Segunda-feira, 25 de Março de 2013

A via crucis é inevitável. Há uma certa melancolia em cada fase de apuramento para uma competição internacional da selecção de futebol portuguesa. Um olhar preso nos tropeções do passado, um sufoco moral que obriga a um país tão mau em contas tenha de se valer da matemática até ao suspiro derradeiro. Tudo porque, o caminho do sucesso elimina os rastos do caminho certo, e Portugal continua a querer subsistir entre a elite do futebol à base de resultados e não de ideias. Até que os resultados faltem. Depois, o abismo...

Digam que Portugal é uma equipa que joga mal, e a primeira resposta será sempre a do adepto que cita de memória os pódios conseguidos nos torneios internacionais dos últimos anos. Digam que Portugal não tem uma boa equipa técnica, e lembrar-se-ão de dizer maravilhas de Scolari, Paulo Bento e (quiçá) Queiroz, lembrando vitórias pretéritas e esse espírito de sargentinho (não sargentão) de que o português tanto gosta. Digam que Portugal tem um plantel curto, um plantel sem demasiada qualidade, e lembrar-se-ão imediatamente de Cristiano Ronaldo, João Moutinho, Nani e Pepe para justificar tudo o resto. Digam algo negativo sobre Portugal e a sua prestação habitual nas fases de qualificação e a única resposta que vão ouvir é a habitual, a mesma que um individuo como José Mourinho não teve receio de proclamara aos céus algo do estilo "que se lixe a qualificação, o que importa é estar e depois já se vê". E como, para muitos, Portugal se tem visto bem, aqui afinal não há um só problema que tratar.

Claro que isso é o que jogadores, técnicos e dirigentes querem que as pessoas pensem.

Evidentemente que é falso. Demasiado falso para o mais crédulo acreditar e no entanto, não se imaginam quantos crédulos existem. Portugal, é verdade, tem um registo em provas internacionais bastante bom para um país de 10 milhões de habitantes. Mas está mais do que provado que a correlação económica e social, só por si, não garante títulos. Na última década Portugal perdeu um Europeu em casa contra a Grécia. Caiu nas meias-finais de um Mundial contra a França, tendo deixado pelo caminho a Holanda e Inglaterra. Caiu num Europeu com a Alemanha e num Mundial e Europeu com a campeã, Espanha. Não parece, à partida, um mau registo. A diferença está em ver como se chegou até lá e, sobretudo, como se caiu. Em ambos os casos a resposta é fácil: sem ideias, sem futebol e sem um colectivo. O que faz toda a diferença.

 

A Portugal falta-lhe hoje o mesmo que faltava há cinco anos. Não mudou nada nesse aspecto.

É uma selecção com uma base de escolhas extremamente reduzidas que se agrava ainda mais pela mentalidade redutora e classicista do dirigente/técnico/adepto português que associa os jogadores de maior renome, os mais caros ou mais bem pagos, com os mais idóneos para jogar pelo país. Não é assim. No jogo de Israel, o obtuso Paulo Bento usou todos os nomes que tinha à sua disposição. Esqueceu-se de que o trabalho dele é utilizar jogadores. Em campo estavam atletas fisicamente em má forma física e anímica. Jogadores que jogam a outra coisa, a outro ritmo. Jogadores que não têm condições para serem titulares absolutos com a selecção e que no entanto, jogo atrás de jogo, aí estão.

Jogadores como João Pereira, Bruno Alves, Miguel Veloso, Raul Meireles, Varela e Hélder Postiga, para por caras e nomes.

Nomes, membros da "família Bento" com carta branca para fazerem o que quiserem em campo, que nada questiona a sua titularidade ao jogo seguinte. Quando Vierinha, um jogador sem pedigree público, entrou em campo as sensações da equipa mudaram logo. E mudaram porque utilizar um jogador fora do esquema fechado de Bento obrigou forçosamente Portugal a lidar com o seu mais grave problema, a falta de ideias e conceitos tácticos.

