Sexta-feira, 28 de Junho de 2013

Carlo Ancelloti chega ao Santiago Bernabeu com um curriculo profissional que nada deixa a invejar o de José Mourinho. Volta a ser a sua sombra, depois da sua etapa no Chelsea. Com ele traz um novo conceito de jogo, onde a velocidade e a vertigem serão progressivamente substituídas pela pausa e o jogo colectivo. Uma nova etapa para um clube em constante conflito existencial.

Não há treinador italiano que melhor represente a mudança de guarda dos anos dourados da década de noventa.

Nenhum capaz de manter a frescura visual dessa geração nas suas equipas sem demasiados malabarismos tácticos. As equipas de Ancelotti não são nenhum puzzle. Pelo contrário, o seu esquema roça praticamente o básico. Posicionamento horizontal, organização defensiva, trabalho na medular e liberdade para dois ou três homens de ataque. Nada de contra-golpe, nada de velocidade constante. As equipas de Ancelotti movem-se em campo como o dinamo preferido de Arrigo Sacchi fazia em San Siro. Com a tranquilidade de quem sabe que chegará ao seu objectivo.

O técnico italiano popularizou na viragem do século XX o 4-3-1-2. Um modelo que, desde então, tem sido sinal de identidade do Calcio.

Com a Juventus, onde sucedeu à figura imensa de Marcelo Lippi, a jovem promessa dos bancos italianos herdava uma equipa com muito trabalho no meio-campo e pouca criatividade. Ignorando o 3-4-3 da última etapa de Lippi, preferiu reforçar a linha defensiva com o modelo de quatro homens aplicado por Sacchi, o seu grande mentor. Depois colocou Davids, Conte e Tachinardi no apoio a Zidane, Del Piero e Inzaghi, com o francês com liberdade total de movimentos e "Il Pinturrichio" como avançado móvel no ataque. No final do ano mudou-se para Milão onde tomou a decisão mais importante da história recente do futebol italiano. Fiel ao seu 4-3-1-2, Ancelotti manteve Rui Costa como o seu trequartista, atrás da dupla Shevchenko-Inzaghi. Com Ambrosini/Albertini e Gattuso disponíveis para dois lugares, parecia não haver espaço para o promissor Andrea Pirlo. Mas o jovem, que tinha estado emprestado no Brescia, era bom de mais para ser suplente do internacional português e Ancelotti recuou-o para a posição de regista. Uma manobra táctica decisiva que lhe valeu o seu único Scudetto, duas Champions League ganhas e uma final perdida, inesperadamente, em penalties. O seu modelo táctico permaneceu quase inalterado quando se mudou para Londres, depois de quase dois anos calamitosos pós-Mourinho. Aí voltou a fazer uso do seu 4-3-1-2, reconvertendo Malouda como médio interior, ao lado de Lampard e Essien, por detrás de Ballack, Drogba e Kalou na linha de ataque. Com essa equipa conseguiu algo histórico que nem o Special One logrou (vencer liga e taça no mesmo ano) mas na Europa o Chelsea não impressionou e a eliminação aos pés do Inter de Mourinho deixou marca. Despedido por Abramovich, reencontrou-se em Paris com um novo projecto a que voltou a aplicar o seu velho conceito de jogo, desdobrado ocasionalmente num ainda mais clássico 4-4-2, com Ibrahimovic, Lucas e Lavezzi como os três jogadores mais apertados e Pastore, Matuidi e Verrati a fecharam a linha de meio-campo.

 

A chegada de Ancelloti ao Bernabeu é um sonho antigo de Florentino Perez.

O presidente do Real Madrid esteve perto de o contratar em 2009, mas sob indicação de Jorge Valdano, acabou por ser Manuel Pellegrini o escolhido. Cinco anos depois, encerra-se o ciclo. Ancelotti é um ganhador. Tem um currículo que inclui ligas em três paises diferentes (o mesmo número que tinha Mourinho quando chegou a Madrid) duas Champions League (as mesmas que tem Mourinho) e um perfil muito mais apaziguador e silencioso que o português. Com Ancelotti ninguém espera ver uma guerra aberta com a imprensa e com o balneário. Habituado a líder com presidentes com carácter (Agnelli, Berlusconi, Abramovich) e com celebridades do futebol europeu (Zidane, Del Piero, Shevchenko, Rui Costa, Drogba, Lampard, Terry, Ibrahimovic), a "Carletto", não lhe faltará experiência para lidar com a facção rebelde de Iker Casillas e Sérgio Ramos ou os clãs regionais formados à volta dos jogadores portugueses, alemães e espanhóis mais afins a Mourinho. Não será uma missão fácil num clube reconhecido pelo poder excessivo que os jogadores sempre procuraram conquistar à custa do papel do treinador. Mas não existia, no mercado de técnicos, um perfil mais adequado para a missão do que o seu.

