Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

A polémica designação de Liga das Estrelas foi a forma ideal para que a Liga de Futebol Espanhola conseguisse criar um producto para competir com a Premier League. Juntar os clubes com mais história com os melhores jogadores do planeta era um objectivo ambicioso. Mas necessário para revitalizar um campeonato em crise. Mas agora a constelação de estrelas está prestes a desmoronar-se. Pelo mesmo motivo porque subiu aos céus...

Imaginemos que um futebolista tem propostas de vários países. O projecto desportivo é similar nas distintas ligas, clubes da mesma dimensão e com os mesmos objectivos. A nível pessoal a escolha é indiferente, são lugares aprazíveis para viver. Chega o aspecto financeiro. Numa das ligas o jogador sabe que os seus milionários ingressos serão quotizados a 45%. Noutra a 50%. Ainda outra a 46%. E depois há uma oferta a 24%. Qual delas escolherá?

Durante seis anos a questão foi levada por diversas vezes à FIFA e UEFA por responsáveis das grandes ligas europeias. No Velho Continente os futebolistas são pagos a peso de ouro mas a comparticipação tributária é igualmente elevada. Um salário de 10 milhões anuais, em realidade é apenas de 7 a 8 milhões, assim que estejam deduzidos os impostos. Como qualque trabalhador, aliás. É assim em Itália - o primeiro país a aplicar uma tributação a 45% - França, Alemanha, Holanda, Portugal e Inglaterra. Na Premier a tributação chega mesmo aos 50%, o mais elevado valor das ligas europeias depois da última reforma fiscal. E se a debandada de jogadores de renome de Itália está intimamente ligada à esta polémica lei, que retirou aos clubes cerca de 80 milhões de euros por ano, em Inglaterra as estrelas continuam porque o governo teve o cuidado de pactar com a FA uma série de benefícios sociais sobre o agregado familiar dos desportistas.

 

Ora em Espanha a conversa é bem diferente. Ou melhor, era!

No final dos anos 90 a liga espanhola estava a viver a sua particular crise. O Calcio estava em alta, tinha sido a coqueluche europeia da década e a Premier League tinha já dado os primeiros passos e tinha lançado as bases para o fenómeno desportivo e social em que se tornaria rapidamente. Historicamente o futebol espanhol tinha imensa reputação mas na prática a situação era desastrosa. A esmagadora maioria dos clubes possuía dividas inimagináveis. Os estádios não tinham condições e o nível dos jogadores estrangeiros tinha baixado muitíssimo com a chegada da lei Bosman. As grandes estrelas mundiais estavam em Itália (Ronaldo, Zidane, Shevchenko, Vieri, Crespo...) ou em Inglaterra (Beckham, Bergkamp, Henry, Owen, Pires, Shearer). Na liga espanhola, à parte da formação local - sempre avessa a emigrar - havia alguns nomes de luxo, mas muito pouco comparado com a concorrência mais directa. A nível europeu percebia-se bem a diferença com italianos, alemães e ingleses a levarem para casa os principais trofeus. Até 1999 o país apenas esteve presente em seis finais europeias (venceria três, duas Champions (Barcelona e Real Madrid) e uma Taça das Taças com o Zaragoza). Em 30 possíveis.

Para combater a problemática situação a LEFP começou a preparar com o governo de José Maria Aznar um pacote de leis que impulsionasse o futebol espanhol a nível internacional. A mais polémica demoraria alguns anos a ser aplicada e ficaria conhecida como Lei Beckham. Mudaria por completo o rosto do futebol em Espanha.

A lei aprovada no parlamento em 2004 dava a todos os estrangeiros cujo o salário fosse superior a 600 mil euros a possibilidade de serem tributados não a 43% - como acontecia com os desportistas espanhois e a esmagadora maioria dos cidadãos - mas sim a 24%. Isso permitia aos clubes oferecer salários mais elevados a grandes estrelas internacionais pelo simples facto de que em Espanha os jogadores recebem o salário em bruto, já com os impostos pagos. Pelos clubes. A nova legislação - junto com outros perdões fiscais polémicos do governo central e das diferentes autonomias - permitiu a muitos clubes pagarem as dividas e começar a investir de forma clara no mercado. Florentino Perez tinha aberto o conceito de futebol Galáctico e foi rapidamente imitado. Chegaram Beckham, Owen, Pires, Henry, Van Nistelrooy, Forlan, Oliveira, Denilson, Robinho, Riquelme, Saviola, Kaká, Cristiano Ronaldo. Todos pagos a peso de ouro. Todos com salários astronómicos. Salários com que as outras ligas, pura e simplesmente, não podiam competir pelo agravar da carga fiscal.

A situação permitiu criar a chamada Liga de las Estrellas. Agora já não era apenas o Real Madrid ou o Barcelona a disporem de um arsenal de galácticos. Clubes de menor impacto social como Villareal, Deportivo, Valencia, Sevilla, Atletico Madrid, Mallorca ou Betis começaram a ter poder de compra para roubar a rivais europeus de igual ou maior estatuto, as suas maiores pérolas. A balança deslocou-se precipitadamente para o lado espanhol. As ligas francesa, alemã, portuguesa e holandesa perderam importância. A italiana entrou em crise. E só a Premier se ia salvando.

 

Hoje o cenário pode mudar drasticamente. O governo de Jose Luis Zapatero conseguiu aprovar uma nova lei que remove os benificios aos jogadores e clubes desportivos com salários milionários. A partir de agora todos terão a mesma base de quotização: 43%. Nem mais, nem menos.

A situação não afecta os jogadores estrangeiros já a actuar em Espanha mas sim todos os que entrem a partir de 1 de Janeiro. Um cenário que se prevê catastófrico para os clubes que, empolgados pela nova lei, voltaram a endividar-se de forma sucessiva. Hoje Valencia, Atlético Madrid, Betis, Mallorca, Deportivo ou Real Madrid vivem com um passivo assustador. Há obras parados, salários em atraso e muitos problemas nos bastidores que não chegam às capas de jornais. Acabar com esta benesse é destroçar a politica desportiva destes clubes - e de outros igualmente - e voltar a colocar a liga espanhola diante de todas as suas debilidades. Curiosamente numa era em que a formação espanhola melhor se apresenta, com os evidentes resultados na selecção principal.

Os clubes já ameaçam entrar em greve. É normal, é a única arma de que dispõem. Atrás de si têm a liga, os bancos que apoiam as principais provas, os patrocinadores dos jogadores milionários e muito do público fanático que não quer voltar a ver a sua prova nacional ao nível da média europeia. É demasiado para o orgulho espanhol. 

O debate está na rua e prevêm-se meses dificeis até Janeiro. Os clubes irão tentar aguentar o braço de ferro com um governo com graves problemas para resolver. O encaixe financeiro com esta operação é fundamental para paliar os números negros da crise, que afectou Espanha mais do que qualquer outro país europeu. É tudo uma questão de números. Mas se a lei for aprovada fica claro que o seu real efeito só se começará a apreciar ao largo das próximas duas ou três épocas. Só que as disparidades do futebol espanhol são tais, que o efeito acabará apenas por ter o condão de afundar ainda mais os clubes de pequena e média dimensão. Os grandes conseguem sempre sobreviver!  


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Miguel Lourenço Pereira às 08:34 | link do post | comentar

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Miguel Lourenço Pereira

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