Sexta-feira, 17 de Agosto de 2012

No episódio da silly-season protagonizado por Luisão o que mais preocupa nem é sequer o gesto do defesa brasileiro. Nem a atitude exagerada do árbitro alemão. O mais triste é constatar que o clube que já representou Portugal ao mais alto nível caiu numa crise profunda de valores. Este incidente não só deixa a nu a falta de moral do clube encarnado como abre um perigoso precedente para o futuro imediato.

 

De suposta agressão a conspiração alemã.

Na família benfiquista o episódio de Luisão transformou-se agora numa conspiração internacional liderada desde Berlim pelo governo alemão contra o Benfica e o futebol em Portugal. Seria talvez o cumulo do absurdo se não fosse provavelmente apenas mais um dos muitos comentários que se seguirão a ouvir sobre este triste caso desde a Luz. Pragal Colaço, homem de confiança da direcção, presença assídua em tertúlias do canal oficial do Benfica, advogado conhecido por achar que a violência é o caminho que os encarnados têm de seguir para recuperar a hegemonia do futebol português, não surpreende com as suas declarações. Mas deixa em evidência a direcção sem norte nem sul de um clube que foi um símbolo de moralidade durante largos anos.

O árbitro do Fortuna Dusseldorf - Benfica, o alemão Christian Fischer, não caiu sozinho. Não foi empurrado pelo ar nem tropeçou na própria sombra. Luisão, capitão ou não, não pode actuar como actuou. Seja isso uma agressão, um encosto premeditado, um choque de peito. O jogador - um internacional com uma carreira de mais de uma década - devia saber que o árbitro é uma figura sagrada no universo desportivo. E no árbitro não se toca. De nenhuma forma. Muito menos com o peito, muito menos com a arrogância de quem vem reclamar razão num lance em que o seu colega de equipa fica muito mal na fotografia. Luisão devia sabê-lo. Esteve no Mundial de 2002, o mesmo em que João Vieira Pinto mostrou aos portugueses o que não fazer a um árbitro num jogo oficial. Pagou por isso. Portugal também. Mas se Luisão depois de tanto anos como jogador não sabe que não pode tratar o árbitro de um jogo, oficial ou não, como um colega de rua, então o Benfica devia sabê-lo. Esse é o grande problema.

 

Não me admira que na Alemanha estejam estupefactos com este caso.

Com a actuação do benfiquista, com a reacção algo exagerada do árbitro mas, sobretudo, com a actuação do clube.

O Benfica, sob o mandato de Luis Filipe Vieira, tem vindo progressivamente a afastar-se da imagem do clube que foi. Vencer a todo o custo, seja a sustentabilidade financeira ou moral da instituição, tornou-se na palavra de ordem. Foi assim nos últimos anos com queixas de vários clubes à actuação de jogadores, técnicos e directivos dentro e fora do relvado. Foi assim no ano em que se sagrou campeão com Jorge Jesus ao leme, uma equipa que começou o ano a jogar um futebol fantástico e que acabou a temporada asfixiado física e psicologicamente, e a pedir a hora. Foi assim quando impediu o FC Porto de celebrar um titulo apagando as luzes de um estádio que já iluminou o futebol português. E tem sido na forma como tem dado aos jogadores carta branca para agir no relvado com total impunidade moral. 

O Benfica que se fez grande era um clube onde não havia espaço para atitudes como a de Luisão

Antes de qualquer sanção a UEFA, FPF ou FIFA, devia ter sido o próprio clube a recriminar pública e internamente o seu capitão. Há acções que não se podem permitir a ninguém. Devia ter sido o clube a dar o exemplo moral, castigando Luisão com a perda da braçadeira, com uma suspensão interna ou uma multa pecuniária. Qualquer um desses gestos teria sido suficiente para demonstrar uma autoridade moral de um clube campeão que sabe estar no mundo. Não seria uma decisão consensual nem fácil mas as decisões correctas nunca o são. 

O que fez o clube foi remar a favor da corrente mas rumo a um precipício. Destroçou, um pouco mais, o escudo que representa ao tratar o árbitro como um actor de comédia, um agente ao serviço de outros interesses, um símbolo do anti-benfiquismo. Ao transformar o agressor em vitima, em herói de resistência, capaz de unir um balneário com um gesto que merecia reprovação de todo o plantel. Agiu no sentido de desculpabilizar e com isso acabou de assumir a culpa de ser uma nau sem capitão, à deriva. Um clube mais pequeno.

 

Sob a gestão da FPF parece evidente que Luisão não receberá nenhum tipo de sanção desportiva. A justiça desportiva portuguesa não é algo propriamente de que um cidadão se possa fiar. Mas mesmo que o central fosse suspenso, de alguma forma, a atitude do clube já está retratada para a posteridade. Os adeptos e associados do clube que ainda é aquele que mais títulos de campeão nacional ostenta, mandou uma mensagem clara e directa. Contra ventos e marés, custe o que custar, pisando o que seja preciso pisar, o Benfica carrega contra tudo e contra todos. Pode servir para ganhar um votos em Novembro, mas também servirá para que alguém no futuro olhe para trás e diga que os valores deixaram de vestir de encarnado há muito tempo. 



