Terça-feira, 15 de Outubro de 2013

Enquanto os seniores deprimem, tropeçam e aborrecem, os miúdos voltam a ser os principais pontos de interesse quando a temporada regular para e dá lugar aos encontros internacionais. Há uma clara mudança de rumo com o futebol apresentado por Rui Jorge e os seus discípulos. Uma decisão corajosa levou o seleccionador a defender um salto geracional para preparar o futuro. O tempo tem-lhe dado razão. Mas apesar disso, o mérito do técnico português vem acompanhado do renascimento das equipas B. Um ano e alguns meses depois os frutos estão à vista. E a pergunta de porque acabaram também.

Há nesta selecção de sub21 algo que escapa há vários anos à selecção principal de Portugal: alegria.

Ver as equipas de Rui Jorge nos últimos meses é um passaporte directo para o desfrute. Ao contrário dos herméticos, lentos, pesados e aborrecidos titulares do exército montado pelo sargento Bento, os miúdos jogam como miúdos. Com espontaneidade, com dinamismo e intensidade. Têm algo que provar e estão desejosos para não cair nos erros dos seus antecessores. Quem se lembra de jogadores portugueses desse Mundial sub-20 em que fomos finalistas? Onde estão eles?

Não foi por acaso que Rui Jorge percebeu, quando se falhou o apuramento para o Europeu em Israel, que algo estava errado na estrutura dos seus alunos mais veteranos. Traziam os vícios e os defeitos de uma geração perdida. Perdida desde meados da década. Em 2006 Portugal disputou o Europeu que organizou e desiludiu. Desde então, o país que o mundo aprendeu a admirar como uma escola de formação única, desapareceu do mapa. Ocasionalmente apareciam jogadores, potenciados sobre tudo pelas academias dos clubes. A nível nacional não existia um projecto coerente. A transição para a era Queiroz prometia uma nova atenção aos mais novos mas foi curta, polémica e sem soluções. Os problemas prosseguiam e vinham acompanhados de uma realidade mais preocupante: os putos não jogavam.

O fim do projecto das equipas B, em 2005, veio acompanhado de um imenso hiato que custou largos anos a uma promissora geração. Vieirinha, Paulo Machado, Miguel Veloso, Hélder Barbosa, Bruno Gama, Danny, Beto e companhia entraram tarde nas contas da selecção porque não tiveram a oportunidade de cumprir os prazos habituais do salto de gerações. Nesses anos perdidos, sem uma equipa B onde crescer, sem oportunidades na equipa principal (só o Sporting de Bento encontrava minutos para os mais novos, mais por necessidade que por vontade) os sucessivos empréstimos pela Europa atrasaram o desenvolvimento dos jogadores e a sua relação com o futebol português. Os resultados ressentiram-se mas, sobretudo, foi a falta clara de opções para a equipa A que deixou evidente que algo tinha sido muito mal planeado anos atrás. O fim das equipas B, o crescimento de jogadores estrangeiros a ponto de desfigurar totalmente os planteis dos principais clubes e a despromoção de vários emblemas conhecidos por lançar jovens com potencial estiveram a ponto de dar o golpe de misericórdia à formação do futebol português. Ninguém o diria olhando para uma equipa que marca muitos golos, sofre poucos, joga bem e impressiona.

 

Na actual geração dos sub21 há muito poucos jogadores que não tenham passado pelo universo das equipas B.

Saltaram dos juniores como os melhores da turma para equipas preparadas para estabelecer a ponte com os A. Jogam na II Liga mas, o mais importante, é que jogam. Ocasionalmente são convocados e treinam com os mais velhos. Empapam-se de futebol de elite cada vez mais cedo, com idade de juniores muitos deles. E parecem ser alunos que aprendem rápido. Rui Jorge entendeu isso, descartou muitos dos jogadores que ainda podia convocar, acima dos 21 anos, consciente que eram os sub20 que traziam essa nova rotina e dinâmica tão necessária aos planos da selecção. Estes jovens estão entre as listas dos futuríveis de muitos clubes europeus. Alguns como Tiago Illori ou Bruma já lá andam. Outros, como William Carvalho, João Mário, Bernardo Silva, José Sá, Paulo Oliveira, Tiago Silva, Ricardo ou Tozé algum dia lá chegarão. Há cinco anos atrás todos eles teriam sido emprestados pelos seus clubes para rodar. Agora fazem a ponte entre dois mundos.

