Segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Com o seu mandato chegou ao fim a era gloriosa do Liverpool. Foi o último guardião dos segredos do Boot Room, a sala onde Bill Shankly e os seus ajudantes lançaram as bases da formação mais importante das décadas de 70 e 80. Joe Fagan foi o último guardião da mistica. A sua saída surpreendente após o desastre de Heysel marcou o final de uma era do futebol inglês.

 

Quando Bill Shankly chegou ao Liverpool decidiu transformar uns velhos arrumos numa sala de chá para o corpo técnico. Aí discutia tácticas com o seu conjunto de adjuntos seleccionados a dedo. A mistica do Pool nasceu aí e nessa equipa estava Joe Fagan. O então fisioterapeuta tinha sido um belíssimo lateral esquerdo no Manchester City dos anos 30. A guerra levou-o até às praias da Normandia e nos anos 50 a carreira já tinha terminado. Começou então a etapa como técnico. Primeiro no modesto Rochdale, onde trabalhou como adjunto de Harry Catterick e a partir de 1958 no Liverpool. Quando Fagan chegou ao clube já lá estavam Bob Paisley e Reuben Bennett. A chegada no ano seguinte de Shankly formou a equipa perfeita. Durante a década de 60 Fagan foi um dos fieis seguidores do técnico escocês. Quando este se retirou muitos consideravam que Fagan era o homem certo para o posto mas o técnico e a direcção preferiram o caracter pacato de Paisley. Este aceitou de forma relutante e nomeou imediatamente Fagan como seu braço-direito. E assim a dupla tornou-se na mais bem sucedida da história do futebol inglês. Até ao Verão de 1983. Quando ninguém o esperava, Bob Paisley anunciou o final da sua carreira. E nomeou o seu sucessor: começava a era de Fagan.

 

O técnico herdava uma equipa que conhecia até à medula. Tinha sido figura chava nas contratações de Dalglish, Rush, Barnes e Hansen que permitiram uma tranquila renovação dos heróis dos anos 70. O seu onze tipo era em tudo similar ao do seu antecessor e Fagan limitou-se a continuar a controlar as contas desde o banco. O Liverpool jogava como nenhuma outra equipa e rapidamente assumiu a dianteira do campeonato. Em destaque estava uma descoberta do técnico, o médio dinamarquês Jan Molby que Fagan tinha contratado durante o defeso. Molby foi fundamental na carreira do Liverpool que nesse ano venceu quase todos os troféus possiveis. Arrancou com o Charity Shield, continuou a vencer a Taça da Liga e em Maio sagrou-se, uma vez mais, campeã de Inglaterra. Mas o momento alto estava guardado para depois. Diante da favorita AS Roma de Falcão e Conti e em pleno território inimigo, Fagan dirigiu o Liverpool até à sua 4 Taça dos Campeões Europeus. Um primeiro ano inesquecível que confirmava todo o potencial de Fagan, então já um veterano de 64 anos. 

O ano seguinte acabou por ser diametralmente oposto do que a época anterior. O Liverpool caiu nas meias-finais da FA Cup, e perdeu as finais da Supertaça Europeia e da Taça Intercontinental. Na liga a luta pelo título foi cerrada até ao final mas na última jornada o eterno rival, Everton liderado por Gary Liniker, desiquilibrou as contas e terminou com a hegemonia Red. Por essa altura já estavam todas as cabeças postas em Bruxelas onde o Liverpool ia disputar a sua segunda final consecutiva da Taça dos Campeões diante de outro rival italiano, a Juventus de Platini. Uma tarde que marcou um antes e depois na história do futebol inglês. O desastre de Heysel Park não só acabou com a hegemonia inglesa no futebol. Acabou com o próprio Liverpool.

 

Profundamente afectado pelo desastre que presenciou de forma incrédula, Fagan anunciou de imediato que se ia retirar do futebol. Apesar da direcção lhe ter oferecido um novo contrato por mais duas épocas, Joe Fagan foi inflexível. Ele era o último de uma geração que tinha dominado e controlado o clube por dentro durante 25 anos. Depois dele não havia mais nenhum guardião do Boot Room. Consultado pela direcção recomendou Kenny Dalglish, um dos seus jogadores preferidos, para o posto. O escocês aceitou, sob condição de continuar como jogador. O Liverpool viria a ganhar ainda dois titulos sob o mandato de Dalglish, mas as sensações já não eram as mesmas. Em 1989 o clube entrou numa espiral de auto-destruição que levou à perda do trofeu no último minuto do jogo contra o Arsenal. Começaria uma seca de 20 anos que ainda subsiste. E que Fagan não chegou a ver. Faleceu com 80 anos em 2001, pouco depois de ver o seu nome adicionado ao Hall of Fame onde os seus dois amigos e companheiros de sempre já tinham lugar.

 

Joe Fagan não foi um génio táctico como Shankly nem um tranquilo pastor de homens como Paisley. Mas esteve sempre por detrás de todos os grandes triunfos do clube durante quase três décadas. A sua etapa como técnico ficou marcada por uma das melhores épocas da história do clube. Mas também pelo desastre de Heysel e tudo o que significou. Fagan era o último dos grandes Managers e o seu espirito de gentleman impediu-o de continuar perante um mundo que começava a caminhar perigosamente para o caos absoluto. Anos após ter-se retirado Paisley confessou que nunca tomava uma decisão sem consultar Fagan. Quando lhe comunicaram esta declaração Fagan sorriu e apenas respondeu: "Ali eramos todos um só". E com ele se foi o Boot Room. 



Miguel Lourenço Pereira às 15:51 | link do post | comentar

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