Segunda-feira, 3 de Junho de 2013

A inclinação brasileira do Barcelona ressuscitou graças ao desejo e influência de um presidente que foi, durante anos, o homem-forte da Nike na Europa. Rossell cumpriu o sonho de trazer Neymar para a Europa e agora cabe ao craque brasileiro demonstrar que pode queimar as etapas que nenhum dos seus predecessores foi capaz, brilhar no seu ano de adaptação numa equipa desenhada para um dos seus rivais pelo trono mediático mundial.

A paixão vem de longe. De Evaristo.

Nos anos cinquenta, o brasileiro foi um dos homens mais influentes na curta passagem de Helenio Herrera pelo Barcelona. Antes de transformar-se no guru do catenaccio, o argentino notabilizou-se em Espanha como um amante do ataque romântico, como provou no Atlético de Madrid e no Barcelona. No Camp Nou contou com os golos de Evaristo para acabar com a hegemonia nacional do Real Madrid. O avançado foi o responsável pela primeira eliminação europeia dos merengues e entrou para a história do clube blaugrana. Durante trinta anos foi a grande estrela brasileira da vida do Barça que tentou com Roberto Dinamite, sem sucesso, repetir a fórmula. Foi Romário, da mão de Cruyff, que reactivou a conexão canarinha no Camp Nou. O primeiro de muitos que se seguiram. Ronaldo Nazário, no seu ano mais brilhante, e Rivaldo culminaram essa paixão. Seguiram-se erros de casting como os avançados Giovanni e Sonny Anderson e os médios Fabio Rochemback, Thiago Motta e Geovanni. Mas com Ronaldinho todos se esqueceram desses pequenos precalços. O brasileiro tinha chegado das mãos de Rossell, quando Laporta queria Beckham. O inglês foi para Madrid, o brasileiro chegou de Paris e ajudou a reescrever a história do clube. Rossell, dirigente da Nike Europa durante largos anos, foi o homem forte dessa operação. Com o génio brasileiro vieram também Beletti e Sylvinho, nomes menores mas reflexo dessa conexão canarinha potenciada por Rossell. Quando a festa acabou, a ressaca brasileira gerou pavor nos adeptos. Henrique e Keirisson, últimos suspiros dessa tentativa de procurar a próxima estrela, foram erros calamitosos. Pelo sim pelo não, Laporta nunca mais voltou a pescar no Brasil. Quando regressou ao poder, Rossell, agora como presidente, alimentava o sonho. De trazer Neymar. Para ele - e para os brasileiros - o extremo até agora do Santos é o sucessor espiritual dessa saga Romário, Ronaldo e Ronaldinho. Tê-lo em Barcelona era quase obrigatório e depois de dois anos em que Guardiola mediu o impacto da sua chegada num balneário dominado por Messi e enquanto os multiplos patrocinadores do jogadores exploravam a sua imagem, ficou no ar a ideia de que era questão de tempo até Neymar aterrar em Can Barça. Até que finalmente, diante de 45 mil adeptos extasiados, chegou o novo profeta canarinho para ter Barcelona aos seus pés.

 

O grande desafio de Neymar está, precisamente, no passado da história do Barça e dos grandes clubes europeus.

Não é por casualidade que clubes de ligas como a portuguesa, holandesa, francesa ou até italiana servem de porta de entrada para as maiores promessas da América Latina. No cone sul joga-se a um ritmo, a uma velocidade totalmente radical. O espaço tem um valor distinto. As marcações são feitas a outro ritmo e, sobretudo, a outra distância. O jogador tem tempo de receber a bola, cumprimentar a sua própria sombra antes de cruzar-se com a do rival. Nesses segundos mágicos há espaço para o drible, o toque súbtil, o levantar a cabeça. O respirar.

Esse tempo tão habitual nas ligas sul-americanas não existe na Europa, sobretudo no futebol espanhol. Cristiano Ronaldo sentiu essa diferença ao mudar-se da Premier - onde a defesa é mais dura mas menos pressionante - para Madrid. Agora imaginem o choque de o fazer directamente do Brasileirão para o clube mais exigente do mundo. Neymar no Santos brilhou muito mas ganhou pouco. O palmarés do clube santino e do jogador é bastante reduzido para tanto ruído mediático. Esse é também um sinal importante. Numa liga mais fácil e menos exigente, os milagres de Neymar não foram suficientes para manter o Santos constantemente no topo. Um alerta para quem acredita num milagre imediato.

Romário e Ronaldo brilharam durante dois anos no PSV antes de chegar a Barcelona. Ronaldinho passou pela mesma etapa no Paris Saint-Germain e só ao segundo ano começou a fazer valer a sua classe. Kaká chegou novo ao AC Milan e teve tempo de crescer sem pressão, mas precisou de cinco anos para afirmar-se internacionalmente. Outros jogadores promissores, de Denilson a Adriano, ficaram pelo caminho.