José Sá, impressionante guarda-redes, é a prova viva de que o projecto das equipas B sempre fez sentido. O Maritimo, o clube onde actua, nunca desistiu dele e graças a isso tem sido uma constante fábrica de jogadores interessantes, com capacidade para recrutar jovens promessas noutros clubes. Sá, formado no Benfica, sabia que não iria estar nunca nos planos de um plantel instável e não quis cair no erro de muitos colegas e viver de empréstimos alheios. Formou-se no Funchal e hoje já não é o futuro. É o presente.

Luis Martins e Sérgio Oliveira são os mais veteranos. Pertencem à geração que sofreu na pele esse desnorte dos grandes. Ambos foram "queimados" pelos seus respectivos clubes e encontram agora em emblemas mais modestos como o Gil Vicente e o Paços de Ferreira os minutos que precisam. São a lembrança do que se perdeu, potenciais Bruno Gamas e Paulo Machados recuperados a tempo.

A falta de dinheiro de muitos dos clubes portugueses foi um dos elementos que propiciou o arranque das equipas B. Aproveitar cada vez mais a prata da casa em época de crise revelou-se uma solução elementar, algo que alguém se tinha esquecido com o passar dos anos. Sporting e Vitória de Guimarães entendem-no melhor que ninguém. Com graves problemas financeiros, os leões voltaram a virar-se para a magnifica academia de Alcochete. Bruma e Ilori já saíram mas Betinho, William, João Mário, Nuno Reis, Cedric, Guedes, Esgaio, Ribeiro, merecem que alguém os tenha em linha de conta para o futuro. Paulo Oliveira, Josué, João Amorim, Ricardo e Tiago Fernandes (ambos contratados pelo FC Porto), representam a mesma solução para o mesmo problema mas a norte.

FC Porto e SL Benfica têm trabalhado com outro ritmo nesta equação, até porque as suas prioridades (e o core do seu negócio) é diferente. Tozé, Rafa, Podtwaski e Tiago Ferreira, no Porto, e Ivan Cavaleiro, João Cancelo, Bernardo Silva, André Gomes e Miguel Rosa, em Lisboa, têm tido poucas ou nenhumas oportunidades na equipa principal mas jogam regularmente com os B à procura do seu melhor momento. O talento está lá, o acumular de minutos e de erros é fundamental. A estes juntam-se os jogadores resgatados da diáspora (um trabalho que também tem sido, progressivamente, feito para contrariar anos de vazio) e os talentos singulares que brotam pontualmente (Tiago Silva, Ricardo Horta, Ronny Lopes). Uma amálgama de qualidade filha dos novos tempos, o de um Portugal renascido e ambicioso.

 

Olhando para a fraca qualidade do plantel principal escolhido habitualmente por Paulo Bento, é fácil imaginar que muitos destes internacionais sub-21 estão chamados a bater à porta da equipa das Quinas mais cedo ou mais tarde. Dependerá, sobretudo, do seleccionador, dos jogos de interesses que controlam os destinos da selecção e dos planos de futuro. Há qualidade técnica e táctica para que muitos destes futebolistas, alguns já com minutos importantes, ambicionem algo mais. Os 16 anos de Alen Halilovic, recentemente internacional com a Croácia, ou os casos de Adam Januzj permitem entender que no futebol a idade é um critério relativo quando o talento e qualidade existe. Pensar que está aqui a base de uma nova geração de ouro pode ser um exagero, mas até os discípulos de Queiroz necessitaram oito anos para dar o salto de qualidade que se antecipava. Sem haver um fora-de-série da qualidade de Cristiano Ronaldo nesta geração, Portugal tem aqui opções válidas para todas as posições. E uma série de perfis que permitem imaginar que o futuro será mais risonho que este cinzento presente.



Miguel Lourenço Pereira às 13:26 | link do post | comentar

12 comentários:
De João a 15 de Outubro de 2013 às 19:57
Excelente artigo, focando numa geração de promessas bem sustentadas, alfinetando sem atacar ao desbarato a Selecção A (ou tratando com respeitosa indiferença que esta manifesta aos seus adeptos e compromissos). A perspectiva de um futuro de qualidade para a equipa das Quinas é a esperança do adepto português actualmente.
Uma pequena errata: "Em 2006 Portugal disputou o Europeu que organizou e desiludiu." - não seria porventura o euro 2004?


De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Outubro de 2013 às 21:36
João,

Estava a referir-me ao Europeu sub21 que se organizou nesse Maio em Portugal antes do Mundial da Alemanha e onde tinhamos grandes esperanças para acabar por cair antes do previsto.

Um abraço ;-)!


De formatted error free a 16 de Outubro de 2013 às 20:39
O modelo de competição das equipas B até 2005 era demasiado fraco..jogavam na 2ªdivisão B, o que era manifestamente pouco.

