Domingo, 9 de Setembro de 2012

O gesto. A raiva tranquila, o movimento de corpo, a colocação da bola. Uma bola que nos seus pés respira com calma, sente-se segura, fecha os olhos e voa. Durante uma década foi um dos melhores jogadores do Mundo, ano sim, ano também. Talvez por ser o menos egoista das estrelas, o menos mediáticos dos astros, falhou sempre nas corridas aos prémios individuais mas ninguém dúvida que entre os grandes da história do jogo e, provavelmente, no pódio do mais grande do futebol gaulês está uma gazela chamada Thierry Henry.

Acreditemos por um segundo que se podem comparar épocas, se podem comparar equipas, rivais, colegas, jogadores, bolas, terrenos, estádios, que tudo vale o mesmo e é igual aos olhos dos adeptos. Enfim, que se pode jogar ao jogo do "maior de sempre", uma expressão que sempre dá comichão aqueles que, como eu, acreditam que o futebol é feito de evolução mas que essa evolução não significa, forçosamente, que o presente é melhor que o passado sempre e que há coisas que, pura e simplesmente, são incomparáveis.

Mas joguemos o jogo por um breve instante e olhemos para a história do futebol francês.

Um país entre os mais desportistas do mundo mas que sempre olhou desconfiado para o futebol, desde a sua génese. Jogo de ingleses, e portanto jogo a evitar, jogo de proletários e, portanto, desprezado por uma burguesia que sempre preferiu o ténis, os desportos automobilisticos ou o ciclismo, o futebol em França não deixa de ser uma religião mas acaba por ser um credo mais alternativo do que estabelecido. Ao contrário dos ingleses, os franceses respeitam mas não veneram, vibram mas não perdem a cabeça e bailam ao som do triunfo e desligam o monitor na hora da derrota sem pestanejar. Nesse cenário houve poucas equipas gaulesas que passaram à posteridade. Mas jogadores, jogadores nunca faltaram.

De Ben-Barek, o astro de origem marroquina dos anos 30, a Frank Ribery e Karim Benzema, passaram oitenta anos de muito talento e magia. Dentro dessa lista de génios, a opinião pública sempre se dividiu em dois nomes: Michel Platini e Zinedine Zidane. 

São eles os mais galardoados, os mais aplaudidos, os mais venerados dos jogadores franceses. Entre eles estão cinco Ballon D´Ors, dois Europeus, um Mundial e duas Champions League. Coisa pouca. Mas pessoalmente, e só porque desta vez jogamos o jogo, não encontro aqui nem o primeiro, nem o segundo melhor jogador de um país que também foi o de Just Fontaine, de Raymond Kopa, o de Alain Giresse, o de Jean Tigana, o de David Ginola, o de Didier Deschamps, o de Robert Pires, o de Dominique Rocheteau ou o de Jean-Pierre Papin. Nomes no entanto que vivem na sombra de dois génios que conheceram em Inglaterra o reconhecimento que o resto do Mundo nunca lhes quis dar: Eric Cantona e Thierry Henry.

 

Se de Cantona, provavelmente o jogador mais icónico do futebol britânico moderno, falamos e voltaremos a falar, que se pode dizer de Henry.

Para muitos sugerir que Henry é mais do que Zidane pode ser blasfémia. E ninguém é dono da verdade para dizê-lo ou não. Mas o médio que foi da Juventus e do Real Madrid depois de ter sido do Cannes e do Bordeaux, genia lcomo poucos, nunca despertou a mesma sensação de prazer supremo que Henry naqueles que seguiram a sua trajectória londrina com paixão.

Henry é provavelmente o jogador gaulês mais completo de sempre. Foi sem dúvida o melhor jogador da Premier durante a última década (como o foi Cantona na década de 90), o mais laureado por jogadores e imprensa, o mais amado pelos adeptos neutrais, incapazes de aceitar o estilo de Cristiano Ronaldo, os golos de Michael Owen ou os tiros de Frank Lampard ou Steven Gerrard como algo por encima do génio supremo do gaulês. Henry marcava com a mesma facilidade que assistia. Podia ter sido um goleador ainda maior, atingir números muito mais próximos dos que hoje apresentam Ronaldo e Messi, não fosse também um jogador profundamente colectivo, um rei de assistências, um iniciador de lances tão bom como os que finalizava. Com frieza, com raiva, com classe.

Henry começou debaixo da asa de Arsene Wenger no Monaco e explodiu sob o seu comando. Pelo meio uma etapa para esquecer em Turim, ao serviço da Juventus. Foi daí que o técnico alsaciano o recuperou e deu-lhe o lugar que era de Nicolas Anelka, recém-vendido ao Real Madrid. À sua volta construiu uma equipa inesquecível, com Bergkamp, Pires, Ljunberg, Vieira e Wiltord. E deu-lhe a liderança do seu projecto. Liderança que Henry exerceu sem autoridade mas com um magnetismo profundo. 

