Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012

O regresso de Luis Filipe Scolari ao banco da selecção brasileira demonstra bem o estado de desorganização absoluto em que vive o futebol brasileiro a um ano e meio do seu Mundial. Tal como em 2002, o "sargentão" chega em cima da hora para resgatar a honra de uma selecção de quem muitos esperam que se torne em campeã mundial. Nunca, na história do futebol, uma equipa que recebeu dois Campeonatos do Mundo, salvo o México, falhou em vencer pelo menos uma dessas edições. Depois da depressão de 1950, o desespero da canarinha já se faz sentir a 18 meses do seu encontro com a história.

 

Quando Ghighia marcou o golo que deu ao Uruguai o seu segundo Mundial, um país inteiro entrou numa profunda depressão que nunca curou verdadeiramente. Sim, o Brasil tem cinco Mundiais, tem algumas das melhores equipas da história do futebol e foi palco de artistas e génios tácticos que ajudaram a mudar a face do jogo para sempre. Mas aquela tarde no Marcanã nunca teve cura.

Perder um Mundial em casa acontece a poucas selecções quando são favoritas. 

Uruguai, Itália, Inglaterra, RF Alemanha, Argentina e França contam-se entre os países que venceram torneios diante dos seus. De todos os vencedores de um Mundial de futebol, só o Brasil e a Espanha não o fizeram em frente dos seus adeptos. O caso espanhol é recente, a sua performance em 1982 foi deprimente em todos os sentidos, mas ninguém duvida que se em 2018 o Mundial fosse em Espanha, que eles seriam candidatos sérios ao titulo. E o Brasil?

A selecção canarinha chega a 2014 sem ser o favorito de ninguém. E isso não só parece algo sui generis em si como também ameaça prolongar a ressaca moral do futebol brasileiro. A FIFA ofereceu ao país uma oportunidade única de desforrar-se de si mesmo e limpar os esqueletos do armário. Mas a direcção sem rumo do futebol canarinho tem-se encarregue de destruir esse projecto. A contratação de Luis Filipe Scolari, um acto de puro desespero, é apenas a ponto do iceberg de um problema bem mais gordo.

 

Ninguém questiona que o favoritismo colectivo do próximo Mundial está nos ombros da selecção espanhola.

Se a Brasil de 1970 foi, provavelmente, a mais entusiasmante selecção da história, esta Espanha pode ser a mais longeva e estender a sua hegemonia a um segundo Mundial consecutivo não é uma ideia descabelada. Individualmente a figura do torneio será Lionel Messi que talvez tenha a última oportunidade de ser campeão com uma Argentina que aprendeu a gravitar à sua volta.

O Brasil não é favorito a não ser no plano emocional. Não possuiu uma geração inesquecível como os espanhóis e é uma equipa com muitos projectos de grandes jogadores mas sem um líder moral como Messi. E é, sobretudo, tacticamente, uma equipa sem rumo, sem um plano definido que ora baila ao som do falso nove ora procura manter-se fiel ao 4-2-3-1 que tem perseguido desde 2006 sem significativo sucesso pelos antecessores de Scolari. 

Num ano em que o técnico viu a equipa que treinou descer pela primeira vez em largos anos - o histórico Palmeiras - e depois da péssima carreira pós-selecção portuguesa, muitos questionam a eleição de Scolari. A verdade é que o homem ideal para o cargo chamava-se Guardiola mas os brasileiros não podiam viver com um treinador estrangeiro no momento mais importante da sua história desde 1970. E que tanto Muricy Ramalho como Tite eram nomes pouco consensuais não só nos corredores da CBF mas, sobretudo, entre os adeptos. A falta de um génio táctico ao futebol brasileiro tem-se notado.

Desde o notável trabalho de Carlos Alberto Parreira em 1994 que a táctica desapareceu do futebol brasileiro e o génio individual tornou-se no protagonista solitário com melhores e piores resultados mas cada vez mais ao som da actualidade e distanciando-se das suas origens. Do Brasil de 1998 de Zagallo ao de Menezes vai muita diferença e talvez o de Scolari tenha sido o mais original de todos. 

O "sargentão" beneficiou de três elementos fundamentais para ganhar o último Mundial canarinho.

O seu 3-4-3, contrário à tendência da época, funcionava porque então o Brasil contava com os dois melhores laterais ofensivos do Mundo (Cafú e Roberto Carlos) e o melhor tridente ofensivo em gerações (Ronaldo-Ronaldinho-Rivaldo). Tudo o resto era composto por operários que faziam o típico trabalho físico que tanto impressionava o técnico. E por fim, uma debacle das equipas europeias, que pagaram o preço da longa época no futebol europeu e a incapacidade de se adaptar ao clima asiático. Portugal, França, Itália, Espanha e Inglaterra foram caindo, por motivos extra-desportivos e por má gestão, e ficou o Brasil para vencer a mais fraca selecção alemã de que há memória. 

