Quarta-feira, 3 de Outubro de 2012

O futebol é uma questão de atitude. A forma como cada equipa encara um desafio condiciona, e muito, o resultado que acabará por obter. Uma abordagem mais cínica pode trazer mais sucesso a curto prazo e ter consequências mais à frente. Uma abordagem positiva e ofensiva não só ganha adeptos como rompe a estatística. E jogar para não perder acaba por ser, quase sempre, o desvio mais rápido para a derrota. FC Porto, SL Benfica e Sporting de Braga apresentaram três atitudes bem diferentes nesta ronda de Champions e cada uma delas espelha o seu estado de ânimo. E talvez o seu futuro na competição.

 

Jorge Jesus sabia que defrontava aquela que é, talvez, a melhor equipa do Mundo. 

Agiu de acordo com a situação. Confessou-se incapaz de jogar de tu a tu, esqueceu o efeito causa, a clara baixa de forma do jogo clássico e sedutor azulgrana e organizou um esquema onde não existia espaço para a criação. Anular primeiro, atacar depois. Uma filosofia que não rompe apenas com a sua própria mentalidade mas também com as fortalezas do seu plantel. Sem Luisão, sem Witsel e sem Javi Garcia, o sector mais débil do Benfica actual é, sem margem de dúvidas, o defensivo. A presença do capitão no eixo central da defesa é determinante para calmar as hostes e Witsel e Garcia eram os únicos que sabiam impor ordem e respeito no miolo. 

Nem Matic, nem Jardel, nem Enzo Perez são jogadores com as mesmas características, peso e influência no jogo encarnada para oferecer a melhor versão defensiva da equipa lisboeta. E no entanto Jesus, sabendo que as únicas armas que tinha para fazer sofrer o Barcelona estavam no ataque, preferiu defender. E como a equipa defendeu mal, sobretudo pelas alas, onde Maxi Pereira e Melgarejo foram inconsequentes, a derrota tornou-se inevitável e só não foi mais expressiva porque Artur merece uma chamada à selecção do Brasil e este Barça está, ainda longe, da pior versão de Pep Guardiola, apesar dos números dizerem o oposto.

Sem alinhar a Lima, Rodrigo, Aimar e Carlos Martins para aproveitar uma linha defensiva extremamente débil, onde Alves e Alba têm tendência a deixar espaços e em que Mascherano é um elo demasiado fraco para uma equipa deste calibre, o técnico encarnado assumiu esse complexo de inferioridade, essa atitude derrotista que fez da derrota algo profundamente lógico, muito para além da diferença real entre ambos os clubes. Em 2006 o Barcelona também era a melhor equipa do Mundo e no entanto na Luz foi incapaz de vencer em parte porque a atitude também foi diferente.

 

As vitórias de FC Porto e SC Braga explicam, de certa forma, que há maneiras e maneiras de vencer.

Os bracarenses vivem acima das suas possibilidade, no bom sentido do termo. Sabem que não são um clube com orçamento e prestigio Champions e no entanto sempre que estiveram em prova deram muito boa conta de si. Conheçam as suas limitações, conhecem as suas prioridades e jogam a curto-prazo. Para os pontos, para o lucro financeiro, para ver no que dá esta aventura. Por isso a abordagem dos homens de Peseiro, particularmente depois da dolorosa derrota com o Cluj, tinha de ser mais cínica do que entusiástica. Foi um esquema conservador, sabedor que iria sofrer o inferno turco na sua mais pura essência, e no entanto foi suficiente para conseguir uma vitória histórica e fundamental para garantir que a corrida para manter-se nas provas europeias, seja a Europe League seja a Champions, se mantém de pé. Peseiro tem o plantel mais português do futebol nacional, continua a beneficiar da brilhante rede de prospecção e directiva dos "guerreiros do Minho" e só a ausência de um homem golo como Lima pode mudar uma ideia que está a ser trabalhada desde o arranque da temporada. Um ano fundamental na história do clube que necessita jogos como este. Jogos que não ganham adeptos mas que produzem essa dose de experiência cínica que tanta falta faz para crescer.

Vitor Pereira, por outro lado, foi o oposto de Jorge Jesus.

Tão criticado, o técnico espinhense sabia que defrontava uma das equipas que mais dinheiro gastou nos últimos dois anos no futebol europeu. O plantel do PSG está ao nível dos melhores da Europa e Ancelotti é um dos poucos técnicos que venceu a prova por duas vezes e que sabe mover-se nestes terrenos pantanosos. Talvez por isso poderiam muitos esperar um FC Porto conservador, expectante e temeroso de um rival, liderado pelo omnipresente Zlatan Ibrahimovic. Mas a realidade desmintiu a teoria completamente.

Foi talvez o melhor jogo da era Pereira, um jogo onde os dragões foram autoritários do minuto 1 ao minuto 90, asfixiando a criação de jogo dos parisinos, realizando um exercício de pressão alta intenso que transformou os favoritos numa equipa incapaz de sair do seu meio-campo com a bola controlado. O brilhante golo de James Rodriguez surgiu no fim mas há muito que os campeões nacionais mereciam a vantagem, sobretudo porque tanto Varela como Jackson fizeram jogos à altura das expectativas dos adeptos e o meio-campo aguentou o ritmo durante todo o encontro. Um triunfo que saiu directamente do optimismo com que o técnico encarou o jogo, sem medos, e que encurtou o percurso para uma vitória que deixa escancarado o apuramento. Os dois jogos com o Dynamo Kiev, rival directo, serão fundamentais. Seis pontos serão suficientes para dar descanso para as últimas duas rondas. Com a mesma atitude, sem os receios demonstrados pelo Benfica nos dois primeiros jogos e sem necessidade de ser tão cínico e pragmático como o Braga, o FC Porto apresenta a versão que muitos não esperavam ver com a saída do seu lider espiritual das últimas épocas.

 

Se a nível interno os três representantes portugueses continuam a viver com os altos e baixos de uma liga nivelada por baixo mas que revela sempre um par de surpresas, na Europa mede-se o real valor dos projectos desportivos. Da mesma forma que a eliminação precoce do FC Porto de Vitor Pereira deitará sempre uma sombra sobre o seu título, este ano a atitude positiva na Europa dá outro ar à sua controversa gestão. O Braga continua a mostrar à Europa que Portugal há muito que não é a terra dos "três grandes" e o Benfica sofre, como sempre, dos humores de um técnico que parece enganar-se sempre nos momentos mais importantes da sua carreira. Questão de atitude!



Miguel Lourenço Pereira às 22:56 | link do post | comentar

2 comentários:
De Victor Hugo a 4 de Outubro de 2012 às 08:38
Assisti o jogo do Benfica e vi o mesmo que você: um time medroso, cabisbaixo, que já entrou sabendo que ia perder. 2x0 foi pouco. Méritos para Artur que, pra mim, com o técnico que temos aqui no Brasil, merecia muito mais uma chamada aí de Portugal mesmo, onde seria muito mais valorizado, pelo bem de sua carreira.
O Braga pra mim é um exemplo de gestão fora dos campos e exemplo de garra e dedicação dentro deles. Há muito que já conquistou minha torcida.
O Porto ganhou porque mereceu, se impôs todo o jogo e não se iludiu com o elenco estelar do adversário, pois no campo as cifras não entram, somente os jogadores. Como você disse, é realmente questão de atitude.

Abraço!


De Miguel Lourenço Pereira a 4 de Outubro de 2012 às 12:06
Victor Hugo,

Sem dúvida, a atitude de um treinador contagia a equipa. Há quem acredite que os treinadores são secundários num jogo dominado pelos futebolistas mas é precisamente o oposto, o técnico, no futebol moderno, é o elemento fundamental numa estrutura que tem de transmitir em individuos tão diferentes como são os jogadores de um plantel, uma só ideia e atitude.

A mensagem dos três técnicos correspondeu aos resultados de cada jogo. Nem sempre é assim mas nesta ronda o futebol, dentro da sua tremenda injustiça, foi justo!


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