Quinta-feira, 8 de Novembro de 2012

A vitória categórica do Inter em Turim não se limitou a terminar com um ciclo de 49 jogos consecutivos sem perder da Vechia Signora. Numa liga cada vez mais nivelada por baixo, esse feito estaria sempre longe do logrado pelo AC Milan de Capello quando o futebol italiano reinava supremo nos palcos europeus. O grande vencedor do duelo foi Stramaccioni, o jovem técnico de 36 anos que logrou o que os seus três antecessores foram incapazes, saber como lidar com a pesada herança de José Mourinho.

 

Mourinho aprendeu cedo que nunca seria um bom jogador e dedicou-se a treinar. Stramaccioni sonhou sê-lo, mas uma lesão no joelho acabou-lhe com as esperanças e abriu-lhe novas portas. Aos 35 anos, o antigo defesa central do Empoli é mais do que o treinador de moda do Calcio. É a esperança de um futuro melhor para o futebol de um país em choque emocional, com uma selecção aplaudida quase tanto como a ganhadora do último Europeu e uma liga que deprime o mais entusiasta. Há serias possibilidades de não existir nenhum clube italiano nos Oitavos de Final da Champions League e essa realidade deixou de surpreender. O dinheiro acabou, a péssima gestão do futebol de formação começa a fazer-se notar e a qualidade do Calcio caiu degrau atrás de degrau a níveis que nos levam aos anos 70. No meio deste cenário, a série de invencibilidade da Juventus de Antonio Conte funciona como espelho fiel da realidade.

A Juventus não joga bem, não entusiasma, não pratica um futebol fascinante, de encher o olho. É tremendamente eficaz no seu 3-5-2 contido que sabe que a velocidade das peças, nesse jogo de xadrez que é o futebol italiano, conta mais do que qualquer coisa. Uma equipa de valores médios, uma equipa sem estrelas nem jogadores fascinantes, onde Pirlo representa o romantismo dos anos 90 e Giovinco a readaptação a uma nova vaga de futebolistas. Pelo meio estão os Vidal, Isla, Asamoah, Quagliarella, Vucinic e companhia, jogadores que não entusiasmam nem o mais fanático dos tiffosi, que se agarram ao espírito de luta de Marchisio e Chielinni e à promessa gualesa, Paul Pogba, que deixou plantado a Alex Ferguson, que via nele o médio defensivo que tanta falta lhe faz, para acreditar num futuro melhor. Esta temporada, depois do título, a realidade europeia deixou a Juve no seu merecido lugar e os campeões italianos podem falhar, outra vez, o apuramento para a próxima fase. Foram superados futebolisticamente por Chelsea e Shaktar e agora é com eles com quem discutirá o apuramento directo. Dois jogos de matar ou morrer, um formato onde os italianos se movem bem mas muito traiçoeiro. Até porque a derrota inesperada em casa contra os neruazurri reabriu a luta pelo scudetto, até agora adormecida pelo soporífero mas tremendo eficaz futebol bianconero.

 

Stramaccioni é um sinal de esperança mas não é um revolucionário.

O jovem treinador começou no futebol de base e aí aprendeu a ter paciência, a saber o valor da bola e dos tempos de jogo. Começou na Roma e rapidamente chegou ao Inter pela mão de Ranieri e começou a aplicar o seu método de trabalho, inspirado na sua admiração mútua, apesar de aparentemente contraditória, no jogo de Guardiola e na filosofia de Mourinho. O seu impacto foi imediato e pela sua mão o Inter, a tal equipa envelhecida profundamente nos séniores, venceu categoricamente a NextGen Series, um torneio dedicado às esperanças do Velho Continente, uma espécie de Champions League juvenil. Associado ao título Primavera italiano, o seu trabalho deu imediatamente nas vistas e Massimo Moratti, cansado do futebol especulativo de Ranieri, decidiu arriscar como nunca e apostou tudo no jovem técnico nomeando-o treinador principal dos neruazurri.

O técnico entendeu que a herança de Mourinho ainda estava demasiado presente. Benitez e Ranieri, técnicos com quem o português teve sérios problemas dialécticos, nunca entenderam os jogadores que juraram fidelidade ao português e perderam rapidamente o balneário. Stramaccioni jogou as peças certas. Reconheceu imediatamente o mérito de Mourinho, a sua herança e a qualidade dos jogadores a quem muitos tinham passado um atestado de maioridade. Mas também alertou para o seu trabalho com os mais novos dando a ideia de que havia futuro para lá dos campeões europeus de 2010. Acabou a época "roubando" o título ao eterno rival de Milão, um resultado que lhe deu a oportunidade de começar uma temporada desde zero.

