Sábado, 13 de Outubro de 2012

futebolistas que actuam no terreno de jogo com a consciência de que o campo, para eles, é mais largo e mais comprido do que para a maioria dos colegas. Sabem ler o jogo em toda a sua real dimenão no espaço e mais do que medir os tempos e ritmos, permitem abrir e fechar o tapete verde como um balão que se esvazia e se incha a belo prazer. São jogadores que nascem com um radar incorporado e que vêm o jogo com olhos diferentes de todos os outros.

 

A bola nos pés de Xavi faz um barulho estranho. Ronrona, lança o alerta, conecta com o radar do médio espanhol.

Quando sai dos seus pés tem o destino traçado e dificilmente algo a impedirá de chegar ao objectivo final. Antes, nesses milésimos de segundos, o radar do blaugrana encontrou todas as coordenadas exactas para não falhar no passe. Abriu o campo, passou ao colega mais perto, lançou um passe a rasgar, jogou pelo seguro. Posicionou-se e descolocou os rivais, rompeu linhas ou organizou as suas. Um só gesto, pensado a outro ritmo, a outra cadência, é suficiente para impôr ao futebol a magia que os adeptos vêm mas, muitas vezes, não entendem.

E quem diz Xavi Hernandez, esse mago do futebol moderno, esse anão veloz, não nos movimentos de corpo mas no raciocinio que aplica como poucos ao tabuleiro de xadrez que é um jogo de futebol, pode pensar em vários nomes.

Andrea Pirlo, Bastian Schweinsteiger, Andrés Iniesta, Xabi Alonso, Luka Modric, Óscar, Eden Hazard, Juan Mata, Mario Gotze, Yohan Cabaye são os nomes próprios do momento, os embaixadores de um futebol onde o corpo conta menos que o cérebro, onde a condição fisica e as suas aptidões, a finta, a velocidade, o sprint, são relegados para um segundo plano. São também os jogadores que, mediaticamente, perdem nas comparações com as estrelas do drible, os goleadores incansáveis e os artistas rebeldes, sem consciência táctica e amarras ideológicas. 

A história perde-se em comparações odiosas. No Brasil de 70 quem se lembra de Gérson, o criativo que empunhava a varinha mágica dos homens de Mario Zagallo? Netzer viveu à sombra dos golos de Muller e a liderança moral de Beckenbauer e Mário Coluna no Benfica dos anos 60 perdeu sempre na comparação com a magia de Eusébio. Foram jogadores de excelência, e a lista não tem fim, criados na cultura do passe - curto ou largo, não faz diferença - e na sensação de que a magia do futebol parte do seu ideário colectivo que, como um bando de aves, triunfa quando se move ao mesmo ritmo e na mesma direcção.

 

A bola respira a um ritmo quando acompanha em velocidade a Messi e Ronaldo, sente de forma especial o golpe da cabeça de Falcao e do pé de Benzema mas é talvez nos pés destes jogadores que se encontra mais cómoda. Sabe que não vai ser utilizada de forma abrupta e constante. Um só toque e destino certo, ritmo elegante e rasgo na atmosfera.

Uma das principais razões da decadência do futebol português parte, sobretudo, da ausência desta figura. Se é certo que Portugal vive o problema crónico do avançado e sofre, ocasionalmente, com os médios defensivos e os laterais esquerdos, é na ausência absoluta de criatividade em que vivem os clubes e a selecção que se percebe que o futebol mecanizado e fisico que utiliza a equipa nacional e os seus principais emblemas não é mais do que o espelho da não utilização destes radares humanos.

Portugal não tem, desde Deco, um jogador com essas caracteristicas e sofre-o num jogo de transições rápidas defesa ataque, explorando a velocidade de Ronaldo e Nani, utilizando a figura do avançado como um médio mais, batalhador, de contenção, um operário como o trio de centrocampistas a quem não se lhes permite tratar a bola com a segurança de um passador de classe. Nem Moutinho, nem Meireles, nem Carlos Martins, nem Hugo Viana conseguem chegar a esse nível e se os dois últimos possuem algumas caracteristicas exigidas para o posto, a sua tremenda irregularidade espelha também a sua dificuldade em render ao mais alto nível. Portugal espelha assim o mesmo futebol que praticam os seus clubes. No Benfica há um treinador que não acredita no uso do meio-campo para dar ritmo, organização e classe à sua equipa. O futebol de Jesus é feito a pensar em ataque, mas um ataque só de avançados e extremos não é necessariamente um ataque mais eficaz do que aquele usado por um sexteto de médios, como demonstrou Guardiola na última final do Mundial de Clubes, quando utilizou um 3-7-0 (com Messi como falso 9 e Alves como falso extremo). Na desorganização futebolistica do Sporting dos últimos anos ficou evidente, igualmente, que o 4-3-3 de Domingos e Sá Pinto era muito similar ao da selecção com jogadores de combate e pouco futebol. E o FC Porto, desde os dias de Jesualdo Ferreira, optou pelo mesmo modelo, sendo que nem Lucho Gonzalez ou João Moutinho têm capacidade para ligar o radar e fazer toda a equipa bailar ao seu ritmo.

 

Esta éspecie de ave rara perde mediaticamente em comparações odiosas mas para os técnicos é o melhor aliado. O problema está na origem. São jogadores que não nascem, de forma expontânea, nas fintas de rua nem podem trabalhar o seu posicionamento e fisico para transformar-se em tanques defensivos. O seu treino é long, extenuante e exige paciência. Exige uma aposta séria no futebol de formação. Não surpreende portanto que os únicos países que na actualidade devotam tempo e dinheiro a formar os seus futebolistas sejam também os únicos que podem apresentar um leque de radares humanos de excelência. Jogadores que crescem e que não nascem, jogadores de outras eras e outros ritmos, com o radar accionado, eles são também, os jogadores que fazem do futebol um combate de 90 minutos que muitas vezes se decide ao pontos.


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Miguel Lourenço Pereira às 13:51 | link do post | comentar

9 comentários:
De Victor Hugo a 14 de Outubro de 2012 às 01:26
Eu acho que a culpa disso se deve realmente a falta de um trabalho específico na base. Também, com a presença cada vez mais asfixiante de empresários controlando como se fosse uma máfia (ao menos é assim no Brasil) todo o vaivém de jovens nos juniores o resultado não podia ser diferente.
Hoje o futebol se tornou muito globalizado, até demais, e não existe mais a identidade entre o clube e sua comunidade, os atletas são formados debaixo do terno dos empresários, e, às vezes antes mesmo de estrear nos profissionais vão para algum clube do oriente médio ou da ásia e somem. Como é que se consegue formar plenamente jogadores assim? Sem contar a pressão cada vez maior nos técnicos, que precisam dar resultados para salvar seus empregos ao invés de terem tempo para darem uma identidade tática ao time.
É algo muito complexo tudo isso mas o resultado é claro e simples: o futebol está perdendo sua graça e sua pureza por causa de \"money\", e jogadores como Verratti e Joe Allen podem ser os últimos representantes de uma safra de craques à moda antiga que beira a extinção.


De JV a 15 de Outubro de 2012 às 09:33
muito bom este post . Mas quanto a mim acabou por não mencionar um jogador que quanto a mim, talvez por não efectuar tantos passes a rasgar como o Xavi , mas muito por causa da sua posição um pouco mais recuperada, tem um sentido posicional tão bom ou melhor do que o nº6 do Barça. Sergio Busquets parece que tem 6 olhos, todos eles colocados estrategicamente à volta da sua cabeça. É impressionante como às vezes rodeado de 3/4/5 adversários em zonas perigosas, consegue receber a bola com toda a naturalidade e distribui-la quase sempre da forma mais correcta. Não é por não ser um jogador muito mediático, e às vezes polémico por certas atitudes que se deve "esquecer" do seu enorme talento e intelêngica tática .


De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Outubro de 2012 às 20:01
JV,

Busquets é um excelente médio defensivo. Duro mas omnipresente, sabe posicionar-se como poucos e procura sempre o passe mais fácil. Não considero que esteja no mesmo plano que os restantes porque não é um construtor de jogo ofensivo mas sim um organizador de jogo defensivo. Recupera a bola e coloca-a à disposição dos colegas, raramente se lhe pede algo mais. É um trabalho complexo e cumpre-o à perfeição mas o seu radar funciona noutra frequência.

um abraço


De M a 15 de Outubro de 2012 às 12:25
Antes diziam isso da Espanha e do Barça. Que Xavi e Iniesta só sabiam jogar para o lado e para trás.
Em Espanha o Barça mudou essa mentalidade, em Portugal pelos vistos ainda não.
Isto é, Moutinho e Lucho são jogadores do estilo de Pirlo, Xavi, etc e sem dúvida com um "radar" ou o que lhe queira chamar muito superior ao de Hazard ou Gotze (que não são nem nunca foram organizadores de jogo são velocistas e desequilibradores). E se não jogam como eles é porque os companheiros e a táctica não o permitem.
É muito diferente trocar passes com o Messi ou com o Ronaldo e por isso é que o Xavi é o que é e o Moutinho não o consegue ser. Porque o Messi devolve o passe, joga colectivo, não perde a bola. O Ronaldo pega na bola e corre ou chuta a 30 metros.

