Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2012

A crise desportiva no Sporting é um espelho da sua autodestruição institucional. O histórico clube leonino até há bem pouco tempo era o único clube que ombreava com o FC Porto pelo título nacional mas as consequências do plano Roquette passaram factura como seria de prever. Um clube sem uma liderança e um rumo está condenado ao sofrimento. No relvado e nos gabinetes. O vazio de poder real leva o Sporting à pior etapa da sua história, transformando-o num clube cada vez mais periférico da realidade competitiva nacional.

 

Godinho Lopes foi eleito com polémica. Muita polémica.

Uma eleição que dividiu claramente o núcleo de sócios sportinguistas. De essa eleição era forçoso sair uma política de consensos, necessária sempre que a vitória não é clara nas urnas numa sociedade que se presume democrática. O presidente leonino preferiu ir por outro lado. Caminhou sozinho e foi perdendo, pelo percurso, os seus apoiantes mais directos. Dois anos depois ele é o único sobrevivente da sua direcção original, motivo mais do que suficiente em muitas instituições para provocar novas eleições. Não para ele, orgulhosamente só, timoneiro de um navio sem rumo e perdido, à deriva, em águas profundas.

Os erros de gestão do Sporting nos últimos dois anos têm sido tremendos e repetitivos. Consequência de um plano Roquette mal orquestrado desde o principio que agora começa a passar factura. O Sporting está à beira da falência técnica. Entre os três grandes, é o que vive mais perto do fio da navalha. A situação económica de Porto e Benfica não convida a celebrações, mas entre o sucesso desportivo recente e as mais valias que ambos clubes ainda possuem, a situação é remediável apesar de não ser sustentável. Em Alvalade já não há mais valias. Para manter o pulso com o FC Porto de Jesualdo Ferreira venderam-se os anéis. Começa a ser a hora de vender os próprios dedos. O plante leonino pertence a todos menos ao Sporting. Fundos, empresários, agentes, gestores, bancos. O clube detém percentagens insignificantes da maioria dos seus jogadores e ainda mais ridículas quando se trata dos jogadores que têm um real valor de mercado. Sem poder fazer dinheiro com os seus próprios activos, que solução tem um projecto que acumula dividas atrás de dividas e sem um resultado palpável a que poder agarrar-se. Godinho Lopes é consciente dessa realidade e em vez de parar para pensar, dá um passo em frente, suicida, e multiplica-se em declarações despropositadas e acções que só minam ainda mais a sua frágil liderança. A contratação de Jesualdo Ferreira devia ser, para os sócios, a gota que desborda o copo.

 

Em 2003, quando José Mourinho transformou um FC Porto estilhaçado em rei do futebol europeu, era inequívoca a liderança desportiva nacional do Sporting. Era a geração do título de 2000 de Augusto Inácio, a que se juntava a qualidade individual de João Vieira Pinto, o faro goleador de Mário Jardel e uma geração de talentos tremenda, capaz de emular a de 1992, entre os Hugo Viana, Ricardo Quaresma e Cristiano Ronaldo. O Sporting parecia afastar-se definitivamente dos fantasmas de 19 anos sem títulos. Duas vitórias em três anos eram prova evidente de que algo se estava a fazer bem nas oficinas de Alvalade. Em quase cinco anos todo esse trabalho foi desperdiçado.

O clube entrou numa voragem autodestrutiva inexplicável, abdicou das suas maiores pérolas por preços bastante inferiores à realidade do mercado e começou a abandonar a qualidade em prole da quantidade. A chegada de Paulo Bento, depois da humilhante derrota na final da Taça UEFA em casa, uma semana negra que os adeptos jamais esquecerão, recuperou em parte os princípios da política de Luis Duque do virar do milénio e quatro segundos lugares consecutivos pareciam pressagiar a calma e tranquilidade que não existiam. Bento saiu sem vencer o título (apesar de ter batido de forma directa, por várias vezes, o FC Porto de Jesualdo) e atrás dele deixou uma equipa jovem e cheia de promessas que os seus sucessores nunca puderam aproveitar. Com a nova direcção chegou a política de compra compulsiva. O Sporting, como uma fashion victim com cartão de crédito eliminado no coração dos bairros que congregam as mais emblemáticas lojas de marcas, comprou com o que tinha e com o que não tinha. Mais de duas dezenas de jogadores chegaram em três épocas, empurrando os jogadores da casa para um exílio forçado. E quando os resultados falhavam a culpa, inevitavelmente, seria do treinador. Paulo Sérgio, Domingos, Sá Pinto sabem-no bem.

Curiosamente, em sentido oposto, o trabalho de formação continuava a funcionar, os titulos dos mais novos davam ilusão, e a equipa B, no seu primeiro ano, provava ser a única com estofo competitivo real. Em vez de olhar para dentro o clube voltou a olhar para fora e procurar em Vercautren, técnico belga, a resposta a todos os problemas. A falta de orçamento para algo melhor era evidente mas o desatino presidencial superou todos os limites quando, nem dois meses depois, nomeia Jesualdo Ferreira como Manager. 

