do futebol português. Mas o mais provável é que essa situação, quando se realize, não impeça o dragão de impor a sua lei. Com o plantel mais débil e o treinador mais contestado, o FC Porto revalidou o titulo nacional e nas Antas já começam a contar os anos que faltam para superar o histórico registo de um Benfica que teima em não dar uma versão alternativa sólida ao império do dragão.

 

 

 

Jogador do Ano

James Rodriguez

 

Hulk é o lider moral do FC Porto mas a dois jogos do fim do campeonato o jovem colombiano James Rodriguez tinha tantos golos como o brasileiro. Em metade dos jogos. Depois de uma grande segunda volta no ano de Villas-Boas, muitos esperavam que este fosse o seu ano. Vitor Pereira nunca o utilizou como titular absoluto, talvez interessado em lançá-lo mais como arma secreta pelo miolo em vez de o manter preso à ala. A sua exibição na Luz valeu um titulo, os seus golos e assistências foram nucleares para algumas das vitórias fundamentais do bicampeão e a sua afirmação deixa claro que com a inevitável saída do brasileiro, o projecto azul-e-branco crescerá nos seus ombros. 

 

Revelação do Ano

Lima

 

O Braga contratou-o ao Belenenses ultrapassando todos os outros e pagando tão pouco dinheiro que ainda hoje na Luz, Alvalade e Dragão muitos devem estar preocupados com o seu staff de prospecção. O brasileiro foi fundamental no grande ano dos bracarenses, com os golos, assistências e posicionamento em campo, uma mobilidade que explorava bem a ideia de jogo de Leonardo Jardim, dando espaço aos jogadores de segunda linha para aproveitar os espaços que deixou para trás. Jogador de grande potencial, será dificil que fique em Braga muito mais tempo. 

 

Onze do Ano

 

Helton salvou o FC Porto de muitos apuros durante longas jornadas, aquelas onde o onze de Vitor Pereira parecia estar perto de perder todas as possibilidades de revalidar o titulo. 

 

Se olharmos para a defesa do campeão nacional é dificil encontrar jogadores que tenham estado ao máximo nível durante todo o ano, mas no lado esquerdo Alvaro Pereira continua a ser um jogador sem igual na liga lusa. E esse problema extende-se à maioria das equipas de topo da liga lusa. Ezequiel Garay, bónus na transferência de Coentrão para o Real Madrid, destacou-se sobre a mediania na Luz e João Pereira manteve-se a bom nível em Alvalade. Em Braga a confirmação de Nuno André Coelho foi uma boa noticia 

 

Descartado pelo Sporting, o médio-centro Custódio encontrou em Braga em Hugo Viana, outro ex-leão, o parceiro ideal para um meio-campo sólido e tremendamente eficaz. À dupla de Braga podemos juntar outro médio minhoto, Hugo Vieira, revelação do Gil Vicente. 


Lima, serpente no Minho pescada por poucos tostões, e James Rodriguez, arma-secreta no manual táctico de Vitor Pereira, dançam à volta de Hulk, que mais uma vez foi o jogador mais determinante no bicampeonato azul e branco, jogando ora descaido na ala ou como o falso-avançado que os defesas nunca conseguiram bem travar. 

 

Treinador do Ano

Leonardo Jardim

 

Herdou um projecto sólido, com o melhor resultado nacional e europeu logrado por um técnico que deixou saudades mas em quem poucos na estrutura confiavam. Pedia-se-lhe que mantivesse o rumo. Cumpriu. Durante 17 jogos consecutivos manteve-se invencível e aproximou-se da disputa por um titulo que fraquejou nos jogos com os rivais directos. Mesmo assim, segundo apuramento para a Champions League em três anos, e um passo em frente em qualidade de jogo, mérito indiscutível de um treinador que está chamado a treinar um dos grandes nos próximos anos. 



Miguel Lourenço Pereira às 16:10 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Quarta-feira, 30.05.12

O perfume do futebol francês é composto por uma fragrância especial que só se gera em momentos como este. Um clube modesto como o Montpellier vence uma longa maratona a formações que gastam o que não têm para levar para casa o ambicionado troféu. Algo inimaginável em ligas mais fortes como Inglaterra, Itália e Espanha e extremamente difíceis em campeonatos bipolares como o português. Em França, é a regra. Salvo a ditadura do Marseille de Tapie e do Lyon de Aulas, o futebol francês engrandece-se a cada ano que surge um novo Montpeliler. Um titulo que não só eleva às alturas um pequeno clube mas que define a filosofia desportiva de todo um país.

 

Lille, Bordeaux, Nantes, Lens, Monaco, Auxerre.

Nos últimos 20 anos do futebol gaulês todos estes modestos clubes sagraram-se campeões nacionais. Salvo o PSG, sempre apoiado por investidores que gostariam de ter um clube de prestigio na capital gaulesa, e o dinheiro que moldou o Marseille e Lyon modernos, a liga de França está aberta a todos, sempre e quando o projecto tenha cabeça, tronco e membros.

René Girard, veterano de muitas batalhas no terreno de jogo, soube coordenar esse projecto de forma singular. Uma equipa jovem, barata, com muitos jogadores comprados a clubes de divisões inferiores a preço de saldo, o seu Montpellier é um verdadeiro caso de sucesso. Há dois anos já tinha mostrado que era um projecto de futuro. Na altura saiu Tino Costa, o líder espiritual da equipa, e depois de um ano de natural perda de rendimento, o clube voltou à mó de cima, entregue aos golos de Olivier Giroud e à magia pura de Yonnes Belhanda, os dois nomes próprios do titulo alcançado, curiosamente, contra outro clube pequeno que já foi campeão e que agora se junta a Lens, Nantes e Monaco na segunda divisão. Em França o difícil não é vencer um titulo, é saber manter-se fiel a si mesmo.

Ao Montpellier depara-se esse desafio porque quando o dinheiro falar mais alto e os seus grandes nomes saírem, será complicado equilibrar os objectivos dos adeptos com o realismo económico que já causou tantas baixas no passado. Ao contrário do seu rival nesta corrida, o PSG, não há dinheiro para loucuras e seguramente que o próximo ano será quase impossível revalidar o titulo. Nem o Lille, com um futebol mais vistoso e sem ter perdido algumas das suas pérolas, conseguiu manter esse ritmo que desde os sete títulos consecutivos do Lyon nenhum clube soube emular. Manter o troféu em casa.

O PSG acabou por ser o grande derrotado. Nem Ancelloti, nem os milhões injectados no clube por um consórcio árabe com interesses na capital gaulesa serviu para recuperar um titulo que foi ganho pela última vez em 1994. As chegadas de Sirigu, Menez, Pastore, Gameiro e companhia foram insuficientes, apesar do bom futebol praticado os parisinos claudicaram demasiadas vezes e nunca souberam aproveitar as escorregadelas do rival. Regressar à Champions League pode ser o primeiro passo da metamorfose definitiva de uma equipa que irá gastar ainda mais no próximo verão e que, seguramente, é o grande candidato ao titulo do próximo ano.

