Quarta-feira, 15 de Maio de 2013

Ao Benfica não irá servir de muito a série de elogios que vai receber nas próximas horas. Foi um digno vencido principalmente porque não soube ser um convincente vencedor. Dominou o jogo, foi claramente superior ao Chelsea, mas faltou-lhe a frieza para matar o jogo quando se exigia. Depois, o cinismo dos Blues, algo no qual são especialistas, fez o resto. Os londrinos são o segundo clube na história do futebol a ser, ao mesmo tempo, detentores dos dois troféus de clubes europeus. A conexão espanhola sobrepôs-se ao medo do seu treinador, Rafa Benitez, num jogo onde o minuto 92 lembrará para sempre aos encarnados uma semana negra na sua história. Uma nova forma de maldição, com o selo de Jorge Jesus.

 

Outra equipa teria fechado a final nos primeiros vinte minutos. Outra equipa teria sabido aproveitar o medo e as deficiências defensivas de um rival que não esteve à altura do estatuto de actual campeão europeu. Mas o Benfica não soube nunca ser essa equipa. E por isso perdeu. Da forma mais cruel possível. Numa reminiscência da derrota contra o FC Porto, num lance inesperado em período de descontos. Um lances que despiu toda a esperança de uma formação que mereceu ganhar mas também mereceu perder.

A forma como a equipa encarnada entrou em campo despejou qualquer dúvida sobre o estado emocional dos jogadores. A derrota contra o FC Porto pode ter colocado em risco as aspirações ao título nacional, mas Jesus soube motivar os seus jogadores. Era uma final europeia o que lhes esperava. Para alguns deles a única das suas carreiras. Para os adeptos de um clube que não vivia uma aventura deste nível há mais de duas décadas, era um jogo muito especial. A atitude dos adeptos encarnados foi absolutamente exemplar, digna de um grande emblema europeu. A dos jogadores não foi diferente. Entraram com vontade de engolir o mundo e esmagaram o Chelsea durante vinte minutos que se fizeram eternos para os londrinos. Benitez teve medo. Sem Hazard - lesionado - preferiu colocar David Luiz como médio defensivo (um erro) e Ramires como extremo (outro favor ao jogo ofensivo do rival) e isolou o tridente Oscar-Mata-Torres, deixando-os à sua sorte.

Se alguém não merecia ter ganho este encontro, esse foi sem dúvida o técnico espanhol. Foi o primeiro treinador a vencer sem mexer na equipa, sem operar substituições mesmo quando havia sinais claros em campo que pediam a presença de Moses ou Benayoun. Não houve vontade de ganhar, apenas de aguentar e especular com o erro do rival. No final, a sorte sorriu-lhe, como em 2005 com o Liverpool, mas o mérito terá de ser distribuido pelos seus jogadores, que aguentaram o embate dos encarnados e souberam recompor-se.

O Benfica podia e devia ter ganho a final nesses vinte minutos iniciais. Tiveram a bola, onde quiseram, criaram oportunidades, foram mais rápidos, mais fortes e mais inteligentes na criação de jogo ofensivo. Mas falharam cada uma das oportunidades claras que construiram. Erros infantis que custaram caro. Um título europeu.

 

A partir desses vinte minutos o jogo equilibrou-se até ao final mas o Chelsea nunca foi melhor que o Benfica.

Em nenhum momento do jogo essa pressão asfixiante dos lisboetas se reflectiu na sua área. Não é a isso que joga a equipa de Benitez, mesmo que alguns dos seus jogadores o queira. Mata pedia a bola mas ela raramente lhe chegava. Torres lutava só, contra o mundo e Óscar e Ramires defendiam quando deviam pensar em atacar. A memorável exibição de Rodrigo na primeira parte, rasgando a defesa inglesa e abrindo o seu corredor a um incisivo Melgarejo, desapareceu no segundo tempo mas Gaitán e Enzo Perez entenderam-se sempre de forma a superar a conexão Lampard-David Luiz. O argentino Salvio mostrou-se mais apagado do que os seus companheiros mas soube lidar bem com os inesperados erros de marcação de Ashley Cole, um veterano com um jogo para esquecer. No meio, Cardozo, uma autêntica torre, esperava a sua hora. Que eventualmente chegaria.

Na segunda parte, contra a corrente do jogo, literalmente, Cech lançou uma bola larga que Mata controlou e entregou a Torres sem deixar cair. Um gesto perfeito do asturiano que isolou o avançado espanhol. Torres aguentou a carga de Luisão, a saída de Artur e marcou. Sete competições, goleador em todas elas. Superou o recorde de Pedro Rodriguez mas ninguém ainda parece ter-se lembrado. Foi um golo da dupla mais irreverente da equipa inglesa e um balde de água fria para os encarnados. Jesus arriscou tudo lançando Lima e Ola John para o lugar de Rodrigo e Melgarejo mas os seus planos foram destroçados em quinze minutos.

