Segunda-feira, 11 de Março de 2013

Em 1980 um desconhecido realizador espanhol estreava a sua primeira longa-metragem. Pepi, Luci e Bom y Otras Chicas del Montón, abria a larga e espantosa carreira cinematográfica de Pedro Almodovar. Este ano o realizador manchego volta ao activo com um regresso às comédias que o fizeram célebre mundialmente na década de 80. Nos relvados, três treinadores, "del montón", desafiam as convenções e demonstram que o futebol é também um palco de teatro onde a improvisação e a arte muitas vezes superam o hermetismo habitual entre os convencionais maestros do jogo.

Eram adolescentes. Sonhavam talvez com a glória com uma bola nos pés ou talvez com roubar um beijo à estrela feminina do momento, Bo Derek, a mulher 10. Mas nenhum deles imaginaria, seguramente, que 33 anos depois fossem protagonistas de uma crónica que os unisse no tempo e no espaço a um obscuro filme cómico estreado nesse ano.

Pepe Mel tinha 17 anos, Paco Jemez 10 e Philippe Montanier 16 e é provável que nenhum deles tenha sequer visto o filme. Não foi, propriamente, um sucesso de bilheteira numa Espanha ainda em profundo estado de "transição". Mas sem o saber, Almodovar já falava deles. Pepi, Luci e Bom são três raparigas comuns, correntes, normais, nem bonitas nem feias, nem altas nem baixas, nem magras nem gordas. Mas são imaginativas, intrépidas e criativas, capazes de desafiar o convencionalismo de uma era de profundas mudanças sociais. Não tinham a atenção dos homens como as elegantes e sensuais mulheres do seu tempo mas eram capazes de ir mais longe do que qualquer outra para inverter essa realidade quase crónica. E com isso demonstravam ser, sobretudo, personagens de recursos infinitos para lograr os seus objectivos. O mesmo se passa nos bancos da liga espanhola.

Numa liga orfã do génio de Guardiola, cansada das poses ditatoriais de Mourinho, dificilmente apaixonada pelo hermetismo de Simeone ou pelos vai e vens de Tito Vilanova e Jordi Roura, há um vazio de génios e figuras que permite ao espectador, quase sempre focado nesse duelo mediático Mou-Pep, olhar para o lado e ver que, afinal, também há imensa qualidade, imenso talento e imensa criatividade nos treinadores "comuns".

Mel, Jemez e Montanier lideram o sprint pela Europa, misturados com os milhões de Málaga e Valencia, do projecto sólido do Atlético de Madrid e batendo o pé aos multimilionários do futebol europeu. Lutam os três por um lugar na Champions League, uma competição que, à partida, podia estar para eles como um concurso de misses para Pepi, Luci e Bom. Mas que lhes fica como uma luva.

 

Pepe Mel é o mais veterano nestas lides.

Foi o responsável pelo renascimento do Rayo Vallecano, desde as entranhas do futebol secundário espanhol. Falhou a promoção com a equipa depois de um ano memorável na segunda divisão mas deixou tudo preparado para o seu sucessor - o espantoso Sandoval - completar o trabalho. Partiu para a sua Sevilla, para pegar num Bétis igualmente em horas baixas. Desenhou a régua e esquadro uma equipa que faz do futebol ofensivo, de toque, o seu santo e senha. Escritor, novelista consagrado, Mel sabe trabalhar com a bola como com as palavras, sem medos. Encontrou em Beñat a batuta, em Castro o golo, em Adrian a segurança defensiva e à volta criou um espírito colectivo impressionante para um clube dado sempre a tendências autodestrutivas. Neste Bétis não há estrelas, não há vedetas nem há margem de erro para arriscar sem a certeza do sucesso. A urgência de um clube falido pela gestão criminal de Ruiz de Lopera, deu passo a um clube renascido e determinado a criar uma marca de identidade no futebol espanhol. O prémio de um lugar europeu é apenas o reflexo simbólico e mediático de algo muito mais profundo e meritório.