 

Desilusões absolutas, Marseille e Lyon seguem a linha descendente, o outro lado do elevador onde sobem os parisinos.

Apesar do dinheiro disponível, a equipa lionesa foi incapaz de qualificar-se pela primeira vez numa década para a Champions League, prova onde teve uma prestação cinzenta, caindo nos Oitavos de Final diante do APOEL. Lisandro, Gomis e companhia foram inconsequentes durante a grande parte da temporada e Remy Garde, o jovem técnico promovido por Aulas, terá muita dificuldade em convencer um presidente tão habituado a ganhar que o seu projecto é de longo prazo, explorando a formação local que ele ajudou a desenhar. Em Marselha o lugar de Deschamps está também em causa depois de terminar a temporada num desolador 10º posto.

 

Lille, campeão em titulo, e um renascido Girondins Bordeaux tiveram provas tranquilas e positivas, apesar do falhanço dos homens de Rudi Garcia em manter a coroa e a quase inevitável despedida de Eden Hazard do clube nortenho. As grandes sensações da prova acabaram mesmo por ser o histórico Saint-Ettiene, sexto na classificação geral, e o modesto Evian FC, promovido esta época e capaz de realizar um campeonato surpreendente que nunca o manteve demasiado longe dos lugares europeus.

Do outro lado do espelho, se as despromoções de Ajaccio e Dijon eram previsiveis, custa ver outro histórico como o Auxerre cair no poço da Ligue 2, seguindo o exemplo negativo de outros campeões recentes.

 

 

 

Jogador do Ano

Yohnes Belhanda

 

O franco-marroquino foi a alma e o corpo da épica campanha do Montpellier. Com a bola nos pés respirou o cuidado jogo táctico montado por Girard e fez rodar à volta o carrosel de um colectivo sem estrelas mas com um indice de trabalho irrepetivel. Como Hazard em Lille ou Gourcouff em Bordeaux, o jovem que preferiu ser internacional com o país dos seus pais, Marrocos, é o porta-estandarte de um modelo de clube campeão que só encontramos com regularidade numa liga tão competitiva como a gaulesa. Os seus 12 golos e as mais de 17 assistências foram o ponto de partida para uma época irrepetível que já o colocou, definitivamente, no escaparate do futebol internacional.

 

Revelação do Ano

Blaise Matuidi

 

Quando aterrou em Paris como sucessor a longo prazo do "polvo" Makelelé, a jovem promessa que tinha despontado no Saint-Ettiene, talvez não imaginasse que o seu impacto fosse tão imediato. Mas a grande época do clube parisino tem muito a ver com a capacidade do possante médio defensivo de equilibrar um conjunto com uma fortissima ala dianteira (Nené, Gameiro, Pastore, Menez) e com uma defesa tremendamente eficaz. No miolo Matuidi fez para Ancelotti o mesmo papel que este entregou a Gattuso no seu Milan com um sucesso espantoso, dele é seguramente o futuro dos "Bleus".

 

 

Onze do Ano

 

Desconhecido no futebol gaulês até há dois anos, esta foi a época de confirmção de Geoffrey Jourden, guarda-redes do campeão Montpellier que, com Ruffier e Carrasco, demonstra que Laurent Blanc tem por onde escolher para acompanhar a Lloris e Mandanda nas aventuras dos Bleus.

 

Época excelente do lateral Mapou Mbiwa (Montpellier) no lado direito e de Faouzi Ghoulam (Saint Ettiene) pela esquerda. No miolo do eixo defensivo os eleitos são Nicolas Nkolou, imenso apesar da época cinzenta do Marseille e Frank Beria, do Lille. 

 

Belhanda e Hazard partilham o trabalho criativo do meio-campo deste onze ideal da Ligue 1, dois jogadores jovens de excelência com épocas memoráveis. Acompanham-nos o incansável Yann Mvilla, lider do Stade-Rennais.


Olivier Giroud, o avançado de moda do futebol gaulês, lidera o trio de ataque, bem acompanhado pelos golos de Nené (PSG) e Pierre Aubameyeng, jovem dianteiro gabonês do Saint-Ettiene.

 

Treinador do Ano

René Girard

 

Apesar da Ligue 1 ter um importante historial de vencedores surpreendentes, de equipas de pequeno orçamento que conseguem vencer a maratona da regularidade, tem sido cada vez mais dificil contrariar o imenso investimento financeiro que Lyon, PSG e Marseille têm feito na última década. O triunfo do Montpellier tem pouco a ver com a vitória de Bordeaux e Lille, dois históricos com um técnico e um plantel de luxo, e mais com o trabalho de fundo da formação e hábil pesquisa de mercado dos directivos dos homens do Le Herault. E claro, com a liderança absoluta de René Girard, antiga estrela da França dos anos 80 que encontrou a forma ideal para coordenar uma formação jovem, talentosa e com um espirito de luta épico que aguentou, até ao suspiro final, o acosso do milionário PSG.



Miguel Lourenço Pereira às 15:54 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 28.05.12

Michael Thomas tem um rival para a posteridade. Sergio Aguero entrou para a história como o autor do golo mais agónico e determinante da história da Premier League. Uma vitória asfixiante sobre um heróico QPR que manteve o Manchester United com a esperança de mais um triunfo nos derradeiros instantes. No final, 700 milhões de euros depois, o City quebrou uma malapata de 44 anos e voltou a proclamar-se campeão inglês num ano de muitas surpresas e desilusões num campeonato que continua a manter o suspense apesar de perder, progressivamente, qualidade.

Em três anos nunca um clube tinha gasto tanto dinheiro para conseguir um objectivo tão concreto: o titulo inglês.

Roberto Mancini logrou à segunda tentativa o troféu mas não sem sofrer mais do que um plantel de 700 milhões justificaria. O jogo espesso do City em largas partes da temporada parece um dos lados da moeda. No outro as goleadas consecutivas, resultado normal de um ataque por onde passaram Tevez, Balotelli, Dzeko, Silva e Aguero, peças nucleares na reconquista de um titulo ganho no pulso final a um Manchester United low cost, fraco como nunca outro projecto de Alex Ferguson, mas que teve o mérito de manter-se até ao final na luta pelo titulo. 

