Domingo, 17 de Junho de 2012

Portugal vulgarizou a vice-campeã mundial. Venceu, convenceu e podia tê-lo feito de forma ainda mais expressiva. Bert van Maarjwick enganou-se pela enésima vez no sistema de jogo a utilizar e a Holanda nunca esteve verdadeiramente em campo. Um jogo fabuloso da selecção portuguesa, finalmente liderada por um Cristiano Ronaldo que respondeu da melhor forma aos seus críticos. Com golos, atitude e critério. Como a eficácia germânica foi suficiente para lidar com os dinamarqueses, Portugal reinou na última ronda do grupo e venceu um dos jogos do torneio.

Superando todas as expectativas, Portugal confirmou um lugar nos Quartos de Final.

É a quinta vez consecutiva, desde 1996. A Holanda, pela primeira vez desde 1980, disse adeus na primeira ronda.

E mereceu-o. Foi o pior lado do futebol holandês que se apresentou neste torneio. Foram decepcionantes em cada um dos jogos disputados e hoje receberam uma masterclass de futebol por parte do combinado português. Apesar dos (esperados) nervos iniciais, Portugal fez um jogo pleno de maturidade. Colectivamente implacável, o jogo dos portugueses aproveitou-se bem das tremendas debilidades ofensivas dos rivais. A velocidade de Nani e Ronaldo eram esperadas, mas o jogo de ajudas de João Pereira (imenso Europeu) e Fábio Coentrão revelaram-se determinantes. Partidos num 4-2-4, os holandeses nunca tiveram o controlo do jogo e curiosamente, depois de marcar o primeiro golo, desapareceram de cena.

Portugal esteve perfeito em todos os sectores. Na defesa, João Pereira domou quem se atreveu a passar-lhe pela frente e Pepe voltou a ser o marechal que a equipa necessita. Bruno Alves melhorou com respeito aos dois primeiros jogos e Coentrão, mais desastrado do que nunca e voluntarioso como sempre, fecharam as linhas de passe dos holandeses. Nunca se viram diagonais, nunca se sentiu um aperto constante porque jogando fora da grande área, a defesa portuguesa empurrou o ataque holandês para onde Portugal tinha verdadeira superioridade.

Paulo Bento apostou num falso 4-3-3, com Nani como médio direito num 4-4-2 sem bola que permitiu à equipa lusa uma clara superioridade numérica no miolo. João Moutinho, incansável, perseguiu van der Vaart por todos os lados e Miguel Veloso, imenso, e Raúl Meireles (talvez o mais cansado e inconsequente em campo) dominaram as operações. Depois foi o que se esperava. A velocidade de Nani, o apoio como pivot de Postiga e Ronaldo. Depois de dois jogos ausentes, o número 7 finalmente fez um encontro à altura do seu prestigio.

Apesar de não ajudar nunca em tarefas defensivas - nesse falso 4-4-2 ele era, muitas vezes, o jogador mais avançado - esteve muito mais participativo no jogo de meio-campo com tabelas eficazes para gerar os espaços que ele próprio depois explorou. Depois do golo holandês teve duas oportunidades, uma delas contra o poste. Não foi a última. O seu golo, num mano a mano que resulta de uma assistência espantosa de João Pereira, retirou-lhe os últimos kilos de pressão sobre os ombros. A partir daí a ansiedade desapareceu de um jogador que podia ser a reencarnação de Alfredo di Stefano, de tão completo que é, se não lhe faltassem os três c´s fundamentais: carácter, confiança e carisma.

 

Se na primeira parte Portugal já tinha sido melhor que os holandeses, a noticia do empate no jogo entre alemães e dinamarqueses a uma bola não dava margem de manobra para erros. Talvez por isso a equipa voltou a entrar tensa e nervosa, mas rapidamente o onze em campo voltou a asfixiar os processos de jogo holandeses e até aos minutos finais, os do desespero, não se voltou a ver a Laranja em campo. van Persie e Huntelaar foram inofensivos e Robben e Sneijder tentaram, demasiadas vezes, lances individuais para contrariar a mediania do colectivo.

