Sexta-feira, 13 de Julho de 2012

A decisão da Liga Portuguesa de Futebol apanhou todos de surpresa. Numa situação económica sem paralelo na história do desporto português, a Liga acabou com uma das fontes de sustentabilidade da esmagadora maioria dos clubes profissionais portugueses. Mas também colocou o ponto final a uma politica de obscuro controlo politico por parte dos clubes grandes sobre a imensa minoria dos pequenos e médios clubes. Financeiramente desastrosa a medida de acabar com os empréstimos na Liga Sagres não deixa de ser moralmente necessária.

Podem os clubes portugueses sobreviver a uma medida que eles próprios aprovaram contra o seu interesse?

Esse espiro auto-destructivo do nosso futebol é único no Mundo. Numa prova onde mais de 80% dos clubes contam com jogadores emprestados (na esmagadora maioria mais do que 3 até), terminar com os empréstimos parece um contra-senso. E financeiramente é mais do que isso, um verdadeiro hara-kiri. Equipas da segunda metade da tabela que vivem sobretudo do fluxo de empréstimos que chega dos grandes terão agora de encontrar plantéis competitivos pagando do seu próprio bolso o que até agora era maná dos céus. Terão de procurar dinheiro onde ele não existe - na situação actual, com emprestados, ele já é uma utopia - para fechar os plantéis para a próxima temporada e para arcar os gastos salariais de 100% dos jogadores, algo que até agora só seis clubes em Portugal o faziam.

 

E isso quando é hoje em dia bastante proveitoso apostar o que quer que seja no www.casinoonline.pt ou num outro site de apostas num jogador português.

 

A medida, de tão drástica que é, pode parecer anedóctica. Afinal, se a ideia era acabar com a politica de empréstimos havia sempre opções mais tolerantes, como proibir o número máximo de jogadores emprestados num clube ou proibir igualmente a proveniência de mais do que um jogador do mesmo clube de origem. Mas nenhum desses cenários, à inglesa, foi contemplado. De um golpe só a Assembleia Geral, numa proposta do Nacional da Madeira secundada pelo Sporting CP, declarou guerra ao poder instituído de FC Porto e SL Benfica tentando minimizar assim a sua asfixiante influência junto dos clubes pequenos do nosso futebol. Porque se há algo que é evidente neste conflicto é a absoluta falta de moralidade de um sistema que foi criado para ajudar a desenvolver jovens jogadores das equipas grandes e para resolver problemas pontuais dos clubes médios e pequenos e que acabou por se tornar numa forma controlada de exercício de poder por parte de águias e dragões.

 

O cenário é fácil de analisar.

FC Porto e SL Benfica descobriram há alguns anos que melhorar as relações com clubes "aliados" passava, muitas vezes, pelo simples gesto de garantir facilidades em empréstimos dos seus excedentes. Desde 2002 até hoje o tamanho dos quadros oficiais de jogadores de ambos os clubes duplicou e com mais de 20 jogadores sob contrato e sem colocação, a politica de emprestar para ganhar influência na tomada de decisões da Liga tornou-se evidente. Ambos os clubes estabeleceram laços com várias instituições, emprestando dois, três, quatro, cinco e até seis jogadores num só ano. Jogadores de talento, jogadores cujo o salário era habitualmente pago na totalidade pela casa mãe e jogadores que saiam duplamente grátis o que permitia, a curto prazo, que um plantel de 25 composto por seis ou oito emprestados levasse os clubes a gastar o que não tinham noutros jogadores, especialmente estrangeiros, muitas vezes com comissões de empresários afiliados aos clubes grandes com quem mantinham relações. Essa forma de mover dinheiro e influência resultou enquanto a crise não apertou forte.

Poucos questionavam os planteis gigantescos dos dois grandes, poucos criticavam os negócios pouco claros entre grandes e pequenos com jogadores que surgiam do nada e poucos pensavam que o dinheiro que os pequenos e médios clubes podiam ter poupado com isto estivesse a ser mal gasto em negócios com empresários escolhidos a dedo. Mas a crise chegou e para todos.