Nessa mistura coerente e profissional, Stramaccioni começou a trabalhar, recuperando o 4-3-2-1 de Mourinho mas com uma vivacidade e mobilidade que tinha desaparecido. Reergueu Diego Milito das sombras e associou-o a Antonio Cassano e Roberto Palacio, no lugar do lesionado Wesley Sneijder, para criar um tridente ofensivo mais talentoso do que obreiro. No meio-campo apostou forte no brasileiro Coutinho, que vinha de um ano superlativo no futebol espanhol, e rodeou-o do músculo de Gargano, Cambiasso e Guarin. Ocasionalmente regressou às origens de Herrera com a aposta num médio mais solto e veloz, o japonês Nagatomo. E, sobretudo, encheu de juventude o balneário, homens da sua confiança como Livaja, Mbaye, Bianchetti, Duncan ou Jonathan. Com essa ideia de futebol rápido mas de linhas compactas, recuperou a eficácia, oscilando entre uma linha de três avançados e um meio campo mais trabalhado, consequência dos problemas físicos de Sneijder, Cassano e Coutinho. Uma aposta que começou cedo a dar frutos. Apesar do enfoque no futebol da Juventus e no desafio do Napoli, o Inter rapidamente se tornou protagonista. Sete vitórias consecutivas depois de uma derrota em Siena colocaram os neruazzuri no segundo lugar da tabela, a apenas um ponto da Juve. Pelo meio duas vitórias chave, contra o Milan e a própria Juventus, que garantem que este projecto sabe ser eficaz com os mais pequenos e tremendamente competitivo com os rivais directos. O modelo Mourinho na sua estância italiana.

 

O potencial de crescimento de este Inter é evidente apesar da espinha dorsal da sua equipa continuar a ser composta por homens que vêm dos dias de Mourinho. A evolução, mais do que a revolução, será tranquila e o técnico italiano, conhecedor dos jovens talentos que aí vêm, sabe que tem armas escondidas que lhe podem ser úteis quando a época começar a apertar. Não é ainda uma equipa feita para desafiar os grandes da Europa mas recuperar o domínio em Itália é só o primeiro passo. Com tempo, Stramaccioni pode lograr construir um projecto com claras ambições europeias. Moratti seguramente terá dificuldade em esperar, está-lhe no sangue, mas até agora o jovem técnico só lhe deu razões para sorrir. 



Miguel Lourenço Pereira às 11:45 | link do post | comentar

4 comentários:
De Victor Hugo a 8 de Novembro de 2012 às 15:40
Stramaccioni (eu acho que tem 36 anos, não 35) manteve a tradicional trinca de volantes dos tempos mais longínquos.
Só não vejo espaço para Sneijder neste esquema, que é totalmente físico e veloz.
É um bom técnico, mas ainda tem o que provar, e precisa da paciência de Moratti, que só não é mais explosivo que o mítico presidente do Palermo.

Abraços!


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Novembro de 2012 às 16:33
Victor Hugo,

A idade, efectivamente, é 36, está corregido o erro. Quanto a Sneijder, terá forçosamente um papel importante com Milito e Palacio nesse trio mais móvel mas ninguém duvida que o clube quer vender o jogador e que o United ainda está interessado apesar de ter perdido muito protagonismo nos últimos dois anos.

Quanto a Andrea, naturalmente está a começar o seu caminho, mas conseguiu neste ano incompleto dar provas de estar à altura do desafio.

um abraço


De Victor Hugo a 8 de Novembro de 2012 às 19:16
Miguel Lourenço Pereira

Já ouvi comentários de gente que o compara ao lendário Armando Picchi em relação a precocidade e estilo de trabalho como treinador. Só espero que não tenha um fim trágico como ele e que possa ser tão longevo (e vencedor) como Trapattoni, o mais genial dos pragmáticos treinadores da história pra mim.


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Novembro de 2012 às 21:24
Victor Hugo,

Sem dúvida, o seu fenómeno recente faz recordar o arranque de André Villas Boas, outra estrela precoce. Tem condições para uma larga e frutuosa carreira, esperemos que não entre na espiral destructiva do Calcio actual.

um abraço


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