Em campo a mudança de Mourinho para Ancelotti será ainda mais evidente. Fiel ao seu desenho táctico, a mutação do 4-2-3-1 habitual de Mourinho para o 4-3-1-2 adequa-se principalmente ao over-booking de jogadores medulares e criativos do plantel merengue. A chegada do genial Isco abre a porta a um duelo apaixonante com Mezul Ozil pela posição de criativo principal desta nova formação blanca. Atrás, os três lugares do meio-campo deverão ser distribuídos entre Xabi Alonso, Modric e Khedira, deixando a Cristiano Ronaldo e Benzema as vagas no ataque. O português como elemento mais livre, móvel, capaz de mover-se entre as alas para aparecer em áreas de finalização e Benzema, peça essencial no jogo combinativo habitual nas equipas de Ancelloti. Um desenho táctico que raramente utiliza extremos puros o que pode ser um problema para o jovem Jesé mas nem tanto para Di Maria, que tanto pode incorporar-se como elemento da linha de ataque como eventualmente recuar para a posição de interior direito graças à sua tremenda capacidade de trabalho. Só a possível - mas complexa - chegada de um jogador como Gareth Bale poderia levar Ancelloti a procurar por um mais clássico 4-3-3 com Ronaldo e Bale nas alas, acompanhados de Benzema e Ozil, Isco, Alonso, Khedira, Di Maria e Modric a competirem por três lugares, um problema sério para qualquer gestor humano resolver.

 

A nova abordagem de Ancelotti, se o italiano se mantiver fiel aos seus princípios tácticos, aportará ao Real Madrid um jogo mais colectivo e elaborado, onde o papel dos laterais (Carvajal e Arbeloa pela direita, Marcelo, Coentrão ou o seu eventual substituto pela esquerda) é fundamental graças ao músculo colocado no meio-campo para tapar qualquer falha de marcação colectiva. Um tridente composto por jogadores como Ozil, Isco, Alonso e Modric pode oferecer uma dinâmica ofensiva apaixonante, particularmente se associada ao apetite goleador de Ronaldo e a um Benzema possivelmente motivado pela presença de Zidane no banco e a ausência de Higuain como competidor directo. Se o Barcelona parte como claro favorito para a próxima época, a escolha de Ancelotti é uma manobra inteligente de Perez para manter o Real Madrid e o seu plantel de sonho perto, muito perto, da máquina ofensiva blaugrana.



Miguel Lourenço Pereira às 22:02 | link do post | comentar

5 comentários:
De espanhol a 29 de Junho de 2013 às 08:05
La pregunta del millón de dólares: Con Ancelotti.....¿Será portero titular del Real Madrid, el gallego Diego López, como en la Era Mourinho o se volverá a que JUEGUE POR DECRETO iker casillas?


De Miguel Antunes a 8 de Julho de 2013 às 12:23
Dizer que o Ancelotti tem um grande curriculum, é de certa forma relativo, analisando apenas a frieza dos números é um facto que tem um exclente CV, agora fazendo uma análise mais pormenorizada vemos que em Itália fez 13 épocas e só conseguiu vencer o campeonato por uma única vez, o que digamos é pouquissimo e completamente irrelevante...já no CHelsea de facto 1 campeonato em 2 anos é bom sem dúvida...no PSG com o nível de investimento feito e com a fraca concorrência ter perdido um campeonato para o Montpellier é muito mau, para além de que mesmo este ano apesar de ter sido campeão, acho 31 pontos perdidos demasiados pontos para o nível da equipa e acima de tudo para o nível dos adversários...muito sinceramente não acho que seja um treinador assim tão bom quando o pintam, e este ano vai ser novo passeio para o Barcelona no campeonato...mas veremos


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Julho de 2013 às 19:56
Miguel,

O Ancelotti está bastante longe de ser o meu treinador preferido, mas o seu curriculum é, dentro do panorama actual de treinadores de elite, bastante convincente. É um dos três treinadores de clubes em activo (não conto com Hitzfeld, na selecção da Suíça, e Heynckhes, retirado) que conta com duas Champions League. Tem titulos em Inglaterra, Itália e França. No caso italiano, o seu AC Milan estava longe de ter o melhor plantel e as derrotas contra a Juventus de Capello, primeiro, e o Inter de Mancini, depois, não são totalmente descabidas. Em Inglaterra não se limitou a vencer no seu 1º ano (apenas o 2º estrangeiro na história a lográ-lo), como fez a dobradinha, algo bastante raro na dinâmica do futebol britânico. Em França perdeu mal a liga para o Montepellier, mas não começou a temporada no banco.

É um treinador competente, nada espectacular, mas que entende da poda. Para um clube habituado a ser gerido por jogadores e jornalistas, o papel do treinador é complexo e Ancelloti tem um historial positivo nesse capitulo. Mas para a qualidade dos jogadores e o potencial real do grupo, era muito mais atractiva a aposta por um Klopp!


De Miguel Antunes a 14 de Julho de 2013 às 19:38
Concordo que o Klopp seria o melhor para o lugar sem dúvida, mas por outro lado ainda bem que não escolheram o Klopp, isso muito provavelmente significaria o principio do fim de um dos projectos mais belos do futebol mundial nos últimos anos, ou seja, o actual Dortmund...


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Julho de 2013 às 20:56
Miguel,

Totalmente de acordo. Além do mais o Klopp sabe o que o espera e não está preparado para abdicar uma condição divinal em Dortmund por uma aventura que tem toda a pinta de acabar mal quando começar a exigir a prima-donas que se comportem como jogadores!


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