Quinta-feira, 7 de Junho de 2012

Paulo Bento não surpreendeu muito com a sua convocatória e Portugal será, na Ucrânia, um fiel espelho do que foi na fase de qualificação. Uma selecção desiquilibrada da cabeça aos pés, sem figuras individuais capazes de acompanhar o jogo pelas alas de Nani e Cristiano Ronaldo e que terá no duelo contra duas das três melhores equipas em prova, o teste de fogo mais claro que alguma versão da equipa das Quinas teve. Ao contrário de 2000, onde Inglaterra e Alemanha eram apenas grandes de nome, futebolisticamente esta equipa portuguesa não está ao nivel de holandeses e alemães. O apuramento, impossível, seria o milagre que Portugal nunca logrou verdadeiramente na sua história. Voltar para casa cedo parece inevitável, Cristiano Ronaldo e os restantes 22 tentarão provar que o futebol ainda é uma caixa de surpresas.

Contar com o jogador mais em forma do futebol mundial é um luxo com que poucos podem contar. 

Mas Cristiano Ronaldo chegou em 2008 no mesmo estado de graça - mais ainda, talvez, pela conquista da Champions League - e com uma lesão inoportuna no pé e no torneio na Áustria e Suiça foi inconsequente ao ponto de nem ter sido o melhor do conjunto luso. Se o corpo o respeitar, Ronaldo quererá trazer para Portugal a mesma fome de titulos que começa a saciar em Madrid nesse duelo invisivel que mantém com Messi sobre quem é o melhor jogador do Mundo. O Europeu, uma vez mais, será o seu palco de espectáculo.

Como se viu no último Mundial, não basta ter Ronaldo para que Portugal repita os êxitos logrados na primeira metade da década passada. O forte da equipa lusa, desde 2000, foi o seu colectivo e é aí que estão os maiores problemas, agravados pela gestão de Paulo Bento. O seleccionador nacional utilizou a convocatória final para pagar os favores que deve ao grupo de empresários que estão por detrás da sua nomeação como treinador principal da equipa nacional portuguesa. Uma prática habitual na América Latina, que já levou até um seleccionador brasileiro a ser destituído e processado, mas que em Portugal, sob a benção de Jorge Mendes, passa ao lado com pretextos futebolisticos incoerentes.

Em casa ficaram Quim, Nélson, Eliseu, Hugo Vieira, João Tomás, Manuel Fernandes e Nuno André Coelho, todos eles com uma mais que digna temporada ás costas. No seu lugar chegam à Ucrânia Ruben Micael (inconsequente no Zaragoza), Eduardo (não utilizado por Jesus durante quase toda a época), Nélson Oliveira (nenhum golo apontado em provas de alto nível), Miguel Lopes (despontou apenas nas últimas doze jornadas) e Varela, Rolando e Ricardo Costa, todos eles autores de épocas bastante irregulares. 

Claro que o facto da esmagadora maioria destes jogadores serem representados pela Gestifute seguramente que nada tem a ver com as opções de Bento, isto apesar de Hugo Viana, jogador com uma das melhores temporadas do lote de seleccionáveis só ter chegado à equipa depois da lesão de Carlos Martins, e, talvez pior ainda, depois do pretexto dado por Bento ser a sua total falta de capacidade para se adaptar ao jogo da selecção. Paulo Bento sabe que o seu onze base está definido e que, portanto, os restantes doze elementos serão mais figuras de corpo presente do que alternativas válidas. Optou por criar um grupo à sua medida em vez de escolher os melhores ou os mais aptos. É uma aposta pessoal e tem todo o direito em optar por ela, para isso é o seleccionador. Se o resultado final não acompanhar, a responsabilidade também será sua.

 

Portugal chega à Ucrânia fiel ao seu 4-3-3 e a um jogo sem criatividade e transições rápidas.