 

O United começou bem e perdeu gasolina à velocidade com que perdia jogadores. O débil meio-campo levou a Ferguson a resgatar a Scholes e a alinhar, nos jogos importantes ao histórico centrocampista com Ryan Giggs, o miolo mais veterano da história da Premier. Nos dois duelos directos contra o rival de Manchester duas derrotas categóricas deixaram claro que, no mano a mano, era impossível aos Red Devils manterem o pulso. Mas os tropeções de um Mancini sempre temeroso nas grandes noites mantiveram o duelo aceso e os dois golos inesperados do QPR deram a sensação de que havia algo mais forte do que a lógica por detrás de Ferguson, como naquela noite de Barcelona em 1999. Mas sucedeu o contrário, o futebol decidiu transformar os jogadores do United em reencarnações contemporâneas de Kahn, Effenberg, Mathaus, Kuffour e companhia e confirmar Aguero como figura de proa no seu primeiro ano de futebol inglês.

 

A gesta do QPR quase que serviu para confirmar a salvação do clube londrino mas no último minuto já nem era necessário.

O Bolton, que sofreu na pele a escalofriante situação vivida por Fabrice Muamba, seguiu a Wolverampton e Blackburn Rovers na despromoção ao Championship. Mas o sofrimento sentiu-o, mais do que nunca, um Aston Villa que dista muito do projecto criado por Martin O´Neill e que ameaça tornar-se em mais um histórico problemático como foram Leeds, Newcastle e Nottingham Forrest.

A Premier que tem perdido alguns dos seus melhores jogadores e algo de qualidade de jogo manteve-se emocionante em resultados e na dinâmica da tabela classificativa. O Newcastle foi uma verdadeira lufada de ar fresco e o Tottenham de Redknapp durante alguns meses pareceu dar a sensação de poder ambicionar a algo mais mas a saída de Capello do banco inglês mudou a mente do técnico e levou a um profundo descontrolo do plantel que acabou num tremido quarto posto por detrás de um Arsenal que, um ano mais, luta de igual para igual com equipas com orçamentos infinitamente superiores, mérito indiscutível de Arsene Wenger.

No lado negro da época a terrível campanha de Kenny Dalglish ao leme do Liverpool, com o pior registo doméstico em décadas, e sobretudo a época do Chelsea. Apesar da final da Champions League, o clube londrino terminou a Premier no pior lugar da última década, um sexto posto cuja responsabilidade é preciso distribuir entre Villas-Boas, um plantel em revolta constante e a um Roman Abramovich que continua sem saber muito bem o que quer para o seu clube.

 

 

 

Jogador do Ano

David Silva

 

Há poucos jogadores de futebol na actualidade com a classe e rapidez de raciocínio que o espanhol David Silva. Não havia espaço para ele no projecto de Guardiola e no colete de forças de Mourinho e a Premier tornou-se o seu destino inevitável. Se o Manchester City é, finalmente, campeão, deve-o a ele mais do que a qualquer outro. Marcou, assistiu, encantou, pautou o ritmo e soube emergir como o lider que os citizens precisavam depois de 700 milhões de euros gastos em mais de 30 jogadores para encontrar o caminho ao El Dorado. Ninguém duvida que, no futebol actual, Silva é um dos nomes maiores.

 

 

Revelação do Ano

Papisse Cissé

 

Chegou em Janeiro depois de dar nas vistas no Freiburg. Mas ninguém imaginava que o seu impacto ia ser tão devastador. Em treze jogos pelo Newcastle marcou treze golos, alguns dos quais dignos de entrar na galeria dos melhores do ano. Soube substituir quando necessário o goleador da primeira volta dos Magpies, Demba Ba, e soube também combinar com ele e Cabaye para garantir um sprint final memorável para o clube do Tyne. Em meia temporada deixou a pensar os principais directores desportivos dos clubes de topo europeus.

 

Onze do Ano

 

Apesar do talento incrivel de Joe Hart a nossa opção recairia sobre o imenso holandês Tim Krul, baluarte de uma grande época para o Newcastle United.

 

Na defesa de quatro jogariam Micah Richards (City), Gary Cahill (Bolton/Chelsea), Kyle Walker (Tottenham) e Leighton Baines (Everton). Quatro jogadores que explicam bem a forma como o trabalho defensivo é encarado na Premier League, onde a força e a raça são mais valorizados do que o controlo de bola e o posicionamento táctico.

 

David Silva lidera o meio-campo deste onze de forma inevitável acompanhado pelo francês Yohan Cabaye do Newcastle e pelo seu colega de equipa Yaya Touré.

 

No ataque jogam os inevitáveis Wayne Rooney, que continua a ser o mais determinante jogador inglês da actualidade, lado a lado com o holandês Robbie van Persie e o homem decisivo da Premier, o argentino Sergio Aguero.

 

Treinador do Ano

Alan Pardew

 

O que logrou Alan Pardew com este Newcastle não tem nome. Um clube habituado a falhar, a desiludir e a seguir pelo caminho errado, encontrou neste técnico a sua tabua de salvação espiritual. Sem dinheiro para investir, Pardew montou um onze tremendo em qualidade e poupado em gastos. Deu a batuta de jogo a Cabaye, apostou no perfume africano do golo, com Ba e Cissé, e garantiu uma defesa de ferro liderada por Krul, outra aposta pessoal. Manteve o plantel fresco, apesar das lesões, soube esquivar a pressão de dormir largas jornadas perto de postos europeus, um oásis para um clube muito necessitado de injecção financeira, e acabou a época num mais do que meritório XXX, diante do todo poderoso Chelsea e dos históricos Liverpool e Everton. Quase nada!



Miguel Lourenço Pereira às 15:39 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Sábado, 26.05.12

Depois do purgatório, a glória. A Juventus não é um clube de esquecer. Nem de como voltar do inferno nem de como ganhar. O 28º titulo bianconero, sem os dois polémicos retirados pelo Moggigate, reafirma o conjunto turinês como o maior do país da bota. Mas a forma como Antonio Conte levou os seus ao titulo, num ano em que sumou 15 empates, diz também muito do nivel da Serie A. Durante semanas o AC Milan teve a liga no bolso e deixou-a escapar. O Internazionale continua a viver a sua particular via crucis depois da saída de Mourinho e entre os clubes de Roma, Napoli e Udine estiveram os mais interessantes duelos de um ano onde faltou emoção e grandes jogos. Um ano marcado por muitas despedidas e maiores incógnitas futuras.

 

Um campeão invicto é sempre algo assinalável. Se esse campeão coleciona 15 empates em 38 jogos a sensação muda radicalmente.

A Juventus venceu o seu 28º scudetto num ano em que foi melhor que a concorrência mas onde nunca deu uma clara sensação de superioridade como demonstram os sucessivos tropeções da Vechia Signora. Só com quatro equipas é que o conjunto turinês logrou vencer os dois jogos nas duas voltas do campeonato, a maioria dos rivais do campeão conseguiu, de uma forma ou de outra, roubar-lhe pontos. E nem isso impediu Antonio Conte de fazer história.

