Sábado, 24 de Novembro de 2012

Era o treinador que ninguém queria e no entanto, aí está ele. Por meio ano ou por uma geração, provavelmente nem Roman Abramovich seria capaz de responder com honestidade. O homem mais perigoso para a carreira de um treinador apostou no mesmo espanhol que há um ano lhe disse que não, suspeitoso do que se vivia no balneário de Stanford Bridge. Rafa Benitez, um dos mais geniais técnicos da década, chega a Londres com a missão de passar para a posteridade. E o peso do cutelo a roçar-lhe a pele do pescoço.

 

Nos fóruns de adeptos a opinião era unânime. Todos, menos Rafa.

Entre alguns dos jogadores e directivos a opinião não variava. O ex-treinador do Liverpool nunca foi uma pessoa querida em Londres. As duas eliminações dos Blues ante os Reds, a luta dialéctica com Mourinho, os comentário de Benitez sobre o novo-riquismo do Chelsea, nada disso ajudou. E que no ano passado, quando Villas-Boas foi despedido sem piedade, o espanhol tenha recusado o convite indicando que gostaria de começar o projecto do zero, num defeso, e não herdar um balneário que cheirava a sangue, também não é propriamente algo que os adeptos e gestores do clube vejam com graça. Mas aí está, oficialmente, Benitez aterrou, finalmente, em Stanford Bridge.

Desde a saída de Mourinho que houve sempre dois nomes que povoaram a cabeça de Abramovich. Um era Guardiola, de quem o russo é um profundo admirador. O outro, Benitez, um espanhol que sabe o que é sofrer na Premier. Nunca venceu uma liga, mas ganhou a Premier que o russo tanto queria no primeiro ano do Special One e levou o Liverpool a outra final, bem como a um segundo lugar em 2008, a melhor classificação do clube desde o último titulo conquistado por Kenny Dalglish.

Benitez é um treinador do futuro. Sempre o foi, desde que treinava as camadas jovens do Real Madrid. 

Em Valencia pegou numa equipa desfigurada pelas duas derrotas consecutivas nas finais europeias de Paris e Milão, e ganhou duas ligas, olhando de tu a Real Madrid e Barcelona. Foi a última vez que uma equipa, fora do duopólio, logrou tal êxito. Pelo caminho ficou uma Taça UEFA, ganha ao Marselha, e um bilhete para a Kop como sucessor do bem amado Houllier. Em Liverpool o seu projecto durou vários anos mas foi de mais a menos. 

A falta de dinheiro do clube, a falta de um plantel com soluções para aguentar o pulso dos milhões do Chelsea, United e City, significaram o principio do fim. Quando abandonou o Liverpool, deixando atrás de si a melhor gestão pós-Boot Room, fê-lo com honestidade e graciosidade. Depois da má experiência com o Inter aprendeu a licção, de mergulhar num balneário minado pelo seu antecessor. E desde então preferiu estar tranquilo, a estudar o jogo, do que aventurar-se no desconhecido. Confessou que só voltaria a trabalhar com um projecto audacioso e à sua altura. Encontrou o desafio certo.

 

O novo Chelsea assenta como uma luva ao espanhol.

Reencontra-se com Torres, o homem que resgatou ao Atlético de Madrid para realizar a sua melhor época doméstica, em 2008, quando El Niño ameaçou o recorde goleador de Cristiano Ronaldo. Tem à sua disposição um leque de jogadores criativos que encaixam perfeitamente na sua filosofia de jogo, a mesma que explora o toque com uma constante pressão alta da linha defensiva e a recuperação rápida para explorar as costas do rival. Mata, Hazard, Oscar, Marin ou Ramires serão os protagonistas desta história como no passado foram Gerrard, Alonso e Mascherano. Talvez seja esse, o posto de numero 5, o médio mais recuado, aquele que sentirá mais falta mas, seguramente, Abramovich já lhe terá prometido uma prenda de reis.

O plantel do Chelsea tem problemas, sobretudo na sua dimensão ofensiva, mas também na outra área.

Benitez conhece bem a Torres mas o avançado espanhol é um jogador diferente daquele que aterrou em Liverpool. Sem alternativas no plantel para a posição de avançado, seguramente que a chegada de Falcao é esperada ansiosamente pelo espanhol mas o mais provável é que até Junho o colombiano fique por Madrid. E Benitez joga contra o relógio. O projecto não é dele mas os resultados têm de ser imediatos.

Como sucedeu em 2010, é-lhe incumbido vencer o Mundial de Clubes. Na altura bateu os congoleses do TP Mazembe. Agora pode conseguir um feito histórico, ser o primeiro treinador a vencer mais vezes o Mundial de Clubes (2) do que Champion Leagues (1). E Abramovich quer mais. Di Matteo começou bem a época e o Chelsea foi líder várias jornadas, mas as recentes derrotas condenaram o clube a um terceiro posto não demasiado distância da cabeça. Benitez parte com um ligeiro atraso mas vencer a Premier é algo com que sonha há oito anos e nunca sentirá que se lhe apresenta uma melhor oportunidade. Terá de ganhar o balneário, onde ainda há fieis ao seu arqui-rival Mourinho (e ele já sabe o que isso é), os adeptos que olham para ele ainda como o homem da desdita e sobretudo os mais cépticos na directiva do clube. Entre os quais está um Abramovich que sabe que esta decisão pode converter-se em temporal, sempre e quando Guardiola se decida em Junho a aceitar o seu cheque em branco. 

 

Contra esta realidade, Rafa Benitez regressa e com ele as lições de um maestro de xadrez que entende o futebol moderno como poucos. Sob o seu leme o Chelsea pode conseguir a frieza e o racionalismo que o condenaram sob a direcção de Di Matteo ao mesmo tempo que explora as potencialidades individuais ofensivas que o plantel lhe deixa ao seu dispor. Benitez era, no mercado actual, o único técnico em que Abramovich sentiu que podia confiar o seu projecto. O Chelsea era, para o espanhol, o único clube capaz de saciar o seu ego. O casamento, ainda que de conveniência, tem tudo para resultar.



Miguel Lourenço Pereira às 11:14 | link do post | comentar

2 comentários:
De espanhol a 25 de Novembro de 2012 às 12:57
José Mourinho es mucho mejor entrenador que benítez; y más simpático......


De Victor Hugo a 28 de Novembro de 2012 às 19:03
Não acho Benítez tão genial assim taticamente, acho-o apenas (o que não é pouco) o grande precursor deste futebol moderno. Seu 4-2-3-1 impera até hoje, mas seu estilo já está mais bem representado e aperfeiçoado por técnicos como Low, Wenger e, principalmente, Mourinho.
Ele foi genial, mas acho que precisa provar que ainda o é atualmente, e pra mim o Chelsea é um péssimo clube para isso.
Nomes como Lampard, Terry, Cole e, porque não, Paulo Ferreira, ex-jogador em atividade, mas de grande influência e respeito no elenco, fiéis a Mourinho, e que já derrubaram Felipão e Villas-Boas, não vão permitir um bom ambiente ao espanhol, com certeza.
Além do mais foi muito hipócrita da parte dele aceitar um contrato de 6 meses de um clube que ele tanto criticou. E bem, ele não vai começar do zero, vai pegar um elenco muito fechado com Di Matteo e que já é históricamente mimado.
Francamente eu acho que será uma tragédia.

abraços!


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Miguel Lourenço Pereira

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