Ronaldo e Nani pelas alas serão os alvos preferenciais dos lançamentos largos de Meireles e Moutinho, ficando a dúvida se jogará Hugo Viana no meio do miolo ou se o técnico opta por uma versão mais defensiva com Miguel Veloso ou até Custódio como elementos mais recuados do triângulo. No centro de ataque a mobilidade de Hélder Postiga pode ganhar metros ao jogo mais fisico e estático de Hugo Almeida, especialmente no duelo inaugural contra uma Alemanha que conta com dois centrais imponentes.

Na defesa está, curiosamente, o sector mais coerente do projecto Paulo Bento. Pepe e Bruno Alves serão a dupla titular, como tem sucedido no último ano, e Fábio Coentrão e João Pereira os responsáveis pelas alas. O defesa do Real Madrid teve uma época mediana, perdeu o combustivel que o fez destacar no último Mundial precisamente mas dentro do leque de opções em Portugal continua a ser a escolha mais óbvia. Com João Pereira o seleccionador resolveu o problema com a não-convocatória crónica de Bosingwa e a opção por deixar Nélson de fora. O defesa do Sporting, competente quanto baste, terá pela frente Podolski, Rommedahl e Robben, tarefa nada fácil. Nas redes o seleccionador optou pelo seu protegido, Rui Patricio, importante na campanha europeia do Sporting mas ainda verde para os grandes torneios internacionais. Com Eduardo sem jogos e Beto como figura secundária de favor, ninguém questiona a titularidade do jovem guardião.

Se o onze base e as poucas opções são óbvias, o destino de Portugal não parece alentador.

A comunicação social relembrará seguramente os casos de 1966 e 2000, a única vez na história em que Portugal se encontrou em grupos com rivais complicados. Se em 1966 a lesão de Pelé fez muito pela má performance do Brasil, em 2000 a Alemanha e Inglaterra foram tão decepcionantes que nenhuma delas seguiu em frente. E então falava-se de duas gerações únicas na história do futebol português. Noutros casos, como 1986, 1996, 2002, 2010 ou 2008, a performance lusa passou do mediocre ao satisfaz e entre 1984, 2004 e 2006 encontramos os outros episódios em que Portugal pôde sentir-se orgulho da sua selecção. Mas em nenhum deles a equipa das Quinas teve de arrancar com dois rivais de este calibre. Isto, sem esquecer, que a equipa de Bento terminou a fase de grupos atrás da Dinamarca, o terceiro adversário na primeira fase.

Sendo assim o normal é pensar, se o futebol fosse lógica pura, que Portugal seria o último do grupo. A lógica dos resultados prévios, a falta de capacidade de gerar jogo convincente e entusiasmante e a profunda debilidade do plantel de 23 não convida a sonhar muito alto. Em 2008 e 2010, já com Portugal a entrar numa profunda fase de decadência, um grupo acessivel permitiu passar à fase seguinte, onde a selecção acabou eliminada de imediato por Alemanha e Espanha. Se é certo que historicamente o futebol português cresceu nas grandes e agónicas noites de glória, não é menos certo que este muro parece ser realmente alto demais para trepar.

 

E isso significa realmente o quê? O azar do sorteio de uns é a sorte de outros e Portugal viveu durante 12 anos o lado afortunado das bolinhas amarelas. Ser eliminada num grupo desta qualidade não tem nenhum inconveniente a médio prazo se o futebol português tivesse um plano de futuro estável. A França caiu nos últimos dois torneios na primeira fase e não é por isso que deixa de ser uma potência do futebol mundial. Portugal já não está ao nivel de favoritos que viveu entre 2000 e 2008 mas continua a ser uma selecção que marca presenças em grandes eventos, algo que contraria o estado real de um país que até 1996 vivia os Europeus e Mundiais sempre desde casa. É pena que a presença dos vice-campeões do Mundo de sub20 seja reduzida a um elemento, que os interesses pessoais de um grupo que gere o futebol da Federação falem mais alto que uma ideia de futebol e que Portugal não tenha aprendido absolutamente nada dos exemplos espanhóis, alemães e franceses. Mas vencer ou perder um Europeu, como provou a Dinamarca ou a Grécia, não faz uma potência futebolistica. Sem nunca ter ganho nada, Portugal foi um exemplo de formação e de longevidade da sua melhor geração. Agora esqueceu-se de como se fazem as coisas e chegar cedo da Ucrânia pode servir como o despertar emocional que tanta falta parece fazer ao futebol português.

