Segunda-feira, 27 de Agosto de 2012

Existem aqueles que entendem que o futebol é um jogo de jogadores, de artistas. Que desvalorizam o papel do treinador, reminiscências de uma era onde o papel do técnico era quase inexistente aos olhos de público e directivos. Mas desde a década de 60 que, finalmente, o técnico começou a ganhar preponderância mediática e, com ela, um estatuto social importante que em alguns casos os equipara directamente aos nomes próprios do futebol. Mas o reconhecimento, o mérito e a fama também vêm de mão dada com a responsabilidade, a culpa. Para todos os treinadores menos para um. José Mourinho continua a sentir-se como o treinador que nunca tem a culpa.

 

Nas bancadas perdidas pelos campos desse mundo fora, quando uma equipa se encontra a perder e o relógio corre mais depressa do que Usain Bolt, o desespero leva os adeptos a gritar por golos, por mais homens capazes de marcar esses tão necessários golos. E os treinadores mais comuns, os que seguem o estudo do jogo de longe, habitualmente fazem-lhes a vontade. Entram avançados, saem defesas. Entram avançados, saem médios. Mudam-se defesas centrais para a área contrária e as bolas deixam de sentir o cheiro da relva para rasgar os céus, onde, como diria Clough, não há relva porque Deus não quis que a bola por ali se movesse.

Esse "chuveirinho", como diz o calão futebolistico, ás vezes resulta. Mas a maioria das vezes apenas serve para espelhar o desespero e a falta de ideias do homem que, no meio da tensão, tem de saber manter a calma, o raciocinio solto e a frieza nas decisões. Por cada golo inesperado nos últimos segundos que entra, há dezenas de oportunidades que morrem na confusão da falta de ideias. Um treinador paciente sabe que a bola se coze no meio, se pensa no miolo e só o jogo de espaços pode provocar oportunidades de golo claras. Depois entra o talento, a sorte, a eficácia. Mas o seu trabalho não é esse. É o de saber manter as condições ideais no tapete para que as oportunidades surjam. E para isso, a evolução táctica já demonstrou vezes sem conta, mais avançados não é forçosamente a melhor solução. Pensará o mesmo José Mourinho depois de perder frente ao Getafe por 2-1? Pensará o mesmo o técnico sadino que este ano soma três jogos sem vencer e vê já o rival directo - e único - para o título espanhol a cinco longos e asfixiantes pontos de distância? 

Da sua boca nunca o irão ouvir. Na conferência de imprensa, no final do jogo, Mourinho teve palavras para tudo e todos. Menos para si. Menos para o seu peregrino 3-2-5, um esquema táctico que aguentou durante um quarto de hora e que deixou a nú a clara incapacidade do seu Real Madrid de jogar com paciência, com calma, com a bola nos pés.

 

O futebol de toque não garante sempre a vitória. Essa demagogia recente faz tanto mal ao jogo como acreditar que o "chuveirinho" final é a solução óptima para momentos de desespero. Mourinho move-se no cinzentismo entre as duas correntes mas as suas equipas sempre foram equipas de físico, de velocidade, de romper as linhas com passes rápidos, poucos toques, arrancadas no espaço e pressão asfixiante para esgotar o rival. Mas em Getafe não houve nem sinal desse projecto que lhe deu uma taça e uma liga em duas épocas.

Fisicamente o Real Madrid é um desastre, Cristiano Ronaldo é um fantasma de si mesmo (nunca arrancou tão mal uma liga) e ao contrário de Leo Messi, que depois de uma pré-temporada completa - a primeira em quatro anos - está fresco como nunca, ainda não se encontrou com o golo. O golo decisivo capaz de enganar com o resultado uma exibição cinzenta. Em Pamplona o Barcelona sofreu mas venceu, Messi desenhou à mão um resultado enganador. Mas assim se ganham ligas, como o extremo português demonstrou no ano passado em contadas ocasiões que o Real Madrid ganhou sem jogar melhor. Sem jogar bem.

