Quarta-feira, 24 de Outubro de 2012

Os sinais estão lá mas a aura de grandeza dos Red Devils tem impedido de ver aquilo que os ingleses chamam de "big picture". Desde há quatro épocas para cá, o clube mais simbólico do futebol britânico dos últimos 20 anos tem caminhado para uma decadência profunda e quase inevitável. A exibição do Sporting de Braga, meritória, não é caso único e coloca definitivamente em cheque a importância do mítico "Teatro dos Sonhos" como campo impenetrável. Os sonhos do maior estádio inglês vão a caminho de se tornar, progressivamente, numa ressaca para os adeptos do Manchester United.

Não era só o resultado. Era o jogo. Sobretudo o jogo.

A exibição do Braga na primeira parte, ontem, em Old Trafford, pode não ser uma novidade para os arsenalistas. Cada vez mais habituados a sacar a sua melhor versão na Europa, os homens de José Peseiro foram fieis à sua ideologia e mantiveram o jogo debaixo do seu controlo. Até que a sua defesa, o calcanhar de Aquiles deste projecto, deixou de aguentar as investidas do rival e deitou por terra um excelente trabalho colectivo. Mas os adeptos daquele que é, a par de Barcelona, o clube mais importante do futebol europeu das últimas décadas, começam a habituar-se a cenários como este. Cenários que, no passado, eram impensáveis.

A fortaleza do United de Ferguson sempre esteve em Old Trafford. O clube apresentava em casa a sua melhor e mais espantosa versão deixando, progressivamente, o seu cinismo e sofrimento para os jogos fora. Mas esse cenário de superioridade absoluta, capaz de enervar o mais duro dos rivais, progressivamente tornou-se lenda, mito. Distanciou-se da realidade de um clube que, desde 2009, entrou numa depressão profunda da qual não consegue encontrar o caminho certo.

A final de Roma, que terminou com o ciclo britânico e apresentou ao mundo o Barcelona de Guardiola, foi o ponto de inflexão. A este Manchester faltava-lhe a sorte que tinha tido na época anterior, quando mais precisou. Venceu a Premier mas com serviços minimos e muito sofrimento e na final europeia que serviu de troca de testemunho, dominou os primeiros 20 minutos para depois desaparecer. E ser engolido num pesadelo sem fim. Desde então voltou a vencer apenas por uma vez o título inglês, preso entre os titulos de Chelsea e Manchester City, e voltou a defrontar o Pep Team numa final europeia. Foi uma das piores noites da carreira de Ferguson, liderando uma equipa montada dos pés à cabeça a pensar no rival - algo que tem sido cada vez mais evidente à medida que o escocês vai envelhecendo - e destroçada com uma facilidade inusitada. Tentou vender-se a noite como uma mudança de guarda mas na época seguinte foi a Scholes a quem pediu ajuda e foi de Giggs que puxou nos momentos determinantes. O sinal estava dado.

 

Se ontem o Braga humilhou futebolisticamente durante meia-hora ontem, trocando a bola com uma fluidez e confiança no meio-campo composto por Viana-Micael-Amorim que não se é capaz de ver com a camisola vermelha de Old Trafford, a exibição do Tottenham, há duas semanas, foi ainda mais evidente porque aí a defesa não falhou e aguentou a investida a quem Ferguson recorre nos momentos de aperto.

E mais do que isso, o jogo memorável do Bilbao de Bielsa na época passada, o jogo que confirmou que as equipas de escalão médio europeu já não têm porque ter medo dos Red Devils. O Basel e Cluj já o tinham demonstrado recentemente, mas venceram combates equilibrados. O Bilbao foi imensamente superior durante 90 minutos como o Tottenham foi durante 60 e o Braga durante 40. Quando antes ninguém podia presumir, salvo contadas excepções, de ser tão superior a uma equipa como o Manchester durante mais de um quarto de hora consecutivo.

Ferguson tem sido incapaz de operar uma quarta geração depois de ter transformado a equipa de Whiteside e Robson na de Cantona e da geraão de 91, depois de ter trocado Beckham e a dupla Yorke-Cole por van Nistelrooy e Cristiano Ronaldo, Rooney e Tevez. A chegada de Robbie van Persie traz golos mas não jogo e Kagawa não encontra o seu sitio num esquema que muda regularmente de um 4-5-1 a um 4-3-3 para acabar num 4-4-2 losango, como o de ontem, com Rooney como falso número 10 no apoio a um avançado mais móvel (van Persie) e um mais fixo (Javier Hernandez). No ataque, os Red Devils não se podem queixar, mas a partir de aí os problemas multiplicam-se.

A defesa de circunstância habitual espelha a incapacidade de Ferguson de renovar a Evra, Ferdinand e um Vidic a quem os problemas fisicos se multiplicam. Rafael tem-se imposto na primeira equipa com surpreendente autoridade mas é uma lufada de ar fresco numa linha envelhecida e sem ideias, sem garantias e incapaz de aguentar o peso da camisola. No meio-campo os problemas são mais sérios.

Primeiro porque a Ferguson faltam as ideias. Não sabe a que jogar, não sabe com que esquema e modelo de jogadores apostar. Cleverley, Fletcher, Carrick apresentam ideias totalmente opostas às de Kagawa ou Anderson e a utilização de Giggs, Scholes e até Rooney, no miolo, deixa claro um problema de criatividade e organização que tem sido um problema desde 2008. Contra o Braga o técnico abdicou dos extremos (tem Young, Nani, Valencia, Wellbeck, Giggs) mas mesmo assim o miolo esteve sempre descoordenado e fora de acção e foi precisamente com o movimento de extremos que a equipa conseguiu dar a volta demonstrando que o seu ADN continua a exigir um estilo de jogo onde o meio-campo é deixado para segundo plano.