Algo similar experienciou Philippe Montanier, um francês olhado como suspeita, como todos os franceses, desde o dia que chegou a San Sebastian com a promessa de um futebol rendilhado e ganhador. Demorou mais tempo do que muitos podiam esperar e teve a sorte de contar com uma directiva capaz de ver a longo prazo. A Real Sociedad perdeu o duelo mediático com o Athletic Bilbao há muito tempo e abandonou a política exclusivista de jogadores bascos mas não a sua identidade. Apostou muito na formação e começou agora a colher os primeiros rebentos de uma nova e brilhante geração, a de Aguirretxe, Illarramendi, Iñigo Martinez ou Ruben Pardo a que se juntaram os talentos de Vela e Griezzman. O líder da armada, único sobrevivente da brilhante equipa que há uma década desafiou o Real Madrid pelo título de liga (a de Xabi Alonso, Nihat e Kovacevic), é também o reflexo de como o futebol espanhol decidiu finalmente olhar para dentro e apaixonar-se pelas suas virtudes em vez de deixar-se cair nos seus defeitos. Xabi Prieto é um dos nomes do ano no futebol espanhol, recuperado tardiamente como o foi Valeron na Corunha ou agora Joaquin em Málaga, jogadores que explodiram antes do tempo em que a imprensa começou a valorizar o "tiki-taka" dos Xavi e Iniesta. Montanier teve todos contra si, teve o carácter de aguentar os piores momentos ao leme do clube, o sofrimento, para emergir com uma equipa construída com pés e cabeça, com vocação ofensiva, com capacidade de misturar a velocidade individual de Griezmman e Vela com o critério de Prieto e Pardo, uma equipa completa da cabeça aos pés.

Sem um nome histórico, como são os já campeões Bétis e Real Sociedad, sem um passado como treinador significante, talvez o trabalho de Paco Jemez tenha ainda mais mérito porque não há clube mais "del montón", do que o Rayo Vallecano. Desastrosamente gerido pela família Ruiz-Mateos, penosamente presidido por um sucessor que entende pouco de futebol e menos de finanças, que o Rayo ainda esteja de pé não deixa de ser um desses milagres do futebol. Que dispute um lugar na Champions League é algo quase sobrenatural. Jemez sucedeu a dois homens que deixaram parte do trabalho feito, Mel e Sandoval, mas imprimiu o seu toque definitivo ao clube, apostando num 3-4-3 ousado, convencido de que para um clube pequeno que sabe que acabará por sofrer golos, a arma secreta tem de ser sempre procurar marcar mais do que o rival. Sem Diego Costa e Michu, os dois goleadores do ano transacto, o técnico encontrou em Piti e Leo Baptistão os seus novos aríetes, confiou no regresso do mítico Tamudo e na qualidade de Lass para fazer a diferença e preparou-se para sofrer. A onze jogos do fim, o Rayo está praticamente salvado. No ano passado precisou de um golo milagroso nos descontos do último jogo do ano. Sonhar com a Europa não é impossível, nem sequer se falamos da Champions League. Seria a prova do que o futebol é algo mais do que uma simples utopia.

 

Não são estrelas, a maior parte da Europa do futebol nem os conhece. Os rostos são figura estranha, os gestos desconhecidos mas o trabalho desenvolvido é algo que não pode passar desapercebido. Não são os únicos. Em Espanha há ainda Juan Ignacio Martinez. Em Portugal o jovem Paulo Fonseca começa a fazer-se notar. Em Inglaterra já ninguém olha de lado quando ouve Roberto Martinez e em Itália Vicenzo Montella já é um futurível dos grandes clubes. São treinadores comuns, em equipas mais ou menos comuns, que fazem da necessidade, engenho, e das fraquezas forças. São eles o pão e sal do futebol. Enquanto as câmaras se divertem a descobrir quantos rabiscos tem o livro de notas de Mourinho ou Guardiola, eles seguram nos ombros a estrutura base do beautiful game.



Miguel Lourenço Pereira às 14:00 | link do post | comentar

2 comentários:
De lucas menezes a 17 de Março de 2013 às 20:16
Sensacional.

Sem esquecer dos "comuns" da Bundesliga. Tuchel, Favre, Armin Veh, Christian Streich, Fink, Slonka, Hecking...


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Março de 2013 às 11:07
Lucas,

É verdade, bem apontado!

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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