Segunda-feira, 12 de Novembro de 2012

Depois de um sprint final que prometia ser intenso, acabou-se o suspense no Brasileirão e o Fluminense conquistou o seu quarto título nacional, o segundo em três anos, consolidando-se como um dos mais sólidos e bem sucedidos clubes do historial recente brasileiro. Apesar da pressão do "Galo" de Ronaldinho e a surpreendente etapa final do Grémio de Porto Alegre, o clube carioca resistiu a tudo e todos e carimbou mais um troféu, o terceiro em três anos.

 

Fred marcou, voltou a ser o protagonista, e fechou com chave de ouro uma época inesquecível para o Flu.

O goleador do campeonato brasileiro, que depois de uma etapa como emigrante intermitente voltou em grande ao país natal, foi o grande herói individual de uma equipa que Abel transformou num colectivo difícil de manobrar. O Fluminense foi a equipa mais regular da época e depois de um brilhante arranque soube gerir bem a sua vantagem e vencer a prova a três jogos do fim. Nem a derrota em Belo Horizonte, contra o Atlético Mineiro, colocou em cheque o título. No jogo do ano, os homens de Ronaldinho foram melhores mas o atraso já era considerável e os tropeções seguintes dos alvinegros facilitaram o título carioca. O empate contra o Vasco da Gama a um golo abriu as portas ao título do Fluminense. Que não enjeitou a possibilidade. 

Abel Braga, um dos grandes históricos dos bancos brasileiros, soube trabalhar bem a herança da espantosa equipa de 2010, onde brilhava o argentino Dario Conca e começava a dar os primeiros passos Deco, fundamental na organização do meio-campo do clube do Rio. Pode já não ter pernas para aguentar o ritmo europeu, mas o luso-brasileiro continua a ser um dos jogadores mais importantes do futebol mundial e o seu papel no título dos cariocas não pode ser ignorado. Entre ele, Wellington Nem, Thiago Neves, Fred e as notáveis exibições do guarda-redes Diego Cavalieri, desenhou-se o sucesso individual de um colectivo muito mais forte que qualquer outro rival brasileiro.

Três derrotas em 35 jogos é algo espantoso na realidade brasileira, um campeonato extremamente competitivo e onde todos podem perder pontos em qualquer terreno. O Fluminense tem o melhor ataque, a melhor defesa e o melhor registo em jogos fora de portas (11 vitórias, pelas 6 do Grémio, por exemplo). Ninguém apresenta números similares na prova nos últimos anos.

 

O clube do Rio de Janeiro tem algo que falta aos seus rivais: solidez financeira.

É uma instituição bem gerida, com os salários em dia, que sabe mexer-se no mercado com habilidade e que mistura veteranos e jovens promessas com critério e paciência. Em 2010 venceram de forma clara o título e dois anos depois repetem a gesta com ainda maior naturalidade. A herança de Muricy Ramalho foi preservada por Abel Braga, que já tinha recentemente obrado a reconstrução do Internacional de Porto Alegre, e levada a outro extremo. Ninguém duvida que o Flu é um dos máximos candidatos a vencer a Libertadores do próximo ano.

O clube manterá a estrutura, a começar pelo técnico, e ninguém espera que veteranos como Deco e Fred saiam. No Brasil ninguém paga tão bem e a horas como o Fluminense, muito mais solvente actualmente do que históricos rivais cariocas como Flamengo ou Vasco da Gama, a pagarem o preço de gestão calamitosas na última década.

A vitória do Fluminense parecia evidente e só foi colocada em questão pela recuperação espantosa do Atlético Mineiro.

Liderado pelo regresso do grande jogador da última década, Ronaldinho, o Galo recuperou a pouco e pouco o atraso e no duelo entre os dois primeiros, o jogo do ano, venceu e encurtou distâncias permitindo aos adeptos sonhar com um campeonato histórico. A qualidade de Bernard, os golos de e a liderança de "Dinho" pareciam condimentos únicos para uma receita de sucesso mas os líderes foram psicologicamente mais fortes e aguentaram o pulso e a distância nas jornadas seguintes não se voltou a encurtar. De tal forma que o Atlético Mineiro perdeu gás e foi apanhado pelo Grémio na tabela classificativa, outro clube que arrancou para um sprint final épico.

Num torneio que pode ficar marcado pela despromoção de outro grande, o Palmeiras, a vitória do Fluminense não só é mais evidente pelo excelente trabalho do Galo em aguentar o suspense do título quase até ao fim da prova. As próximas jornadas servirão para cumprir calendário e para Fred ampliar a sua lenda como goleador para Mano Menezes ver, ele que teima em não confiar no dianteiro carioca como opção para o ataque do escrete canarinho.

 

O triunfo do Fluminense permite estabelecer uma ponte com 2010 e afirmar, sem problemas, que estamos perante um domínio equivalente ao do São Paulo, no final da década passada. Estão em jogo todas as condições para o título se repetir nas próximas épocas e o próximo passo do clube carioca será restabelecer a importância do futebol brasileiro na máxima prova continental de clubes e marcar presença no Mundial de Clubes do próximo ano.



Miguel Lourenço Pereira às 11:54 | link do post | comentar

9 comentários:
De Victor Hugo a 13 de Novembro de 2012 às 09:24
Olá!

Belo texto sobre o Fluminense e belo retrato do futebol brasileiro.
Aqui, os campeonatos são, de fato, competitivos, e a falta de regularidade não é perdoada. O Santos, que tem nada menos que Neymar e o injustiçado Arouca, mais um renegado por Mano na seleção, sentiu a eliminação na Libertadores e hoje caminha a esmo sem chances de nada. O Corinthians, compacto e entrosado ao extremo, se prepara para o mundial e o resultado não é outro senão um despretensioso sétimo ou oitavo lugar.
O São Paulo, que também cresceu nas últimas rodadas, parece ter feito o suficiente para agüentar uma vaga na Libertadores, mas pagou caro pelo início irregular.

(Continua)


De Victor Hugo a 13 de Novembro de 2012 às 09:37
Há, como em todos os anos, um grande decepcionando, e este ano o grande é o Palmeiras. Uma gestão pífia e amadora, um time onde a oposição deseja a desgraça do time pra poder vencer as próximas eleições. Um time que tem o melhor batedor de faltas do mundo, Marcos Assunção, é um matador à moda antiga, gênio da pequena área, Hernán Barcos, que já fez 28 gols este ano, num time que pouco cria chances de gol, e que está até sendo ameaçado de morte por seus torcedores tradicionalmente impulsivos emocionalmente e fanáticos, herdeiros da colônia italiana no Brasil, seja no sangue, seja no time.

(Continua)


De Victor Hugo a 13 de Novembro de 2012 às 09:50
No entanto, o que é mais legal de notar é a imprevisibilidade dos nossos campeonatos. Se na Espanha é Barcelona, Real e o resto, se em Portugal é Porto, Benfica e o Braga sempre preparando um bote que nunca dá (que tristeza ver como anda o Sporting), e em outros países europeus que tem 3, 4 ou no máximo 5 times potencialmente brigando por títulos, por aqui é simplesmente impossível prever quem vai ganhar o campeonato. O Galo, por exemplo, estava totalmente desacreditado, o Fluminense brigaria \"apenas\" pelo G-4, O Grêmio nem isso, e os favoritos Santos, Vasco, Corinthians e São Paulo não foram o que se esperava (os 2 primeiros definharam psicológicamente, o terceiro por descaso com o campeonato e o quarto, pela arrancada final, deixou boas impressões não obstante ser sempre favorito ao título).

(Continua)


De DC a 15 de Novembro de 2012 às 11:12
Não sei quais são os critérios para decidir os favoritos ao título, mas o Vasco tem uma equipa medíocre, nem se compara à do Fluminense.
Uma equipa tem Deco, Thiago Neves, Wellington Nem e Fred e outra tem Juninho apenas.
Basta ver que a grande estrela do Vasco é um central (que na minha opinião é muito sobrevalorizado).

Fred é um avançado incrível, já o Vasco joga com o medíocre Alecsandro. Qual é o jogador do Vasco que poderia jogar num bom clube europeu?

Mas há que dar mérito ao Vasco por com um plantel bem fraco conseguir estar no topo da tabela, mas na minha opinião não têm um plantel ao nível dos rivais.


De Victor Hugo a 13 de Novembro de 2012 às 10:04
Tirando alguns egressos recentes da Série B, como a Portuguesa (time tradicionalíssimo como o Leeds o é na Inglaterra, porém muito querido até pelos torcedores rivais, ao contrário do time inglês), Atlético Goianiense, Figueirense, Bahia, Sport e Náutico, todo o restante poderia ser apontado ao título por qualquer jornalista daqui, e foram.
Talvez seja isso que ainda faça o futebol brasileiro ter sua graça e, apesar das limitações técnicas e financeiras (cada vez menores) ainda agradar e fazer o jovem brasileiro abraçar o futebol como seu esporte e cultura, com o mesmo orgulho dos seus antepassados.

Um abraço!


De Victor Hugo a 13 de Novembro de 2012 às 10:10
Nota: O ameaçado pelos torcedores mais fanáticos não é somente Barcos ou Assunção (aliás, são os únicos elogiados e absolvidos neste momento difícil) e sim todo o elenco e diretoria do clube.


De Miguel Lourenço Pereira a 13 de Novembro de 2012 às 13:31
Victor Hugo,

Sem dúvida, é uma liga extremamente competitivo também porque a gestão dos clubes oscila muito entre a excelência e uma gestão de péssimo nível que faz com que clubes com excelentes planteis, como o Santos, seja incapaz de manter regularidade com equipas mais organizadas como foi o Fluminense. A cada ano há sempre uma lista de 8 ou 10 candidatos reais ao título e isso mantém o entusiasmo numa competição que, organizativamente, é um desastre completo em muitos sectores o que impedem o Brasileirão de ser, como seria lógico, uma das máximas ligas mundiais.

um abraço


De 10A a 13 de Novembro de 2012 às 22:12
Embora sem tirar a primazia ao meu Sporting, fico muito feliz com a vitória do (também) meu Fluminense Football Club.

Como canta Chico Buarque (grande adepto do Flu) em "Bom Tempo":
“Satisfeito
Alegria batendo no peito
Radinho contando direito
A vitória do meu tricolor”



De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Novembro de 2012 às 10:44
10A,

E já agora, João Gilberto, em "Aquele Abraço", tem umas palavras também para a "torcida" do Flu!


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Miguel Lourenço Pereira

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