Quinta-feira, 28 de Junho de 2012

A história repete-se. Nunca se repetiu a final de um Europeu. De duas em duas edições, repete-se o duelo entre equipas que se encontraram na fase de grupos. Esta edição confirmou isso mesmo. Itália e Espanha reencontram-se depois do duelo inaugural que ditou um empate (justo) entre ambas as selecções. A Bela Itália, mais bela do que nunca, assinou o melhor jogo do torneio destroçando por completo uma Alemanha que nunca viveu na prova à altura do nome com que chegava. Prandelli derrotou Low e Pirlo, o jogador mais perfeito dos últimos 10 anos, liderou a tempestade azzura. 

 

Em 30 minutos o sonho alemão estava destroçado.

Angela Merkel nem podia acreditar. Afinal, não era suposto este torneio ser uma confirmação da superioridade alemã na Europa, em todos os aspectos possíveis e imaginários. Antes do torneio a maioria das pessoas pensava que ia ser dificil travar a selecção germânica. Mas durante a prova os alemães foram eficazes, mas nunca entusiasmantes. E estiveram longe do nome que traziam. Por culpa de Joachim Low, incapaz de dar oxigénio a uma equipa demasiado dependente do conjunto bávaro de Munique, destroçada fisica e psicologicamente depois de um final de época para esquecer. Bastian Schweinsteiger pode ser o melhor jogador alemão, mas os seus problemas fisicos foram uma constante e era evidente que mais do que uma solução, era um problema. Low manteve-se fiel ao seu braço direito e com ele (e não só) afundou-se.

Como sucedeu em 2008 e 2010, no jogo decisivo em vez de manter-se fiel à sua ideologia, Low abdicou e preferiu pensar primeiro no rival. Devolveu Gomez ao ataque e Podolski ao lado esquerdo mas adicionou outro médio, Toni Kroos, para vigilar Pirlo. Perdeu solvência no ataque, Mezut Ozil teve de trabalhar a dobrar e nem o uso de três médios travou o magnifico jogo do miolo italiano. Ao abdicar de ser a Alemanha de sempre, Low confirmou que nos momentos decisivos o ADN ganhador alemão viajou até Espanha e abandonou definitivamente a Mannschaft. A equipa perdeu esse killer instinct e iguala assim a sua pior série histórica de sempre. Até 2014, quando se jogue o próximo Mundial, vão-se cumprir 18 anos sem um só troféu alemão. Muito para uma selecção que só é superado em titulos pelo Brasil.

 

Mas se a selecção germânica foi vulgarizada, isso deve-se sobretudo à qualidade italiana.

Prandelli já tinha avisado quando chegou que ia mudar o rosto da selecção e cumpriu a promessa. O futebol de toque, a pressão alta e a mobilidade ofensiva tornaram-se imagens de marca desta nova azurra, mais fresca e sedutora do que nunca. Uma selecção moldada à figura de Andrea Pirlo, o melhor jogador do torneio sem margem para dúvidas. Mais do que isso, o italiano é o melhor jogador da última década.

Nenhum jogador no futebol mundial foi tão bom durante dez anos consecutivos. Houve alguns que tiveram momentos de altos seguidos de baixos, mais ou menos acentuados. Pirlo tem sido figura omnipresente desde que em 2002 tomou conta do meio-campo do Milan, vencendo a sua primeira Champions no ano seguinte (voltaria a vencer em 2007), e o Mundial (onde foi o melhor italiano) em 2006. Aos 33 anos, para fechar uma carreira de sonho, o Mundo finalmente se começa a dar conta do seu génio. Não é demasiado tarde.

Pirlo foi a bússula, Balloteli a metralhadora. O jogador do Manchester City fez o melhor jogo no torneio, apontou dois grandes golos (especialmente o segundo) e foi uma arma constante apontada à defesa italiana. Apoiado por um superlativo Cassano, o dianteiro igualou Gomez, Madzukic e Dzagoev na lista dos melhores marcadores e está a um jogo de ser o goleador do torneio. 

Com esses dois golos em 35 minutos, a Itália resolveu a eliminatória com uma solvência assustadora e depois, em vez de defender o resultado como era habitual, dedicou-se a destroçar o jogo do rival, com sucessivas trocas de bola no miolo e contra-golpes rapidissimos onde só a ineficácia de Marchisio, Di Natale e Diamanti impediram uma vitória maior. 

O golo alemão (um penalty no último minuto apontado friamente por Ozil) trouxe uma incerteza injusta no tempo de desconto porque nunca os alemães deram a sensação de poder discutir a eliminatória. As substituições de Low foram um desastre, as de Prandelli uma declaração de intenções e a segunda parte sucedeu-se com Buffon a dar tranquilidade à defesa alemã e Neuer a assustar os adeptos alemães. Noutro mundo andava Pirlo, entre recuperação e recuperação, entre passe e passe, entre sonho e sonho. Sem ninguém dar por nada, a Itália está na final, doze anos depois. E com todo o mérito.


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Miguel Lourenço Pereira às 22:36 | link do post | comentar

8 comentários:
De Eduardo Louro a 29 de Junho de 2012 às 18:29
O "EM JOGO" é o blogue da semana, na "Janela Indiscreta" de Pedro Rolo Duarte, na Antena 1, que todas as sextas-feiras se dedica a essa escolha.
Uma escolha de mérito. Um destaque merecidíssimo!
Parabéns Miguel.


