Terça-feira, 1 de Dezembro de 2009

O futebol é um desporto colectivo. Os prémios são méritos individuais. Errado. E errado. Nem sempre o jogo se remete aos 11. Nem sempre os prémios representam apenas 1. O arrebatador triunfo de Lionel Messi na última edição do Ballon D´Or da década cai no duplo erro de personalizar o jogo colectivo e deíficar um que não foi, na realidade, primus inter pares. A maior vitória da história do prémio atribuído pela publicação francesa confirma que o futebol precisa, cada vez mais, de figuras para fascinar o colectivo.

480 votos são o máximo que um candidato pode atingir. Matematicamente é quase impossível lograr tamanho consenso. Messi conseguiu 473. A sete do total absoluto. Um record esmagador, retumbante, histórico. E profundamente injusto.

O argentino venceu à terceiro tentativa depois de ficar atrás de Kaká e Cristiano Ronaldo em 2007 e do português em 2008. Um triunfo que já era esperado, mas nunca com esta magnitude. Afinal, o grande mérito de Messi foi pertencer a um colectivo que fez história, uma equipa que fascinou o futebol europeu pela sua qualidade colectiva. Onde as individualidades não tinham lugar. Uma mensagem passada vezes sem conta pelo orquestrador desta sinfonia gloriosa. Mensagem que caiu em saco roto. À hora de premiar - e isto dos prémios é sempre profundamente relativo - o mundo do futebol prefere a figura individual ao valor colectivo. Porque Messi podia ter ganho. Mas nunca de forma tão unânime. Nunca a tamanha distância dos artistas que lhe permitem existir no relvado. Fica a dúvida no ar ao ver a brutal diferença nas votações. Nos cinco primeiros encontramos a quatro jogadores do Barcelona. No meio, Cristiano Ronaldo, prova que a sua figura individual é bigger than life, esteja onde esteja. Porque o Manchester United é uma equipa com e sem CR7. Porque o Real Madrid é uma equipa com e sem CR9. Mas o Barcelona mantém-se exactamente o mesmo relógio suiço, precioso e metódico, com e sem Lionel Messi. E isso os votantes não perceberam.

 

Se Cristiano foi um justo vice - logrando estar, pelo terceiro ano consecutivo nos dois primeiros lugares - ele que não fez méritos para triunfar mas que não teve igualmente deméritos para perder, olhar para o resto do quadro é perceber a importância do Barcelona no ano que finda. O maestro de cerimónias, Xavi Hernandez, trepa até ao terceiro posto. Apenas. Um triste fado para um pequeno grande génio, já habituado a ser suplantado pelo valor das figuras mediáticas. Primeiro Rivaldo, logo Ronaldinho, agora Messi. Atrás, sempre como fiel escudeiro, o inevitável Xavi. Justissimo vencedor por representar o colectivo blaugrana, tanto Xavi como o seguinte na classificação, Andrés Iniesta, foram tão ou mais decisivos do que o ganhador na época do Barcelona. Foram eles a treve mestre do Pep Team. Mas não vendem suficiente camisolas, capas de revistas ou videojogos para sonhar com algo mais. Desditas do futebol, desditas da nossa sociedade.

No quinto posto, a fechar com chave de ouro o ano blaugrana, o amaldiçoado Samuel Etoo. Os seus golos foram tantos e de tal forma decisivos que era inevitável a sua presença. Apagado em Milão, mal-amado em Barcelona, o homem que abriu o triunfo europeu e doméstico do Barcelona é uma das figuras do ano. Por muito que (quase) ninguém, o queira reconhecer.

Acabado o top 5 começa a confirmar-se a ideia que faz de Messi um vencedor tão retumbante. Kaká na sexta posição é premiar o nome, não o jogador e muito menos, a época. Zlatan Ibrahimovic surge à frente de Rooney, Drogba, Gerrard e Torres, elementos fulcrais na Premier League e na última edição da Champions League. O genial sueco faz a diferença, de forma individual. Mas teve um ano agridoce, bem longe do nível exibido pelo quarteto que fecha o top 10. E claro, depois vêm todos aqueles que colheram as migalhas deixadas pelos grandes. Dzeko soma mais 10 pontos que Diego? Giggs conta com o dobro dos votos de Lampard? Henry e Casillas à frente de Forlan e Gourcouff? São coisas das votações que sempre deixam um ar de compadrio e amiguismo que só o futebol europeu é capaz de suportar. No top 30 final não é surpresa alguma que haja apenas um futebolista sem votos. Karim Benzema, avançado de futuro com um presente dúbio, é nomeado por ser francês. Um dos quatro na lista. E surge atrás do turbilhão Touré Yaya. Não há problema, recebemos a mensagem.

 

Nos próximos dias publicar-se-ão artigos de louvor ao génio de Messi.

