Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2013

Poucas figuras geram tanta admiração genuína no universo do futebol contemporâneo como Pep Guardiola. O filho mais popular da Masia, aquele que melhor entendeu uma mensagem de quase um século, que deambulou pela Europa até descansar em Barcelona, opta agora por voltar às origens. Guardiola é o grande sobrevivente da escola centro-europeia. Com o Bayern Munchen regressa à bacia do Danúbio, onde tudo começou.

Não foi propriamente em Munique, mas seguindo a corrente do Danúbio, que por ali passa perto, que o futebol europeu ganhou vida.

Os ensinamentos de Jimmy Hogan, a doutrina de Hugo Meisl, os debates nas casas de café de Viena, a multi-etnicidade do império austro-húngaro semeou as ideias que foram inicialmente forjadas na Escócia e que driblaram a escola inglesa para tornar-se no modelo continental por excelência. Das margens do Danúbio, essas ideias voaram para leste e mergulharam em Kiev e para oeste onde encontraram o paraíso em Amesterdam. Foi aí que se começou a gerar a paternidade do Barcelona actual, entre os ensinamentos de Michels e as lições aprendidas de Cruyff. Quando ambos chegaram a Barcelona, encontraram-se com Laureano Ruiz e tudo fez sentido uma vez mais.

Josep Guardiola tinha acabado de nascer e com ele uma nova forma de encarar o futebol.

Quando assumiu as rendas da equipa principal do Barcelona até a sua sombra desconfiava. Um primeiro jogo e uma derrota, frente ao Numancia, seriam a prova viva de que há vida para lá dos resultados imediatos. Guardiola meteu a mão no baú e recuperou não só a herança recente do cruyffismo, que a gestão pouco autoritária de Rijkaard tinha perdido, como foi mais atrás na história. Bebeu futebol como poucos, falou com os mentores, viu as imagens do passado e resgatou ideias que plasmou no seu caderno mágico. Com ele o Barcelona foi o Dream Team de Cruyff. Mas também foi o Barça das Cinco Copas, também foi o Ajax do Total Voetball, também foi a Aranyascap húngara, também foi o Brasil de 70, La Máquina do River e a herança do Wunderteam.

A cada toque de bola no meio-campo do Barcelona era a história que voltava à vida. Messi fez de Hidgekuti, de Pelé, de Di Stefano. A Xavi a bola acarinhava-o como fazia com Gerson ou Suarez e Sindelaar, Kubala e Rivelino transmutaram-se num jogador quase albino nascido nas profundezas manchegas chamado Iniesta. Esse trio mágico ajudou o Barcelona a posicionar a coluna vertebral do seu futebol correctamente depois de um período de caminhadas forçadas e curvadas de olhos no chão. Desafiou o Mundo primeiro e a posteridade depois. E venceu.

 

A chegada de Guardiola a Munique representa o regresso a essas origens, o ciclo que se completa.

Mas é também uma decisão com olhos postos no futuro. No mais imediato e no mais longínquo.

Pep sonha com ser o sucessor de Alex Ferguson em Old Trafford. É absolutamente normal. Não se trata só do clube mais bem organizado do Mundo como a cultura futebolística dos Red Devils não tem igual. Desde Busby que é um local de lenda absoluta e tem os meios financeiros para manter-se na elite. Uma formação que pode nutrir a equipa principal e uma geração que daqui a três anos chegará praticamente ao seu final. É aí que Ferguson quer dizer adeus. Ele adia desde 2002 a sua retirada mas sabe que não aguentará mais do que um triénio da máxima exigência. Falou com Guardiola várias vezes no último ano e prefere o seu perfil, educado, futebolisticamente culto e ambicioso ao de um José Mourinho de quem é, não obstante, amigo pessoal. Guardiola seria o gentleman que Busby sempre foi, mesmo nos momentos mais difíceis.

Mas até 2016 o génio de Guardiola tinha de voltar aos terrenos de jogo. Um ano sem um dos mais importantes pensadores recentes do futebol já é sofrimento suficiente. E claro, se sonhas treinar o Manchester United não ajuda ter no curriculum uma passagem recente por Manchester City ou Chelsea, para dar dois exemplos mais endinheirados, ou Arsenal e Liverpool, clubes cuja filosofia e a de Guardiola são similares.

Sem Inglaterra como destino, Guardiola tinha poucas opções. Mas ao contrário de outros, nunca foi um homem interessado no aspecto financeiro do jogo e a oferta do PSG, que alguns equacionam, foi rapidamente descartada. A do Milan também mas, por outro motivo. Em Itália Guardiola acabou a carreira de jogador e viveu os seus piores momentos. Foi acusado de doparse, declarou-se inocente e demorou meia década a prová-lo em tribunal. É um país que não traz as melhores recordações. E Berlusconi um homem que, apesar de tudo, não lhe inspira confiança.