O antigo médio do conjunto bianconero encontrou o equilibrio necessário para vencer sem ter uma só estrela no plantel. Montou o onze à volta de Pirlo, colocando Marchisio e Vidal como fieis escudeiros. Funcionou. Pelo ataque passaram muitas alternativas e nenhuma delas totalmente convincente, de tal forma que Del Piero, no seu ultimo ano em casa, continuou a ser uma das referências goleadoras. Atrás a segurança de Buffon e a boa época de Chiellini e Lieschteiner fizeram-se notar e garantiram que nem por uma só vez o clube tivesse de lamentar uma derrota. A verdadeira arma do campeão no seu duelo com o AC Milan.

 

Durante largos meses os rossoneri pareciam ter o titulo à mão de semear mas os tropeções finais dos homens de Allegri tiveram o seu preço. Mais irregular do que nunca o Milan de Ibrahimovic pagou o preço das lesões, da falta de profundidade do plantel e do envelhecimento colectivo dos seus melhores jogadores. Um segundo lugar que soube a pouco, especialmente tendo em conta que nunca foi tão fácil vencer um scudetto em Itália, prova da curta diferença pontual entre os primeiros, comparativamente com outras épocas, e com os erros de Inter, Roma e Lazio que abriaram a porta ao terceiro posto da Udinese e a mais um ano europeu para o Napoli de Mazzari, outros grandes triunfadores do ano.

 

Mas este foi mais um ano de drama.

De adeptos que exigem camisolas a jogadores, de salários por pagar, de mil e uma destituições de técnicos, de poucos jogadores jovens e de muitos veteranos, de estrangeiros sem nível para o historial da prova e de estrelas estrangeiras que continuam a olhar para o outro lado quando se lhes fala na Serie A.

De estádios vazios, problemas com as televisões, de greves anunciadas e polémicas constantes com a arbitragem. Um ano em que, mais uma vez, a Serie A deu um passo descendente face ás suas rivais históricas, aproximando-o cada vez mais do universo francês, a quinta liga europeia actual. Uma realidade problemática para uma liga onde a sua máxima figura é um sueco mal-amado, onde o melhor do ano é um veteranissimo em quem poucos apostariam e onde a melhor revelação é um jovem jogador nigeriano que não se distingue muitos de muitos outros jovens que dão outra cor e vida à Bundesliga, Premier ou La Liga. Esse continua a ser o trabalho de casa do Calcio, um trabalho de casa complicado a cada ano que passa, de sacar nota alta. 

 

 

 

Jogador do Ano

Andrea Pirlo

 

Quando saiu de Milão muitos fizeram o obituário precoce do maior génio italiano da última década. Em Turim, com uma equipa sem grandes talentos mas com muito espirito colectivo à sua volta, Pirlo rejuvenesceu e tornou-se determinante na série de 38 jogos consecutivos sem perder da Vechia Signora. Foi a bússula em campo e o lider moral fora dele, as suas ausências notavam-se, a sua baixa fisica fazia-se evidente nos jogos que a equipa empatou e claro, no final o titulo pareceu ser mais dele do que nunca uma das suas conquistas prévias ao serviço de um Milan que priveligia sempre mais o glamour ao génio puro.

 

Revelação do Ano

Obi Joel

 

No terrivel ano da Internazionale, com o pior resultado final desde 1997, ano antes da chegada de Ronaldo Nazário, pouco houve que destacar. A boa época realizada pelo jovem nigeriano Obi Joel entraria nesse lote restricto de boas noticias. Um médio possante, rápido e com a garra que faltou a muitos dos veteranos do plantel que continua a viver à sombra dos anos de Mourinho. 

 

Onze do Ano

 

A baliza do onze do ano da Serie A está segura nas mãos de Gianluiggi Buffon que, depois de um ano de muitos problemas fisicos, se reafirmou como o número 1 indiscutível do futebol italiano. À sua frente jogaria um quarteto formado por Chiellini, Danilo, Lieschteiner e Thiago Silva.

 

Andrea Pirlo comanda um meio-campo onde também estão o seu companheiro Claudio Marchisio e ainda o milanês Kevin-Price Boateng.

 

No ataque a figura de Zlatan Ibrahimovic é incontornável, secundada pela eficácia goleadora de Edison Cavani e pelo incombustível Antonio Di Natale.

 

Treinador do Ano

Francesc Guidolin

 

Pelo segundo ano consecutivo a pequena Udinese está em postos de Champions League. Ao contrário do notável Napoli de Mazzari, a Udinese tem mantido um low profile no mercado e uma regularidade tremenda nos postos classificativos. Mérito de Guidolin, técnico hábil a sacar o melhor do seu curto plantel e da sua máxima figura, um veterano como Di Natale. O talento do treinador italiano, aliado à boa gestão desportiva do clube, transforma o projecto dos bianconeri do Friuli em algo a seguir com atenção no próximo ano, onde se espera uma Serie A mais equilibrada que nunca.



Miguel Lourenço Pereira às 01:01 | link do post | comentar

Quinta-feira, 24.05.12

O Barcelona de Josep Guardiola marcou 114 golos. Sofreu 29. Atingiu a marca de 91 pontos em 114 possíveis. Contou com o prémio Zamora e o Pichichi da prova, Valdés e Messi. E mesmo assim perdeu o que seria o seu quarto titulo consecutivo. No meio destes números que fariam histórica em qualquer edição de qualquer campeonato do mundo é possível apreciar melhor o duelo de titãs que mediu o conjunto blaugrana com o Real Madrid de José Mourinho, o campeão mais espantoso em números da história do futebol espanhol.

 

Ao clube de Guardiola só faltou superar o seu recorde de pontos. Tontos os outros recordes foram superados com uma claridade assustadora.

E no entanto perdeu. Perdeu antes do final, com três jogos para o final da época. Perdeu em casa, no jogo decisivo. E perdeu a liga, essencialmente, quando concedeu ao Real Madrid uma renda de dez pontos depois de uma série histórica de péssimas exibições longe do Camp Nou, estádio onde foi dono e senhor até que apareceu Cristiano Ronaldo para por calma.

Nesse Barcelona-Real Madrid decidiu-se o titulo de forma oficiosa porque o Real Madrid já tinha meia liga no bolso. Um arranque de época com alguns resultados tremidos, uma série espantosa de vitórias que acabou na habitual derrota contra o Barcelona e um Inverno com resultados sofridos mas vitoriosos. Quando o clube merengue perdeu a vantagem de dez pontos era tarde para um Barcelona que em casa foi inigualável, fora foi irreconhecível e que viveu demasiado da dependência goleadora de Leo Messi. O triunfo no Calderon, com selo de Ronaldo, selou um titulo que a partir daí ficou sentenciado e o seu golo em Barcelona apenas pôs o preto no branco final. 121 golos (14 mais que o recorde histórico), 100 pontos (um mais que o recorde do Pep Team) e alguns problemas a controlar a maioria dos jogos que acabou por vencer com goleadas que resultavam mais do génio do seu trio de goleadores do que da capacidade para asfixiar o adversário.

  

Nesse duelo estético o Barcelona, mais espesso que outros anos, continua a ser o preferido da maioria face ao jogo de transição rápida que Mourinho imprimou com mais eficácia ofensiva do que nunca, depois de ter provado a mesma receita em Itália e Inglaterra. Confirmou o seu quarto titulo em países distintos, lançou as bases para um projecto que tem futuro e ambiciona a palcos maiores. Do outro lado, Guardiola despediu-se num ano em que falhou os dois principais titulos e, sobretudo, mostrou-se incapaz de encontrar a solução para ultrapassar rivais que contrariaram o jogo do Barcelona com um posicionamento defensivo central e numeroso. Nesses tropeções ficou a possibilidade de igular a Cruyff e de sair de Camp Nou com mais história ás costas.

 

 

A Liga espanhola continua a viver das rendas emocionantes que geram cada duelo entre blaugranas e merengues.

Do outro lado o sofrimento do Racing Santander e Sporting Gijon, históricos do norte que seguramente darão lugar a históricos galegos, mas sobretudo o de Villareal. Se há largos anos o Celta de Vigo caiu na segunda divisão depois de ter arrancado a época na Champions League, a má preparação da época, a lesão de Rossi e a orfandade de Cazorla custou demasiado a uma equipa que no ano passado esteve nas meias-finais da Europe League e no quarto posto de liga. Um projecto de futuro com muitas interrogações presentes.

Do outro lado a euforia de um Levante espantoso, de um Malaga que subiu aos postos dourados graças à milionária inversão de um xeque árabe e à boa gestão do mal-amado Pellegrini para contrarrestar o cinzentismo de um Valencia eternamente insatisfeito com ser o primeiro dos últimos, de um Atlético de Madrid destinado outra vez a lutar pela Europe League e de Sevilla e Bilbao que terminaram o ano muito por debaixo das expectativas. Ossasuna e Mallorca terminaram o ano com a cabeça bem alta, Rayo Vallecano e Granada sofreram mais da conta e um ano mais o Zaragoza demonstrou que é um sobrevivente nato nestas maratonas ligueiras.

 

O ano que começou com uma greve de jogadores, que continuou com o boicote ás rádios por parte da liga e que terminou com as enésimas acusações de compra de jogos por alguns clubes termina com números que seriam provavelmente irrepetíveis se não soubessemos que para o ano voltam a medir-se duas equipas com um arsenal de estrelas impressionante, muito dinheiro para gastar e um set de rivais que não sabe como apresentar uma alternativa a este duopólio histórico.  

 

 

Jogador do Ano

Cristiano Ronaldo

 

Perdeu o Pichichi para Leo Messi depois de um duelo de loucos que rondou a casa dos 50 golos. Mas este foi o seu ano, apesar de tudo. O ano em que mandou acalmar o Camp Nou, estádio maldito durante largas épocas, onde era acusado de nunca aparecer. Logrou-o na Supertaça, na Copa del Rey e decidiu, com um golo desenhado por Ozil, o campeonato diante do seu eterno rival. Antes tinha ganho sozinho o jogo mais importante do ano, no Calderon, e assinou durante a temporada cinco golos para a colecção de qualquer top 100 da história, do calcanhar de Vallecas à metrelhadora de Pamplona. Menos egoista, mais participativo no jogo colectivo, emergiu definitivamente como lider moral do ataque do Real Madrid. Não falhou um só jogo, raramente desapareceu de cena e decidiu-se a marcar os golos decisivos da temporada. Depois de ter sido rei em Inglaterra, Cristiano Ronaldo finalmente sagrou-se rei em Espanha.

 

 

Revelação do Ano

Isco

 

Manuel Pellegrini encontrou esta pérola formada na cantera do Valencia e solicitou-a expressamente para o seu projecto. Foi uma aposta a longo prazo com resultados imediatos. O jovem médio ofensivo malaguenho foi um dos grandes atractivos do "Euro-Malaga". Face à escassez de golos e magia no ataque dos andaluzes durante algumas jornadas, Isco encontrou o seu espaço e tornou-se rapidamente no parceiro ideal de Cazorla e Joaquin na linha medular do ataque do Malaga. O seu futuro na selecção espanhola é algo inevitável a curto prazo e a sua projecção não parece, de momento, conhecer limites. 

 

Onze do Ano

 

Seria possível fazer um Onze do Ano só com jogadores dos dois primeiros classificados. Possível, inevitável e lógico. Mas como todos sabem de memória esse onze o curioso é descobrir uma equipa alternativa sem blaugranas e merengues. Nas redes Thibaut Courtois, guardião belga do Atlético de Madrid. Um quarteto defensivo composto por Ballesteros, capitão veteranissimo do Levante, o médio adaptado Javi Martinez do Bilbao, e os laterais Jordi Alba e Juanfran

 

O meio-campo a três seria composto por Santi Cazorla, lider espiritual de um Málaga histórico. O asturiano seria acompanhado por Ander Herrera e Barkero, todo-terreno do Levante. No trio de ataque os golos de Koné, dianteiro levantino, de Radamel Falcao, herói do Calderon e de Fernando Llorente, o rei leão de Bilbao.

 

Treinador do Ano

Juan Ignacio Martinez

 

Imaginem uma equipa que há dois anos não tinha dinheiro para pagar o salário do plantel e corpo directivo e estava às portas da falência absoluta? Agora avancem no tempo e encontrem-na a disputar a Champions League. Podia ter acontecido, faltou muito pouco para o Levante ter assegurado a presença no play-off da prova rainha do futebol europeu depois de ter sofrido uma crise financeira tremenda. O homem responsável pelo renascimento do clube valenciano, Juan Ignacio Martinez, JIM na giria futebolistica espanhola, foi o grande responsável pela época tremenda de uma equipa que bateu o Real Madrid, dormiu quase todos os anos em postos Champions e pela primeira vez em 102 anos carimbou a passagem ás provas europeias.



Miguel Lourenço Pereira às 00:43 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Terça-feira, 22.05.12

O segundo titulo consecutivo do Borussia de Dortmund é um feito histórico no futebol alemão contemporâneo e a prova viva de que no Westfallen a lição de 2001 foi bem aprendida. Jurgen Klopp manteve-se fiel à ideia que fez do Dortmund uma das equipas mais atractivas do futebol europeu no ano passado e com isso lançou as bases para manter um troféu que a meio da época parecia que voltaria ás mãos do Bayern Munchen. Os bávaros disputaram taco a taco o titulo com os campeões mas viram-se superados pela maior eficácia dos homens do Rhur que estiveram 17 longas jornadas sem conhecer o sabor da derrota.