"Dependerá, sobretudo, do seleccionador, dos jogos de interesses que controlam os destinos da selecção"

Explique lá essa dos "jogos de interesses" na selecção.


De Miguel Lourenço Pereira a 16 de Outubro de 2013 às 20:43
Formatted Error Free,

Não era o melhor dos modelos de base e os clubes também os utilizaram em excesso para rodar jogadores, punir jogadores e colocar os descartes em vez de apostar nos mais novos. Mas foi aí que estiveram, por exemplo, Hugo Viana, Cristiano Ronaldo e Ricardo Quaresma antes de serem convocados para o plantel principal.

Interesses? Hoje a selecção é controlada por um só interesse, um só homem, uma só agência, um só grupo de influência. Tudo parte desde o mundo do empresário mais popular do mundo e acaba no banco, nos convocados, nas decisões técnicas e tácticas!


De jaques a 16 de Outubro de 2013 às 20:50
"Quem se lembra de jogadores portugueses desse Mundial sub-20 em que fomos finalistas? Onde estão eles?"
Onde estão eles? Onde estão eles?
Como é que você quer ser levado a sério com este tipo de introdução?
Um é titular do Rennes e habitual internacional A (Nélson Oliveira)
Outro é titular do Sporting Clube de Portugal, e convocado para a Selecção A (Cédric)
Outro é titular do Paços de Ferreira e da actual selecção de sub-21 que você tanto elogia (Sérgio Oliveira)!
Outro é titular do Gil Vicente e (até a entrada de Raphael Guerreiro) da actual selecção de sub-21 que você tanto elogia (Luís Martins)
Outro é titular do Marítimo (Danilo)
Outro é titular do Paços de Ferreira (Caetano)
Outro joga no Celtic de Glasgow (Baldé)
Outro é titular do Penafiel (Rafael Lopes)...

São todos rapazes com 22 anos, ou seja, ainda estão em processo de crescimento.
Para geração de fracassados e desaparecidos não está nada mal!
Outra falácia: "A falta de dinheiro de muitos dos clubes portugueses foi um dos elementos que propiciou o arranque das equipas B."
Não, não foi, porque as equipas B exigiram um avultado investimento que o FC Porto, por exemplo, cogitou não fazer, e a razão porque desapareceram antes foi precisamente a de exigirem muito dinheiro!

Outra coisa: essa do "core negócio" do FCP e SLB ser diferente do do Sporting tem piada. Eu sei que para quem não é sportinguista é difícil entender, mas o Sporting é um clube formador desde a sua fundação, tem-no inscrito no coração de leão, e não forma jogadores por não ter dinheiro, mas porque sente esse dever para consigo e para com a nação -- até porque se podem comprar dezenas de jogadores estrangeiros por menos dinheiro do que aquele que o Sporting gasta na formação (ou então o União da Madeira não teria sido o primeiro clube português com 10 ou 11 estrangeiros).

«Faria essa aposta mesmo que o Sporting fosse o clube mais rico do mundo», afirmou. «Faz parte do nosso ADN. Sabemos fazê-lo bem, não valia a pena andar sempre a comprar jogadores quando temos uma formação boa" Bruno de Carvalho a 4-10-13


De Miguel Lourenço Pereira a 16 de Outubro de 2013 às 21:01
Jacques,

Faça uma comparação com os jogadores dessa faixa etária das selecções europeias do top 15 (para incluir a nossa) e diga-me lá então onde estão a jogar os equivalentes ao Caetano, ao Danilo, ao Rafael Lopes e ao Oliveira.

Porque a diferença é absolutamente abismal. Abismal.
Aos 22 anos a formação chegou ao fim, o jogador entra no processo de maturidade competitiva onde atingirá o pico, variando com as posições, entre os 25 e os 28. Algum desses pode dar a volta à situação em que está?

Claro que sim, sucedeu com o Paulo Machado, o Bruno Gama ou o Vieirinha. Mas custou e não passa sempre. A maioria perde-se pelo caminho. Porque não teve a base adequada.

O Cedric poderá ser o lateral-direito de Portugal durante uma década? O Nelson Oliveira o avançado? O Caetano, o Rafael Lopes e o Baldé opções válidas? A meu ver - e creio que não sou o único - seria uma selecção bastante fraca para encarar os objectivos habituais e recentes de Portugal. Pode ser que o tempo me dê razão, pode ser que não, mas qualquer um desses jogadores encontra nesta selecção um equivalente melhor a todos os niveis. E com menos anos em cima e maior margem de progressão.