Paulo Bento é um péssimo treinador no aspecto táctico. É fechado, redutor e insiste regularmente no mesmo modelo, mostrando uma incapacidade atroz em ler os jogos e a readaptar-se. Rodeia-se dos jogadores que ele entende que melhor aplicam a sua filosofia e espera que depois seja a individualidade a fazer a diferença. É um técnico primário e sempre será. Essa é outra das razões porque é seleccionador.

Portugal não reagiu tacticamente ao empate israelita e muito menos ao segundo golo, desperdiçando uma vantagem conseguida, segundo o treinador "demasiado cedo", como se estivesse assumir que mentalmente é incapaz de manter uma equipa motivada num campo onde era imperioso ganhar. É uma conversa que já se ouviu com Bento no passado, nada de novo. Só a entrada de Vierinha e Hugo Almeida - tarde demais - obrigou Portugal a mudar o desenho, a deixar o 4-3-3 para apostar num 4-4-2, com Postiga por detrás de Almeida e Ronaldo como número 10 - ao ponto a que chegou o futebol português - e dois médios interiores abrindo as alas para a subida dos laterais, algo que não se viu durante todo o período de tempo em que funcionou o 4-3-3 clássico. Sem essas ideias, Portugal é uma equipa plana, demasiado pendente do jogo transicional que favorece tanto Cristiano Ronaldo mas que prejudica todos os outros. Um jogo que só funcionou no Europeu contra uma Holanda partida em duas. Contra a Dinamarca e República Checa teve muitos problemas em impor-se e frente à Espanha foi o que se viu.

Sem jogadores e sem treinador, o raro é que uma selecção consiga algo. E o pior é quando esse treinador é incapaz de incutir aos jogadores adrenalina. Portugal joga as fases de qualificação a um ritmo sonolento, obrigado, como quem tem de despertar-se todos os dias de madrugada para encarar oito horas de árdua jornada laboral. Não há tensão competitiva, querer, dinamismo físico e pressão menta que salve esta equipa. Nem Ronaldo, tão voraz no Real Madrid, consegue valer a sua braçadeira. A equipa joga a passo, linhas distantes, e quando qualquer rival coloca um pouco mais de velocidade no seu jogo - viu-se com a Rússia, a Irlanda do Norte e com Israel - o barco vai ao fundo. Se já é mau que os jogadores escolhidos não sejam os idóneos e que o treinador seja um problema, não a solução, que essa dupla ainda cumpra o seu trabalho quase como queixando-se é demais. Tarde ou cedo a realidade acabará por bater à porta.

 

Portugal já sabe que o primeiro lugar do grupo é uma impossibilidade, se não matemática pelo menos moral. E que o segundo será um mano a mano intenso até ao fim, sobretudo com o jogo do Estádio da Luz contra a equipa israelita a fazer a diferença. Depois vem o play-off, mais um consecutivo, o terceiro. A mim importa-me pouco que Portugal chegue a uma competição internacional via play-off ou como primeiro do grupo, se tiver demonstrado em campo ser uma equipa, bem treinada, com jogadores comprometidos, com uma convocatória que respeite a qualidade e não o estatuto. O problema é que isso nunca acontece e o cenário vai-se repetindo e os problemas ficam sem resolver-se e assim continuarão até que a selecção falhe uma ou duas provas internacionais consecutivas e entre, como outros país, numa espiral autodestrutiva. Aí tudo o que for escrito aqui será relembrado, mas sem um futebol de formação de qualidade e com figuras individuais como Cristiano Ronaldo cada vez mais escassas na nossa fábrica de futebolistas, talvez seja tarde demais.



Miguel Lourenço Pereira às 13:22 | link do post | comentar

4 comentários:
De Luis a 25 de Março de 2013 às 15:31
Miguel,

Concordo plenamente com tudo o que dizes, principalmente com a parte de Paulo Bento como treinador e do facto do Cristiano influenciar (negativamente) a forma como os restantes jogadores encaram o jogo. Mas será que Bento terá assim tantos jogadores seleccionáveis para além daqueles que convocou?