Quando o Dortmund perdeu o seu último jogo na Bundesliga, a equipa de Klopp seguia no 11º lugar e parecia a caminho de uma época para esquecer. O quarto lugar num grupo da Champions League acessível, a incapacidade de Gundugon de substituir com classe o talentoso Sahin e a irregularidade na prova nacional eram maus presságios. Mas essa última derrota, no Outono, antecipou uma cavalgada histórica liderada por Shinji Kagawa e secundada por actores de luxo, de Hummels a Bender, de Lewandowski a Gotze. O Dortmund não perdeu mais, encadeou 17 vitórias consecutivas, bateu o rival directo pelo titulo e sagrou-se campeão antes do último suspiro. 

Um triunfo histórico não só porque contraria a tendência recente do futebol alemão como foi realizado com o esqueleto da equipa do ano transacto mas sem Sahin, vendido ao Real Madrid, e com Mario Gotze largos meses fora do onze. O popular técnico do conjunto amarelo provou ser fiel ao seu estilo e aos homens que foi lançando às feras nas últimas três épocas e a resposta foi um futebol de alto calibre, uma eficácia tremenda e uma superioridade moral confirmada por duas vitórias num mês diante do Bayern, primeiro para a Bundesliga e depois por 5-2 para a final da Taça da Alemanha. 

Meritório titulo do Dortmund que volta a ter a Europa como desafio pendente para a próxima época, Europa onde melhor se moveu o Bayern Munchen. A ilusão de disputar a final do torneio no seu próprio estádio tornou-se numa obsessão para um clube que viveu um ano mais tranquilo com Jupp Heynckhes ao leme. Mesmo assim a lesão de Schweinsteiger, a baixa de forma de Muller e as discussões entre Ribery e Robben acabaram por contribuir para os pequenos, mas significativos, tropeções dos bávaros quando ainda lideravam a prova. Depois de ultrapassados pelo Dortmund, aos homens de Munique a perseguição transformou-se num pesadelo e as atenções viraram-se, sobretudo, para a Champions League.

 

Sempre perto e sempre tão longe deste duelo, a bela época de Borusia Monchengladbach e Schalke 04 não pode passar desapercebida. Sobretudo porque são dois projectos distintos mas que demonstram, à sua maneira, a maturidade da Bundesliga. Os mineiros do Rhur continuam na politica equilibrada de apostar na formação local misturando-a com valores importados a preço de custo como foi o caso de Raul e Huntelaar, peças chave no terceiro posto alcançado. Em Monchengladbach a aposta na juventude é evidente e seguramente terá o seu preço, mas a qualidade de jogo dos homens de Favre durante largos meses da prova foi insuperável.

A completar os postos europeus não houve lugar para campeões recentes como o Wolfsburg ou Werder Bremen, ainda assim a viver épocas mais tranquilas do que nos têm acostumado, mas sim para Bayer Leverkusen (bom ano apesar de tudo) e Stuttgart, a pouco e pouco a voltar às posições altas da tabela.

No lado oposto confirmou-se a falta de ritmo de alta competição de um campeão histórico como o Kaiserlautern e a despromoção de um FC Koln que, apesar de Podolski e os seus 18 golos, nunca soube funcionar como colectivo. Rostos amargos de um ano em que se assistiu a mais uma série de jogos inesquecíveis, novos jogadores locais a despontar e, sobretudo, a bancadas cheias e repletas de um dinamismo que confirma que a Bundesliga já ultrapassou a liga inglesa e espanhola em organização e qualidade de jogo. Falta agora no duelo desigual dos palcos europeus, onde as fortunas de poucos clubes de Espanha e Inglaterra dão uma sensação de desnível irreal, que os títulos comecem a dar razão a quem vê na prova germânica o futuro sustentável do futebol europeu. 

 

 

 

 

Jogador do Ano

Shinji Kagawa

 

O japonês foi o eixo central à volta do qual se moveu a engrenagem do campeão. Na ausência de Sahin e Gotze, o primeiro vendido ao Real Madrid e o segundo vitima de uma larga lesão, o nipónico liderou a equipa do Westfallen, marcou e assistiu com regularidade e encheu os relvados com gestos de um génio que, seguramente, para o ano jogará num dos maiores clubes do futebol europeu.

 

Revelação do Ano

Marc ter Stegen

 

3060 minutos de puro talento numa temporada espantosa para a mais jovem e flamante promessa das redes germânicas. 19 anos e a lembrança de uma escola que conta com gigantes como Maier, Schumacher, Ilgner, Kopke ou Kahn para seguir, ter Stegen não só foi um dos baluartes da grande época do Borussia Monchengladbach como também poderá ter o escaparate europeu da próxima época que precisa para dar o salto para um dos grandes do Velho Continente.

 

 

Onze do Ano

 

Manuel Neuer confirmou-se como um dos melhores guarda-redes do futebol europeu na sua primeira época em Munique. Na defesa jogam Lukas Piszceck (Borusia Dortmund), Matts Hummells (Borusia Dortmund), Kyriakos Papadopoulos (Schalke 04) e David Alaba (Bayern Munchen), um quarteto jovem, dinâmico e com uma profundidade ofensiva tremenda.  

 

O miolo é de Kagawa, motor do campeão, Toni Kroos, a grande surpresa deste Bayern Munchen e o sensacional Marco Reus, líder indiscutível do surpreendente Monchengladbach. 

 

Mario Gomez e Klas Jan Huntelaar partilham a linha de ataque, reis dos golos na prova, com o polaco Robert Lewandowski a completar um trio de ases do "thor".

 

Treinador do Ano

Lucien Favre

 

Não aguentou o sprint até ao final mas a época realizada pelo Borussia Monchengladbac de Lucien Favre foi tremenda. O técnico responsável pela erupção de verdadeiros talentos em bruto como são Reus, Ter Stegen, Jantschke, Hermman ou Cigergi, montou um onze ofensivo, atractivo e tremendamente eficaz. Durante meia parte da época o Monchengladbach pareceu emular a herança histórica da maravilhosa equipa da década de 70 e manteve-se perto do topo da tabela. Acabou em quarto, com opções de disputar a Champions League, e agora caberá a Favre confirmar que, sem Reus e com os focos nos seus jovens talentos, o projecto tem pernas para andar. 



Miguel Lourenço Pereira às 23:27 | link do post | comentar

Domingo, 20.05.12

Teria sido uma das grandes injustiças da história das provas europeias (e houve algumas) se este projecto chamado "Chelski" nunca tivesse tido direito a vencer uma Champions League. Que uma geração onde militam alguns dos nomes próprios da última década tivesse visto a glória passar. Sobretudo, que um gigante como Didier Drogba, tivesse de sentar-se de novo no relvado de mãos na cara, desolado. Nove anos depois de arrancar a sua imensa inversão financeira no clube londrino, Roman Abramovich tem finalmente a sua "orelhuda". E o futebol salda assim uma dívida com um clube que tinha atrás de si já uma final e quatro semi-finais perdidas às costas desde que tudo começou.

Juan Mata remata mas Manuel Neuer, esse panzer de olhar frio, defende.

Parecia Moscovo outra vez, parecia que o destino realmente tinha dito ao Chelsea que a glória futebolística era coisa a que não poderia ambicionar. Por muito dinheiro gasto, por muitos jogadores top, por muitos técnicos carismáticos. O sofrimento era a única palavra transversal nesta história. Mas o futebol tem destas coisas. Não significa que ganhe sempre quem mereça - e por futebol jogado o Bayern Munchen pareceu ser sempre uma equipa mais solvente - nem sequer quem jogue mais bonito. Não se trata nada disso. 

Da mesma forma que a Itália em 2006, foi a justiça colectiva a quem o futebol prestou homenagem no Allianz Arena. E nem um grande como Neuer podia desafiar o destino desta maneira. Depois da sua defesa inicial, a relembrar a meia-final contra o Real Madrid, os adeptos começaram a fazer contas. Nunca o Bayern tinha perdido um jogo em penaltys na Europa. Nunca o Chelsea tinha ganho um. Era assim de fácil. 

Mas marcou David Luiz. Mas marcou Lampard. Mas marcou Cole. E de repente não havia Terry à vista para escorregar outra vez e pelo caminho era Petr Cech, o mesmo que tinha parado no prolongamento um penalty a Arjen Robben - o maldito - quem se tinha tornado no herói da noite. Defendeu o remate frouxo de Olic e desviou com o olhar o tiro de Bastian Schweinsteiger. Jamais esquecerei esta final pelo rosto de "Schweini", pela segunda vez derrotado numa final europeia. A ele (e a Lahm) também há uma dívida por pagar. Mas este Bayern é um projecto solvente suficiente para voltar, mais cedo que tarde, para cobrar o que é devido.

Cech tinha defendido o que ninguém contava. E no final de contas o Chelsea tinha, outra vez, a possibilidade de sagrar-se campeão da Europa com o derradeiro penalty. Anelka, na China, deve ter agradecido que a pressão fosse para outro. Mas Didier Drogba não entende dessas coisas. Ele é o grande vencedor do ano. O seu olhar define a temporada futebolistica de um clube que se apoiou nele, mais do que nunca, para atravessar o purgatório. Desprezado pela directiva, roubou a titularidade a Torres, convenceu Villas-Boas da sua utilidade, tornou-se na referência ofensiva de Di Matteo e só, contra o mundo, ajudou a derrubar a mitologia blaugrana. Na final, esse jogo que tanto tinha atravessado, foi o protagonista absoluto. Pelas bolas que cortou na defesa, pela raiva com que liderou cada ataque. Pelo golo que empatou o jogo, a três minutos do fim. Pelo penalty que cometeu, infantilmente sobre Ribery, lesionando o francês, até então o melhor do ataque bávaro. Aquele momento pertencia-lhe por direito. E se a história devia algo ao Chelsea, devia muito mais a Drogba. Neuer devia sabê-lo, apenas se mexeu, o fatalismo do momento era evidente. A taça esperava os braços do marfilhenho, a história queria-o hoje mais do que nunca e a bola rasgou as redes na imaginação de milhões de espectadores. Caiu no relvado e sorriu. Drogba corria para a posteridade!

 

Futebolisticamente não foi a final mais apaixonante, mas foi seguramente uma das mais intensas.

Ambas as equipas comportaram-se da mesma forma como tinham feito nas meias-finais. O Bayern quis a bola e o domínio do jogo. O Chelsea preferiu controlar o espaço e aproveitar a velocidade para fazer a diferença. Não foi um jogo de K.O., no futebol quase nunca o é. Foi um combate a pontos que acabou empatado. Apesar do recorde histórico de cantos para os bávaros a bola rondou Cech e teimou em não entrar. O jogo pelas alas, bem tapadas por Bosingwa e Kalou na direita e Cole e Bertand na esquerda, tornou-se ineficaz e Robben e Ribery foram forçados a procurar diagonais que esbarravam com o muro que derrotou o Barcelona. 

Nenhum dos seus remates encontrou perigo e demasiadas vezes o excesso de pernas de jogadores azuis confundia o jogo de passes entre Gomez, Muller, Kroos e Schweinsteiger, o eixo central da ideia de Heynckhes. Tacticamente o treinador alemão não encontrou forma de furar o bloqueio e faltou talvez paciência para atrair o conjunto inglês da sua toca. Entretanto o tempo passava, os corpos perdiam forças, a cabeça clarividência e o Chelsea, matreiro como só um treinador italiano pode ser, começou a morder. A  pouco e pouco os contra-golpes venenosos assustavam, faziam os alemães correr mais do que as pernas podiam e davam a sensação de um perigo maior do que seria de supor. Durante oitenta minutos a troca de golpes foi-se equilibrando. Nenhuma ideia era capaz de bater a outra e a verdade é que nenhum dos bandos parecia disposto a mudar o guião. Até que apareceu Thomas Muller.

Depois de uma época uns furos abaixo do que demonstrou em 2010, o ano da sua explosão, Muller viu-se na final num papel incómodo. A sua posição natural tem sido ocupada por Robben e Kroos e ali, com o médio recuado para cubrir a baixa de Luiz Gustavo, sentiu-se perdido. Mas o seu sentido de oportunismo é único e depois do enésimo ataque, a bola sobrou-lhe e com um golpe cheio de imaginação, bateu Cech como a um guarda-redes de andebol. Faltavam sete minutos, o Allianz Arena celebrava já o quinto titulo europeu, o argumento de um ano mágico parecia ter sido escrito em alemão.

Só que Drogba, esse monstro que deveria terminar o ano com um mais do que merecido Ballon D´Or, ainda não tinha dito a última palavra. Nem cinco minutos, tempo suficiente para Heynckhes cometer o erro de tirar ao autor do golo alemão, e o Chelsea empatava. A desilusão na cara dos germânicos dizia tudo. Um clube habituado a perder finais, incapaz de ganhar uma final a equipas ingleses, parecia ver o rosto fatídico do destino na cara do africano. E veio o prolongamento, e o penalty a Ribery e o falhanço de um Robben que se começa a fazer notar pelos falhanços nos momentos decisivos da sua vida, ele que fez parte do melhor Chelsea da história, ao lado do núcleo duro contra quem jogou hoje. Depois desse momento ficou claro que, tarde ou cedo, os ingleses sairiam vencedores. Parecia evidente que a história tinha decido fazer com eles o que se tinha esquecido com o Monchengladbach dos anos 70, o Real Madrid dos anos 80 ou o Arsenal de Wenger. Justiça. 