Em Getafe a equipa de Mourinho jogou mal. Jogaram mal as individualidades mas, sobretudo, jogou mal o colectivo. E aí a responsabilidade é sempre do treinador. Por muito que este seja incapaz de o assumir. Não são só os erros sucessivos nos lances de bola parada o problema do Real Madrid. Desde o primeiro ano de Mourinho que cantos e livres têm sido o seu calcanhar de Aquiles. Depois de tantas sessões de treino é inacreditável ver o melhor jogador azulón neste tipo de lances, o lateral Varela apareça sozinho para empatar o jogo em Getafe. Um episódio mais numa lista onde ninguém sai bem na fotografia. Nem o Iker Casillas que, com a selecção de Espanha se transforma invencível nesse tipo de lances, nem os jogadores escalados para a marcação, nem o técnico que coordena o posicionamento dos jogadores neste tipo de lances. 

Se é nesses movimentos que o Real Madrid tem perdido jogos e pontos, é na incapacidade de dominar os jogos com a bola nos pés que está o seu real problema. Luka Modric chega para resolver, na teoria, uma realidade do futebol de Mourinho. Não o logrará. 

O croata, como Ozil, é um criativo veloz, que gosta de jogar em movimento, que explora bem os espaços com as suas diagonais com a bola nos pés e que lê bem a movimentação dos seus colegas em questões de nano-segundos. Em Inglaterra associou-se sempre bem com a velocidade de Bale ou Lennon e raramente o vimos a pausar o ritmo de jogo e acalmar as hostes. Modric é demasiado parecido a Ozil para apresentar uma alternativa que Sahin ou Granero ofereciam, jogadores mais de pausa no meio de tanta vertigem. Mas o primeiro já está em Liverpool e o segundo conta pouco porque, pura e simplesmente, não é esse jogo a que quer jogar Mourinho. 

O croata supera o alemão em golo, tem esse remate de meia distância tão apreciado em Inglaterra e que ajuda a desbloquear jogos. Mas numa equipa onde já há Di Maria, Ronaldo, Benzema e Higuain, homens fortes nesse campo, isso não é forçosamente uma necessidade.

 

Modric jogará ao lado de Alonso, no lugar de Ozil ou até mesmo pegado a uma banda, mas não mudará o problema de construção paciente de jogo de um treinador que se recusa a sentir culpado quando a sua equipa perde (ou ganha) jogando mal. Com o plantel que dispõe, o Real Madrid podia jogar a diferentes tipos de jogo. O seu técnico escolheu um, tão legitimo como os outros, e os números ajudam-no sempre que dão jeito. Mas quando a bola se esconde no meio de tanta precipitação, quando o desespero lhe assalta a consciência e o medo de perder se torna maior do que a certeza de ganhar, Mourinho deixa-se levar pela pressão e abdica de um principio básico da táctica futebolistica. Não assumir a culpa é algo que já ninguém espera dele, mas no fundo o português sabe que as derrotas da sua equipa, como as vitórias, são também (de)mérito seu. 



Miguel Lourenço Pereira às 14:11 | link do post | comentar

20 comentários:
De DC a 27 de Agosto de 2012 às 16:41
Concordo com quase tudo do texto, mas não concordo com a análise a Modric.
Modric é um jogador de classe, que sabe temporizar, toma sempre a melhor decisão. Não precisa de "vertigem" no seu jogo.
Digo com toda a certeza que se encaixava como uma luva no Barça.

Agora outra coisa é se ele irá ter sucesso no Real. Isso penso que não. Se craques como Kaká e Sahin não tiveram, se Pedro Léon e Canales, 2 jogadores com toque de bola fabuloso foram dispensados, Modric por não ser um "pitbull" como Xabi ou Khedira ou um velocista como Di Maria provavelmente jogará pouco.
Ou isso ou Ozil vem para o banco, que o Mourinho já demonstrou várias vezes não gostar especialmente dele (quando estava a perder no ano passado era quase sempre o alemão a sair e nos 5-0 ao intervalo tirou-o para colocar o Lass).

Já agora, como sei que não é especialmente adepto do estilo de jogo do Barça e da selecção espanhola é bom ver que concorda que os jogos se decidem com paciência, trocas de bola e bolinha na relva!


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Agosto de 2012 às 21:27
DC,

Eu sou adepto de todos os estilos de jogo. As pessoas não acreditam quando o digo mas é verdade. Não gosto do dogmatismo na vida, nem de esquerda vs direita, nem certo vs errado, nem toque vs velocidade.
Nem todos os jogos se decidem com paciência, trocas de bola e bolinha na relva. Há jogos que pedem vertigem, há jogos que pedem contenção defensiva e uso do contra-golpe e há jogos que se decidem na posse de bola. O problema com este Real Madrid é que nunca recorre a essa formula. Da mesma forma que sempre critiquei no Barcelona e na selecção espanhola a ausência de um plano B que se afaste da sua matriz, também tenho de criticar esta falta de paciência crónica no jogo do Madrid.