Miguel Lourenço Pereira às 00:29 | link do post | comentar

11 comentários:
De Henrique a 17 de Agosto de 2012 às 01:44
Fantástico artigo.


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Agosto de 2012 às 01:46
Henrique,

Obrigado!

um abraço


De João Coelho a 17 de Agosto de 2012 às 10:29
Este episódio demonstra bem ao ponto que se chegou no futebol português em termos de falta de cultura desportiva - e digo-o porque tenho perfeita consciência de que a maioria dos clubes e dirigentes fariam o mesmo que o Benfica está a fazer. E isso é que é preocupante. Porque apesar de perceber que um clube nesta situação teria sempre que proteger o jogador o máximo que pudesse, protegendo assim a própria equipa, e tentando minimizar os estragos, não me pafrece aceitável e até inteligente não assumir responsabilidades e pedir desculpas a quem de direito. Sinais dos tempos.
Mas devo ainda dizer que se me parece que o Benfica se portou muito mal nesta história, mais estarrecido fiquei com a reacção e discurso de outros agentes: comentadores e jornalistas desportivos, nomeadamente de um jornal com tradições e responsabilidades, como A Bola, que alinharam totalmente na versão benfiquista, sem qualquer réstia de decência, de compromisso com a verdade, nada! Enfim, quando os supostos arautos da moral, da lisura de processos, da transparência, se comportam assim, estamos conversados. Assim caiem as máscaras. João Coelho


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Agosto de 2012 às 18:29
João,

Sem dúvida.
O clube protege o jogador, mesmo manchando a sua imagem, e o jogador faz o que é melhor para si, sem pensar na instituição histórica que representa. Mas que os adeptos, sócios e dirigentes com responsabilidades directivas e sociais alinhem facilmente no mesmo facilitismo moral é que se torna na verdadeira vara de medir, neste caso, de como está o Benfica dos dias de hoje.

Estes são os mesmos que desculparam os jogadores no final do Euro 2000, a acção de JV Pinto em 2002, a de Scolari em 2007 contra a Sérvia e assim continuarão. Por cá, somos todos anjos.

um abraço


De Rodrigo Paiva a 17 de Agosto de 2012 às 14:25
Em primeiro lugar queria felicitar o autor deste post . Estou inteiramente de acordo com o que escreveu, devo dizer que sou sportinguista, mas ao contrário da maioria dos sportinguistas não sou anti-benfiquista e penso que se o jogador em questão fosse do Sporting ou do Porto a reacção seria igual. O que me levou a comentar este post foi exactamente a falta de rigor e disciplina que existe no futebol português em geral e nos clubes em particular. É por situações como esta que depois não somos bem vistos nas altas instancias internacionais ( não é que me faça muita confusão, pois sabemos que não são propriamente meninos de coro) e ninguém nos leva a sério. Cumprimentos


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Agosto de 2012 às 18:19
Rodrigo,

Muito obrigado pelas palavras.

Efectivamente o clubismo neste tipo de casos não faz sentido. Não seriam tratados de forma diferente em qualquer outro clube português, grande ou pequeno, e há muito que o futebol português perdeu a vergonha a todos os níveis.

Luisão fez o que fez porque está habituado a fazê-lo e sair impune. Que a UEFA permita que a alçada do caso caia sobre a FPF só confirma o desinteresse por estes lances quando não são jogos com importância mediática - onde aí sim, há mão dura sempre - e que tudo vai acabar em águas de bacalhau.

um abraço


De Henrique Cordeiro a 17 de Agosto de 2012 às 20:05
Se a hipocrisia matasse já tinhas uma pedra mármore por cima. Nunca vi essa preocupação nem esse raciocìnio a quando dos "pedros silvas" dos "beluchis", etc.
Só no Benfica é que não há valores?Não há pachorra para gente tão quadrada.
Henrique Cordeiro


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Agosto de 2012 às 20:43
Caro Henrique,

Todas as situações, independentemente do clube, similares a este caso são criticadas por este blog quando sucedem. A falta de valores no futebol português em geral ultrapassa o clubismo, esse é que é o grande problema. Decidir este caso de acordo com a cor da camisola simplesmente justifica o porquê de as coisas estarem como estão.

cumprimentos


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Agosto de 2012 às 00:16
Caro Henrique,

Todas as situações, independentemente do clube, similares a este caso são criticadas por este blog quando sucedem. A falta de valores no futebol português em geral ultrapassa o clubismo, esse é que é o grande problema. Decidir este caso de acordo com a cor da camisola simplesmente justifica o porquê de as coisas estarem como estão.

cumprimentos


De Leoninamente!!!... a 18 de Agosto de 2012 às 00:35
Tomei a liberdade de partilhar, sem o consultar, em "Leoninamente" e, indirectamente, nas minhas páginas do Facebook e Twitter, o seu fantástico texto. Penso que não me levará a mal.

Cumprimentos


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Agosto de 2012 às 17:30
Leoninamente,

Naturalmente que não.
Obrigado pela referência.

um abraço


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