Terça-feira, 26 de Fevereiro de 2013

Gareth Bale é o melhor jogador que actua fora do circuito de grandes (ou milionárias) equipas. Sê-lo-á, seguramente, por pouco mais do que cinco meses. O seu talento e a forma como se transformou num todo-terreno dos relvados ajuda também a explicar a excelente temporada realizada pelo Tottenham. Em White Hart Lane André Villas-Boas começou a deixar o seu selo mas é habitualmente o génio individual do galês quem resolve os problemas do sistema do técnico portuense.

Caminham no terceiro lugar da Premier League (o último que garante acesso directo à Champions League) e vão agora disputar com o Inter de Milão um lugar nos Quartos de Final da Europe League.

Para um clube que, na elite milionária do futebol britânico é gerido com cabeça e sem cometer loucuras, é sem dúvida um feito. Não é uma novidade, Harry Redknapp já o tinha logrado há três temporadas, exibindo um futebol agressivo, vertical e extremamente ofensivo, onde havia pouco espaço para a pausa. Villas-Boas procura exactamente o oposto, reduzir as velocidades do jogo dos ingleses, transformá-los numa equipa mais continental, capaz de dominar o campo, manter a bola e ser eficazes na área contrária. Não tem sido um processo fácil. Para um treinador a quem o talento criativo é tão importante como contar com jogadores capazes de decifrar os espaços, arrancar a temporada e perder Rafael van der Vaart e Luca Modric é um problema. Especialmente se os seus substitutos, Dembelé e Dempsey, são jogadores de um perfil muito diferente. O antigo jogador do Fulham aporta à equipa londrina o que Villas-Boas exigia a Moutinho na sua etapa no Porto. Contenção, trabalho táctico e precisão na distribuição. No último terço do campo, a eficácia de Dembelé é notável, mais de 90% de acerto nos passes realizados na Premier. Mas é um jogador de trabalho sobretudo, não de criação, de explosão no momento ideal. Dempsey também é um atleta trabalhador mas nem tem o espírito de sacrifício de Dembelé nem a capacidade de marcar diferenças em espaços curtos e acaba por perder-se demasiado no modelo aplicado por Villas-Boas. O 4-3-3 que o técnico defendeu no Porto transformou-se num 4-2-3-1 e apesar da linha defensiva estar começar cada vez mais a assimilar a sua mensagem de linha alta, pressão constante e apoio ao meio-campo, é no ataque que o Tottenham se torna numa equipa diferente.

 

Villas-Boas arrancou o ano com jogadores desequilibrantes nas alas.

Kyle Walker é um lateral veloz, protótipo do defesa que encanta o futebol inglês, mas com um deficiente posicionamento defensivo. Foi responsável de vários golos sofridos pelos Spurs e cada vez que sobe para dobrar o extremo direito, obrigado o meio campo a tapar o seu espaço. Quando Walker não recua, ou o faz lentamente, provoca os desequilíbrios no miolo que tanto desesperam ao português. Do lado esquerdo Assante-Ekkoto e Kyle Naughton seriam o espelho do lateral direito mas com a dupla Dawson-Gallas a encontrar-se com a concorrência de Caulker, muitas vezes é o belga Verthongen quem parte do lado esquerdo, garante uma maior fiabilidade defensiva, reforçada pela incorporação definitiva de Hugo Lloris ao onze. No ataque, Lennon tem confirmado ser um extremo hábil e veloz mas tacticamente pouco consciente do seu papel, sobretudo com as subidas pelo seu corredor de Walker. Permite aos Spurs abrir o campo pela direita mas é pouco incisivo nas diagonais, ao contrário do que Villas-Boas conseguiu com Varela e James Rodriguez, na sua etapa no Dragão. É no lado oposto que está a chave do sucesso do clube: Gareth Bale.

Bale começou com extremo no Southampton e foi progressivamente readaptado a lateral por Redknapp. Foi a partir de trás que destroçou o campeão europeu, Inter, em dois jogos históricos da fase de grupos da Champions League em 2010 e tornou-se num símbolo da nova geração do futebol britânico, com apenas 20 anos. A pouco e pouco foi regressando à sua posição original, mas a sua (omni)presença é cada vez mais evidente. Está em todo o lado. Pela direita, usando do seu pé esquerdo para ganhar espaço na diagonal. Na esquerda, abrindo o campo e arrastando a marcação, cada vez mais implacável, deixando espaços para o meio-campo ocupar. Mas sobretudo pelo centro. Bale reconverteu-se na ponta-de-lança do modelo de Villas-Boas. O técnico português, que não encontra nem em Defoe (actualmente lesionado), nem em Adebayor (recém-chegado da CAN) um avançado matador, colocou Bale virado para a baliza, forçando o islandês Sigurdson a actuar do lado esquerdo. No meio Bale controla o jogo, abre os espaços, remate quando pode e atrai a marcação para si, soltando os seus colegas de ataque. A chegada de Holtby, o genial médio alemão - mais um produto da formação germânica da última década - para render Dempsey e as entradas pontuais no onze de Sandro, Huddlestone e do lesionado Parker, garantem ao meio-campo pulmão para segurar as linhas da equipa e dão a Bale a liberdade com a qual se sente tão cómodo. Dizer hoje em dia que o galês é um extremo é faltar à verdade, Bale, como Messi e Ronaldo, transformou-se num jogador total e é a chave do esquema de sucesso do Tottenham.

 

Villas-Boas seguramente pensava em aplicar o seu 4-3-3 com o galês emulando a Hulk, Lennon no papel de Varela e Defoe como avançado centro, mas as lesões, suspensões e circunstâncias múltiplas, obrigaram-no a reconsiderar. Foi dando esse passo atrás que o portuense ganhou uma equipa, coesa, sem estrelas individuais, mas capaz de entender que o futebol não é só vertigem. Mesmo assim, futebolisticamente, o Tottenham continua muito mais a parecer-se a uma equipa britânica, ao estilo de Redknapp, do que aquilo que Villas-Boas gostaria de implementar, com um jogo mais rendilhado com Holtby, Dembele e Parker no meio e o uso das alas como elemento diferencial. Na ausência de ponta-de-lança, não surpreende ninguém que Bale comece cada vez mais a aparecer aí. Há muito que o fabuloso jovem de 23 ultrapassou os espartilhos tácticos, demonstrando-se sentir-se cómodo em qualquer posição da linha de ataque. É às suas costas que o Tottenham caminha e Villas-Boas, seguramente consciente de que o perderá em Junho, já pensa num novo modelo, mais ao seu gosto, onde Holtby será, seguramente o actor principal.



Miguel Lourenço Pereira às 14:47 | link do post | comentar

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO