Terça-feira, 21 de Agosto de 2012

Messi marca dois golos em cinco minutos. O Valencia mostra ser o único capaz de resistir à ditadura goleadora do Real Madrid. O Barcelona arranca a época com goleada. Os golos escondem a pobreza da maioria dos duelos. A época é nova mas a realidade mantém-se igual. O futebol espanhol parte para a nova temporada com o orgulho do título europeu renovado e a certeza que o duelo Barça-Madrid vai voltar a ser até ao fim.

 

Higuain. Jonás. Puyol. Castro. Messi. Messi. Pedro. Villa.

Entre eles se repartem os oito primeiros golos marcados nos dois jogos de Barcelona e Real Madrid, esse clube exclusivo que mantém o interesse do  Mundo numa liga cada vez mais mal organizada, cada vez mais dividida entre uns e outros e cada vez mais distante da imagem de supremacia absoluta que exibe, com orgulho, a selecção do país vizinho.

Semana após semana adeptos dos quatro cantos do Planeta vão parar para ver, ler, ouvir e seguir atentamente os combates à distância entre os dois máximos candidatos a todos os títulos da época, espanhóis e europeus. A diferença de planteis e orçamentos dos dois clubes com o resto é tal que esse duopólio se torna inevitável. Sem resolver a negociação dos direitos televisivos, o fosso aumenta e com ele esse espirito quase claustrofóbico em que vive o futebol espanhol. O Valencia demonstrou no primeiro jogo o que tem vindo a conseguir nos últimos cinco anos. É o único clube que, apesar dos problemas financeiros, se mantém minimamente perto do duo da frente. Mas com uma distância considerável. O empate no jogo inaugural do Bernabeu não é novidado. O ano passado houve menos dois golos mas os pontos foram divididos da mesma forma. O Real venceu o título, o Valencia venceu o título da outra liga. E o Barcelona, em casa, goleou. Como fez quase semrpe nos 19 jogos disputados no último ano de Guardiola. O novo comandante da nau blaugrana, Tito Vilanova, prometeu manter-se fiel ao guardiolismo sem guardiola. Os números e o estilo de jogo dão-lhe razão. Poucos deram pela diferença. Messi continua a ser Messi, e quando é assim, os golos surgem com uma naturalidade única. Foram dois em cinco minutos. Podiam ter sido mais dois. Ninguém teria ficado demasiado surpreendido. A vitória do Barcelona entrega-lhe não só a liderança matemática na primeira ronda, o que é irrelevante, como deixa boas sensações para o primeiro combate de boxe a sério entre blaugranas e merengues, uma Supertaça express a decidir em poucas horas e com muito simbolismo à mistura.

 

Na passada época o Real Madrid começou a dar sinais de que esse podia ser o seu ano no duplo confronto inicial com o Barça.

Perdeu o titulo mas ganhou em futebol, ganhou em confiança e autoridade. A pré-época tinha sido feita a pensar na simbologia desse duelo e no final as pernas começaram a faltar também por culpa dessa obsessão de Mourinho. Este ano o português prometeu pensar mais na liga e na Champions e menos no seu duelo pessoal com o clube catalão. Já lhes venceu na Copa del Rey, já lhes venceu na Liga e agora a Champions é a última fronteira. Com ou sem simbolismo a Supertaça pareça, nesse sentido, algo supérfulo a todos os sentidos. Mas em Barcelona não o é.

O clube é um leão ferido e depois de uma semana dolorosa, onde perdeu liga, Champions e um treinador de lenda, vencer o primeiro confronto directo com o eterno rival pode ser um bálsamo precioso. A chegada de Song traduz-se numa adaptação definitiva de Mascherano a central. O golo de Villa garante que o Guaje é o reforço no ataque que fazia falta e com os mesmos de sempre, Vilanova sabe que tem o melhor plantel da Europa à sua disposição. A pressão é imensa mas a margem de crescimento é evidente.

O Mundo, esse, continuará a ver nos duelos Barcelona-Madrid a essência do futebol espanhol, passando ao lado da crua realidade.