Neymar terá menos segundos no seu novo relógio e menos espaço para jogar, para criar. Ele é menos um goleador e mais um assistente. Vai-se posicionar preferencialmente sobre o extremo esquerdo, devolvendo Iniesta ao miolo para colaborar com Xavi na criação. Forçando que Cesc e Villa se tornem supérfluos, que Pedro compita com Alexis e que Messi tenha uma sombra. O brasileiro está habituado a receber e decidir. Agora terá de receber e dar. Com Iniesta pode encontrar um sócio fundamental, particularmente com o apoio de Alba. Mas a sua tendência para a diagonal acabará por levar que choque com Messi no espaço. Mesmo imaginando dois génios da técnica a entenderem-se em centímetros e micro-segundos, é inevitável que o choque fisico que existiu entre Messi e Ibrahimovic se repita, agora com o argentino no meio.

 

Com Neymar o corpo técnico do Barça ganha um reforço ao 4-3-3, ganha um novo goleador para aparecer quando Messi não está. Mas também ganha uma incógnita. Poderá fisicamente manter a exigência de jogar na Europa. Terá rapidez mental e física suficiente para reaprender os seus conceitos de tempo e espaço? Será capaz de colocar o seu ego de lado - como assim tem sido nas declarações realizadas - quando chegar a hora da decisão, e procurar o passe antes do remate? Terá a habilidade suficiente para ser mais um da engrenagem blaugrana e não a ânsia, tão sul-americana, de ser o vértice do modelo? Muitas perguntas que só poderão ser respondidas nos próximos 365. Se triunfar, será o primeiro brasileiro a consegui-lo no seu primeiro ano europeu, algo que nem Sócrates, Falcão, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká lograram. Caso contrário, terá seguramente a exigente imprensa atrás da sua sombra e o Brasil pendente do estado moral da sua estrela em ano de Mundial.



Miguel Lourenço Pereira às 17:12 | link do post | comentar

9 comentários:
De fourhorseman2 a 4 de Junho de 2013 às 11:52
ola miguel!qual a sua expectativa para o futuro do neymar no barcelona,e o que vc espera do barcelona adiante no cenario europeu e mundial?
aproveitando o gancho miguel,eu queria te sugerir posts em q vc falasse das maiores linhas de frente,as maiores duplas e trios da historia do futebol.tal como pelé e garricha,pelé e coutinho,o trio sueco e holandes do milan,o quinteto didi,garrincha,amarildo,zagallo e quarentinha do botafogo dos anos 60 e por ai vai.
abraços


De Miguel Lourenço Pereira a 4 de Junho de 2013 às 12:53
Fourhorseman2,

Obrigado pelas dicas e pelo comentário. Neymar é uma incógnita. Tem todas as condições técnicas para brilhar mas duvido que supere o periodo de adaptação a tempo de causar um impacto imediato. Nos jogos que o Brasil disputou contra rivais europeus, o seu impacto foi sempre minimo, não houve uma explosão incontrolável de talento e controlo do tempo e espaço de jogo. Tem os melhores professores nessa área, tem colegas que lhe vão permitir afrouxar o ritmo sem que se note demasiado, mas também tem muito trabalho pela frente (e a pressão do Mundial de Junho).

abraço


De Luís Miguel a 5 de Junho de 2013 às 17:48
Antes demais analisando apenas a componente futebolística na minha opinião ele não vale 57 Milhões de Eur, pois nem sequer é o melhor jogador brasileiro da actualidade (para mim é o Óscar do Chelsea)...depois ou muda muito o estilo de jogo e toma umas bombas para encher ou vai estar sempre no chão, com aquele corpo franzino, na Europa os defesas são à séria, não de brincadeira como no campeonato Brasileiro que se joga a 3 velocidades (devagar, devagarinho e parado)...sinceramente acho que nunca vai atingir um patamar de nível Mundial, será apenas um bom jogador como é hoje, nada mais que isso...(falta-lhe mentalidade e dedicação e ele precisa de muita dedicação para trabalhar muitas vertentes do jogo que são deficitárias nele)


De Luís Miguel a 5 de Junho de 2013 às 17:58
Frisar por último algo bastante relevante e desmistifica um pouco o Neymar, afinal jogou num campeonato de nível inferior como o Brasileiro, e nunca conseguiu ser campeão (e fez 4 campeonatos), nunca tendo "sozinho" conseguido levar o Santos ao título, ou sequer a lutar por ele, o que para 57 milhões de eur digamos que é pouco muito pouco...neste momento não está sequer no 2º leque (o 1º é dos ET´s Messi e Cristiano) de jogadores de Top Mundial...diria que estará numa 4º linha no máximo..


De Miguel Lourenço Pereira a 5 de Junho de 2013 às 19:23
Luis,

Esse ponto foi o que eu quis referir. Neymar não é um jogador que tenha liderado o Santos a uma hegemonia. Venceu a Libertadores quando tinha ao lado bons jogadores (Ganso, Robinho) e depois contra o Barcelona foi totalmente vulgarizado pelo ritmo de jogo europeu. No Brasil e na Libertadores nunca mais voltou sequer nestes dois anos a estar perto de um nível de alta competição. Nos Jogos Olimpicos esteve desaparecido como tem sucedido com os amigáveis do escrete.

