Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

Chegando a casa tarde de um voo de Milão percorre velozmente as habituais páginas online para analisar as últimas novidades. Subitamente uma notícia destaca-se sobre as demais. Robert Enke morreu. Robert Enke. O nome ecoa imediatamente e traz-me recordações antigas. Lembro-me de o ver, numa noite de diluvio de Janeiro no velho estádio das Antas, desesperado com os seus companheiros à medida que os azuis e brancos metralhavam a sua baliza. Lembro-me da carreira em queda de uma das maiores promessas do futebol europeu. Robert Enke, um anjo caído que nunca mais terá de se defrontar à angústia da última linha. Infelizmente, deixou-nos um dos grandes.

Tinha 32 anos. Um longo historial clinico depressivo que pode explicar, em parte, o que passou ontem. Uma vida repleta de pequenas grandes tragédias. A morte de uma filha pequena, uma grave crise intestinal nunca verdadeiramente explicada. Uma série de noites negras que marcaram a sua carreira. E o seu caracter. Enke parece-nos hoje, mais do que nunca, producto daquela sociedade germânica que não admite o erro. E que procura o hara-kiri como forma de expiar os seus pequenos pecados. Enke nunca chegou aonde se esperava. E essa mágoa parecia acompanhá-lo. Aos 22 anos, quando aterrou em Lisboa, já trazia um olhar sério e ferido. Dez anos depois, as últimas imagens mostram um guardião resignado com o destino sem vontade de voltar à luta. Joachim Low tinha-lhe prometido um lugar na Mannschafft para o próximo Mundial. Algo que Enke perseguia há tanto tempo. O seu Hannover estava em alta na tabela e o seu nome, se bem que ofuscado pela nova geração dos Adler e Neuer, continuava a ser altamente popular. Mas parecia não ser suficiente. Pelo menos não para ele.

Enke começou muito novo a destacar-se da anónima multidão. Aos 19 anos no Borussia de Monchenlagdbach era já uma imensa promessa. Brilhou de tal forma que passou a ser referenciado como o sucessor natural de um tal Oliver Kahn. A Alemanha vivia uma grave crise de guarda-redes como alternativa àquele que era, então, um dos melhores do Mundo. Ao aterrar em Lisboa, pela mão de Jupp Heynckes, um bom conhecedor do anterior clube do guardião, a frieza germânica de Enke transparecia por todos os poros. Durante três anos mostrou que era, realmente, um jogador com grande potencial. Chegou a ostentar a braçadeira de capitão - espelho claro do estado desastroso em que vivia o Benfica de então - e quando percebeu que na Luz não conseguia mais, bateu com a porta. O próximo passo chamou-se Barcelona mas a jogada saiu-lhe mal. Não conseguiu convencer van Gaal, que apostou pelo argentino Roberto Bonano e ao fim de um ano ficou ligado à eliminação precoce dos catalães na Copa del Rey. Disputou apenas esse jogo e a partir daí passou a persona non grata. Foi um ano para Istambul, envolvido no polémico negócio de Rustu Recber, e noutro esteve nas Canárias, onde disputaria apenas 9 jogos ao serviço do Tenerife. Parecia amaldiçada a antiga promessa.

 

Terminado o contrato com o Barcelona voltou à Alemanha. E renasceu.

Em Hannover voltou a ser o Enke original. Frio mas com os reflexos a ponto. E num meio tranquilo. Sem a pressão dos grandes holofotes voltou a ser ele próprio. E tornou-se no idolo da bela cidade hanseática. Foi promovido a capitão, fez jogos inesquecíveis que levantaram a cobiça dos grandes da liga, venceu o prémio da Bild a melhor guardião da Bundesliga e estreou-se - finalmente - pela selecção. Tinha chegado ao zénite da sua carreira desportiva quando começaram os dramas familiares. A perda da filha, os problemas de saúde, uma vida pessoal conturbada. A sua vertente depressiva começou a desiquilibrar a balança. O final da época passada foi complicado. O início deste ano também. Mas pouco importa. Agora os canais de televisão tratam de recuperar as melhores imagens do passado, os sites da internet exploram as teorias de conspiração à volta do seu suicídio e os adeptos genuinos choram a perda de um grande desportista.

O futebol torna o mais comum dos mortais em semi-deuses. Alguns entram no panteão da imortalidade. Outros são vencidos pelo tempo e transformam-se em "anjos caídos". Mas alguns merecem esse lugar especial junto dos inesquecíveis. Independentemente dos motivos deste triste fim, este "anjo caído", este Robert Enke merece esse lugar. O panteão dos imortais agora também é dele.



Miguel Lourenço Pereira às 14:21 | link do post | comentar

2 comentários:
De Ricardo a 13 de Novembro de 2009 às 01:38
Grande guarda-redes. Podia não ter motivação mas o talento esteve lá sempre.


De Miguel Lourenço Pereira a 13 de Novembro de 2009 às 16:15
Efectivamente, até ao final provou ser um grande guarda-redes!

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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