Van Maarjwick continuou sem entender os problemas da equipa e quando tirou Willems, amarelado (mas com o vermelho perdoado), já estava claro que o dominio português era dificil de contrariar.

Moutinho e Veloso cresceram no meio-campo, Nani transformou-se no demónio da defesa holandesa e Ronaldo foi aparecendo com remates impossíveis de defender. E com assistências que eram constantemente desaproveitadas pelos colegas, a mais clamorosa de todas, de Nani. Por essa altura já Paulo Bento tinha insistido (não se percebe muito bem porquê) num Nélson Oliveira que nada trouxe de novo e ao minuto 70, com o dominio do jogo nas mãos, surgiu o golo da vitória. Outro lance de velocistas, a bola encontra a velocidade de Ronaldo que, ao contrário do seu antigo colega no Manchester United, teve a confiança para parar o jogo e procurar o melhor ângulo. Segundo golo do melhor em campo e redenção confirmada, ele que nos jogos decisivos continua a viver com essa sombra da ansiedade que hoje não apareceu nos céus ucranianos. Um golo que matou, definitivamente, as aspirações holandeses e que chegou acompanhado, pouco depois, do 2-1 alemão, que confirmava definitivamente que as duas melhores selecções seguiam em frente.

Portugal ainda teve oportunidade para ampliar a vantagem a números que não estariam longe da realidade (Ronaldo teve o hat-trick nos pés mas o poste, de novo, não ajudou) e apesar de um par de oportunidades, os holandeses foram inofensivos até nesses minutos finais onde não tinham nada que perder. A entrada de Custódio e Rolando, manobras defensivas esperadas, deram força e oxigénio ao sector defensivo e neutralizaram qualquer investida holandesa que teve de recorrer aos remates fora da área para dizer presente. Não chegou.

 

Portugal realizou o seu melhor jogo numa fase final de uma competição desde 2006. Um jogo de classe e autoridade inesperado que contraria o pensamento mais pessimista que partilhei na antevisão do torneio. Superou futebolisticamente dinamarqueses e holandeses e não esteve assim tão longe de uma Alemanha que é a única selecção que faz o pleno na primeira fase mas sempre com serviços minimos. O duelo contra a República Checa deixa tudo em aberto. Individualmente a selecção portuguesa é superior mas precisa repetir o mesmo espirito colectivo que exibiu nos últimos dois jogos para superar o conjunto centro-europeu. Ronaldo realizou uma das melhores exibições individuais do torneio e recuperou parte do crédito perdido. Entre ambos factores, colectivos e individuais, entrega-se uma selecção que já está na fase a eliminar onde, como sempre, são os detalhes que decidem tudo. 


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Miguel Lourenço Pereira às 21:39 | link do post | comentar

6 comentários:
De Tenten a 17 de Junho de 2012 às 22:21
Princípais críticos do Ronaldo, inclusive você!

Ronaldo é a cruz de Portugal. Ten graça.


De Miguel Lourenço Pereira a 17 de Junho de 2012 às 23:09
Tenten,

Não retiro uma só letra ao texto que escrevi depois do jogo com a Dinamarca. As criticas, escritas no momento, reflectem uma realidade. Quando quer, Ronaldo é uma cruz para Portugal. Quando quer, Ronaldo é uma mais valia para Portugal. Em dois jogos foi cruz, hoje foi cara.

Não ver isso e alinhar pelo é bom sempre ou é mau sempre, tira perspectiva a qualquer raciocinio.

um abraço


De R_Matos a 18 de Junho de 2012 às 01:25
Excelente texto como sempre, detalhado e em cada palavra percebe-se a maneira intensa como vive o futebol e o percebe!

Concordo na plenitude, tirando a questão da entrada no Nélson Oliveira. Sim, não trouxe muito ao jogo, no entanto, na minha opinião, assim que ele entra (e pena é que ainda o faz muito nervoso), a selecção portuguesa consegue mais espaços na frente para as entradas rápidas de Ronaldo e Nani, que foi já com o jovem em campo que conseguiram ter mais espaço e oportunidades. Não falo só hoje, falo também contra Alemanha e Dinamarca.

