Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Condicionar o sorteio da próxima edição da Liga Sagres é a proposta da Liga Portuguesa de Futebol para abanar a estrutura do futebol nacional. Depois de ver os clubes chumbar algumas das propostas mais precisas e necessárias na última Assembleia, e face à recusa em aprovar a proposta do SL Benfica relativamente aos empréstimos dentro dos campeonatos profissionais, este decisão final de Herminio Loureiro é como uma pequena pedra no oceano, mais um exemplo de que em Portugal o importante é anunciar medidas de poder mediático deixando debaixo do tapete os problemas verdadeiramente preocupantes.

 

Nesta luta a LPFP comparte a culpa com os próprios clubes, na maioria dos casos avessos a qualquer mudança mais exigente que possa destapar o imenso buraco financeiro e estratégico que vive o futebol português. A verdade é que desta feita não haverá nenhum Plano Mateus para salvar o futebol em Portugal e que o destino do Estrela da Amadora (e do Boavista, e do Farense, e Salgueiros e tantos outros) pode rapidamente alargar-se a outras entidades que hoje em dia passam por pagantes, a tempo e horas, mas que vivem com uma mão à frente e outra atrás, desesperados por um negócio brilhante ou um encaixe surpresa que permite branquear as contas. Hoje em dia o futebol português (num fenómeno que está longe de ser nacional) está bem perto da bancarrota. Os chamados três grandes acumulam um passivo impressionante, que em nada condiz com a forma como vivem e encaram cada temporada. O FC Porto apesar dos brilhantes negócios vive com um fantasma de um passivo que ninguém consegue explicar. Os empréstimos, as comissões, os prémios aos directivos da SAD e outros negócios obscuros ajudam a explicar o aparentemente inexplicável. Que o único clube português desportivamente bem sucedido, autor de alguns dos melhores negócios da década, seja também o que possui o passivo mais significante. Já o SL Benfica acumula um passivo histórico, que vem desde os dias das presidências de Manuel Damásio e Vale e Azevedo e que parece não ter cura, apesar dos empréstimos e das iniciativas de marketing desportivo, que inclui até um canal próprio, bicho raro por estes lados. Quanto ao Sporting, vive ainda o peso do plano Roquette que se saldou por um falhanço em toda a linha e que condicionou a própria estratégia desportiva do clube na última década, relegado a ter de viver da formação e sem capacidade de investir no mercado.

 

Essa é a realidade dos chamados grandes e daí para baixo a situação piora. Sem a capacidade de gerar ingressos, os restantes clubes das duas ligas profissionais vivem constantemente com a corda na garganta. Dividas ao fisco, à segurança social, ordenados recorrentemente em atraso, prémios de jogo inexistentes...no futebol português há de tudo um pouco e quase nada que se aproveite. Bancadas vazias de estádios sem condições ou construções principescas sem equipas que as aproveitem. Jogos transmitidos a horas proibitivas e negócios obscuros de patrocinadores que controlam o mercado como um autêntico monopólio fazem o resto. O futebol em Portugal está gravemente doente e face a estes sintomas o cirurgião de serviço, Herminio Loureiro, decide sacar um coelho vistoso da cartola.

 

Sem derbys em jornadas consecutivas, equipas da mesma região impedidas de jogar em casa na mesma ronda, são as propostas da Liga. O presidente da instituição fala em dinamizar a indústria do futebol mas não se percebe realmente que impacto possam ter estas condicionantes ao sorteio de uma prova que pura e simplesmente não é rentável. Portugal vive hoje o mesmo problema que tiveram outras ligas em diferentes etapas. A mais celebre, a liga inglesa que em 1992 mudou radicalmente e tornou-se Premier League, lançando as bases para aquela que é hoje reconhecidamente a maior prova futebolistica nacional do mundo. A Bundesliga, que durante anos viveu uma grave crise financeira com estádios vazios e jogos com baixíssima audiência é hoje um dos mais atractivos e competitivos campeonatos da Europa, resultado igualmente da postura colectiva de clubes e federação que adoptaram uma série de medidas com vista a revitalizar um dos históricos campeonatos europeus. Por outro lado em Itália os clubes negoceiam de forma a devolver a Serie A ao seu lugar, depois de anos de total abandono desportivo e financeiro por parte das grandes instituições, patrocinadores e do Estado italiano que levaram à fuga em massa de talentos e à baixa qualitativa do futebol italiano. Em Portugal condiciona-se o sorteio e nada mais...absolutamente nada mais.

 

Por um lado é necessário apontar o dedo acusador aos clubes, que vivem as suas constantes guerrilhas individuais, incapazes de olhar mais longe do que o próprio umbigo e perceber que uma prova rentável é um beneficio para todos e não só para os mais pequenos. Mas a FC Porto, Sporting e SL Benfica não interessa perder o dominio, ou melhor, o falso dominio, que detêm de uma prova acabada. Os empréstimos fora do controla que permitem ao FC Porto controlar clubes, ou condicionar directamente as relações nas assembleias da Liga são a prova viva do que nasce torto não se endireita. Enquanto as instituições desportivas não perceberem que a inação é o primeiro passo para o fim, o cenário não mudará. Enquanto isso a própria Liga está de mãos atadas mas tem a função moral, como minimo, de denunciar a situação actual, a irresponsabilidade dos clubes e lançar propostas na mesa que não se fiquem pela superficie. Contratos televisivos colectivos são a pedra base para salvar um futebol moribundo.

 

Apostar na formação nacional, reavaliar as infra-estruturas desportivas, desenvolver o marketing institucional, penalizações imediatas e exemplares aos clubes não cumpridores e criar condições para ter os estádios cheios (mudar horários e preços de bilhetes e reduzir as transmissões televisivas) serão obrigatoriamente os próximos passos. Criar Taças da Liga que não interessam a ninguém, condicionar sorteios e lamentar a sorte de quem é apanhado (e não de quem pervarica) só servirão para enterrar ainda mais o futebol nacional. A Liga Portuguesa de Futebol Profissional tem de funcionar como o cirurgião do nosso futebol e não como o coveiro de uma competição que caminha a passos largos para o seu final.



Miguel Lourenço Pereira às 12:01 | link do post | comentar

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