De Miguel Lourenço Pereira a 29 de Junho de 2012 às 18:43
Eduardo,

Não fazia a mínima ideia, a distância de Portugal não permite estar atento à maioria da nossa programação radiofónica. Obrigado pelo aviso e obrigado a todos os que lêem o Em Jogo, é por causa dos leitores deste espaço que ele é o que é.

um abraço


De José Carlos Portugal a 29 de Junho de 2012 às 20:16
Caro Miguel Lourenço Pereira
Caí aqui, justamente, por via da referência que Eduardo Louro noticia acima - de regresso a casa, ouvi Pedro Rolo Duarte. Naturalmente que estes trinta e tantos minutos de deambulação não me permitem (nem autorizam?) a intromissões opinativas, muito embora algum do material me tenha já suscitado vontade de polemizar. De todo o modo a bookmark está feita. Atrevo-me, portanto, nesta circunstância a uma pergunta frontal (própria de presumido neófito aqui no espaço) - exactamente porque "o futebol não é um jogo de vida ou morte, é mais do que isso", outrossim porque tenho vindo a sentir muito limitadas e malbaratadas as plataformas de discussão do "jogo em si" (perdoe a vulgata...), pergunto se é apoiante activo de algum clube português e, em caso afirmativo, qual deles. Tendo já respondido a algum outro abelhudo, basta enviar-me para a data do post. Procurarei com toda a prontidão. Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 29 de Junho de 2012 às 20:26
José Carlos,

Em primeiro lugar bem vindo ao Em Jogo e obrigado pelo interesse demonstra em conhecer o espaço, que, realmente, versa mais sobre o futebol internacional do que propriamente pelo futebol nacional. Acho que em Portugal há uma clubite crónica que muitas vezes tolda debates que podem ser muito mais interessantes e por isso tento evitar essas polémicas sempre que posso, deixando a minha colaboração clubistica para outros espaços onde sou convidado.

Mas não é segredo nenhum, até porque, como pode encontrar no apartado autor, fui um dos colaboradores do projecto Porto - 25 anos no Topo do Mundo, que sou adepto de infância (e algo mais) do FC Porto. O que nunca implica um olhar critico tão ou mais agudo ao FCP do que a outros clubes nacionais.

Espero que lhe tenha satisfeito a curiosidade, volte sempre!

um abraço


De José Carlos Portugal a 29 de Junho de 2012 às 20:59
Agradeço a pronta atenção (e recepção).
Não se tratou de curiosidade mas sim de necessidade. Com efeito (e como muito bem diz) "a clubite crónica" tolda. Não propriamente o debate mas, desde logo, a leitura do "jogo em si" (já sabe, sou dado a vulgatas).
Já fui por demasiadas vezes (auto)arredado da partilha de visionamento de um bom jogo de bola, porque, paradoxalmente, ao meu lado, alguém que eu tinha por apreciador da "cousa em si" (variação vulgar...) via um jogo diferente do que eu estava a ver, simplesmente porque um dos contentores lhe excitava latentes mas prontos "partipris". Estou certo que compreende (e talvez partilhe) que um jogo extraordinário que combina estratégia/inteligência com empenho/esforço e honra/lealdade sobre um problema de conquista de território com vista a um objectivo de precisão e destreza, não deve ser sobrepassado por preconceito. Há uma dimensão de geometria dinâmica no jogo de futebol, que não compara nem, muito menos contemporiza, com facilidades de sinal tablóide. Justamente porque... "é mais do que isso".
Nasci em 1959 e fui benfiquista de geração. Hoje, praticamente, não tenho grupo que me satisfaça em "tertúlias de ver a bola" - é demasiado penoso ver na televisão (a realização nada sabe do jogo e injecta a câmara que segue a bola, ignorando o território) e pouco motivador ir ao estádio. De forma que, vagueio por estas ciber-esquinas... Quem sabe, tropeçarei numa lâmpada...
Voltarei.
Até porque essa coisa de o jogo da Espanha ser um enfadado bocejo, ao contrário do do Barcelona vertical e dinâmico, tem matéria que baste para debatermos.
Abraço.


De Miguel Lourenço Pereira a 29 de Junho de 2012 às 22:23
José Carlos,

E será sempre bem vindo, assuntos nunca irão seguramente faltar. Ser de 59 justifica muito o seu clubismo porque, quer se queira quer não, a adopção de um clube seu parte de duas premissas, uma familiar e outra geracional, ou seja da equipa que domina a geração. Nascido em 59, pós-era Sporting pré-era FC Porto, não era dificil ser-se benfiquista nesse periodo dourado.

É verdade que a clubite destroça a melhor das análises porque o futebol existe muito para lá do pequeno universo que é o clube e do universo igualmente pequeno, apesar ligeiramente maior, que é o da nação.

um abraço


De Marco Morais a 30 de Junho de 2012 às 07:02
E olhem... um abraço ao José Carlos e ao Miguel por esta 'pequena' conversa =)

Fico à espera da 'discussão' entre a relação Espanha/Barcelona. Espero poder ler, usufruir, evoluir e claro... intrometer-me.


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Junho de 2012 às 13:11
Marco,

Sem dúvida, até porque se criou uma falácia muito interessante com esse binómio. Nem a Espanha nasceu a jogar assim por causa do Barcelona (o Euro 08 é prévio à chegada de Guardiola), nem o Barcelona joga o mesmo jogo que a Espanha de Del Bosque, muito menos vertical, veloz e incisiva.

Mas como o poder mediático catalão conseguiu colar as duas realidades à base desse termo tão irritante como é o "tiki-taka", inventado por um jornalista espanhol já falecido, hoje é dificil separá-los!

um abraço


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