Primeiro os clubes grandes começaram a perceber que ter tantos jogadores sob contrato podia ser um problema e começaram a emprestá-los para clubes estrangeiros que, esses sim, já se faziam cargo de partes substanciais da sua ficha salarial. Por outro, os clubes pequenos deixaram de ter dinheiro liquido para investir e tornaram-se ainda mais dependente dos empréstimos. O caso da União de Leiria é paradigmático mas não é único.

Mas é preciso ver realmente quem está por detrás desta ideia. Clubes como o Feirense, que apostam em jogadores a custo zero, jogadores nacionais e jogadores que pertencem ao clube. Clubes que são incapazes de acreditar como há equipas que ano após ano se salvam agonicamente da despromoção com planteis cuja metade dos jogadores vem de um dos grandes, num autêntico acto de concorrência desleal. Clubes que, na segunda divisão, sabem quanto custa fazer um clube sustentável e competitivo e que, quando entram na elite, têm dificuldades em sobreviver se não entram no esquema de protecção de um dos grandes.

A reunião da Assembleia Geral contou com 9 votos contra, 1 abstenção e 19 votos a favor. Os clubes que apoiaram a iniciativa foram, esmagadoramente, os clubes da Liga Orangina. Eles, que este ano não terão de se confrontar com a lei, sabem que subir à primeira divisão será complicado mas, uma vez aí, o fosso entre os que já estão a lutar pela despromoção e eles será claramente inferior com esta medida.

 

O fim dos empréstimos é um caos financeiro mas é também uma porta aberta para o futebol português.

Juntamente com o aparecimento das equipas B e a necessária reorganização dos direitos televisivos, é uma medida que não só ajuda a limpar moralmente a competição como contribuiu, na sua essência, para uma nova aposta na formação. Os clubes, sem poder viver dos empréstimos, e sem dinheiro para ir ao mercado terão, forçosamente, de recorrer aos jogadores da casa. O mais provável é que se assista a uma maior quota de jogadores portugueses de formação própria nos clubes nos próximos anos. Mais, os clubes grandes, até agora habituados a comprar os jogadores que mais rapidamente se destacavam em emblemas inferiores, sabendo que os podiam usar como isco durante os anos seguintes, terão agora de pensar duas vezes. Contratar um jogador que não funcione no esquema da equipa principal acontece a qualquer um, mas nem todos estarão preparados para passar para a equipa B (o caso do benfiquista Djaniny é um bom exemplo) nem para ser emprestados ao estrangeiro, movimentos que aos clubes não traz nenhum lucro financeiro e politico. Sendo assim, com o dinheiro a escassear, os planteis a emagrecer, o aparecimento das equipas B como ponte de transição para os juniores, os grandes deixam de ter necessidade de atacar o mercado da mesma forma e jogadores como Hugo Vieira ou Fabiano, poderiam passar mais uns anos no seu clube de origem o que, a médio prazo, significa uma profunda melhoria dos clubes da classe média portuguesa, os que desapareceram nos últimos 10 anos, clubes como o Boavista e Belenenses, Vitória de Guimarães ou Maritimo, a maior parte dos quais passando a depender de uma politica de sobrevivência sem qualquer tipo de ambição.

 

Uma liga mais transparente é no entanto um conceito utópico no mundo do futebol. Seguramente que haverá manobras para contrariar a lei. Em Itália utilizam o método da co-propriedade, em Espanha o da venda com cláusula de recompra por valores irrisórios e ninguém põe de parte que uma nova directiva da Liga, pura e simplesmente procure eliminar a medida para agradar a águias e dragões. Mas o primeiro e necessário passo foi dado. Haverá clubes que irão sofrer mais do que outros com esta medida porque têm dependência crónica dos empréstimos e esses serão os primeiros a desaparecer. Mas a médio prazo a medida pode não só agilizar a aposta na formação e nos jogadores nacionais como restabelecer um equilíbrio no meio da tabela que só ajudará a fazer da Liga Sagres uma prova ainda mais competitiva.



