Segunda-feira, 9 de Julho de 2012

Carlos Alberto Parreira, campeão Mundial em 1994, tinha adiantado que o futebol acabaria mais tarde ou mais cedo com a figura do ponta-de-lança como fez com a do extremo puro, do número 10 clássico e com o líbero. Anos depois Luciano Spaletti e Alex Ferguson foram os primeiros a tentar implementar o 4-6-0 e Josep Guardiola levou a experiência ao extremo ao jogar num 3-7-0 na final do Mundial de Clubes frente ao Santos. O triunfo espanhol neste Europeu - o seu terceiro seguido em provas internacionais - e o fraco rendimento da maiores dos avançados que viajaram até à Polónia e Ucrânida deixa a pergunta no ar: está o ponta-de-lança perto da extinção?

Nos últimos anos os melhores marcadores do mundo (com diferença absimal para a concorrência) têm sido falsos avançados.

Entre eles somam uma média de quase 150 golos num só ano desportivo, uma barbaridade de números que nem os melhores avançados da história poderiam sonhar. Mas Lionel Messi e Cristiano Ronaldo não são pontas-de-lança. E chamá-los avançados também não é propriamente correcto. Eles são o espelho da nova ordem futebolistica, onde a posição do velho 9 começa a desaparecer.

Se o futebol espanhol colocou de moda em 2008 o tiki-taka, fê-lo com um avançado centro móvel (Fernando Torres) e um outro avançado habitualmente descaído nas bandas (David Villa). Um modelo longe da ortodoxia táctica mas que não era único no mundo. Desde que mudou o século, a maioria dos clubes começaram a preocupar-se cada vez mais com o meio-campo e menos com as duas áreas. Os jogos tornaram-se mais fisicos, mais cansativos, mais pressionantes e era preciso reforçar a zona medular. Sem ousar reduzir o número de efectivos atrás (depois das experiências do 3-5-2 dos anos 80), preferiram ir à frente e abdicar de um homem.

A figura da dupla de avançados começou a desaparecer progressivamente dos alinhamentos. Se o Brasil venceu o Mundial de 94 com dois avançados móveis (Bebeto e Romário) a França de 1998 ganhou-o com um dianteiro (Guivarch) que não entra sequer no top 20 da história do futebol gaulês. Em 2000 os franceses chegam com uma dupla de avançados para uma nova geração, mais atlética e fisica (Trezeguet/Henry) e dois anos depois o Brasil recupera a ideia da defesa a três mas lança definitivamente a moda do dianteiro solitário. Grécia, 2004, Itália 2006, Espanha 2008, 2010 e 2012...nunca mais uma selecção com dois avançados venceu um grande torneio de selecções e o mesmo sucedeu a nível de clubes. Mas em 2006, além de ter apostado numa táctica com Totti como avançado, Luciano Spaletti pediu em vários jogos que o seu número 10 se movesse para o meio-campo criando uma superioridade no miolo imbatível.

Nasceu assim o 4-6-0, com o jogo vertical de De Rossi e Perrota pelo miolo, e de Mancini e Riise pelos flancos, a surpreender uma defesa sem referência de marcação. Um ano depois foi Ferguson a fazer o mesmo. Rooney recuava até ao meio abrindo espaço para que Ronaldo, Giggs, Scholes e Park/Carrick, surgissem em zona de finalização. Não eram sistemas rotinários, não eram o sistema base mas começava a intuir-se que a figura do ponta-de-lança perdia protagonismo. O futebol tinha deixado de produzir dianteiros goleadores com regularidade e depois de uma geração na década de 90 cheia de figuras impares (de van Basten a Jardel), a nova década produzia sobretudo goleadores esporádicos (Toni, Klose, Adriano, Pauleta, Wiltord, Crespo...), incapazes de adaptar-se aos processos colectivos que começavam a ser a principal preocupação dos técnicos. Preocupações defensivas, posicionamento da linha de meio-campo, coberturas dos jogadores da frente através de manobras de pressão alta e, sobretudo, o jogo de costas para a baliza como falso pivot para que a segunda linha, reforçada com três ou quatro unidades, fizesse a diferença.

 

Guardiola foi o primeiro treinador a abdicar de forma sistemática do ponta-de-lança.

No Real Madrid vs Barcelona de 2009 experimentou pela primeira vez a velocidade de Henry e Etoo nos flancos e a mobilidade constante de Leo Messi pelo meio. O resultado, um histórico 2-6 que não só confirmou o génio de um técnico e uma equipa como marcou a tendência do futuro. Etoo partiu, Bojan nunca foi alternativa e a experiência de Ibrahimovic, como pivot ofensivo, não funcionou porque o sueco e Messi entravam em demasiado conflito no terreno de jogo. Contando com o argentino nas filas, Guardiola repensou a estratégia e apostou de forma definitiva pelo 4-6-0. Mas ao contrário desta Espanha, a sua aposta era assumidamente vertical. Do sexteto de meio-campo - à frente de um médio recuperador - juntavam-se dois interiores, um falso nove e dois extremos bem abertos nas alas, habitualmente avançados de raiz como Villa ou Pedro. Com esse modelo não só o Barcelona recuperou o titulo europeu perdido como Messi, como falso nove, superou os seus registos goleadores. Apesar de em teoria o sistema ser similar a um 4-3-3, na realidade a fusão entre a linha medular e ofensiva no terreno de jogo era evidente passando, muitas vezes, a um 3-7-0 com as incorporações de Dani Alves. 

