Sábado, 19 de Outubro de 2013

A transformação não podia ser mais radical. O perfume gaulês do futebol champagne tem embriagados os eufóricos adeptos romanos. Depois da humilhante derrota contra o eterno rival laziale na final da Taça de Itália a AS Roma não voltou a perder um jogo. Uma nova era com um futebol de primeiro quilate a quem os resultados têm acompanhado. Se a história ainda valer alguma coisa, o Scudetto já tem dono.

Por duas vezes uma equipa venceu as primeiras oito jornadas da Serie A italiana. Por duas vezes essa formação ganhou o Scudetto.

Em ambos casos a protagonista, a Juventus, tinha as melhores equipas da temporada. Nos anos 30 estiveram quatro anos seguidos a reinar sobre o Calcio, um recorde até hoje apenas batido por "Il Gran Torino". Cinquenta anos depois, a equipa liderada por Michel Platini e pelos campeões do Mundo de 1982 na linha defensiva arrancaram para uma temporada memorável que acabou com a vitória na Taça das Taças abrindo caminho ao título europeu do ano seguinte, em Heysel. Olhando exclusivamente para os relvados italianos custa imaginar que a AS Roma não acabe por cometer uma proeza similar.

O calendário não foi propriamente amigo dos gialorosso. Dois jogos contra candidatos ao título foram resolvidos com vitórias merecidas e inquestionáveis frente ao renascido Inter de Mazzari e a sua antiga equipa, o Napoli de Benitez. Os napolitanos chegavam a Roma como segundos na tabela classificativa, desejosos de confirmar as boas sensações que foram deixando neste arranque de temporada. Mas revelaram-se incapazes de aproveitar as escassas oportunidades que tiveram e cairam sob o perfume rendilhado do jogo medular dos romanos e a sua eficácia a bola parada. Pjanic foi o herói mas o treinador Rudi Garcia teve o cuidado de referir, no fim do jogo, que esta era a Roma de Totti. A Roma do "capitano" na sua enésima reencarnação.

 

O investimento norte-americano na Roma arrancou há três anos.

A aposta inicial num modelo de jogo atractivo e ofensivo levou os dirigentes romanos a procurarem uma versão acessível do Barcelona de Guardiola. Escolheram Luis Enrique, até então treinador da equipa B do clube. O espanhol teve meios mas não teve sucesso, talvez porque a sua ambição táctica superou no tempo um projecto ainda em formação. Durante duas temporadas os romanos caíram no fundo, depois de terem sido os principais rivais do Inter de Mourinho. O renascimento prometia ser mais lento do esperado e enquanto isso Totti e De Rossi, a alma e o trabalho desta formação histórica há quase uma década, envelheciam um pouco mais. O processo reverteu-se, definitivamente, neste Verão.

Rudi Garcia, o homem que operou o milagre do Lille, campeão francês contra todas as expectativas, foi recrutado para dar forma aos sonhos romanos. Com ele chegaram também reforços à altura das ambições mas com um valor de mercado controlado pela crise financeira. Não fizeram muito ruido, em comparação com o de alguns rivais - entre os quais o próprio Nápoles - mas rapidamente demonstraram ser escolhas mais do que acertadas. Garcia, treinador da velha escola francesa de um futebol rendilhado e preciso, desenhado no meio-campo com precisão geométrica, recuperou o 4-3-3 e com ele o papel de Totti como figura central do ataque, bem secundado pelo forte Gervinho e os jovens e criativos Marquinhos, Llajic e Florenzi, a grande promessa da cantera romana. Na sala de máquinas colocou ao lado de De Rossi dois jogadores de primeiro nível mas eternamente subvalorizados pelo mercado, o bósnio Pjanic e o holandês Strootman. A equação perfeita.

O trabalho e entrosamento colectivo sucederam quase como um milagre, da noite para o dia. Contra todas as expectativas as peças encaixaram e a máquina começou a funcionar com a perfeição de um relógio roubado a um dos guardas suíços do Vaticano. Os resultados, que ás vezes no futebol não acompanham as metamorfoses das equipas, desta vez não tardaram em aparecer e a Roma surgiu invencível e imparável no arranque da temporada. Enquanto à campeã Juventus custava-lhe recuperar o ritmo perdido e com as equipas de Milão muito mais débeis do que o seu nome podia imaginar, a Roma deu um murro na mesa. Com as atenções viradas para o novo Nápoles ou as promissoras equipas forjadas pela Fiorentina e pelo próprio AS Lazio, foram eles os protagonistas inesperados de dois meses de competição que podem ser decisivos.

 

Se a história valer para algo, o espirito de Falcão, Conti, Emerson e Montella está vivo nesta nova geração romana. Eles demonstram que o Calcio nem sempre é um exercício futebolístico aborrecido. Rompem convenções e convidam a imaginar um futuro melhor para uma liga que sabe que mais baixo não pode cair. Um sopro de ar fresco rompe o futebol europeu a partir do mais inesperado dos coliseus. Na cidade eterna já se sonha com a história!


Categorias: , ,

Miguel Lourenço Pereira às 18:57 | link do post | comentar

2 comentários:
De Miguel Antunes a 19 de Outubro de 2013 às 21:35
Exclente texto mais uma vez, no entanto na minha opinião ainda é muito cedo para se falar numa Roma campeã, até porque apesar deste estrondoso começo da Roma, a Roma apenas tem 2 pontos de avanço sobre a grande (e única??) favorita, ou seja, a Juve...e sendo isto uma maratona de 38 jogos, continuo a achar que a Juve acabará por vencer (apesar de ser sempre bom um campeão diferente do habitual, como tal estou a também a torcer para eu estar enganado e acabar por ser a Roma a campeã)


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Outubro de 2013 às 00:13
Miguel,

A história tinha resolvido o assunto mas os recordes estão para ser batidos. O trunfo da Roma é poder focar-se exclusivamente no campeonato e ter um plantel de 18 jogadores de bom nível enquanto a Juve quer apostar forte nesta Champions, tal como os napolitanos aliás.

Se não sofrerem um surto de lesões sérias, acho que esta Roma tem todas as condições para estar em Abril na liderança!


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Ya existe Avenida Eusebio, Estadio da Luz; NO EXIS...
¡Suerte....!
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO