Domingo, 27 de Dezembro de 2009

O histórico conjunto de Birmingham tem nas suas vitrines uma taça mágica que os adeptos de Villa Park nunca pensaram em lograr. Uma Taça dos Campeões Europeus que não foi ganha por Ron Saunders. Mas apesar disso o seu nome continua a ser o único que os adeptos se lembram dessa era histórica de um dos clubes mais embelmáticos do futebol inglês.

 

A meio da época 1981/1982 a direcção do Aston Villa anunciou que Ron Saunders se despedia. O motivo invocado foram as divergência entre o técnico e os directivos. Na realidade Saunders estava descontente com a falta de apoio do presidente e a promessa por cumprir de investir no plantel como lhe tinha sido prometido. O clube, detentor então do histórico título de campeão, vagueava pelo sexto posto. Mas estava já nos Quartos de Final da Taça dos Campeões Europeus. Saunders saiu e o seu adjunto, Tony Barton, levou a equipa até ao final da época terminando a liga no oitavo posto mas vencendo a inesquecível final diante do Bayern Munchen em Roterdão. Foi o culminar do trabalho de cinco anos de Saunders num clube que tinha sido o mais bem sucedido do século XIX e que há vários anos vivia em situação complicada. Mas voltemos ao início, a Ron Saunders. Esse mentor de homens cerebral com um instinto ganhador inimaginável. Nascido a Novembro de 1932 en Birkenhead, o jovem começou uma carreira promissora como avançado no Everton em 1951. Foi no entanto no Portsmouth, onde militou seis anos, entre 1958 e 1964, que o dianteiro atingiu o seu momento alto. Mais de 250 jogos que valeram 145 golos para os Pompeys. Depois provou ainda o Watford e o Charlton antes de colocar um ponto final na carreira de jogador. E abrir uma nova etapa da sua carreira como técnico.

 

Começou em 1967 a orientar o modestíssimo Yeovil passando depois pelo Oxford e Norwich City. Foi em East Anglia que começou a mostrar as suas aptidões. Os canaries venceram a Division Two no primeiro ano de Saunders como técnico voltando à elite de onde tinham caído anos antes. O ano seguinte foi brilhante para um clube tão modesto. Saunders levou uma equipa condenada à descida até ao 12 posto na classificação e disputou a sua primeira final, a League Cup em Wembley. O Norwich acabou por perder diante do poderoso Tottenham mas o nome de Saunders estava na boca de todos. Foi o Manchester City quem se antecipou e ofereceu ao técnico um contrato de três anos. Na sua primeira época, e com um conjunto bem longe da forma apresentada no final dos anos 60, terminou em 14 na classificação logrando nova presença na final da League Cup. Uma final amarga já que o Wolverampton Wanderers venceram com um golo nos descontos. Foi então que lhe chegou às mãos uma tentadora oferta do Aston Villa, que então agonizava na segunda liga. Plenos poderes e um largo contrato foram suficientes para conquistar Saunders. Começava a sua etapa mais gloriosa.

 

Em Villa Park o técnico encontrou um conjunto descrente. Mas rapidamente aplicou a sua formúla mágica e começou a mostrar o seu perfil ganhador. O clube garantiu rapidamente a promoção à First Division e chegou à final da League Cup. Pelo terceiro ano consecutivo Saunders marcava presença em Wembley. Desta feita com uma vitória. O ano seguinte foi ainda mais saboroso. Nova vitória na League Cup para Saunders e os seus Villains e no primeiro ano de regresso à elite o quarto posto e a subsequente qualificação europeia. Os dois anos seguintes foram passados sem titulos mas o Aston Villa crescia a olhos vistos. Por duas vezes lutou pelo titulo e por pouco perdeu. O conjunto de Saunders transformou o seu mitico recinto num fortim e em 1980 eram claramente uma das mais fortes equipas do futebol europeu. Numa equipa onde pontificavam Gary Shaw, Tony Morley, Peter White e Jimmy Rimmer, o titulo era a única ambição. Há 71 anos que o Aston Villa não vencia a liga. Era a hora.

A época começou com o Ipswich de Bobby Robson a liderar a prova e o Liverpool de Bob Paisley como rival directo. Mas os Villains rapidamente começaram a trepar na classificação e no Boxing Day já eram lideres. O duelo contra o surpreendente Ipswich durou até ao final da prova mas uma vitória em Suffolk foi determinante para acabar com a malapata final. O Aston Villa era finalmente campeão e Saunders terminava a total reconstrução do clube. Aos festejos seguiram-se as promessas da direcção de contratar Paul Mariner e Trevor Francis que nunca chegaram. O Aston Villa começou mal a época apesar dos progressos europeus. Em Dezembro Saunders fartou-se e lançou um ultimato à direcção. Acabou por demitir-se e apesar da vitória do clube, meses depois em Roterdão, esse seria o final da ressurreição do Aston Villa.

 

Saunders cometeu então o maior dos sacrilégios aos olhos dos seus adeptos. Assinou pelo Birmingham e que acabou por descer de divisão nessa época mas rapidamente voltou à ribaltalta. No entanto em 1986 saiu por problemas com a direcção e assinou pelo terceiro clube das Midlands, o West Bromwich Albion que tinha vindo a tropeçar ao longo da época na tabela final. A equipa acabou por ser despromovida e Saunders foi despedido. Uma derrota amarga que o levou a por um ponto final numa carreira brilhante. Hoje continua a ser uma figura reverenciada em Villa Park, apesar da dupla traição, e o seu nome consta como um dos poucos Managers que conseguiram operar a total transformação de um clube desde a subida de divisão à consagração europeia. Um técnico absolutamente histórico. 



Miguel Lourenço Pereira às 15:34 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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