Quarta-feira, 24 de Julho de 2013

Quem se apaixonou pelo Bayern Munchen de Louis van Gaal sabia que ali havia material para criar uma dinastia capaz de dominar, mais do que a Bundesliga, o futebol europeu. A evolução de Jupp Heynckhes, consolidada com a histórica goleada sobre o Barcelona, confimou essa sensação. A chegada a Munique de Josep Guardiola é um sonho transformado em realidade. O Allianz Arena prepara-se para entrar noutra dimensão.

Imaginem os bávaros ao serviço de Heynckhes.

As vitórias sobre o Dortmund - entre a DBF Pokal e a final da Champions - as goleadas na Bundesliga, a vulgarização da Juventus e a humilhação ao Barcelona. Imaginem as subidas constantes de Lahm e Alaba, o trabalho táctico de Martinez e Kroos, a presença sobre-humana de Schweinsteiger. Os golos de Mandzukic, as diagonais de Robben, a liderança de Robben e o génio incontrolado de Muller. Imaginem essa máquina de futebol, capaz de lograr no mesmo ano tudo aquilo a que podia ambicionar. Agora juntem a essa equação mais jogadores de topo, filhos da mesma ideia. E um homem capaz de a reinventar. Afinal, o clube tão associado desde sempre ao império da Adidas, pode colocar em prática a máxima de que "impossible is nothing".

Gotze e Thiago chegam para fazer de um plantel de sonho, um plantel perfeito. O overbooking de talento é assustador. Luis Gustavo, autor de uma notável Taça das Confederações, não tem lugar assegurado. Toni Kroos também não. O promissor Xherdan Shaquiri terá de sofrer para ter minutos. Quem garante a Mandzukic que vai jogar? Boateng, Badstuber e van Buyten vão lutar por um lugar porque tudo indica que Javi Martinez será, sobretudo, um libero como foram Vasovic, Blakenburg e, claro, Beckenbauer. Esse posto fulcral na filosofia do Futebol Total reinventado pelo maior símbolo contemporâneo da escola danubiana, desviada definitivamente a ocidente, entre as tulipas de Amesterdão, o sol de Barcelona e, agora, o tapete verde de Munique.

 

Guardiola precisava de um desafio e aí o tem.

Não se trata apenas de igualar a temporada perfeita de Heynckhes. Nunca ninguém o conseguiu desde os triunfos do Ajax de Kovacs no futebol holandês e europeu dos anos 70. Toda a curta hegemonia posterior - Bayern Munchen, Liverpool, AC Milan, Juventus, Real Madrid, Manchester United e Barcelona - foi incapaz de reproduzir ano atrás ano vitórias em todas as frentes. Pedir isso a Guardiola é, portante, ridiculo.

No entanto, o que sim se deve exigir (e esperar) do seu projecto, é fidelidade absoluta às suas ideias, à sua forma de entender o jogo. E isso é meio-caminho para a vitória. Ninguém pode garantir que o Bayern vença o novo duelo com o Dortmund de Klopp (também ele reforçado, dentro das suas limitações, de forma muito interessante) ou com Real Madrid, Barcelona, PSG, Manchester United e City ou Chelsea. Mas com o plantel que dispõe, o génio que sempre o acompanha e a sua eterna ambição

Guardiola provará, provará e provará. A superioridade do seu Bayern na Bundesliga será tal que ninguém descarta ver três ou quatro variações tácticas ao longo do torneio, de três centrais a quatro ou cinco médios. Tem jogadores excedentários para todas as posições. Disputará, previsivelmente, à volta de 55-60 jogos, e tem um plantel com mais de 26 opções, as que se podiam incluir os jogadores da formação que já conhece bem e que tem incoporado aos seus trabalhos de pré-temporada. Weiser, Hojbjerg, Can, Weirauch serão nomes que começarão a soar mais familiares aos adeptos. Mas têm uma tarefa hercúlea pela frente porque a qualidade de futebolistas já consagrados - todos eles, salvo Mario Gotze, campeões da Europa (Thiago também o é) - é imensa.

Pep tem provado e continuará a fazê-lo. Podemos imaginar um decalque do seu Barcelona, mas qual deles? E será que um homem que tem uma ideia mas que sabe rodear-se de gente que lhe pode oferecer ideias alternativas. Lahm pode reencarnar em Dani Alves ou ser, pura e simplesmente, ele próprio, talvez o melhor lateral europeu da última década. Javi Martinez foi com Bielsa, um dos mentores do catalão, um líbero de excepção em San Mamés e continuará a sê-lo mas ninguém duvida que, no meio-campo, seja igualmente fundamental. Kroos e Schweinsteiger parecem fundamentais, mas Thiago vem para ter minutos, Gotze deambulará entre o meio e as alas e Luis Gustavo é mais do que pulmão, como demonstrou com a canarinha. São muitas opções, reforçadas por um tridente de ataque que conta com Ribery, Robben (o menos guardilesco dos jogadores), Muller, Shaquiri, Mandzukic e Pizarro às que se junta, igualmente, o génio da antiga estrela do Dortmund.

3-4-3, 4-3-3, 4-2-3-1, 4-6-0, tudo é possível com Guardiola ao leme e este leque de estrelas - não mediáticas - em campo.