O relógio continou a correr, os penaltis chegaram, inevitáveis, e Drogba decidiu que nove anos de espera eram demasiados. 

 

Pode parecer curioso que o pior Chelsea desde que Abramovich chegou, em plena era Ranieri, tenha logrado o que nem Mourinho, Grant, Hiddink ou Ancelloti conseguiram. Se é certo que o Bayern não foi hoje tão eficaz como contra o Real Madrid e muito mais parecido ao que tremeu nos momentos decisivos da Bundesliga, também é verdade que o jogo dos ingleses voltou a assemelhar-se mais à herança do catenaccio do que, propriamente, à escola de futebol espectáculo que o russo tanto aprecia. Mas o magnata já tinha tentado de todas as maneiras e o troféu, de uma forma ou de outra, tinha-lhe sempre escapado. A vitória de hoje é mais sua do que ninguém, pela insistência em não deixar nunca de procurar lograr o seu objectivo. Foi o triunfo de uma geração histórica do futebol inglês, de alguns dos seus melhores jogadores, de um lider espiritual que pode muito bem ser considerado como um dos maiores (ou o maior) futebolista africano da história. E foi, mais do que isso, o triunfo de um sonho sobre qualquer ideário táctico, cultura futebolística ou projecto pessoal. Vencer a Champions League dá ao Chelsea finalmente o pedigree que lhe faltava, o primeiro clube londrino a vencer o troféu, o quinto inglês em lograr o feito. Talvez sirva para dar tranquilidade ao clube, tempo para crescer noutros moldes, uma maior aposta no jogo e na formação do que nas ânsias e o livro de cheques. Abramovich tem a palavra, a sua geração pode partir agora com a sensação do dever cumprido. E o futebol saiu do Allianz Arena mais aliviado mas com a consciência de que sempre haverá alguma divida moral por saldar.



Miguel Lourenço Pereira às 00:30 | link do post | comentar

Sexta-feira, 18.05.12

Pode um clube que gastou numa década mais do que qualquer outro no futebol europeu vencer o maior prémio do futebol europeu com a sua pior versão? A história do futebol está cheia de exemplos como este e no entanto parece claro que o Chelsea seguiu o caminho mais ortodoxo possível para ganhar o único prémio que realmente importa a Roman Abramovich. Depois de ter estado à porta tantas vezes, vencer no Allianz Arena significa para este Chelsea mais do que um titulo único. É, sem dúvida, a forma perfeita de fechar um ciclo que já teve momentos mais brilhantes.

Terry escorregou e falhou o que seria o titulo perfeito.

Não estava Mourinho mas a equipa tinha começado o ano com ele. Talvez sem o seu mentor algo tenha falhado naquela noite em que Abramovich queria fazer a festa na sua Moscovo. Antes tinha sido a nemésis Barcelona como a foi depois. E o Liverpool, com o golo fantasma de Luis Garcia e o penalty parado por Reina. Ou Deschamps e o seu inesperado Mónaco. Parecia sempre haver algo cósmico por detrás de cada derrapada de um clube que gastou, desde Hernan Crespo a Fernando Torres, o que nenhum outro alguma vez gastou para vencer a "orelhona". 

Di Matteo não é nem Ranieri, nem Hiddink, nem Scolari, nem Villas-Boas, nem Grant, nem Ancelloti e muito menos Mourinho. Mas o Chelsea, salvo nos três anos do português, foi sempre um clube do presidente e dos jogadores e o seu triunfo será sempre o triunfo dos outros. Da velha guarda que o dinheiro do russo pagou e que Mourinho transformou num colectivo que lhe sobreviveu meia década mais do que seria de esperar. Dos Terry, Lampard, Cech, Cole e Drogba, gladiadores que nunca desistiram, mesmo quando Villas-Boas não sabia o que fazer em Napoli, num jogo onde os ingleses foram superados absolutamente pelos italianos. 

A saída do técnico português entregou o balneário aos jogadores e o seu modo de auto-gestão, como tantas vezes funciona (veja-se a Alemanha de 74), foi tremendamente eficaz. A estética ficou para segundo plano, a Premier foi esquecida. Durante três meses o clube trabalhou com apenas um objectivo. De tal forma que esse desespero foi a única arma possível para derrotar o Barcelona em 180 minutos de infarto. E será a grande arma quando a equipa suba ao Allianz Arena, convencida que será a última oportunidade para fechar um ciclo de ouro.

 

Di Matteo é o hábil sargento e sabe que para vencer o Bayern em casa precisa pouco de futebol e muito de alma.

Ninguém espera um Chelsea diferente do que se viu contra Benfica e Barcelona. Uma equipa sem interesse em ter a bola, com uma ocupação precisa dos espaços e apostando pela velocidade do seu ataque. Drogba correrá como nunca, naquele que será provavelmente o seu último jogo de azul. Kalou e Mata serão os seus escudeiros e Torres, como na cidade condal, a arma secreta. A partir daí, atrás, desaparecem os nomes próprios e cresce a sensação do bloco de cimento colectivo que terá de viver sem Ivanovic, Terry, Meireles e Ramires, quatro jogadores fundamentais na meia-final contra os catalães.

Bosingwa, Cahill, Luiz e Cole terão a difícil missão de travar o trio de ataque maravilhoso dos bávaros. E a Lampard, Obi Mikel e, talvez, Essien, caberá destruir a tentativa do Bayern de fazer a bola respirar no meio de tantas pernas. O banco é curto, as opções diminutas e a improvisação será a única arma que Di Matteo terá para enganar a Heynckhes. Mas como tem repetido diversas vezes, a motivação será a gasolina de um clube que terminou na pior posição doméstica em dez anos e que está à beira do desmantelamento absoluto. Ninguém duvida que Malouda, Drogba, Lampard, Terry, Cech, Cole e Essien estão prestes a dizer adeus e os que vêm atrás (e o Chelsea tem dinheiro e jogadores de futuro para jogar melhor do que tem feito com esta versão gladiadora) seguramente que terão oportunidades no futuro para voltar a disputar o ceptro europeu.

 

Mas o clube londrino vive numa ânsia eterna que transpira na pele e na carteira do seu dono. Viver sem a Champions League é existir sem alma em Stanford Bridge e depois de uma década de futebol espantosa, há quem pense que o futebol deve algo a este clube. É a pensar nisso que o onze azul subirá ao terreno de jogo, contando que a história lhe devolva um favor que tantas vezes lhe negou. Mesmo esquecendo que eles são, talvez, o patinho feio da epopeia blue.



Miguel Lourenço Pereira às 14:52 | link do post | comentar

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