Quanto a Modric, comecei a segui-lo ainda no Dinamo. É um jogador de toque, talentoso e do melhor que há no futebol europeu. Mas rende mais quando joga atrás do avançado (posição de Ozil), do que sentado mais atrás, como Xavi ou Xabi Alonso, a pensar o jogo. Granero e Sahin movem-se mais nessa área do que ele. Modric poderá parar o jogo ocasionalmente mas é o ritmo colectivo que lhe vai ditar o ritmo de jogo individual e acabará por puxar o seu lado de velocista. Tem óptimo controlo em movimento, lê bem as desmarcações e remate de longe melhor do que Alonso ou Ozil. Mas vejo-o mais no posto de Ozil, genial mas sempre irregular, do que no de Khedira/Alonso, apesar de conceder que seria o jogador ideal para mudar do 4-2-3-1 actual a um 4-3-3, coisa que não vejo Mourinho a fazer.

um abraço

PS: Kaká não teve sucesso porque privilegiou o Mundial de 2010 e destroçou-se fisicamente e à imagem de um técnico moralmente exigente. Sahin não teve físico e capacidade mental para se impôr. Quanto a Pedro Leon e Canales são jogadores diferentes mas não exibiram nunca nada que lhes justificasse estar no plantel do Real Madrid.


De DC a 27 de Agosto de 2012 às 22:31
Mas alguma vez tiveram oportunidade de o exibir?
Não era no banco ou na taça do rei contra equipas de 3ª que o fariam. E Léon, ainda nem tinha jogado e como se deve lembrar já estava a ser humilhado publicamente por Mourinho.


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Agosto de 2012 às 22:38
DC,

Pedro Léon quebrou a regra sagrada dos balneários, algo que Mourinho não admite a ninguém. Traçou o seu próprio destino dentro da sua imaturidade, mas já ao serviço do Getafe sempre me deixou dúvidas sobre o seu potencial.

Canales mostrou ser jogador de uma técnica tremenda mas nas equipas de Mourinho jovens de talento sem fisico e disciplina táctica para aguentar a intensidade que exige não têm lugar. Em Valencia, um clube de primeiro nível, vi pouco do Canales que conheci no Racing. Espero que volte em melhor forma esta época.

um abraço


De filomeno a 27 de Agosto de 2012 às 18:19
La solución a los problemas del Real Madrid reside en colocar en el centro del campo a Modric y a Esteban Granero; y, sobre todo, el fichaje de un portero que ofrezca garantías en las jugadas a balón parado y salidas por alto......¿No habrá alguno de esas características en el Campeonato Portugués?


De MM a 27 de Agosto de 2012 às 19:50
Tuvimos un excelente hace 2 años, Roberto, que actualmente juega para Zaragoza. Posiblemente el mejor portero en Portugal en los últimos años. De la misma escuela que Bossio, buena elección para Madrid.


De fdf a 27 de Agosto de 2012 às 20:34
Tu és macaco!


De filomeno a 29 de Agosto de 2012 às 11:07
Obrigado


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Agosto de 2012 às 21:29
Filomeno,

Não vejo em Casillas a mesma insegurança nas bolas áreas com a camisola de Espanha, pelo que o problema deve estar noutro lado.

Jogar com um 4-3-3 com Khedira, Alonso e Modric e com Granero e Ozil como alternativas é uma opção válida. O Madrid já jogou com essa táctica, mas com Lass ou Coentrão no meio, alguns jogos na época passada e Modric dá mais segurança táctica que Ozil e mais talento do que Lass.

um abraço


De Conseguir dinheiro a 27 de Agosto de 2012 às 19:11
Não tenho dúvidas que a situação vai mudar e rapidamente.


De Miguel Lourenço Pereira a 27 de Agosto de 2012 às 21:30
É inevitável, com o plantel que tem o Real só pode melhorar. E o Barcelona engana pelos números, foram 5 bons minutos de Messi a apagar 90 maus minutos do Barcelona em Pamplona ontem!


De MEME a 28 de Agosto de 2012 às 11:09
You're stupid and you should feel stupid.


De CRG a 28 de Agosto de 2012 às 12:38
Viva,

Do título pensei que o texto fosse centrar mais na figura do treinador e a forma como as suas decisões são avaliadas.

