Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

De Anderson Luís de Abreu Oliveira contam-se, nos meandros do futebol, muitas histórias. A mais célebre de todas reporta-se aos seus dias de júnior, quando já brilhava no Grémio de Porto Alegre. Um dia, o treinador da equipa principal enquanto assistia ao treino ficou impressionado com as suas qualidades, mas ao vê-lo sair do relvado com vários telemóveis na mão, não resistiu em deitar-lhe o sermão sobre a responsabilidade de jovem futebolista. Anderson ouviu atentamente e logo respondeu-lhe que valia mais que os jogadores que ele alinhava e se queria dar-lhe um sermão, que o fizesse depois de lhe dar uma oportunidade. A coragem do jovem impressionou o técnico que decidiu dar-lhe uma oportunidade. Nos relatos desse jogo, o jovem médio foi a estrela da equipa e estreou-se a marcar. Tinha nascido um novo mito na cidade que, pouco tempo antes, já tinha assistido à ascensão gloriosa de um tal Ronaldinho, que por ser dali, era Gaúcho no mundo da bola. Tinha 16 anos.

Hoje essa pequena anedota serve para ilustrar o carácter competitivo de Anderson. Conheceu três clubes ao longo da carreira, mas sempre trabalhou em progressão constante. Depois de se ter confirmado como a estrela maior do Grémio deu o salto para a Europa. A ponte foi o FC Porto. Os dragões, peritos em descobrir jovens promessas brasileiras, repescaram-no quando já havia vários colossos atrás daquele esguio centro-campista. Mas ao contrário do que muitos pensavam, a adaptação demorou. Co Adriaanse, um perito em camadas jovens na sua Holanda natal, percebeu que faltava muita disciplina táctica ao jovem e mandou-o rodar pela equipa B durante boa parte do ano. Comer o pão que o diabo amassou. O que a muitos podia ser um retrocesso, para Anderson foi uma bênção. Aprendeu a bascular o meio campo com maior rapidez e perdeu algum daquele traço egoísta que todo o futebolista brasileiro tem nos genes. Estreou-se na equipa principal já quando o título estava no bolso, mas deixou apontamentos de craque. No ano seguinte, já com Jesualdo Ferreira no banco, tomou as rédeas da equipa. Com Lucho ao lado, passou a controlar com batuta o meio-campo do campeão. Até que chegou a brutal entrada no estádio da Luz e a lesão confirmando os piores prognósticos. Anderson aprendeu então, bem cedo, o valor da forma física. A recuperação foi rápida e essencial para o tornar num jogador mais disciplinado. E quando tudo estava preparado para que voltasse a ser o patrão dos dragões, chegou um cheque de 30 milhões de euros com Old Trafford como destino final. O FC Porto não hesitou – afinal, não é todos os dias que se paga tanto por alguém com tão poucas provas dadas – e os Red Devils agradeceram.

Hoje Anderson é o novo dínamo do Manchester United. Tal como todas as jovens incorporações no Man Utd, teve de esperar para conseguir o seu lugar. Sir Alex está a reformar, a pouco e pouco, a sua geração dourada. A cantera do United é boa, mas já não surgem jogadores tão decisivos feitos de raiz. É preciso contratar jovens e adapta-los á filosofia do clube. E se Nani, por exemplo (como antes dele nomes como Rossi), é um claro exemplo de falta de entronização, Anderson segue bem as pisadas de Cristiano Ronaldo. Sucessor natural de Paul Scholes, o brasileiro controla o meio-campo com a inteligência de um veterano. Aprendeu a recuperar bolas à entrada da grande área e a distribuir rapidamente para os letais ataques, marca da casa. O primeiro golo na passada terça-feira vem com a sua marca. Ferguson já não abdica de Anderson nos grandes momentos. Com Carrick ao lado, é o pêndulo perfeito desta nova geração vermelha. A irreverência da juventude permite-lhe arriscar. A maturidade que alcançou precocemente dá-lhe primazia sobre os rivais. Aos 21 anos, Anderson é já um dos melhores do Mundo na sua posição. Na próxima final de Roma medir-se-á com Xavi, hoje o rei e senhor do posto a nível mundial. Mas da mesma forma que conquistou Porto Alegre, que reinou indiscutivelmente na Invicta e como chegou à selecção brasileira, onde Dunga sabe que necessita dele para construir um meio-campo sólido e eficaz, a verdade é que o presente já lhe pertence. E o futuro é seu por inteiro.

 

Estamos diante daquele que será, provavelmente, o melhor médio centro do mundo num par de anos. Assistir, semana após semana, à sua evolução, é um privilégio. Com já ganhou quase tudo o que há para ganhar. Falta-lhe brilhar com o escrete. E falta-lhe acima de tudo continuar a vencer. Porque sem desafios, jogadores como Anderson não encontram razão para existir. É por isso que nas horas decisivas, é a eles a quem todos recorrem para salvar o dia.

 



Miguel Lourenço Pereira às 02:26 | link do post | comentar

4 comentários:
De Manuel António a 9 de Maio de 2009 às 00:20
É de facto um gajo impecável. Fez um jogo impressionante no Dragao, bem melhor que o do ronaldo, e ainda assim saiu em palmas. So tenho pena que, para o tornar num médio tão completo e fulcral, Ferguson lhe tenha tirado a magia de jogar mais perto da àrea e com liberdade para fazer o que quiser....


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Maio de 2009 às 21:51
Soube a pouco o tempo que passou no Porto porque poderia ter dado ainda mais mas o valor porque foi vendido era bom demais para recusar.

No Man Utd teve de se adaptar ao estilo de jogo ingles, pouco amigo de criativos capazes de rasgar a entrada da area mas em troca tornou-se num grande medio box to box. Sera chave na estrategia do Brasil para o proximo Mundial.

Um abraço


De Ricardo a 11 de Maio de 2009 às 02:43
Acho que o Anderson perdeu mais do que ganhou mas continua a ser um grande jogador e com uma capacidade de adaptação extraordinaria.


De Miguel Lourenço Pereira a 11 de Maio de 2009 às 10:18
Em relaçao ao Anderson tenho a opiniao de que virtuosos ha muitos, mas jogadores tao inteligentes capazes de aliar a tecnica apurada que tem com um posicionamento tactico impecavel, ja sao mais raros.

Anderson perdeu esse sentido explosivo nos ultimos metros que tinha quando chegou ao FCP mas agora enche todo o meio campo, um pouco como o Deco do periodo de Mourinho no FCP.

É um dos jogadores mais completos da liga inglesa numa posiçao claramente british onde andam "monstros" como gerrard ou lampard.

Um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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