Sábado, 18 de Julho de 2009

Fez eco em Portugal e um pouco por toda a Europa o que já há tanto se falava em surdina, ou nem isso. O avançado brasileiro Liedson manifesta disponibilidade para defender as cores de Portugal numa carta á Federação Portuguesa de Futebol e abre assim de novo um debate que já foi remoído várias vezes mas que só chegou em duas delas ás últimas consequências.

Os mais realistas sabem que no mundo de hoje raros são as nações que não actuam com jogadores naturalizados. A Espanha campeã da Europa teve em Marcos Senna um elemento fulcral no centro do terreno. A Alemanha e Itália começam, a pouco e pouco, a quebrar o tabu, enquanto que a França ou Holanda há muito que se aproveitam das viagens pelo Mundo dos seus navegadores. Em Portugal, depois da era de ouro dos jogadores vindos das colónias, viveu-se um período túrbio até que chegou a Geração de Ouro e tapou as debilidades de um país com altas ambições mas sem uma base sólida para se manter no topo. Carlos Queiroz, quando assumiu o posto, sabia que estava em marcha um projecto de renovação complexo e que ia deixar a nu as reais debilidades do nosso futebol. Ausência de opções válidas em posições chave, falta de substitutos á altura quando os titulares falham e uma extra-dependência de um jogador que brilha mais quando o exército que o rodeia é de alto nível. Tudo isso sabia o seleccionador e não é por acaso que desde o último ano que têm saído rumores sobre jogadores brasileiros sondados pela federação. Os gémeos Da Silva, o guardião Júlio César...e agora Liedson.

De todos o avançado do Sporting é o único que verdadeiramente tem alguma ligação com o futebol português. Tal como Deco e Pepe - os únicos casos em que se deu o último passo - o avançado joga há vários anos - seis temporadas - em Portugal e sempre criou uma forte empatia com o público. Agora que também está prestes a tornar-se luso-brasileiro, Liedson tem todo o direito de presumir poder seguir o caminho dos dois antecessores, com a agravante da gravissima crise portuguesa para os golos, uma crise que se alastra há vários anos. Um problema que o dianteiro de 31 anos parece ser a solução mais óbvia mas que levanta de novo as mesmas questões: quer realmente Portugal continuar a importar para a selecção nacional jogadores brasileiros, com ou sem presença regular na nossa liga?

 

A questão sobre o futuro da selecção portuguesa é complexa mas o que está claro é que Portugal não tem, hoje em dia, um futebol de base sólido para suster uma renovação completa. O nivel competitivo da liga baixou enormemente e os titulares de hoje jogam uns furos abaixo do que os seus antecessores. Nem Raul Meireles é Maniche, nem João Moutinho pode substituir Deco nem Pepe adaptado chega ao nível de Costinha, Paulo Sousa, Paulo Bento ou Vidigal. E esse é um fenómeno que se poderia aprofundar noutras posições chave do onze nacional. Essa incapacidade de manter um nivel elevado espelha-se na campanha para o próximo Mundial, onde não se pode culpar apenas Queiroz. O seleccionador cometeu os seus erros mas a realidade é que em muitos dos casos viu-se privado de outras opções para defrontar rivais que apesar de teoricamente acessiveis no papel se revelaram na prática endiabrados. Algo que se já se vira, por exemplo, no apuramento para o último Europeu. Mas a memória é curta. Principalmente no nosso futebol. E agora que já não há colonias para fornecer Peyroteo, Matateu, Águas, Coluna, Eusébio ou Jordão e como a preparação para uma futura geração de talentos de base precisará de mais uma década, que fazer? Apostar por nacionalizar brasileiros ou apostar numa politica de recrutar portugueses ou descedentes directos nos quatro cantos do Mundo?

Enquanto se fala em lançar Liedson para a titularidade na selecção A, as equipas de sub-21 e sub-19 começam a explorar outra solução que, a meu ver, me parece mais lógica e com maiores frutos a médio prazo. Portugal é um país de emigrantes, sempre o fomos e nas últimas décadas o fenómeno acentuou-se. Mas também somos um país de acolhida. Seja por exportação ou importação, o gene português, o sentimento português vive para além do limite geográfico reconhecido por tudo e todos. Amaury Bischof, Daniel Fernandes ou Stanislas Oliveira são apenas exemplos de descedentes de portugueses que, apesar de não terem nascido em Portugal, transportam o pais no sangue e coração. Jogadores que sentem a bandeira e o hino e que estão tão habilitados para defender as cores nacionais como Moutinho, Simão e companhia. E em França, Alemanha, Suiça, Estados Unidos, Espanha ou Inglaterra vivem milhares de portugueses e os seus descendentes, muitos deles praticantes do beautiful game. A Federação Portuguesa de Futebol deveria - como parece, timidamente, estar a fazer - por em marcha um projecto de reconhecimento desse talento português fora das fronteiras. Basta lembrar-nos que a Turquia está, hoje em dia, a fazer o mesmo com muitos dos jovens nascidos na Suiça ou Alemanha. Por exemplo, Gelson Fernandes, médio da selecção suiça, poderia ter jogador por Portugal. Mas nunca foi contactado pela FPF. Ao contrário do seu primo, Manuel Fernandes, internacional português há vários anos.

 

Da mesma forma há comunidades em Portugal, seja por ligações históricas seja por fenómenos recentes, que podem trazer muito á selecção. Desde Nani ou Bosingwa, nascidos fora do país mas que desde novos vivem em território nacional mas sem esquecer nas comunidades ucranianas ou russas, que se começam a instalar com as familias e que, com eles, podem trazer outro perfume ao nosso jogo. Voltamos ao exemplo alemão, que fez actuar na selecção campeã da Europa de sub21 oito jogadores filhos de emigrantes, do germano-espanhol Gonzalez Castro ao germano-turco Mezut Ozil. Aqueles que aceitam a entrada de Deco, Pepe ou Liedson devem preparar-se para que, no futuro, a selecção possa jogar com um Manuel Yakovenko, François Martins ou Daniel Bradley, apenas para dar exemplos ficticios mas que representam comunidades onde o português é uma realidade. Da mesma forma que Portugal mostrou o Mundo ao próprio Mundo, agora o futebol português deve evitar ao máximo prender-se ao rectângulo nacional ou ás soluções fáceis. Deve reforçar-se para o futuro, apostando primeiro nos luso-descendentes que vivem por esse planeta fora e nos jovens de outras culturas nascidos ou criados em território nacional.

Aceitar imigrantes é uma solução que não deveria ser fechada a 100%, está claro, principalmente com o panorama internacional que vivemos, onde as fronteiras estão cada vez mais difuminadas. Mas devemos ter consciência de que não é com opções como esta que se conquista o futuro. Deco foi uma óptima aquisição mas agora precisa de sucessor e não foi preparado ninguém para herdar o seu papel no terrenod de jogo. O mesmo passará com Pepe e com o avançado leonino. Liedson pode muito bem vir a ser internacional por Portugal (como o foram Deco ou Pepe com toda a normalidade), mas não será essa a solução dos problemas do nosso futebol. Recuperar a identidade mundial portuguesa sim, pode ser um passo importante para garantir o futuro muito antes do que se esperaria.



Miguel Lourenço Pereira às 22:59 | link do post | comentar

3 comentários:
De manuel antonio a 23 de Julho de 2009 às 16:59
cá por mim, venham todos. daqui a 10 anos, se ganharmos um titulo, nng se lembra de que havia 2 ou 3 gajos que nao nasceram em portugal. O que interessa é as camisolas em campo serem todas iguais. Sejam nacionalizados para jogar 2 anitos com o liedson ou apanhados no estrangeiro quando novos para jogar 20, o que interessa, no final, é que a selecçao portuguesa brilhe. Acho que neste caso o fim justifica os meios...


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Julho de 2009 às 12:38
Acho que o Liedson tornou-se em algo inevitável, mas a médio e longo prazo creio que a aposta ideal é renovar a nossa formaçao e captar os luso-descendentes, para nao corrermos o risco de perder a identidade da selecçao.

um abraço


De filomeno a 2 de Junho de 2012 às 09:08
Injusto trato del charro/salmantino vicente del bosque( "el marqués") hacia el gran MARCOS ANTONIO SENNA........


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