Mais do que nunca a competência de um treinador é medido através da sua imagem.

E não há treinador no mundo que tenha conseguido criar uma melhor imagem que o Mourinho.

Claro que sem resultados a imagem é insuficiente mas as mesmas opções tomadas por outros treinadores seriam alvo de criticas e a sua competência seria colocado em causa.

Por exemplo o jogo do Inter em Barcelona na meia-final da champions foi apelidada de genial. Tivesse sido outro qualquer treinador e teria sido objecto de ataques ferozes, acusações de anti-jogo, etc.

Abraço

PS: Continua a achar que o Mourinho é o melhor treinador do mundo.



De Miguel Lourenço Pereira a 28 de Agosto de 2012 às 13:46
CRG,

A imagem de Mourinho é espelho dos seus resultados. Ser The Special One é para ele uma consequência do que ganhou antes de sê-lo e do que continuou a ganhar, gerando ilusão nos adeptos dos clubes por onde passa.

Mourinho não é um inovador táctico mas é um treinador que domina muitos registos tácticos. No FC Porto e no Chelsea manobrou-se bem entre o 4-3-3 e o 4-4-2 em losango, com o Inter variou do 4-3-3 ao 4-3-2-1 ao 4-5-1. Em Madrid tem-se aferrado, em demasia, ao 4-2-3-1 utilizando, em posturas mais defensivas, um 4-3-3 de pressão alta, como ele lhe chama.

O problema de Mourinho, que o é também com outros treinadores (lembro-me de Ferguson, por exemplo) é nunca assumir o erro do seu planteamento táctico mesmo quando é evidente que a decisão que toma tem responsabilidade directa no resultado final. Dentro do balneário pode recriminar os jogadores que quiser, o que não pode é assobiar para o lado porque nem as vitórias têm muitos pais nem as derrotas devem ter só um.

PS: Continuo a achar Mourinho, juntamente com Guardiola, Wenger, Ferguson e Bielsa, o melhor treinador da última década.


De MeusResultados.com a 28 de Agosto de 2012 às 17:56
Caro Webmaster,

Consideramos o seu site muito interessante e gostaríamos de propor uma parceria de troca de links.

Antecipadamente gratos pela sua resposta,

MeusResultados.com
support@meusresultados.com


De Miguel Lourenço Pereira a 29 de Agosto de 2012 às 00:20
MeusResultados,

Obrigado pelo convite. No entanto o Em Jogo não realiza habitualmente troca de links com sites de apostas ou que não sejam blogues de opinião/informação.

Qualquer dúvida, contacte-me por correio electrónico.

cumprimentos


De Victor Hugo a 29 de Agosto de 2012 às 23:06
Olá. Sou brasileiro e é a primeira vez que freqüento este blog e fiquei admirado com a qualidade dos textos, algo raro por aqui. Parabéns, Miguel Lourenço Pereira.
Quanto ao tema, e ao Mourinho em especial, nunca o achei um grande técnico do ponto de vista da inovação tática, como um Bielsa ou um Zeman, mas sem dúvida é um técnico vencedor, e isso no futebol atual, que cobra muito mais resultado do que bom futebol (vide o Chelsea de Di Matteo), é primordial.
Porém, pra mim, na área tática, Roberto Martinez, por exemplo, se mostra bem melhor que Mourinho atualmente.


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Agosto de 2012 às 15:27
Victor Hugo,

Obrigado pela visita, pelas palavras e pelo comentário. Recomendo também a visita ao site Futebol Magazine, do qual sou editor, com um lado alternativo do futebol.

Quanto a Mourinho, está claro que tacticamente não provocou nenhuma inovação significativa, mas no aspecto motivacional e de treino é um dos melhores da história. Transforma as suas equipas em conjuntos compactos, competitivos e intensos e com isso disfarça muitas das carências tácticas que exibem em jogos mais complexos.

um abraço


De Conseguir dinheiro a 30 de Agosto de 2012 às 02:16
Hoje foi vitorioso contra o Barcelona, uma boa vitória.


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Agosto de 2012 às 15:28
Vitorioso sim, mas quando teve a oportunidade de fazer sangue, como sucedeu sempre com o Barça de Guardiola, a equipa deu dois passos para trás e sofreu até ao último segundo. Se fosse treinador daquela equipa não teria ficado satisfeito.


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