Clubes com salários em atraso há meses, contratos televisivos desrespeitados, horários insultuosos, guerras de poder nos bastidores, jogadores de talento que se vão e poucos que chegam e, sobretudo, uma progressiva perda de qualidade nas equipas de meio da tabela. As baixas no Athletic de Bilbao de Bielsa, a juventude do Atlético de Simeone, entregue agora a um rapaz de 17 anos que despontou no Europeu de sub-19, a falta de liquidez do projecto de Pellegrini com o Málaga e os orçamento apertados de Sevilla, Bétis, Espanyol, Mallorca, Deportivo, Real Sociedad, Getafe ou Levante não deixam de preocupar o adepto neutral que, face a esse cenário, não se pode surpreender quando, semana atrás semana, Messi e Ronaldo goleiam a seu belo prazer defesas que, na totalidade, valem metade das suas botas. 

 

O futebol espanhol continua entretido a brincar aos títulos europeus e mundiais e aos duelos de capa e espada de Barcelona e Madrid. Por detrás da glória há um imenso problema estrutural que foi a base da depressão que vive agora a Série A. O dinheiro começou a faltar, os clubes que aspiravam a algo foram desaparecendo, a televisão não acompanhou as mudanças e a Liga estagnou até morrer à sede. Mediaticamente continua a ser um torneio apaixonante por esse duelo maratoniano, mas futebolisticamente a Liga espanhola vai caminhando, progressivamente, para uma long depressão. Novo ano, nada de novo! 



Miguel Lourenço Pereira às 00:08 | link do post | comentar

4 comentários:
De fazer dinheiro a 21 de Agosto de 2012 às 18:16
Realmente o GAP entre estas equipas e as outras é enorme e também não estou a ver como dar a volta a isto.. mas que a situação é dramática, não há dúvida.


De Miguel Lourenço Pereira a 22 de Agosto de 2012 às 00:48
Com a diferença de orçamento actual e a gestão desportiva ultra-competitiva de ambos os projectos é impossível!


De t a 22 de Agosto de 2012 às 12:52
Em Espanha Barcelona e Real são muito melhores, mas os clubes médios em Espanha são muito bons. Veja-se quem venceu a Liga Europa e quem foi à final, veja-se o histórico recente de Valência, Sevilha ou até Villarreal nas competições europeias.
Diria até que neste momento em Inglaterra só há tanta competitividade devido ao investimento milionário. O que seria do City e do Chelsea sem os milhões que vieram de fora?
Em Espanha qualquer Deportivo ou Real Sociedad podiam tornar-se em colossos se um Abramovich lhes pegasse. A grande diferença é essa!
Admito que a liga inglesa tem melhor organização e melhores adeptos, mas também tem um futebol muito mais rudimentar e mais violento, portanto não me parece que Espanha esteja tão mal.
Afinal se Ronaldo, Fabregas, Piqué, Mascherano, Song, etc quiseram vir para Espanha não foi por acaso.


De Miguel Lourenço Pereira a 22 de Agosto de 2012 às 23:52
T,

Começando pelo fim, os jogadores que cita - entre outros - não quiseram vir para "Espanha", quiseram ir para o Real Madrid e o Barcelona que existem para lá dessa realidade. Se jogassem noutra liga mas tivessem o mesmo impacto social, teriam o mesmo tipo de jogadores.

Quanto à liga discordo absolutamente. Os clubes espanhóis vivem profundamente individados e é por isso que conseguem competir tão bem na Europa. É fácil ganhar provas quando todo o orçamento é destinado a isso e quando as contas não se pagam, quando as dividas são perdoadas e os empréstimos se acumulam. O Atlético em 3 anos venceu duas Europe Leagues e é um dos clubes mais fraudulentos por excelência do futebol mundial, sob a regra do Fair Play da UEFA nem sequer nas provas europeias poderia entrar.

O Valencia vive numa divida asfixiante e o Sevilla há quatro anos que não tem orçamento para disputar sequer por um lugar da Champions League. O Málaga, com todo o investimento realizado, deve a todos os seus funcionários e o mesmo se vive com o Mallorca, com o Deportivo ou com o Bétis.

As equipas espanholas na Champions League, ao contrário das ingleses, portam-se sempre muito mal, salvo o duo Barça-Madrid. Nenhum outro clube espanhol venceu uma Champions e só o Atlético, em 76, e o Valencia, em 2000 e 2001, chegaram sequer a ser finalistas vencidos. É aí que se vê o abismo, não na Europe League, onde italianos, ingleses e franceses preferem nem competir a sério.

um abraço


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