Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Um dia 16 de Dezembro. Á 13 Jornada. Ao minuto 13. Sombria conjugação suficiente para marcar a letras negras a história do jogo. Um passe para a direita e subitamente o estádio entra em suspense. Horas depois confirmava-se o pior cenário. Tinha morrido Pavão, em pleno relvado das Antas. E o futebol português perdia no campo de batalha a um dos seus melhores guerreiros.

Tinha a transferência para o Manchester United de Tommy Docherty já acertada. Ia tornar-se no primeiro grande emigrado do futebol português, com um salário muito superior ao ganhava no clube que o formou e lançou para a ribalta. Com isso pensava pagar o bar que queria abrir com a mulher na Invicta. Sonhos desfeitos por um momento escalofriante. Anos antes tinha chegado de Chaves repleto de ilusões. Até aquele minuto fatídico, há precisamente 36 anos, tudo lhe tinha corrido melhor do que esperado. Tinha emergido como um lider no meio do destroçado conjunto azul e branco e era o grande baluarte do onze orientado por Bella Guttman, na sua segunda etapa na Antas. Internacional, médio de corte elegante e espirito guerreiro, Fernando Pascoal Neves era o ídolo dos então ainda "andrades". Chamavam-lhe Pavão pela sua peculiar forma de fintar, com os braços erguidos como que dançando sobre os rivais. Tinha nascido 26 anos antes em Trás-os-Montes e fora Flávio Costa, ex-seleccionador brasileiro, que o descobriu nos juniores onde Artur Baeta tinha conseguido fazer que se pagassem 300 contos ao Chaves para o contratar ainda júnior. Promoveu-o rapidamente à equipa principal e com 18 anos estreou-se a titular. Frente ao SL Benfica. Marcou Mário Coluna de forma implacável. Nunca mais saiu da equipa que capitanearia anos depois.

 

Um ano depois chega José Maria Pedroto. O novo técnico traz novas ideias para o seu clube de sempre e imediatamente detecta em Pavão um diamante para pulir. Entrega-lhe a batuta do meio-campo, apesar da sua juventude, e rapidamente o promove a mais jovem capitão de sempre dos azuis e brancos. No segundo ano Pavão lidera o FC Porto para a única vitória durante os longos 19 anos de jejum, uma final da Taça de Portugal no Jamor contra o Setúbal. A saída abrupta de Pedroto voltou a devolver o clube à mediania e os anos seguintes são marcados por constantes vai e vens de técnicos. O inglês Tommy Docherty é dos que mais captivado fica com o jovem e depois de ser despedido deixa uma nota na imprensa: que Pavão era demasiado grande para jogar num clube que não lutava por titulos. A chegada do peruano Cubillas estava confirmada - o peruano tinha sido apresentado poucos dias antes e só se incorporaria em Janeiro - e a venda de Pavão tornou-se numa inevitabilidade que os adeptos já começavam a lamentar. Nesse 1973 o conjunto azul e branco contava com uma nava vaga de talentosos jogadores como António Oliveira e já se lançavam as bases do que viria a ser, anos mais tarde, a equipa do título que acabou com a era de sofrimento nas Antas.

 

Nesse 16 de Dezembro os azuis e brancos recebiam o Vitória de Setúbal de...Pedroto. A equipa sadina lutava pelos primeiros postos e era um rival temivel. Ao minuto 16 da primeira parte Pavão lança um passe de morte para António Oliveira e subitamente cai no chão, inanimado. Os colegas rapidamente se precipitam sobre ele e o estádio fica em silêncio. Pavão é levado do relvado para o hospital de Santo João. O jogo continuou e os azuis e brancos até venceram. Mas a noticia já se começava a espalhar pela cidade. Momentos depois a confirmação, por rádio, da morte de Pavão. 

O motivo da morte nunca foi bem explicado e levantou inumeras teorias, desde um problema coronário aos celebres chazinhos de Bella Guttman, então técnico dos portistas. A direcção não quis aprofundar a investigação e o tempo encobriu o real motivo para a primeira morte súbita num relvado português. A mulher que deixou recebeu promessas de ajuda que nunca chegaram. Poucos anos depois foi erigido um busto comemorativo do capitão à porta do estádio. Com a mudança ao Dragão o busto ficou guardado num qualquer armazem. Curiosamente no passado fim de semana o FC Porto recebeu de novo o Setubal à 16 Jornada, a três dias do fatidico dia da morte do jogador. A direcção azul e branca manteve-se imutável. Como tem sido o seu apanágio nos últimos anos com as grandes glórias passadas do clube. Mas mesmo assim há heróis impossíveis de esquecer.

Hoje os jovens já mal conhecem a lenda de Pavão. Quem o viu jogar guardou na memória a verticalidade do seu jogo, o espirito de raça e a forma tranquila como emergia como o lider de uma geração que viveu os piores anos da história do clube. Em Inglaterra o seu estilo de jogo poderia ter levado a Pavão a outros patamares. O destino ceifou-lhe a oportunidade de se tornar num dos grandes. Ficou a memória de um principe guerreiro como poucas vezes as já extintas bancadas das Antas contemplaram. 



Miguel Lourenço Pereira às 10:15 | link do post | comentar

1 comentário:
De carlos cunha a 17 de Abril de 2014 às 22:14
Pavão, primo directo do meu pai. A sua mãe era irma da minha avo. Não nasceu em chaves mas sim no lobito.


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