Primeiro porque o golo de Cardozo, depois de um infantil penalty de Azpilicueta, deixava tudo igual mas com um Benfica descompensado tacticamente atrás. E segundo porque a lesão inesperada de Garay forçava o técnico a gastar a sua terceira carta demasiado cedo. A partir de aí o Benfica abdicou, praticamente, e começou a pensar no prolongamento. Começavam a falhar as pernas. A pressão inicial, espantosa, não tinha dado os seus frutos e agora a bola pertencia ao rival que pensava na vantagem de ter mais trinta minutos com um plus de oxigénio no corpo. Apesar de algumas oportunidades, quase sempre frutos dos erros dos ingleses, o Benfica foi recuando no terreno. Lampard tinha acertado na barra - no que teria sido um golo merecido para culminar a sua brilhante carreira individual - e quando Ramires ganhou um canto no último minuto, a alguns o nome de Kelvin veio à cabeça. Antes da final tinha-se falado na maldição de Guttman. Não vinha ao caso, não só porque se referia só à Taça dos Campeões Europeus como também já foi quebrada pelo FC Porto, que rompeu a segunda parte da mítica sentença. Mas o Benfica acabou por sofrer a maldição de Jesus, um treinador talvez excessivamente arrojado, que fisicamente controla mal os tempos dos seus jogadores. Pediu demasiado da equipa cedo demais e foi precipitado a mexer-se no banco. De aí viu, impotente, como Ivanovic cabeceava só para bater de forma inapelável a Artur. Um golo que valia um troféu europeu. Um golo que urgava ainda mais na ferida dos encarnados.

Futebolisticamente a superioridade do Benfica foi constantemente superior. Dominaram todos os elementos do jogo. Menos o mais importante. Foram inocentes quando encararam a baliza e deixaram-se levar, fisicamente, contra uma equipa que está habituada a um modelo mais cínico e cauteloso que guarda sempre um sopro de ar para o final. O Bayern Munchen sofreu do mesmo mal na época passada, marcando a poucos minutos do fim para ver o Chelsea igualar no último suspiro. Ao Benfica faltou maturidade e experiência para encarar a final como um jogo diferente. Se o tivesse feito talvez tivesse ganho como merecia pelo que fez em campo. Será dificil que um projecto habituado a perder alguns dos seus melhores jogadores ano atrás ano volte a uma final nos próximos anos. Mas mais do que em 1990, 1988, 1980 ou 1968, esta formação encarnada sentiu mais perto o mérito de ser campeões de uma prova europeia. Um golo nos instantes finais fez toda a diferença. A história do futebol é feita desses momentos. Os adeptos do Bayern Munchen sabem-no como poucos e não só pela sua experiência com os Blues. Também eles foram superiores ao Manchester United na mítica final de 1999. A história lembra-se de outra coisa. Mas os adeptos bávaros não. Uma lembrança que seguramente vai acompanhar os seguidores do clube da águia nos próximos anos.



Miguel Lourenço Pereira às 22:14 | link do post | comentar

14 comentários:
De carlos rochinha a 15 de Maio de 2013 às 23:33
Mais uma vez perto do genial mas... só um pequeno reparo.. Esqueceste que Jesus mexeu quando estava 1-0, ou seja, na minha opinião, mexeu quando devia e não 'precipitado a mexer-se no banco'.
Se calhar se tem mexido uns míseros 5 min mais tarde e perdêssemos a final (injustamente) 1-0 eras o primeiro a dizer que Jesus demorou a mexer na equipa.
Não leves isto como uma ofensa.. Apenas uma opinião diferente! Mais uma vez. Tiveste muito perto do genial e continuação de um bom trabalho!


De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Maio de 2013 às 23:37
Carlos,

Não me esqueci. Naquele momento ainda faltava muito tempo, o Chelsea claramente não tinha mão no jogo, apesar do golo e mesmo se tentasse defender ia fazê-lo mal e cometendo erros. Por isso lançar, ao mesmo tempo, dois jogadores, pareceu-me excessivo. Particularmente porque não sai Salvio, que esteve mais apagado, e sim Melgarejo que tinha subido bem e poderia ter continuado a subir, no apoio a Gaitan e Lima pela esquerda. Ao ter lançado os dois, sabendo que faltava meia hora, JJ precipitou-se.