Não quero com isto dizer que ele deveria ser titular e o Postiga suplente, o jogador do Saragoça fez um jogo voluntarioso e esforçado, mas denota muitas fragilidades quando apanha defesas que pouco espaço dão ou nenhum. Penso que o jovem Nélson, quando conseguir integrar-se na plenitude e adquirir a maturidade suficiente, poderá trazer muito mais à equipa das quinas.

De resto, texto impecável. Portugal vai surpreendendo e penso que esta República Checa estará ao nosso alcance, basta para isso entrarmos em campo da maneira que o fizemos hoje.

Abraço


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Junho de 2012 às 13:58
R_Matos,

Obrigado pelo comentário.

O Oliveira tem essa vantagem, precisamente porque entra sempre nos últimos 25, 20 minutos, quando inevitavelmente o fisico pesa e forçosamente há espaços a explorar. Postiga trabalha uma hora para desgastar a defesa, abrir os espaços para os corredores laterais e funciona como pivot mais do que como avançado. Quem entra no seu lugar tem sempre mais velocidade e espaços, talvez por isso seja partidário de um falso 9 como Ronaldo e um extremo a mais como Quaresma ou Varela em lugar de Oliveira que ainda não está para estas coisas.

A Republica Checa que vi nos três jogos está ao alcance do Portugal do último quarto de hora da Alemanha, de meia hora contra a Dinamarca e de 80 minutos contra a Holanda. Sem dúvida. Só espero é que não apareça a outra equipa. Se não jogar Rosicky, melhor, notam muito a sua falta. E Gebre Selassie é como van der Wiel, bom a atacar, ligeiro a defender. Nota para Ronaldo e Nani.

um abraço


De Eduardo Louro a 18 de Junho de 2012 às 15:54
Miguel, como habitualmente concordo em absoluto com a sua análise em mais um muito bom texto, como sempre.
Custa a perceber como é que de um momento para o outro se assiste a um salto qualitativo tão notável na selecção nacional. Só há aquela explicação do futebolês:"futebol é isto mesmo"!
Parece que há quem não perceba que comentar e fazer crítica obriga a atender à realidade, a cada realidade:quando o CR está mal, não podemos "ver" que esteve bem. E estar mal não é ser mau, todos sabemos do que é capaz. Que é muito! E a quem é capaz de muito não se pode pedir pouco! Outra coisa é não lhe permitir o direito à sua simples condição humana!
Podendo perceber a opção Postiga, não concordo com o recurso sistemático a essa opção. Nem com a também sistemática opção da sua substituição pelo jovem Nelson Oliveira, de quem muito espero, pois tem condições para ser um avançado moderno de bom nível. Também me parece que a opção por um terceiro ala, com CR ainda mais livre de tarefas defensivas e sem ninguém a atrapalhar-lhe o espaço central. Nestas circunstâncias, Varela. Já tenho muita dificuldade em acreditar em Quaresma...
Ah! E esse lateral direito checo de origem etíope é do melhorzinho que lá anda... a par do francês.
Um abraço!


De Miguel Lourenço Pereira a 18 de Junho de 2012 às 17:52
Eduardo,

O Gebre Selassie é muito promissor. Mas é um lateral ofensivo, com algumas debilidades no trabalho defensivo e apesar de não se esperar tantos espaços nessa zona como no último jogo, a sua tendência é subir e puxar um central para cobrir a sua zona, precisamente o meio onde Ronaldo melhor se sabe mexer.

Quanto à equipa lusa, Postiga joga pelo trabalho que aporta, importante, pelo papel que tem no balneário e porque não há alternativas. A Oliveira ainda não lhe vi um momento em que me apeteça dizer que tenho vontade de o ver mais. Certinho mas frouxo, demasiado frouxo. A idade não é desculpa, há muitos jogadores, muito mais novos, com muito mais provas dadas a esta altura do campeonato.

Varela é mais fiável que Quaresma. Em jogos complicados, presos, a classe de Quaresma pode fazer falta, mas Varela pertence a esse ideário de trabalho que Paulo Bento valoriza. Ontem entrou Custódio no lugar de Meireles. Podia ter entrado Viana, perito em lançamentos largos para o jogo dos alas. Ganhou-se e ninguém se lembrou disso. Mas podia ter sido uma boa opção.

um abraço


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