Quanto ao Sporting, não sabia que havia uma ordem divina que indicava que a formação era uma oferenda leonina à nação portuguesa. O Sporting formou bons jogadores nas últimas décadas porque investiu nisso ao contrário do Benfica e Porto que preferiram apostar na compra de jovens com potencial para revenda. São opções. O Sporting gastou milhões em jogadores estrangeiros mas o negócio saiu mal e está na situação em que está por isso. Mas o core base sempre esteve mais virado para a formação.

Por fim, as equipas B são um investimento com maior margem de lucro que de prejuizo. São jogadores, na maioria dos casos, vindos dos juniores, com o primeiro contrato profissional que no caso dos principais clubes portugueses não supõe um gasto exagerado mas que permite abrir as opções para o plantel principal e em caso de sucesso e venda, um lucro a 100%. Precisamente por pensar ao contrário, muitos clubes se entregaram a compras descontroladas que os levaram ao abismo!


De jaques a 16 de Outubro de 2013 às 21:43
Sim, o Nélson Oliveira e o Cédric podem ser titulares da Selecção por muitos anos, tal como o Rui Patrício e o Fábio Coentrão o vão ser, e estes dois fizeram parte de uma geração muito inferior (Mundial de sub-20 de 2007), muito mais criticada, mesmo ridicularizada pelos entendidos de plantão...


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Outubro de 2013 às 00:11
Jaques,

Que o sejam não significa que sejam nem a melhor opção nem sequer jogadores de nivel alto. Portugal, actualmente, tem muitas posições onde as opções disponiveis não passam do nível médio. A de guarda-redes, avançado e lateral-direito são apenas exemplos.


De Tiago Santos a 18 de Outubro de 2013 às 08:47
O Sporting queria (e quer) o mesmo modelo que Porto e Benfica como é obvio. Só que as opções correram tão mal que foram obrigados a olhar para a formação novamente.
Não há desígnio nacional nenhum e até mesmo vocês o sabem. Benfica e Porto estão a fazer um esforço brutal para terem jogadores de "montra" que sejam facilmente valorizáveis em ciclos curtos de tempo, e por isso não podem simplesmente estar à espera que apareçam jogadores portugueses, o seu mercado é hoje muito mais amplo e dai o trabalho e os resultados que têm conseguido (especialmente o Porto).
Benfica e Porto estão ensombrados com a possibilidade de formação de uma liga europeia, para a qual sabem, se não se colocarem nestes próximos anos, ficaram condenados a perder o barco.
Esta é a realidade, por mais que custe, não há desígnios nacionais nem deveres cívicos de colocar portugueses a jogar se estes não garantem rendimento imediato.


De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Outubro de 2013 às 19:00
Tiago,

Naturalmente que não há designeo, fui mordaz e irónico em relação a isso. Historicamente o Sporting sempre teve uma boa formação e sempre apostou mais na formação que Porto e Benfica, é uma realidade que vem desde os anos noventa e que se amplifica em periodos de crise. Mas a quantidade de péssimas compras dos últimos anos deixam claro que o modelo a seguir não é esse e que houve ambição de algo mais que não se conseguiu.

Quanto ao segundo ponto, essa perspectiva está condicionada á aprovação do 6-5 que a UEFA quer e que eu, pessoalmente, apoio, forçando os clubes a dedicarem-se mais à formação (atenção, formação não implica exclusividade de jogadores portugueses) e a estarem mais atentos ao mercado doméstico!


De Tiago Santos a 19 de Outubro de 2013 às 22:42
Eu percebi a ironia. Não concordo com o 6-5 sinceramente, mas sim com limitação ao nível das inscrições, ou seja, não só quotas rígidas de numero de inscritos nas competições oficiais como limitação dos planteis a 25/27 jogadores inscritos por competição.
Ou seja, para o campeonato, taça, e competições europeias os planteis deveriam estar claramente inscritos e ai sim, terem por exemplo de ter 15 jogadores de formação local.
Não posso concordar que para formação de um 11 o treinador seja obrigado a fazer uma equação que em muitos casos ao longo de uma temporada, por melhor estruturado que seja o plantel, esteja constantemente a ter de "inventar" só para escolher um 11 onde por critério de nacionalidade e não algo que tenha que ver com futebol, um jogador seja preterido ao invés de outro.


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Outubro de 2013 às 00:11
Tiago,

Não se trata de nacionalidade, o 6-6 trata de formação no país, o que fará é que os clubes apostem nas suas camadas jovens independentemente de serem do país ou não. Mas sim, um plantel fechado de 23 jogadores para todas as provas aos quais apenas se podiam adicionar juniores e com um x número de jogadores no plantel formados localmente deveria ser obrigatório!


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