De tal forma que entre o golo e a lesão de Garay passam dez minutos em que há um desajuste táctico em campo com o Ola John a fazer quase todo o corredor, o Matic a descer para central e o Garay a fechar à esquerda. Ele percebeu que se precipitou e não quis fazer o mesmo com a terceira substituição.

Obrigado

um abraço


De LaCulebra a 16 de Maio de 2013 às 14:17
"Futebolisticamente a superioridade do Benfica foi constantemente superior."

Só para assinalar a redundância...

Aliás, a única coisa a apontar em todo o texto.
Análise excelente ao jogo.


De Miguel Lourenço Pereira a 16 de Maio de 2013 às 14:20
LaCulebra,

Obrigado, escapou-me o detalhe.

um abraço


De Luís Miguel a 16 de Maio de 2013 às 14:54
Miguel,

Exclente texto, estou plenamente de acordo com tudo, parabéns...

Podias-me só tirar uma duvida pff, no teu texto mencionas que o Chelsea é a 2ª equipa da história a deter simultâneamente Liga dos Campeões e Taça Uefa, podes-me dizer qual foi o 1º pff? Obrigado


De Miguel Lourenço Pereira a 16 de Maio de 2013 às 14:57
Luis,

O FC Porto, em 2003 e 2004, venceu de forma consecutiva as duas competições. O AC Milan e a Juventus conseguiram o mesmo feito, mas com a Taça das Taças e a Taça dos Campeões Europeus.

abraço


De António Teixeira a 16 de Maio de 2013 às 16:22
Creio que os comentadores da SIC não sabiam que o Porto tinha as duas taças. Também me parece que julgam que a das feiras é mais importante que a orelhuda, porque segundo eles, é o "troféu mais cobiçado de clubes na europa".

Bom texto, aliado aos últimos, e digo mais uma vez o que já disse mil vezes: não fale do Barça, que o seu trabalho é infinitamente superior quando não o faz.


De Luís Miguel a 16 de Maio de 2013 às 16:33
António,

Segundo percebi pelos comentários da SIC, o que os comentadores quiseram dizer foi que o Chelsea era a primeira equipa na Europa a deter em simultâneo (se bem por apenas alguns dias) o título de vencedor da Taça Uefa e da Liga dos Campeões, o que é um facto, uma vez que o Porto venceu primeiro a Taça Uefa em 2003...mas em 2004 no dia em que venceu a Liga dos Campeões já o Valencia tinha vencido a Taça Uefa à uns dias atrás...foi pelo menos este o sentido que eu percebi que os comentadores da Sic quiseram dar


De Miguel Lourenço Pereira a 16 de Maio de 2013 às 16:38
António,

Obrigado, mas há que falar de tudo, ainda que seja altamente improvável que fale do Barcelona nas próximas semanas ;-)

Felizmente não vi o jogo na SIC, estou vacinado para esse comentarismo desportivo!


De Luís Miguel a 16 de Maio de 2013 às 16:23
Ah ok obrigado pela informação...tinha interpretado que te estavas a referir a particularidade de o Chelsea durante 10 dias ser o actual vencedor da Taça Uefa e da Liga dos Campeões, pensava que tinha havido mais algum caso assim...mas já percebi o teu ponto de vista, obrigado e perabéns pelo Blog


De Miguel Lourenço Pereira a 16 de Maio de 2013 às 16:39
Luis,

Pensei nos dois pontos. É verdade que o Chelsea lograr esse feito é, esse sim, absolutamente inédito, mas também não é menos certo que o que conseguiu o FC Porto (como clube) e até o Benitez (como treinador), entre 2003 e 2005 foi igualmente memorável.

um abraço


De Luís Miguel a 16 de Maio de 2013 às 16:36
Já agora de referir, que com o título de ontem, o Chelsea junta-se a Ajax, Bayern de Munique, Juventus e Barcelona, como as únicas equipas em toda a Europa a já terem vencido, Liga dos Campeões, Taça das Taças e Taça Uefa..


De Miguel Lourenço Pereira a 16 de Maio de 2013 às 16:40
Luis,

Exactamente. Uma lista que só pode ser engordada por equipas que já tenham a Taça dos Vencedores das Taças. Ou seja, o único clube português que aí pode entrar é o Sporting CP!


De espanhol a 16 de Maio de 2013 às 20:50
Lamento la derrota del Benfica. El Glorioso Benfica, me resulta simpático por razones obvias. En lo referente al Chelsea, me resultan simpáticos sus adeptos que reclaman reiteradamente a Don José Mourinho.......


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