 

Parece evidente que as alternativas do técnico de Santpedor formam o terceiro melhor meio-campo da Bundesliga, apenas atrás do do Dortmund e dos seus colegas de equipa. E talvez um dos melhores de todo o futebol europeu. É evidente que a expectativa está em alta. E com justa causa. O mais emblemático treinador dos últimos anos com o melhor plantel do Mundo, num clube histórico e longe da histeria mediática por onde se move o futebol espanhol, é uma fórmula impossível de resistir. Depois de ter triunfado em campo na passada época, o futebol alemão começa agora a ganhar também na moralidade do jogo. Entre Ancelloti e Vilanova, entre Moyes e Mourinho, há algum duelo que tenha capacidade de ombrear com um Guardiola-Klopp? Também me parece que não!

 

 

* Pep, toca-a outra vez



Miguel Lourenço Pereira às 14:09 | link do post | comentar

9 comentários:
De João Varela a 25 de Julho de 2013 às 16:12
Muito bom! No próximo sábado já temos o primeiro aperitivio entre Pep e Klopp.

Já agora se conhecer bem o novo treinador do Barça, propunha-lhe que escrevesse um post sobre Tata Martino.

Abraço


De Victor Hugo a 25 de Julho de 2013 às 18:14
Miguel,

Excelente texto, mas só um adendo: não haverá disputa entre Ancelotti e Vilanova, infelizmente Tito teve outra recaída do câncer e admitiu não ter condições de gerir o time como deveria, e deixou o cargo. Gerardo \"Tata\" Martino foi contratado, e é com ele que Ancelotti irá medir forças.
Aproveitando: como você prevê este Barcelona nas mãos de Martino?

Abraços


De Miguel Lourenço Pereira a 26 de Julho de 2013 às 22:10
Como estou offline, de férias, nem pude actualizar o texto nem escrever um sobre o Tata. Fica prometido para breve!


De Miguel Antunes a 27 de Julho de 2013 às 13:00
Mais um fantástico artigo como de costume...estou plenamente de acordo com tudo...agora só levanto a questão de que até que ponto tanta estrela junta não vai resultar mal...por norma resulta e em Dezembro os menos utilizados, devido ao estatuto que têm vem para os jornais falar e reclamar que ou jogam mais ou querem sair...temo que isso irá acontecer no Bayern...

De resto independentemente desse contra, neste momento tem tudo para ser a primeira equipa da história bisar no formato actual da Liga dos Campeões...para mim e a 10 meses de distância é de longe o principal candidato


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Julho de 2013 às 18:45
Miguel,

Obrigado pelo feedback como sempre.
O Bayern tem classe, talento e savoir fair para se manter no topo do futebol europeu e o crescimento da Bundesliga é uma motivação. Para o Bayern faz muito bem que exista um Dortmund, como se demonstrou na Supertaça. Será um duelo apaixonante!


De Tiago Santos a 31 de Julho de 2013 às 23:09
Miguel acreditas que o Javi Martinez pode render mais como defesa que no meio campo?
Penso que ele poderia ser a chave dos equilíbrios como Busquets, para mim tem o perfil ideal para jogar na posição 6. Estranho um pouco que seja para Já Thiago a ocupar o lugar, mas recordando algumas situações no Barca, Xavi também chegou a jogar como 6 em alternativa a Busquets.
Sobre esta equipa tenho algumas duvidas do papel de determinados jogadores. Em especial o lugar de Sweinsteiger. Acredito que vá ser interior direito, mas tenho alguma curiosidade para perceber como o colocar com Thiago e Martinez ao mesmo tempo.
Depois existe também a questão do jogador a jogar na posição central do 3 ofensivo. Não sei ate que ponto poderá ser Gotze, penso que terá de crescer muito como jogador. Muller parece primeira opção para já mas ficam as duvidas...
Estou curioso também em relação a Luiz Gustavo, mas penso que inevitavelmente poderá sair.

cumps.


De Miguel Lourenço Pereira a 2 de Agosto de 2013 às 11:02
Tiago,

Tudo indica que o Luis Gustavo acabe no Wolfsburg. O Javi não me parece a melhor escolha para a posição 6, é lento nas saídas de bola, no 4-2-3-1, era quase invariavelmente o Bastian quem cumpria esse papel e o lugar ocupado no Barça pelo Busquets exige uma rápida capacidade de reacção que o Javi, por muito certeiro que seja na ocupação de espaços e dominio de bola, ainda carece. Como central oferece segurança, posicionamento e tem mais tempo para pensar com a bola nos pés para tomar a posição ideal.

Thiago na posição mais recuada será uma incógnita até ver como se enquadram no esquema Gotze e Bastian, e se o 4-1-4-1 é para manter ou vai dar lugar a uma variante do 4-5-1, com trocas sucessivas de posição entre Kroos, Schweinsteiger e Thiago no miolo como sucedeu no ano passado com Javi, Bastian e Toni.

um abraço


De Tiago Santos a 3 de Agosto de 2013 às 00:26
Entretanto no ultimo amigável as coisas ficaram mais claras. Penso que Bastian é mesmo o pivot-defensivo e thiago vai jogar como interior direito
Embora ache que Javi pode ser o 6 parece que vai mesmo ficar mais recuado o que não deixa de ser uma optima opção... belos problemas os de Guardiola.


De Miguel Lourenço Pereira a 4 de Agosto de 2013 às 19:10
Será inevitável a inclusão de Bastian, pelo que Thiago terá sempre ajuda na abertura de jogo.

Martinez será central sim, mas numa defesa a três recorrentemente, com Lahm ganhando metros no meio-campo seguramente em muitos jogos!


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Miguel Lourenço Pereira

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