 

O orçamento gigantesco, a qualidade individual de muitos dos seus elementos e o génio, cada vez mais inconstante, de Ferguson, podem ser suficientes para os Red Devils continuarem a disputar o título inglês e europeu até Maio. Mas cada vez parece mais evidente que o clube de Manchester baixou, e muito, face a uma versão sua que não tem mais de quatro anos. A eliminação precoce na época passada, a pior versão de Ferguson na época passada, no entanto deixam sinais que noites como a de ontem só reafirmam. A pouco e pouco, Old Trafford vive uma profunda e progressiva decadência que transformará o Teatro dos Sonhos, como um dia lhe chamou Bobby Charlton, num campo com algum que outro pesadelo difícil de esquecer. 



Miguel Lourenço Pereira às 10:21 | link do post | comentar

6 comentários:
De Victor Hugo a 24 de Outubro de 2012 às 12:08
Eu vou um pouco mais longe. Acho que o grande divisor de águas no time foi sua compra pela família Glazer, que usa o clube para lavar dinheiro. Os resultados no campo demoraram mas vieram a aparecer, como você disse, na temporada 2008-2009.
Desde então, o Manchester vem perdendo qualidade a olhor vistos, e algumas contratações do gênio Ferguson das mais estranhas aconteceram. Manucho, Bebé, Smalling, Berbatov (35 milhões de libras jogados no ralo) e etc, somado a queda de qualidade dos garotos da base (Evans, que não promete ser melhor nem que Brown ou O\'shea, Macheda, De Laet), a perda de Pogba, e de zagueiros da base que seriam úteis agora, como Marc Wilson e Shawcross, sem que precisasse gastar nada, como foi feito com Smalling.
Welbeck e Cleverley são as exceções de um time que envelhece cada vez mais e não se renova para o futuro. Ferguson precisa evitar um final melancólico como o de Matt Busby, que não conseguiu se desprender do trio Best, Law e Charlton e deixou um time cansado e desgastado.


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Outubro de 2012 às 12:51
Victor Hugo,

Sem dúvida. Ferguson apoiou a compra dos Glazer porque tinha muitos problemas financeiros com os administradores de então, problemas com cavalos de corridas, e por isso nunca tem sido critico mas a verdade é que o United sofreu muito com a chegada dos Glazer e a quantidade de negócios inexplicáveis que chegaram depois, como citas.

A cantera do United prometia muito, mas depois da saída de Pogba e dos falhanços dos Evans, Gibson, Macheda ou De Laet está claro que a saída de Queiroz também pesou bastante. A equipa está envelhecida, Wellbeck, Young, Nani são jogadores jovens mas que não terminam de explodir. Mas o problema continua a ser a confiança absoluta numa velha guarda sem pernas e a incapacidade de criar um novo sistema definido, com Rooney como falso 9 ou como criativo num 4-2-3-1 e com uma maior presença num meio-campo sempre a descoberto.

um abraço


De Victor Hugo a 24 de Outubro de 2012 às 13:22
Tem razão, Carlos Queiroz faz falta, mesmo. Esqueci-me de citar o Gibson, que também foi um fracasso, embora tenha se achado na Família Moyes. Poderia citar outros fracassos ainda: Eagles, Oliver Gill, Fryers, Amos, Cathcart...
Quanto as compras, parece que este ano a incógnita se fez presente novamente. Powell é promissor, mas o dinheiro pago por ele foi surreal, ainda mais o Crewe Alexandria sendo um recém promovido a League One.
Quanto a Buttner, outra incógnita. Enquanto Jetro Willens e Martins Indi já foram convocados para a orange, Buttner, que é mais velho, segue ignorado. Vem do Vitesse, onde era reserva de Van Aanholt, emprestado pelo Chelsea. Você acha que ele é o substituto ideal para Evra? Baines não seria uma opção muito melhor?

Um abraço!


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Outubro de 2012 às 13:40
Victor Hugo,

Sem dúvida, as compras de jovens promessas não têm sido acertadas, Chicharito talvez a única excepção recente. O dinheiro pago por Jones, por exemplo, é um escândalo e Smalling tem perdido muito na última época e meia face ao que se esperava dele.

Baines é um jogador top, jogaria em qualquer equipa da Premier, incluindo o City e o Chelsea.

um abraço


De Victor Hugo a 24 de Outubro de 2012 às 15:52
Lembro-me que li outro post antigo seu sobre Chicharito há um tempo e, endossado pela citação de agora, vejo que é muito fã do futebol dele.
No entanto acho que ele vem sendo desvalorizado atualmente, principalmente depois da chegada de van Persie, que o fez ser a quarta opção no ataque, atrás até de Welbeck. Não acho que ele crescerá muito nos Red Devils desse jeito. Um desperdício de talento ou talvez ele não tenha sido o matador que Ferguson esperava? Ele é (ou será) do nível do Manchester United?


De Miguel Lourenço Pereira a 24 de Outubro de 2012 às 17:43
Victor,

Sou admirador confesso da nova vaga mexicana e Javier Hernandez é um dos jogadores com mais potencial do futebol mundial. Não creio que se tenha portado mal no Man Utd mas Ferguson queria um jogador de impacto imediato nos golos. Berbatov foi um falhanço, Rooney marca muito pouco e vai recuando no terreno e era preciso um homem-golo. Com isso o espaço para Chicharito diminui, infelizmente, e também acho que talvez o melhor fosse mudar de clube mas não acredito que seja porque não tenha valia para jogar no Man Utd de titular.

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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