Miguel Lourenço Pereira às 18:49 | link do post | comentar

7 comentários:
De Afonso a 14 de Julho de 2012 às 04:32
o texto em si está bom e faz sentido mas o que revela a profunda ignorancia e má fé de quem o escreveu é isto:

algures se escreve "os dois grandes" quando o termo correcto seria "os dois grandes corruptos".

o seu problema é não reconhecer que o SCP, apesar dos ultimos 3 ou 4 anos miseraveis, em que erros proprios e corrupção se juntam para o enfraquecer, ganhou mais titulos e fez mais 2ºs lugares que o slb esta época..

como em termos de marca, historial clubistico (não apenas futebol de 11) e massa adepta continua tão grande ou maior que os outros, o seu primeiro problema é não escrever esta peça centrado no facto do SCP, clube por detrás do sucesso da selecção nacional deste país, não enveredar por esses caminhos que descreve e que enojam qualquer verdadeiro amante do desporto.

qualquer artigo sobre este tema tem de falar do verdadeiro "grande", porque para além de massa humana/historial/formação desportiva/raizes nos quatro cantos do mundo/filiais e academias da china ao canada ao EUA , porque grande de principios e valores morais.

o SCP é parte central e determinate no combate por um desporto limpo/equilibrado e competitivo em Portugal e a omissão disso mesmo neste texto mostra a enorme vontade de o querer esconder, porque não acretito que a sua ignorância seja tão evidente como parece.


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Julho de 2012 às 14:10
Afonso,

Não tenho a mais mínima dúvida que o Sporting tem uma postura radicalmente diferente de SL Benfica e FC Porto neste assunto, como em outros, e que foi o seu apoio à moção do Nacional que permitiu o projecto avançar.

Mas não precisa de se ofender porque, se digo "dois grandes", nesta temática, é precisamente para reforçar que esta politica é seguida por dois dos grandes, SL Benfica e FC Porto, como o texto bem explica.

O Sporting tem mais títulos que o Benfica na última década, sem dúvida alguma, e se há quem leve até às consequências essa ideia de "grandeza", o Sporting tinha de ser incluído forçosamente. Este não é o tema deste assunto, o Sporting por culpa própria, em muitos casos, perdeu a força, influência desportiva e extra-desportiva e seguiu por um rumo que não só o levou à falência como também destroçou as suas opções futebolísticas em aspirar a mais. De um clube que somou quatro segundos lugares consecutivos passamos a um projecto que luta com o Braga pelo terceiro lugar. Mas isso não está em discussão.

Não seja tão susceptível com este assunto, o não mencionar do Sporting não é uma tentativa de o esconder do público mas sim de o diferenciar dos outros dois grandes.

um abraço


De Joao Silva a 20 de Julho de 2012 às 15:46
O Sporting teve 8 jogadores emprestados a clubes da primeira divisão a época passada.
Adrien
Cedric
João Gonçalves
Mexer
Wilson Eduardo
Turam
André Marques
Rosado

O FCP teve 8.
O Benfica 10.

Quando se cospe para o ar...


De Miguel Lourenço Pereira a 20 de Julho de 2012 às 17:36
João,

Obrigado pela informação, excelente aportação ao debate.

Está claro que a postura da direcção actual do Sporting não coincide com a sua politica na última temporada. Não surpreende, por um lado, porque se não me engano na passada pré-época os leões compraram quase mais de meio plantel no mercado.

Imagino que agora pretendessem derivar todos os jogadores excedentes para a equipa B, a manobra lógica a partir do momento em que se aprovou o regresso das equipas Bs.

um abraço


De Afonso a 14 de Julho de 2012 às 04:35
*esta época

**esta decada e pouco, 2000/2012


De Alexandre a 14 de Julho de 2012 às 11:31
Muito bom post. Concordo na íntegra,


De Miguel Lourenço Pereira a 14 de Julho de 2012 às 14:10
Alexandre,

Obrigado!

um abraço


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Miguel Lourenço Pereira

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