Lembrar 2002 é importante para perceber que a escolha de Scolari é, sobretudo, uma escolha desesperada num homem que vendeu um perfil ganhador, mas que depois dessa gesta particular nunca mais voltou a saborear o triunfo. Há dez anos que a sua aura se foi perdendo e o futebol evoluiu. Scolari poderá tentar recuperar esse modelo táctico (tem Alves e Marcelo mas na frente não há Ronaldo e Rivaldo e Neymar ainda não está à altura de Ronaldinho) mas sobretudo o que terá de criar é um bloco emocionalmente forte para superar a pressão emocional tremenda que significa jogar um Mundial em Copacabana.

 

Scolari é o homem do aparelho, o homem dos escritórios. A sua relação com a Nike e a CBF manteve-se viva durante largos anos. Mesmo com a uma directiva progressivamente afastada da herança de Ricardo Teixeira, os velhos contactos continuam a gravitar na mesma órbitra. O Brasil sabe que, tacticamente, não superará o modelo espanhol e individualmente não encontrará um rival à altura de Messi. Essa foi a base da sua grandeza histórica (o 4-2-4 e 4-3-3 e o génio de Pelé e Garrincha). Terá de recorrer, como em 2002, à épica emocional e ao trabalho colectivo como arma de fogo para não entrar na galeria negra da história da única grande selecção que nunca soube o que era festejar um Mundial com os seus. 



Miguel Lourenço Pereira às 13:32 | link do post | comentar

7 comentários:
De Leonardo Miranda a 30 de Novembro de 2012 às 00:52
Uma análise completa sobre os times da carreira de Scolari, sempre pelo lado táctico.http://paineltatico.com/2012/11/29/especial-de-luis-felipe-a-felipao-uma-cronologia/


De Victor Hugo a 30 de Novembro de 2012 às 06:53
Foi desespero mesmo, mas é o que dava pra ser feito nessa situação.

Abraços!


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Novembro de 2012 às 13:47
Victor Hugo,

O problema é se vem Scolari como sargento, para motivar as tropas, ou se vem Scolari com uma ideia. Porque em 2002 houve uma ideia, baseada nos jogadores que havia, que funcionou. Mas qual será a ideia agora de um técnico que há dez anos vê as suas ideias fracassarem?

um abraço


De Victor Hugo a 30 de Novembro de 2012 às 16:53
Miguel Lourenço Pereira

Acho que escolheram Felipão por ele ser um técnico copeiro. É incrível o quão bem ele vai em torneios mata-mata: ganhou uma copa libertadores, copas do Brasil, a última com um Palmeiras combalido em 2012, campeonato brasileiro em 96 (quando era mata-mata nas fases finais), uma copa do mundo em 2002, além de ter ido muito bem com um Portugal que passou a encantar o país depois de muitos anos. Ganhou também alguns títulos nas arábias e penso que só foi realmente mal no Chelsea (mas sabemos o quão mimados são os medalhões de lá, e o quanto eles minam a honra de treinadores com os quais não vão com a cara).
Felipão costuma dizer que é do tempo que se prendia cachorro com lingüiça, e é verdade. Sofre para impor seu estilo por onde passa há anos, mas se lhe derem a liberdade necessária (principalmente nas convocações) ele fará um time pra ganhar.

(Continua)


De Victor Hugo a 30 de Novembro de 2012 às 17:02
(Continuando)

Hoje temos dois dos melhores laterais do mundo (Alves e Marcelo), que poderiam ser os alas de seu famoso 3-5-2 variando ao 3-4-3, com Thiago Silva de líbero, mais Dedé e David Luiz, dois volantes entrosados e pegadores (Ralf e Paulinho) e mais um tridente ofensivo poderoso com Neymar, o renascido Ronaldinho e o matador com Fred ou Luis Fabiano. E ainda teríamos no banco Kaká, Lucas, Hulk, Bernard...
Opções o Felipão tem, vamos ver o que ele fará delas.

Abraços!


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Novembro de 2012 às 21:23
Victor Hugo,

O Brasil é uma das maiores fontes de jogadores do mundo e haverá sempre individualidades. Mas nenhuma está ao nível do efeito diferenciador de Messi (e do ataque coral argentino) nem há um sentimento geracional colectivo como o que empurra Espanha.

E Scolari, tendo sido bom em jogos a eliminar, desde 2006, ou seja, há meia década, que não venceu um jogo a eliminar sério, e baixou muito o nível do seu primeiro periodo. Será que chega para um Brasil que não pode perder o seu segundo Mundial em casa?


De Victor Hugo a 8 de Dezembro de 2012 às 15:54
Boa pergunta. Terei uma opinião mais bem formada com o passar das convocações e dos jogos.

Abraços!


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Miguel Lourenço Pereira

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