 



Miguel Lourenço Pereira às 11:50 | link do post

De Bruno Farinha a 7 de Junho de 2012 às 13:06
Apesar de concordar com uma parte considerável das suas observações (ou pelo menos, com a ideia fundamental de que será um quase milagre se portugal passar esta fase de grupos) acho que se faz valer de muita falta de honestidade intelectual para tentar fazer valer o seu ponto de vista, e vou-lhe dizer em que momentos.
Não é verdadeiro dizer que, por exemplo, em 1984 portugal não tinha duas equipas de qualidade no seu grupo (ou, de muita qualidade como refere). A Espanha foi vice-campeã europeia, e a Alemanha além de ser a campeã em título era vice-campeã do mundo (e dois anos depois voltou a sê-lo).
Pode defender que nelson oliveira não deveria ser chamado, mas dizer que ele não marcou nenhum golo em nenhuma competição que importe também não é verdade (marcou na liga dos campeões, e embora isto seja um pormenor, foi você que o referiu).
Dizer que miguel lopes não devia ser opção porque só jogou nas últimas 12 jornadas, e depois defender nélson que esteve lesionado até fevereiro (e que portanto fez quase o mesmo número de jogos) também não é justo. Tal como dizer que, por exemplo, Rolando fez uma época irregular mas defender a chamada de nuno andré coelho que só foi titular na fase final da época do braga, ficando até ligado à fase de menor qualidade da equipa.
Dizer, por meias palavras, que Rui Patrício só é titular porque paulo bento leva para o Euro duas soluções que "ainda" fizeram menos do que ele é desonesto.
Mais uma vez concordo com uma boa parte do que defende (ruben micael, varela, rolando não deviam estar no euro), mas não posso deixar de dizer que me faz confusão quando qualquer pessoa tenta dar a volta aos factos só para estes lhe darem razão.

Bruno Farinha

PS: sou leitor assíduo do blog e peço desculpa por só me manifestar agora, que é para "discordar" do seu texto


De Miguel Lourenço Pereira a 7 de Junho de 2012 às 13:37
@Bruno,

Obrigado, antes de mais, pelas visitas e pelo comentário!

Em 1984 a selecção da RFA de então estava de rastos, era um verdadeiro caos interno e foi precisamente o péssimo Europeu, já esperado pelos directivos da Federação que se preparou o excelente consulado de Beckenbauer. O livro Thor explica muito bem como se viveu esse Europeu dentro das hostes germânicas. A Espanha sim, estava numa das suas melhores versões e podia, perfeitamente, ter vencido o torneio.

O Nélson Oliveira é um projecto de jogador como foi Orlando Sá. São jogadores em quem se depositam sempre muitas esperanças pelo simples facto de em Portugal não haver alternativa. Quanto falei de golos, tinha em mente a Liga.

Quanto a Nélson, não só é mais jogador que Miguel Lopes como se exibiu em muito melhor forma nos últimos três meses, o mesmo em relação a Nuno André Coelho. A torneios curtos convém sempre apostar em jogadores que vêm de um bom momento mais do que em nomes consagrados mas em baixo de forma!

Quanto a Rui Patricio, é evidente que é jogador da selecção nacional, primeiro porque o seleccionador é Paulo Bento e depois porque, na actualidade, Portugal sofre um problema sério de guarda-redes top, sendo que aquele que em melhor forma tem estado, desde 2010 que não é convocado. Com outra concorrência, seguramente que Patricio não jogaria um minuto na prova.

um abraço



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