O argentino é, sem margem de dúvidas, um dos melhores futebolistas da década. Um jogador hipnotizante, com um drible sedutor, uma picardia bem sul-americana e um posicionamento táctico que prova que o seu crescimento se fez bem longe das ruas poeirentas de  Rosário. É um nome ilustre para uma lista que já conheceu vencedores bastante mais polémicos. Apesar de haver outros nomes mais dignos do trofeu, este ano, Messi tinha, inevitavelmente, de acabar por figurar nesta lista. Logrou-o com 22 anos, o terceiro mais jovem da história do futebol - atrás de Michael Owen e Ronaldo. Depois de um ano negro com a Argentina, onde continua a parecer invisível. Depois de um arranque de temporada bem cinzento que volta a confirmar que este - e outros prémios - deveriam entregar-se em Junho e não em Dezembro. Messi assinou o seu nome na lista com o golpe de cabeça de Roma. Nesse momento provou o valor do individualismo. Talvez fazendo esquecer ao mundo, habitualmente cego para estas coisas, que esse mesmo golo resultou de uma movimentação ofensiva onde actuaram os três soldados blaugranas que o escudam também na classificação final. 

E se estes prémios são para individualidades, a verdade é que também sabem mandar uma mensagem ao colectivo. Se não cairem na tentação. A France Football fê-lo antes, com menos motivos. Lembrar os triunfos de Fabio Cannavaro - a premiar o esforço defensivo de uma Itália campeã mundial inesperada - de Mathias Sammer, marechal de uma Alemanha bem cinzenta, de Igor Belanov, rosto destacado da armada soviética de Lobanovsky ou até mesmo Josef Masopust, o imperial central checo. Todas essas vitórias espelharam, não os méritos individuais dos ganhadores, mas o triunfo de um inesquecível colectivo. Colectivos que marcaram a história do futebol. Mas que nunca atingirão o nível deste Barcelona.

O cometa argentino cumpriu o seu designio. Ofuscou os seus próprios pares e meio-mundo. Ou mais, a julgar pela classificação final. No campo, onde realmente a realidade é bem distinta, não há futebolista que acredite nesta diferença. Nem o próprio Messi. Para o ano voltaremos a ver o individual a premiar o colectivo, desta feita o colectivo vencedor do Mundial. Como Ronaldo em 2002, desaparecido dos relvados quase todo o ano, determinante na prova mais vista a nível mundial, depois das Olimpiadas. Um cenário onde não se espera ver Messi brilhar a ponto de justificar esta votação. Talvez por isso a pressa em confirmar um novo "Deus" antes de que se perceba que também La Pulga é humana aos olhos do Mundo que hoje o coroa como o novo rei e senhor de um desporto onde a memória é sempre bem curta.



Miguel Lourenço Pereira às 08:11 | link do post | comentar

3 comentários:
De Pedro a 1 de Dezembro de 2009 às 17:13
473 votos em 480 possíveis! Uau ...palmas!
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473 votos em 480 possíveis! Uau ...palmas! <BR class=incorrect name="incorrect" <a>Messi</A> o vencedor de um prémio, como dizer...estúpido! <BR>Infelizmente é assim que o mundo do futebol se tem vindo a mover. Quem comanda este ideal já não são as pessoas que realmente entendem o desporto rei, mas sim aqueles fascinados que querem estar presente implorando por "tachos", única forma de estarem à frente de tais decisões. Vamos analisar este resultado: <BR>Estamos a falar de um prémio dado por jornalistas (independentemente se são desportivos ou não) que têm um poder mediático fora do normal. A questão é: que credibilidade tem um prémio dado por gente que nem imparcial a relatar ou comentar jogos é? Gente, que faz e desfaz imagens de jogadores? Órgãos que levantam guerras entre clubes etc, para poderem vender jornais (é daí que vem tanto dinheiro para este prémio). <BR>Ainda me pergunto como é que é possível haver tanta gente a dar valor a este prémio?! Enfim, é o que temos, de tal maneira que as reais pessoas que entendem o futebol fogem destes fantasmas para, de fora se rirem. <BR>Agora relativamente à votação. Como é possível no ano mais equilibrado haver um discrepância tão grande? Eu só consigo ver isto de uma forma: é tão grande o medo de Cristiano Ronaldo se manter número 1 que para prevenir votou tudo a favor do messi para que ele não perdesse este estatuto. Ainda, não esquecer que vem ai o mundial, e para quem entende de futebol, sabe que argentina não vai ficar muito bem vista - logo o messi não vai de certeza merecer o prémio - e independentemente da classificação de Portugal, CR já esteve na final de um Europeu e de uma meia-final de um mundial. <BR>É desta maneira que vejo este resultado - o medo de Cristiano não sair do trono. Mas, à custa deste medo um jogador que realmente merecia este prémio ficou em terceiro lugar - Xavi . É uma pena estes "cegos" jornalistas ficarem iludidos por fintas e perdas de bola inconsequentes e "pontas-quietas " marcadores, quando o lindo futebol se cria e gere no meio-campo (onde a defesa também tem uma palavra a dar). <BR>Se querem dar valor, que seja a um prémio dado por treinadores e/ou jogadores, esses (que têm cabeça) farão o melhor juizo.