Faltou-lhe a Champions que ganharia em Barcelona, já na sua etapa decadente, mais pelos problemas fisicos do que pelo génio que nunca perdeu, e faltou-lhe sobretudo o Ballon D´Or. Incompreensivelmente perdeu-o em 2000 para o seu amigo Zidane e em 2004 para Schevchenko. Mas nunca perdeu o amor dos adeptos neutrais, para não falar dos gunners, deliciados com o seu serpentear, os seus livres directos imparáveis, o seu golpe de cabeça autoritário, os toques de calcanhar que do nada davam golo, os seus passes impossíveis, as suas mudanças de velocidade maradonianas e, sobretudo, o seu passeio elegante sobre o relvado como se de um semi-deus se tratasse. 

 

Thierry Henry pertence a uma casta de jogadores que são apreciados no presente e que ganharão contornos de mito à medida que os anos passem e os adeptos revejam as suas obras de arte com outros olhos. Se já no seu prolifero periodo activo sempre dava a sensação de disputar mano a mano o titulo honorifico de melhor do mundo com jogadores muito mais mediáticos, hoje continuamos sem encontrar jogadores que tenham pegado no seu testemunho e ido mais longe. Henry pode não ser um icone global, por mil e um motivos, como foi Cantona. E pode não ter os prémios de Platini e Zizou. Mas olhando para trás e olhando para hoje é impossível dizer, jogando a esse jogo maldito, que algum deles possa fazer sombra a um Thierry que define, com o olhar, o que significa a palavra futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 20:52 | link do post | comentar

6 comentários:
De Victor Hugo a 10 de Setembro de 2012 às 16:08
Mais um belo texto, como sempre! Meus parabéns!
Eu sou suspeito pra falar de Henry, porque sou gunner na Inglaterra, e vejo o quanto ele é querido e venerado pelos torcedores. Ser considerado o melhor jogador do Arsenal de todos os tempos e ganhar uma estátua ao lado de Chapman e Adams ainda como jogador em atividade é algo impressionante. No seu fugaz retorno no início do ano mostrou porque é mito: entrou nos minutos finais e em seu primeiro lance fez o gol da classificação se eu não me engano contra o sempre grande e mítico Leeds United. Foi incrível como ele conseguiu levar a loucura a tão fria torcida inglesa do Arsenal. Foi de arrepiar.
Não sei se você já escreveu sobre pois freqüento o blog há pouco tempo, mas queria muito ler um texto sobre Guy Roux e seu Auxerre. Acho esse cara uma lenda também.
Mais uma vez, meus parabéns! Texto formidável!


De Miguel Lourenço Pereira a 10 de Setembro de 2012 às 19:57
Victor Hugo,

Obrigado.
Sem dúvida que é um dos maiores génios da história do futebol, para mim o mais brilhante, a par de Ronaldinho, jogador da última década.

Relativamente ao Roux, ainda não escrevi nada sobre ele mas não está excluido. No arquivo podes encontrar outros bons textos dos últimso anos


De fazer dinheiro a 11 de Setembro de 2012 às 00:40
Grande texto, parabéns.

Sempre adorei este jogador, determinado possante, team player, tecnicamente acima da média e com uma classe rara de encontrar.

Vê-lo a jogar dá gosto.


De Miguel Lourenço Pereira a 11 de Setembro de 2012 às 15:57
Obrigado.

Sem dúvida, um mito!

um abraço


De Tiago Santos a 14 de Setembro de 2012 às 16:14
Inesquecivel aquela equipa de 2004 do Arsenal.
Lehmnn, Laure, Keown, Campbell, Cole; Ljumberg, Silva, Vieira, Pires; Bergkamp e Henry.
Ano e meio sem perder. Nunca atingiram a mesma dimensão na Europa, talvez por no banco não terem soluções do mesmo nível, mas fica na memória com a melhor equipa que vi na Premier League.
Henry era imparável, simplesmente um dos melhores avançados do futebol moderno. Em 2004, não fosse talvez o pobre Euro da França, ficavalhe bem a bola de ouro.
A par de Ronaldo fenómeno, é para mim o melhor avançado que vi jogar.


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Setembro de 2012 às 16:53
Tiago,

A ironia está em que nesse ano falharam as meias-finais da Champions eliminados por uma equipa inglesa a quem venceram com tranquilidade na Premier, o Chelsea.

Tendo em conta que quem ganhou o Ballon D´Or em 2004 nem foi ao Euro, nem venceu a Champions, não vejo onde é que se pode pensar que Shevchenko seja mais merecedor do prémio do que Henry.

um abraço


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