Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2012

É inegável que perfume do futebol do Barcelona de Vilanova não se aproxima do aroma apaixonante dos anos de Guardiola. Mas com uma abordagem mais pragmática, o técnico conseguiu um feito histórico que dificilmente será igualado nos próximos anos. Termina a primeira parte do campeonato invicto e com o título no bolso. Entender o Barcelona de Tito é, sobretudo, entender a relação entre o génio de um individuo e o valor de um colectivo perfeitamente oleado.

 

A goleada aplicada ao Atlético de Madrid confirmou que nenhum clube no futebol espanhol está, actualmente, sequer perto do nível do Barcelona de Tito Vilanova. Da mesma forma que Bob Paisley pegou na herança fundadora de Bill Shankly e aperfeiçoou a máquina, tornou-a mais eficaz e pragmática, também Vilanova recolheu a pesada herança de um génio como Guardiola e aproveitou-a da melhor forma possível. 

O Barça de Tito é, mais do que nunca, Messi e mais dez.

O estado de graça do argentino é evidente, a sua fome de golos inaudita e a forma como a equipa se adapta, cada vez mais, ao seu estilo de jogo, transforma o onze num projecto circular em que o argentino funciona como sol, sempre brilhante, sempre presente. Seis jogos consecutivos a bisar, 24 golos em 16 jogos, registos pulverizados e uma liderança silenciosa mas omnipresente, garantem a Tito Vilanova o melhor arranque de sempre da história do futebol do país vizinho. Guardiola perdeu o jogo inaugural, algo que Tito ainda não sabe o que é. A partir dessa derrota em Sória, o Barcelona cresceu e chegou a Dezembro com as mesmas sensações actuais. Mas esse jogo era mais coral, menos dependente do génio individual de Messi. Era o Barça onde brilhava Etoo, onde Henry renascia, em que Pedro começava a aparecer e, sobretudo, em que o trio Iniesta-Xavi-Busquets se mostrava encantado de conhecer-se e jogar juntos. Uma lufada de ar fresco diferente desta máquina assassina e implacável.

Vilanova percebeu, como Guardiola, que tudo tem de rodear Messi. O técnico de Santpedor descartou Ronaldinho, Deco e Etoo quando percebeu que não aceitariam nunca jogar para o argentino e teve de fazer o mesmo com Ibrahimovic e Villa quando estes chocaram com o ego e a fome de golos da Pulga. Foram etapas conturbadas dentro do balneário que ajudaram a desgastar a liderança de Guardiola à medida que Messi aumentava claramente o seu poder dentro da instituição até que se tornou inevitável a saída de um dos dois. Vilanova herdou uma situação resolvida, uma liderança inquestionável (e merecida), e uma equipa oleada e com uma ideia na cabeça: apoiar-se no génio individual de Messi para lograr os êxitos colectivos.

 

Vilanova é, ao mesmo tempo, um treinador extremamente pragmático. 

Na dualidade Pep-Tito, o antigo campeão europeu como jogador era o amante das experiências. Deambulou entre o 4-3-3 e o 4-6-0, reforçando a sua devoção pelo jogo de meio campo. Provou repetir o modelo de Cruyff com o uso de três defesas e muitas vezes alternou o jogo de extremos com o de interiores, garantindo quase sempre que os onzes se mudavam ciclicamente de jogo para jogo. Provou vários jogadores, deu minutos a miúdos da formação e provou que não havia vacas sagradas no balneário. Ao contrário, Tito prefere uma abordagem mais estável.

O seu 4-3-3 é invariável, uma aposta clara num extremo sempre bem aberto (Pedro), um avançado mais móvel que jogue nos espaços deixados por Messi (Cesc, Alexis, Villa), um meio-campo que segure a bola e a faça circular (Busquets, Xavi, Iniesta ou até Cesc) e um lateral mais ofensivo, com o eixo a mutar do lado direito, onde Alves brilhava, para o esquerdo onde o protagonista é agora Jordi Alba. A nível defensivo, Vilanova sofreu uma razia durante largos meses mas o problema não se notou nos resultados porque a cada golo sofrido a equipa encontrava forma de dar a volta. O papel de Messi foi superlativo.