O modelo de Guardiola começou a ser timidamente copiado mas só a selecção espanhola seguiu a prática até às últimas consequências, com a substancial diferença de abdicar de dois falsos avançados como extremos por dois interiores mais, habitualmente Silva e Alonso, que se juntavam ao trio do Barcelona. No lugar de Messi mantinha-se Villa até que uma lesão o levou a deixar o posto a Fabregas. Na prática o desenho era mesmo, apesar da circulação de bola ser mais horizontal que vertical, mas voltava a notar-se a ausência de um ponta-de-lança de raiz. A mobilidade absoluta era a chave de ambos os desenhos.

Não que a Hungria de 53, o Brasil de 70 e a Holanda de 74 não tivessem feito algo similar. Em ambos os casos a mobilidade era a chave. No modelo húngaro o falso nove era Hidgekuti e Puskas e Kocksis os avançados móveis nesse falso WM. No caso brasileiro, Mario Zagallo deu a Pelé, Jairzinho, Tostão e Rivelino total liberdade para mudar de posição ao longo do jogo. E a Holanda de Michels inspirou-se no modelo do Ajax para garantir que os laterais apareciam tanto na área de finalização como o trio de ataque. Guardiola - e del Bosque - adoptaram esse conceito sacrificando precisamente o jogador que nesse sistema era o elo mais fraco: Hidgekuti não era dianteiro e jogava no lugar de Kubala; Pelé nunca foi um verdadeiro 9 na acepção do termo e Cruyff gostava de sentir-se omnipresente no terreno de jogo. O modelo centro-europeu sempre gostou de transmitir a ideia de que o futebol é um carrosel em constante movimento e que, quanto mais estática seja uma posição, mais dispensável é no esquema colectivo. Neste caso o dianteiro deixou de ser uma arma preferencial para prender os movimentos dos centrais, desgastar rivais e procurar cada oportunidade de golo para ser um elemento mais do processo criativo, um jogador mais a gerar - antes de que a finalizar - os lances de golo.

Uma postura que exige não só uma conjuntura favorável de jogadores criativos (que o Barcelona reforçou com Fabregas e Sanchez, como se viu na vitória esmagadora, em 3-7-0, contra o Santos) mas também uma disciplina táctica dificil de manejar. Não é coincidência que só os países e clubes que seguem a corrente centro-europeia - que priveligia precisamente esse aspecto criativo antes que o fisico - que foram capazes até agora de o aplicar com relativo sucesso.

 

Gary Liniker, icónico ponta-de-lança inglês, escreveu na sua conta de Twitter na final do passado domingo que o ponta-de-lança estava perto do fim. Será seguramente um exagero, de momento pelo menos. Não só porque a esmagadora maioria das equipas não segue o modelo centro-europeu, ou por um influência cultural ou por incapacidade, mas também porque em todos os restantes sistemas tácticos a figura do avançado continua a ser nuclear. Seja a escola sul-americana, inglesa, nórdica, do leste europeu ou africana a figura do dianteiro tem ainda um prestigio substancial para acreditar que o seu final é inevitável. Se é certo que a evolução táctica acabou com o extremo clássico (como Matthews ou Garrincha) e com o libero (como foi Beckenbauer), também não é menos certo que o golo continua a ser o elemento diferencial num jogo de futebol e nem todas as equipas podem aspirar a ter jogadores com a mesma qualidade e caracteristicas que Lionel Messi, Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney, Francisco Totti ou Francesc Fabregas. O avançado perderá impacto social, especialmente porque deixará de ser a figura nuclear nas grandes equipas (os casos de Higuain em Madrid, de Dzeko e Berbatov em Manchester, de Ibrahimovic em Barcelona são exemplos disso mesmo) mas não desaparecerá. Entre os dianteiros mais móveis e fisicos estará certamente o modelo seguido no futuro, o mesmo modelo que a escola brasileira começou a desenhar com Romário e Ronaldo e que agora é a base de inspiração para Benzema, Balotelli, Villa, Neymar ou Aguero, jogadores capazes de misturar num só as caracteristicas de pontas-de-lança, extremos e números 10. 



Miguel Lourenço Pereira às 10:58 | link do post | comentar

3 comentários:
De Eduardo Louro a 9 de Julho de 2012 às 17:34
Inteiramente de acordo - "as usual" - Miguel.
E nesse modelo de futuro incluiria dois jovens do Benfica: Rodrigo, a quem prevejo uma carreira internacional de topo, e Nelson Oliveira, a exigir muita atenção em termos de aperfeiçoamento e de oportunidades para jogar, mas igualmente com condições para vir a ser o avançado dos novos tempos. Coexistir com Rodrigo - em plano bem superior - irá roubar-lhe espaço de progressão, porque nunca caberão ambos em simultâneo, mas seria muito mau para o futebol português que fosse potenciado.
Um abraço, Miguel.


De Eduardo Louro a 9 de Julho de 2012 às 17:36
Faltou o NÃO. "Que não fosse potenciado".


De Miguel Lourenço Pereira a 9 de Julho de 2012 às 19:10
Eduardo,

Sobretudo o Rodrigo, que já deu provas ao mais alto nível disso mesmo. O Oliveira continua a despertar-me sérias dúvidas. Com a sua idade já devia ter dado mais mostras de maturidade e eficácia e vejo-o como mais uma vitima da politica desportiva do Benfica - que é igual à da maioria dos clubes portugueses - numa fase da sua carreira em que é fundamental jogar, enganar-se e jogar outra vez.

um abraço


Comentar post

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

Toni Kroos, el Maestro In...

Portugal, começar de novo...

O circo português

Porta de entrada a outro ...

Os génios malditos alemãe...

Be right back

2014, um Mundial de parad...

Brasil vs Alemanha, o fim...

Di Stefano, o jogador mai...

Portugal, as causas da hu...

Últimos Comentários
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
En el libro último de Carlos Daniel ni siquiera se...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
.Xavi e o melhor jogador meio campista atual e da ...
Posts mais comentados
69 comentários
64 comentários
47 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO