Terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

"Não sabia que para ser jockey antes era preciso ser-se cavalo!". Arrigo Sacchi foi um dos mais revolucionários técnicos da história do futebol. Mas nunca foi jogador profissional. Acusado pela falta de experiência como atleta de alta competição, respondeu assim aos criticos jornalistas. E deixou a nu a grande linha divisória que orienta o mundo dos técnicos de futebol. A escola dos treinadores com passado no relvado e a dos técnicos de formação teórica e iminentemente cientifica. Hoje o beautiful game volta a recuperar uma velha luta...

 

Nos primórdios os técnicos eram gentlemans que poucas vezes tinham passado como atletas. Muitas vezes eram profissionais de educação fisica, psicologos consagrados ou simplesmente, autênticos inovadores. Mas o lugar do banco nunca lhes pertenceu de forma exclusiva. Bem pelo contrário. Com a explosão de popularidade à volta do jogo e o nascimento do profissionalismo tornou-se normal que um jogador optasse pela vida de treinador ao acabar a carreira. Nasceram os técnicos com formação no relvado, antigas glórias desportivas ou nomes obscuros de uma equipa modesta. A partir do pós-guerra tornaram-se na esmagadora maioria. Tinham melhorado a nível táctico e tinham a seu favor a experiência de longas carreiras. E eram figuras conhecidas do adepto. E acarinhadas. E isso dava-lhes autoridade para vender ou comprar jogadores, lidar com a direcção e aguentar resultados negativos. O fenómeno implementou-se com tamanha naturalidade que o Brasil campeão do Mundo de 1970 contava no banco com um antigo jogador que, oito anos antes, tinha sido campeão no relvado. Chamava-se Mário Zagallo e tinha levado à glória uma equipa que meses antes era orientada por um jornalista desportivo. Que não aguentou a pressão de ser um desconhecido do meio. Pressão dos dirigientes, jogadores e dos adeptos.

 

Com os anos 80 o cenário alterou-se por completo.

A velha geração de técnicos nascidos no pós-guerra começou a deixar os bancos. E o desenvolvimento técnico-táctico tornou o futebol num fenómeno mais perto de uma ciência exacta do que um mero espectáculo desportivo. Termos como pressão alta, jogo entre linhas, transições, dinamismo ofensivo, lances estudados começaram a entrar no quotidiano do jogo. E com eles chegaram verdadeiros estudiosos do jogo. Mestres da táctica que nunca tinham estado numa grande competição. Homens mais interessados no aspecto da prepração fisica e na psicologia dos jogadores do que propriamente em lembrar aos mesmos quão épica foi a sua final como elemento de campo. O aparecimento de Arrigo Sacchi confirmou a revolução. O jovem técnico nunca tinha sido profissional. Silvio Berlusconi repescou-o no Parma e deu-lhe as ferramentas perfeitas para montar uma equipa de sonho. O seu AC Milan foi a sua primeira equipa assumidamente moderna. A dinamica de jogo do conjunto lombardo acentava na optimização de todos os principios de treino. Uma pressão alta e vertical, um jogo de linhas bem espaçadas, perita em jogar com o fora-de-jogo (algo idealizado no final dos anos 70 por Guy Thys no Anderlecth) e que marcava à zona e não ao homem. O sucesso do Milan abriu as portas a uma nova geração de técnicos com uma experiência passada quase infima. Otmar Hitzffeld  na Alemanha, Arsene Wenger em França, ou Louis van Gaal na Holanda tornaram-se nas bandeiras da nova escola. Os seus métodos profissionalizaram o jogo e levaram a concepção táctica a outro patamar. O culminar chegou na final do Mundial de 1994. Sacchi contra Parreira. Dois teóricos que provaram que não era preciso ser-se cavalo de puro sangue para chegar a ser jockey de primeira.

 

No entanto a vertente de carreira nunca foi totalmente posta de parte. Continuava a ser a primeira - e mais fácil - das escolhas e dentro desse movimento houve também nomes de excelência que souberam aproximar os seus conhecimentos práticos com a dimensão teórica do jogo. O Dream Team de Johan Cruyff recuperava o ideal técnico do Futebol Total. Por outro lado Fabio Capello punha em ordem o sistema defensivo italiano com um trabalho táctico apuradíssimo. Sem esquecer Fergusson, talvez o último da velha linhagem de managers britânicos, Lippi, Valdano, Rehagel, Hiddink. Todos eles começavam a colaborar nos cursos de formação dados pela UEFA e assimilavam ao seus métodos pessoais os conhecimentos téoricos dos técnicos com quem trabalhavam nessas sessões. Hoje é indismentível que os grandes técnicos saídos da carreira de jogador manejam tão bem os aspectos de formação técnico-táctica como qualquer teórico do jogo. São os ex-jogadores de pequena expressão que acabam por destoar. É facil começar uma carreira como técnico, habitualmente num clube pequeno ou ligado ao clube onde fez a carreira desportiva. Complicado é manter-se no topo. E aí fica provado que a maioria dos antigos jogadores se torna em treinadores extremamente limitados.

 

Para o fim deixamos os expoentes máximos de ambas as correntes neste século, José Mourinho e Josep Guardiola.

Mourinho é talvez o culminar da corrente de teóricos do jogo. Uma carreira como jogador nula, uma vida como técnico de excepção. Desde jovem Mourinho bebeu futebol a pensar no jogo como técnico e não como atleta. Formou-se na Escócia e trabalhou ao lado de dois técnicos de excepção. Bebeu culturas futebolisticas, ensinamentos tácticos e formas de lidar com os jogadores. A isso aliou o seu génio pessoal. O resto é história e hoje Jose Mourinho é o técnico perfeito por excelência. Encara o jogo como um analista. Não procura o espectáculo. Procura a vitória. Analisa metodicamente cada aspecto do jogo. Motiva os jogadores como um psicologo profissional, rodeia-se dos melhores especialistas na preparação fisica e trata de construir um bloco à sua volta que o torne inexpugnável. É o simbolo perfeito do técnico que começa a carreira do zero. E que triunfa de forma inequivoca.

Do outro lado da barrica está Josep Guardiola. Houve poucos jogadores tão determinantes ao longo dos anos 90 como ele. Foi a balança do Dream Team de Johan Cruyff. Começou muito cedo a carreira como jogador mas esteve sempre ao lado dos seus técnicos, de Cruyff a van Gaal passando por Robson e Capello. E deles bebeu toda a cultura táctica que o ajudou a perceber melhor o jogo. Desde sempre foi treinador. Mas no terreno. O seu carácter de perfeccionista tratou de fazer o resto. Estudou, pendurou as botas e beneficiou do seu estatuto de velha glória azulgrana para ser lançado às feras. O resta é igualmente história. E mérito seu. Faltam-lhe alguns anos para perceber a dimensão do seu génio.

 

Mourinho leva oito anos na elite do jogo. Guardiola está apenas no segundo. Mas ambos falam a mesma lingua. Independentemente do local de origem, ambos entendem o futebol na sua vertente moderna. Mais do que um jogo, mais do que uma arte, mais do que uma ciência. O futebol é a complexidade em estado puro. O resto é uma bola a rolar durante 90 mintuos.



Miguel Lourenço Pereira às 16:43 | link do post | comentar

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