E é aí que entra o Bayern Munchen.

Outros treinadores descartariam o Bayern porque não tem o mesmo glamour de outros clubes europeus. E no entanto poucas instituições venceram tanto na história como eles. Poucas instituições são tão bem geridas - desde a formação até ao departamento financeiro - como eles. Poucos clubes podem ambicionar manter-se na elite durante tantos anos sem com isso destruir o orçamento à base de compras milionárias, como eles. O Bayern Munchen é o herdeiro da escola centro-europeia e ao longo dos anos 70 demonstrou-o plenamente. Depois entrou numa espiral que o fez duvidar da sua própria natureza. A imprensa chamou-o Hollywood FC. Durante essa era dominaram a Bundesliga mas perderam prestigio na Europa. E aprenderam a lição. Desde há uma década que são, a par do Barcelona, o clube perfeito em vários níveis.

No Allianz Guardiola terá à sua disposição talvez o terceiro melhor plantel do mundo. Estão lá Neuer, Luis Gustavo, Javi Martinez, Schweinsteiger, Kroos, Ribery, Robenn, Shaquiri, Gomez, Lahm, Boateng, Badstuber, Dante e companhia. Tem uma formação repleta de promessas imensas como Emre Can. Tem um bloco sólido de directivos que conhecem o clube de lés a lés. E jogam na liga mais emocionante e em ascensão do futebol europeu. Não se pode pedir mais.

 

Com Guardiola ao leme o Bayern Munchen pode perfeitamente lograr o que van Gaal e Heynckhes não conseguiram. Já não se trata só de recuperar a hegemonia interna - em cinco anos três títulos nacionais são uma óptima média - mas também regressar à glória europeia. O plantel tem todas as condições para assimilar a filosofia de toque, posse e ambição do treinador catalão. Não é a cultura do kick-and-rush inglesa, não é um balneário cheio de prima-donas pagos a peso de ouro, é um clube com uma profunda cultura futebolística. A mesma que passeou-se do Danúbio até Barcelona, a mesma que se ensina na Masia com paixão. A mesma que Guardiola entende como mais ninguém!



Miguel Lourenço Pereira às 17:24 | link do post | comentar

4 comentários:
De espanhol a 17 de Janeiro de 2013 às 09:50
Jupp Heynckes, Auténtico Caballero del Fútbol


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Janeiro de 2013 às 13:29
Espanhol,

Sem dúvida!


De JV a 17 de Janeiro de 2013 às 14:17
Os meus sinceros parabéns! A primeira parte do texto está fantástica. Descreve de forma resumida o brilhante percurso de Guardiola no Barcelona, e adiciona entre-linhas vários dados histórico-culturais do futebol que enaltecem ainda mais esse mesmo trajecto.

Em relação à segunda metade do texto concordo com o que diz, uma vez que faz todo o sentido, mas não sei é como é que pode afirmar de forma tao vincada que os planos futuros de Guardiola passam por Old Trafford. Eu pelo menos nunca ouvi ou li nenhuma declaração dele em que assumisse esse desejo.

Ao escolher o Bayern Munique, Guardiola revela mais uma vez a sua intelegência e cuidado na hora de decidir. A equipa da Baviera tem todas as condições para que Pep possa trabalhar da forma que mais gosta.
Projectos como o do City, mas principalmente como o do Chelsea, não vão de acordo com a filosofia de Pep, e confesso que me criava alguma impressão sempre que o imaginava em Stamford Bridge.
É verdade que não vai para a Premier, mas no meu entender a Bundesliga é a segunda-melhor liga do Mundo, e não tenho dúvidas que com a chegada do catalão a visibilidade e o reconhecimento global deste campeonato vai aumentar.


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Janeiro de 2013 às 16:46
JV,

Não sou o único que sabe, de fonte segura, que o Ferguson gostaria que fosse Guardiola o seu sucessor e que este vê com muitos bons olhos treinar o United. Já deixou claro publicamente que quer ir para Inglaterra e aí só há dois clubes com a base e o respeito que ele exige, o Arsenal e o United. Em 2016 Ferguson deve dizer adeus definitivamente e seria o salto perfeito. Mas nada na vida é certo, muito menos a 3 épocas e meia de distância.

Quanto ao resto de acordo, as pessoas esquecem-se muito do que é a Bundesliga, o futebol alemão e acima de tudo, o Bayern, o 5º clube europeu com mais titulos, depois do Real Madrid, Milan, Liverpool e Barcelona!


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Miguel Lourenço Pereira

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