É um magnifico produto marketing - e o Brasil precisa sempre de ter um, seja quem seja - e um filão de ouro, mas desportivamente tem de adaptar-se ainda a outras exigências e com o peso que tem nos ombros, tenho sérias dúvidas que o possa fazer no próximo ano!


De André Franco a 10 de Junho de 2013 às 22:46
Prezados,

Inicialmente gostaria de parabenizar o dono do blog pelos excelente comentários. Parabéns Miguel. Porém, em relação ao desmerecimento da qualidade do campeonato brasileiro, tenho que discordar não só de você, mas também de seu quase xará Luís.

Não é pelo fato de Real e Barça apresentarem equipes melhores do que aquelas do Brasileirão, que a Liga Espanhola se torna mais difícil que a brasileira. Levante, Getafe e outras equipes estariam provavelmente na Série B do Brasil. A liga brasileira é muita mais difícil que praticamente todos os campeonatos nacionais europeus. Concordo e também acredito que Neymar tem muito a provar, mas o fato de Neymar não ter conseguido ser campeão brasileiro é a soma de diversos fatores.

Em 2010 e 2011, por exemplo, o Santos disputou várias rodadas do campeonato com o time reserva por conta da Copa do Brasil e da Libertadores. Fora as diversas rodadas em que Neymar não jogou por conta de estar junto à Seleção.

E chega a ser engraçado o comentário de que só venceu a Libertadores quando tinha bons jogadores ao seu lado. Isso é óbvio, até o Pelé só venceu a Liberta estando acompanhado de grandes jogadores. O fato de ser o principal jogador de um equipe campeã da Libertadores é um grande mérito "per si", sem ressalvas.

Há muito marketing sim em cima do menino. Ele precisa melhorar e muito, mas não é por isso que se deve desmerecer seus grandes feitos.

O seu exemplo da final entre Santos e Barça também foi infeliz. Em 1994, Romário era o maior gênio em campo e viu seu time ser massacrado por 4 a 0 diante do Milan. Foi o Romário que perdeu ou o time do Barcelona com sua fragilidade defensiva? Mesmo sendo disparado um jogador muito melhor do que todos os demais em campo, e a poucos meses de conquistar uma Copa do Mundo, Romário viu seu time tomar de 4. No caso do Santos, a defesa era muita fraca e o Muricy foi extremamente covarde entrando com o time recuado, sem contar que o time do Barça era realmente bem melhor. Neymar esteve apagado assim como o resto do time.

Enfim, concordo com quase a totalidade do texto, mas daí dizer que a liga espanhola é mais difícil que a brasileira ou desmerecer os feitos do moleque, chega a ser uma maldade..

Abraços e, mais uma vez, parabéns pelo blog.

Atenciosamente,

André Franco


De Miguel Lourenço Pereira a 11 de Junho de 2013 às 13:38
André,

Obrigado pela visita e pelo comentário.

Sigo habitualmente as ligas sul-americanas (argentina, brasileira) juntamente com as europeias e não posso estar de acordo. A exigência táctica, os espaços disponíveis, a dureza na marcação, a fluidez de jogo, é bastante diferente. Não é por acaso que todos os grandes jogadores brasileiros que vieram para a Europa necessitaram um ou dois anos para explodir verdadeiramente todo o seu talento. E talento Neymar tem. Resta saber se há tempo debaixo de tanta pressão.

Não desmereço Neymar por não ter ganho mais do que uma Libertadores e um Brasileirão. Um jogador é parte de um colectivo. Mas não foi só o facto de não ter ganho nos outros quatro anos, mas também o de não ter sido um dos jogadores mais brilhantes em prova nem ter sido capaz de dar a volta à situação. Muitas vezes quando a equipa se afundava, Neymar afundava-se com eles. Ou seja, que a grandeza do jogador não está em causa, mas não acredito que esteja ao nível que o seu marketing queira transparecer.

Quanto ao "Baixinho", em 1994, houve um baile táctico do Milan ao Barça, sem dúvida, mas mesmo assim vi um Romário parecido a si mesmo, rematador, movendo-se, buscando espaços. Em Tóquio Neymar parecia completamente adormecido pelo jogo do Barcelona, mais admirando o rival do que tentando dar a volta ao jogo. Uma vez mais está aí o peso da idade, mas para citar um exemplo ao contrário, quando o Santos venceu a Intercontinental com o Benfica, os portugueses foram goleados no segundo jogo, mas um jovem Eusébio apareceu para meter três golos mostrando a Pelé quem era. É esse tipo de exibição que ainda me falta ver do míudo.

um abraço


De André Franco a 12 de Junho de 2013 às 04:11
Prezado Miguel,

Tenho que admitir sua razão no que tange a ainda pouca, e várias vezes nula, falta de iniciativa do menino da Vila quando seu time está mal.

Garoto novo, vai, e pelo menos assim esperamos no Brasil, melhorar.

Ainda continuo discordando em relação aos outros pontos, mas isso faz parte do jogo.

Abraço.


De Miguel Lourenço Pereira a 12 de Junho de 2013 às 14:07
André,

Sem dúvida, tempo ao tempo.

um abraço


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