De Ricardo a 3 de Dezembro de 2009 às 00:54
A imprensa vê em Messi o arquétipo do jogador de futebol. É um jovem franzino, politicamente correcto, de origens humildes e com um enorme talento que faz lembrar um conterrâneo seu, uma figura mítica do futebol, um semideus : Diego Maradona . Para quem não anda a dormir, este prémio não surpreende nada. A imprensa estava a espumar-se por uma oportunidade para glorificar o seu menino prodigioso (note-se o número de votações a favor, um recorde histórico), e, simultaneamente, destronar o vilão, arrogante e playboy , CR9 que teima em humilhar os adversários estatelando-os no chão com os seus dribles velozes e fintas diabólicas que partem ao meio até o maior contorcionista chinês, com os remates e livres portentosos disparados em qualquer lugar do campo que culminam em golo CR9 sujeita-se seriamente a tornar-se objecto de estudo da balística).
No entanto, há algo que escapa aos olhos do mais simples amante de futebol: a volubilidade de Leonel Messi (que tem alguns picos ascendentes e descendentes nas suas exibições e finalização) e da sua dependência de um triângulo mágico Xavi , Iniesta e Dani Alves) que lhe dão toda a segurança e espaço necessários para que este se preocupe apenas com as suas investidas ofensivas. É verdade que CR9 não merecia vencer este ano o Ballon d'Or , mas Messi também não. Platini disse que CR9 só merecia ganhar o prémio de melhor jogador do mundo se Portugal fizesse um europeu extraordinário. A Messi nada disso lhe é pedido. Xavi , por outro lado, tem um curriculum pleno de vitórias quer pelo Barça quer pela selecção Espanhola e é, sem sombra de dúvida, o elemento que dá consistência à equipa de Pep Guardiola . Esperemos que num futuro breve se emende o erro.


De Miguel Lourenço Pereira a 3 de Dezembro de 2009 às 08:38
Ricardo,

Efectivamente a Messi tudo é permitido e a Ronaldo tudo é exigido. Faz um pouco lembrar a relação entre Pelé e Eusébio, Di Stefano e Kubala e tantos outros duelos em que o posicionamento da imprensa acabou por adulterar a verdade no terreno de jogo.

Nao há duvida que a trajectoria de Messi implicaria vencer, mais tarde ou mais cedo, um prémio deste género. A sua altissima classificaçao no ano passado - 2 lugar - já espelhava o apoio da imprensa, incluida a espanhola, ao colocá-lo diante dos jogadores como Torres, Xavi ou Iniesta que fizeram de La Roja, campeoes da Europa pela 1 vez em 44 anos. E ha 3 anos Messi ficou mesmo à frente de Cristiano no FIFA Award apesar desse ano nao ter ganho nenhum premio colectivo.

Tecnicamente o argentino é um portento e talvez tem condiçoes para bater outros ganhadores da decada como Owen, Nedved ou Shevchenko. Mas tambem tem 22 anos, e ja vimos muitas vezes que chegar ao topo cedo significa aguentar-se lá pouco tempo. Fisicamente é um jogador problematico e depende muito do sistema de jogo - e dos companheiros - onde se enquadra. Neste Barcelona explode como nunca se viu com Rijkaard. Porque nao havia Dani Alves e Xavi jogava uns metros atras. Ronaldo, ao contrário, é determinante em qualquer equipa. E o justo ganhador do ano, Xavi, é o maestro de duas equipas ao mesmo tempo algo que nem o argentino nem o portugues logram.

Mediaticamente tudo se fez para fazer de Messi a estrela numero 1 mundial. Os mais atentos sabem que no campo nao é assim. Messi é muito bom, mas nao superior a qualquer colega de equipa. Ou a CR9. O Mundial da Africa do Sul será um bom espelho para ver como jogo o argentino fora do se ambiente natural. Até porque acho piada que "exagerem" o curriculum internacional de Messi que conta com 1 mundial de sub20 e uns jogos olimpicos, contra o vice-campeonato europeu e o 4 posto mundial de Cristiano ou o titulo europeu de Xavi e companhia. Nao me lembrava que umas Olimpiadas e um Mundial de Juniores era um grande cv no mundo do futebol. Agora já sabemos...

um abraço


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