Jesualdo, treinador habituado a trabalhar com os mais novos, desde que foi companheiro de Queiroz na forja da Geração de Ouro, poderia ter sido uma boa primeira escolha, mas quando a pressão obrigou Godinho Lopes a destituir Sá Pinto, ainda tinha emprego. Agora será a sombra constante de um belga que sabe que tem as horas contadas ainda antes de ter começado a trabalhar. Tarde ou cedo, Jesualdo passará de Manager a treinador principal confirmando a sensação de que Alvalade se transformou num manicómio profundo. O técnico tricampeão nacional (o único a lográ-lo de forma consecutiva) tem matéria para fazer uma equipa drasticamente diferente da que existe actualmente, especialmente se apostar na formação. Mas não tem margem de manobra para o fazer. Num clube que se tornou na ponte de jogadores para pagar favores aqueles que sustêm a divida da instituição, não há plenos poderes que valham.

 

É difícil um clube com a corda ao pescoço respirar. O Sporting tem uma tradição e um prestigio que distancia, e muito, da sua gestão actual. Financeiramente a sua realidade aproxima-se cada vez mais ao espectro do Boavista com as consequências conhecidas. Tem matéria prima para reerguer-se, uma vez mais, mas falta-lhe a força moral para despir o corset que o impede respirar tranquilamente. Parece evidente que a direcção actual é parte do problema mas não é a única responsável. No estado actual da saúde sportinguista há atrás anos de esquizofrenia absoluta que parece precisar de um verdadeiro tratamento de choque para terminar de forma abrupta. Os adeptos estão condenados a sofrer, os investidores a perder tudo e o clube a afundar-se, um pouco mais, no poço que ajudou a criar e que o afasta dessa imagem de grandeza que o tornou, até aos anos 60, na primeira grande força nacional do futebol português.



Miguel Lourenço Pereira às 10:05 | link do post | comentar

6 comentários:
De luís a 18 de Dezembro de 2012 às 19:45
"á bem pouco tempo era o único clube que ombreava com o FC Porto pelo título nacional"? que descaramento.


De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Dezembro de 2012 às 14:37
Luis,

Entre 2006 e 2009, o Sporting CP terminou no segundo lugar de forma consecutiva em quatro épocas, um registo que supera claramente o de outro clube nesse período. A sua baixa de prestações arranca em 2010 até aos dias de hoje.

Onde está o descaramento?


De Luís a 26 de Dezembro de 2012 às 18:08
Miguel Lourenço,

em 2006 o benfica e o sporting ficaram separados por 1 ponto, tal como nos anos seguintes a diferença de pontos foi de 3 ou 4 se nao estou em erro entre os dois. por isso escrevi que o ombro a ombro com o porto nao foi exclusivo do sporting. ate porque em 2008 e 2009 o porto nao ombreou com ninguem.

Um abraço.


De Miguel Lourenço Pereira a 26 de Dezembro de 2012 às 20:42
Luis,

Quando uma mesma equipa, durante 4 anos consecutivo, termina em 2nd lugar, ás vezes a uma distância curta e ás vezes a uma distância imensa, como sucedeu em ambos os casos, é normal que se houve algum clube que ombreou com o vencedor, que foi sempre o mesmo, seja sempre essa equipa, independentemente do terceiro ter ficado a mais ou menos pontos. Se todos os anos os clubes tivessem ficado numa baliza pontual de 2 ou 3 pontos, entenderia, mas em 2007/08, por exemplo, o 3º foi o Vitória, no ano seguinte o 3º, o Benfica, ficou a sete pontos.

um abraço


De Paulo Guerra a 19 de Dezembro de 2012 às 19:42
Costumo vir cá e gostar. Desta análise do SCP nada bate certo. O SCP vence 2 títulos praticamente neste sec, um com muito pouco e outro com muito. Equivocou-se ao despachar Peseiro e Dias da Cunha. FSF com PB deram grandes bigodes aos muitos Milhões do Benfica. PB saiu e nunca mais se acertou num treinador. E agora chega Jesualdo para voltar a lançar miúdos, uma das coisas que ele faz melhor. Não se percebe a história da factura de Roquette que no post nunca mais pára ou PSérgio com grandes jogadores?! Enfim, grande confusão, a necessitar de mais estudo.


De Miguel Lourenço Pereira a 19 de Dezembro de 2012 às 20:10
Paulo,

Convido a reler o artigo, não há nenhuma relação a Paulo Sérgio e grandes jogadores. Em nenhum espaço do texto.

A factura Roquette está plasmada no estado das finanças do clube e da SAD, uma realidade que ultrapassa a própria dimensão desportiva. Foi um projecto ambicioso para a sua época mas que não funcionou e parte da crise financeira actual é devida a essa gestão.

O certo é que até 2009, o segundo clube com melhores resultados no século XXI era o Sporting e foi no final dessa relação PB e FSF e no fim da aposta na prata da casa que a situação entrou em descontrolo absoluto!


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