Mas mesmo assim, veja as estatísticas de passes na Champions. Moutinho é o 3º jogador com mais passes a seguir a Xavi e Busquets e à frente de Fabregas e Arteta.


De Miguel Lourenço Pereira a 15 de Outubro de 2012 às 20:05
M,

Moutinho e Lucho exercem como médios box-to-box. Têm funções defensivas e conduzem a bola, essencialmente em movimentações de velocidade, nunca em jogos de toque curto. São vitimas do sistema táctico? Seguramente que sim, um 4-3-3 de transições rápidas acaba por tirar poder de pausa e ritmo a este tipo de jogadores, mas mesmo assim são futebolisticas que têm uma tentação constante pelo passe vertical mais do que pela organização de jogo pura. Segundo a numerologia histórica, exercem mais de 8 do que dos 6 ou 10 que falamos quando pensamos em Gotze, Xavi, Iniesta ou Pirlo.


De M a 16 de Outubro de 2012 às 15:32
O Porto já não joga em transições rápidas há 3 anos...
Se me mostrar um vídeo que seja do Lucho a conduzir a bola dou-lhe um conto de rei :D


De Miguel Lourenço Pereira a 16 de Outubro de 2012 às 16:33
M,

O 4-3-3 do FC Porto não é o mesmo dos dias de Jesualdo mas não é por isso que deixa de apostar em transições rápidas. É um modelo que depende sempre muito do papel dos extremos e de passes rápidos e largos dos interiores. Não me lembro, especialmente nos últimos 2 anos, ver o FC Porto jogar num 4-3-3 de posse como vejo o Barcelona, com circulações longas, passes curtos e movimentações ordeiras, em bloco, como uma equipa de andebol ;-)

um abraço


De M a 16 de Outubro de 2012 às 16:47
Num 4-3-3 como o do Barcelona não vê nem verá mais ninguém de certeza absoluta.
Agora garanto-lhe que este Porto não joga em transições rápidas!
90% dos seus ataques surgem de futebol apoiado e organizado e 90% das jogadas começam nos centrais. Raramente vê o Porto em pontapés longos para a frente, raramente vê pontapés de baliza batidos para além do meio-campo e os contra-ataques rápidos que possam surgir (como surgem com o Barcelona e qualquer outra equipa do mundo), aparecem de possíveis desorganizações do adversário.
Garanto-lhe que este Porto não tem nada a ver com o do Jesualdo e não é uma equipa de transições rápidas. Se calhar confundiu-se com o Benfica do JJ.


De Miguel Lourenço Pereira a 16 de Outubro de 2012 às 18:24
M,

Não sei porque não verei, o futuro reserva sempre surpresas, e este 4-3-3 actual é muito mais convencional que os modelos aplicados durante a estadia de Pep em Camp Nou ;-)

Jogar em transições rápidas não impede nem que a bola seja iniciada pelos centrais nem que se utilize a velocidade do jogo lateral por cima do jogo rendilhado do miolo. Há várias formas de transições rápidas e Jesualdo Ferreira não tem o exclusivo da mesma forma que, como bem dizes, o Benfica de Jorge Jesus desde sempre foi uma equipa de transições rápidas laterais.

O FC Porto trabalha mais o meio-campo que qualquer outra equipa portuguesa, mas não é uma equipa que utilize o eixo central do meio-campo como elemento nuclear do seu jogo. Para isso precisa que James bascule constantemente para a posição de número 10 e só muito recentemente isso se tem tornado num hábito saudável. O modelo de jogo do Barcelona, que é perfeitamente imitável na sua base, implica uma subida dos laterais, uma linha defensiva avançada, um meio-campo que se mescle com o ataque tanto com como sem a bola. É perfeitamente idealizável por outras equipas mas com jogadores como Lucho e Moutinho é um pouco mais complicado sem dúvida.

um abraço


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