Gostava de saber quem pensas que poderia ( e deveria!) ser convocado.


De Miguel Lourenço Pereira a 25 de Março de 2013 às 15:48
Luis,

Em primeiro lugar, o principal problema está, precisamente, na estrutura base do nosso futebol que é algo que ultrapassa a incompetência natural do Paulo Bento ou um modelo fechado em excesso nas genialidades do Cristiano.

Dito isso, acho que o problema de Portugal centra-se em fixar-se num conjunto de jogadores demasiado fechado quando há sempre outros jogadores em melhor forma física, estado animico ou cujas características funcionem melhor com diferentes equipas. E, sobretudo, há uma política constante de acreditar que um jogador numa equipa portuguesa que não luta pelo título não merece ir à selecção, bastando dois jogos numa equipa de topo ou num clube europeu para avaliar a convocatória pela selecção, como acontece com o Antunes.

Pessoalmente vejo o Luis Neto muito por cima do Bruno Alves (e já agora o próprio Carriço); o uso de Vierinha no lugar de Varela é um óptimo exemplo, e creio que o próprio Pizzi fez mais este ano por jogar pela selecção que Varela. No caso de Raul Meireles e Miguel Veloso, claramente sem forma física, o Paulo Bento teria opções no meio-campo do Braga e Paços de Ferreira que preferiu não utilizar, talvez por entender que têm menos estatuto.

Quanto ao ataque, eu que sou um fiel defensor de que o Cristiano Ronaldo deveria ser o avançado de Portugal (e não o Postiga) continuo a sentir a falta do Éder e a lógica da naturalização lógica do Lima (muito mais inteligente que a que foi de Liedson, por exemplo).

Há um leque de jogadores que não são escolhas habituais de PB, mesmo que algumas vezes convocadas, que mereciam ter mais minutos. Aos já mencionados junto o Hugo Viana, Ruben Amorim, Danny, Bruno Gama, Paulo Machado, André Leão, Josué, Antunes ou Vaz Tê. Não digo que sejam titulares indiscutíveis, digo simplesmente que são nomes fora de equação em muitos casos pela equipa técnica e que poderiam ser muito melhor aproveitados, principalmente quando o onze-base (que é algo lógico que exista) não reúna as condições para conseguir os melhores resultados possíveis.


De CRG a 25 de Março de 2013 às 18:39
Viva,

Em virtude do horário madrugador não pude ver o jogo. Pelo que vou comentar o estado da selecção em geral.

Há duas concepções como deve ser uma selecção: escolher um leque restrito de jogadores de forma a criar um grupo ou procurar seleccionar os jogadores que em cada momento está em melhor forma.

Cada uma tem os seus defeitos e as suas virtudes, pelo que a escolha dependerá caso a caso.

Por exemplo, acho que num país com muitos jogadores de grande qualidade fará sentido a primeiro opção. Numa selecção como a Brasileira, por exemplo, escolher os jogadores que em determinado momento estão em melhor forma pode resultar num leque enorme de jogadores que quase nunca se repetem.

No caso português, finda a geração de ouro (o espírito de grupo prolongava-se desde a formação), presumo que a melhor opção passará pela segunda concepção, sobretudo agora que existem tantos jogadores medianos a jogar fora de Portugal.

Há uns anos estes seriam jogadores importantes nas principais equipas portuguesas pelo que teriam o impulso da imprensa, adeptos e dirigentes nacionais pela sua inclusão na selecção.

Agora, estes jogadores estão fora do radar dos adeptos, como se costuma dizer, longe da vista longe do coração pelo que acabam por ser menosprezados.

Abraço





De Miguel Lourenço Pereira a 25 de Março de 2013 às 19:25
CRG,

O português sempre desprezou qualquer jogador fora do circuito Porto-Benfica-Sporting-ligas importantes e sempre será assim. Ao seleccionador espera-se que siga todo o grupo de 50 internacionais/internacionalizáveis e que faça uma selecção pensando nos melhores. Desde que PB é seleccionador isso nunca sucedeu. E não mudará!


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