Enquanto a crise do Real Madrid se agudiza e reflecte os números de golos marcados por Cristiano Ronaldo (14 em 16 jogos, menos seis do que logrou na época passada à mesma altura) os de Messi crescem e resolvem, muitas vezes, o problema colectivo. Os rivais do Barcelona encontraram forma de ultrapassar o jogo coral, de encontrar as fragilidades defensivas, de explorar o jogo de posse de bole. O que ainda não encontraram foi uma maneira eficaz de anular de forma consistente a Messi. A derrota em Glasgow provou que só um mau dia do argentino pode impedir a equipa de dar a volta à mais aziaga das situações. Em nenhum caso Tito abdicou do seu modelo, como fez Guardiola tantas vezes, e procurou algo diferente. Tello, Cuenca, Thiago perderam espaço face a um onze mais coral, onde se nota evidentemente o peso dos nomes fortes do vestuário, descontentes com a constante rotação a que Guardiola os votava. Fabregas ergueu-se em protagonista, à custa de David Villa, cada vez mais ostracizado, e Iniesta cada vez joga menos onde está mais cómodo. Nota-se a ideia de Vilanova em privilegiar os homens que ajudou a criar quando foi treinador de juvenis e se cruzou pela primeira vez com Piqué, Messi e Cesc. 

 

Se o titulo espanhol está mais do que garantido, deve-se sobretudo ao respeito que o Barcelona impõe. A grande virtude do processo Guardiola foi criar nos rivais o respeito e o medo absoluto que antes era premissa do Real Madrid. As equipas sobem ao campo conscientes da sua inferioridade, um primeiro passo para a derrota. A bipolaridade do futebol do país vizinho é financeiramente real mas no relvado é ainda maior, surpreendendo só a péssima época de um Real Madrid entregue a um lunático que procura, entre o cerco a jornalistas e jogadores, por um problema insignificante comparado com a falta de fio de jogo alarmante que no ano passado era resolvida com a genialidade individual dos seus grandes jogadores. O Barça de Vilanova não está à altura da cultura futebolística de Guardiola, mas o Liverpool de Paisley também não o esteve de Shankly. Foi no entanto com ele que o clube atingiu a sua época dourada. Resta saber se também nisto, Vilanova será capaz de emular o único homem que venceu três Champions League na história do futebol europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 10:33 | link do post | comentar

10 comentários:
De Squirtles a 20 de Dezembro de 2012 às 15:35
25 golos em 16 jogos! Não queira ser o 2º orgão de comunicação no mundo a falar em 24 golos a seguir à marca. Todo o resto do mundo fala em 25!


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Dezembro de 2012 às 16:56
Squirtles,

Para o prémio Pichichi conta o registo da Marca, eles têm o direito de escrever o que quiserem. Eu também. Vi o jogo, vi o golo e esse tipo de golos para mim nunca deveriam ser entregues aos avançados, é uma suposição excessiva da acta arbitral. O resto do Mundo pode falar em 26 até, se quiser, isso não modifica a minha opinião pessoal!

um abraço


De Victor Hugo a 21 de Dezembro de 2012 às 05:04
Miguel Lourenço Pereira

Não há perigo de desvalorização da base com essa postura de Vilanova, por mais que quase todos os \"medalhões\" do time sejam oriundos também da base, só que de safras mais antigas?
Talvez a longo prazo isso seja um problema, já que Xavi, Iniesta, Messi, Pedro não duram pra sempre... foi com essa filosofia pré Van Gaal que o Barça perdeu muitas jóias da base, como Mario Rosas.

Um abraço!


De Miguel Lourenço Pereira a 21 de Dezembro de 2012 às 13:12
Victor Hugo,

Da mesma forma que quando o adepto de hoje pensa em Liverpool e automaticamente pensa em Shankly, o mesmo passará com o Barcelona e Guardiola. É inevitável.

Pedroto nunca ganhou uma prova europeia é o simbolo dos treinadores do pintocostismo. Michels só venceu uma Taça dos Campeões com o Ajax e quem se lembra de Kovacs? O Tito sofrerá o facto depois de vir atrás de uma lenda, mesmo que realize, como está a fazer, um percurso únioc, e sabe-o bem.


De Victor Hugo a 22 de Dezembro de 2012 às 03:56
Sem dúvida, isso é fato. Mas eu acho que as vezes um pouco de pragmatismo é bom. Aquele tiki-taka de Guardiola já estava desgastante, além do mais ele nunca dava chance a zagueiros da cantera como Bartra e Fontás, por exemplo, preferindo o limitado técnicamente Mascherano, talvez por sua postura de líder, mas que ganha muito mais amarelos que Pepe, parece que é uma cláusula contratual.
Vilanova é mais ofensivo, vertical e torna o jogo mais atraente (não que o de Pep não fosse, mas era muito mais estratégia que futebol arte, embora esta dependência de Messi e falta de rotatividade possa custar caro logo logo.

Abraços!


De Miguel Lourenço Pereira a 22 de Dezembro de 2012 às 15:31
Victor Hugo,

Sem dúvida. O Barcelona actual tem tido uma sorte extraordinária, passou os últimos anos sem que Messi tivesse uma lesão séria. Ao contrário do Milan de Sacchi, que teve de reinventar-se com as constantes ausências ora de Gullit, ora de van Basten, este Barça esteve sempre na máxima força. Ver o modelo sem Messi é uma curiosidade natural, mas esta equipa, sendo mais vertical, acaba também por ser mais frágil e por isso mais dependente do seu génio individual.

Uma coisa é certa, o Barcelona actual é o único clube que consegue entender à perfeição a fusão do conceito individuo dentro do sistema!

um abraço


De Victor Hugo a 22 de Dezembro de 2012 às 03:56
Sem dúvida, isso é fato. Mas eu acho que as vezes um pouco de pragmatismo é bom. Aquele tiki-taka de Guardiola já estava desgastante, além do mais ele nunca dava chance a zagueiros da cantera como Bartra e Fontás, por exemplo, preferindo o limitado técnicamente Mascherano, talvez por sua postura de líder, mas que ganha muito mais amarelos que Pepe, parece que é uma cláusula contratual.
Vilanova é mais ofensivo, vertical e torna o jogo mais atraente (não que o de Pep não fosse, mas era muito mais estratégia que futebol arte, embora esta dependência de Messi e falta de rotatividade possa custar caro logo logo.

Abraços!


De Victor Hugo a 23 de Dezembro de 2012 às 23:45
Miguel Lourenço Pereira

Eu sei que o que eu vou dizer agora foge um pouco do assunto aqui discutido, mas ontem assisti o jogo entre Tottenham e Stoke City e fiquei atônito com a atuação defensiva dos Potteries: eles foram, e estão sendo desde o início do campeonato, perfeitos defensivamente. Ontem eu vi a melhor atuação de zaga de sempre, e fico muito surpreso de ninguém ter ainda prestado a atenção nesse time este ano. Se o Barcelona é referência mundial em futebol ofensivo, o Stoke é no mínimo a maior referência defensiva desde o ferrolho Suíço. Ou será que estou enganado?

Abraços!


De Victor Hugo a 23 de Dezembro de 2012 às 23:46
Miguel Lourenço Pereira

Eu sei que o que eu vou dizer agora foge um pouco do assunto aqui discutido, mas ontem assisti o jogo entre Tottenham e Stoke City e fiquei atônito com a atuação defensiva dos Potteries: eles foram, e estão sendo desde o início do campeonato, simplesmente perfeitos defensivamente. Ontem eu vi a melhor atuação de zaga de sempre, e fico muito surpreso de ninguém ter ainda prestado a atenção nesse time este ano. Se o Barcelona é referência mundial em futebol ofensivo, o Stoke é no mínimo a maior referência defensiva desde o ferrolho Suíço. Ou será que estou enganado?

Abraços!


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Dezembro de 2012 às 09:50
Victor Hugo,

É sem dúvida uma equipa que defende muito bem. Não os colocava tão acima, em termos históricos, sempre houve equipas que dominaram de forma clara os processos defensivos. O Stoke é uma equipa tremendamente cientifica. Coloca todo o enfase na defesa e em lances estudados, habitualmente de bola parada, para compensar a falta de qualidade técnica do plantel. Tem tido prestações muito boas com esse modelo e não devem mudar. São uma equipa que não aspira a muito mas a quem é muito dificil vencer.

um abraço


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