Domingo, 6 de Maio de 2012

E no final 10 pontos eram mesmo demais. O Barcelona não logrou lograr um feito ao alcance de muito poucos e perdeu a Liga para o eterno rival. Um golpe duplo porque não conseguiu paliar o fim de uma série mágica de três titulos com uma nova vitória europeia. Ambas as equipas degladiaram-se até à morte na liga e na Europa pagaram o preço. O fosse entre Madrid e Barcelona é maior do que nunca, o jogo mais plástico de Guardiola não aguentou um ano mais e a eficácia goleadora do contra-golpe de Mourinho deu a estocada final. Um ano que mais do que uma mudança de ciclo, espelha bem a viabilidade de dois projectos antagónicos.

Parece evidente que, apesar do titulo logrado este ano, poucos se atrevam a não pensar no Barcelona como favorito para lograr o titulo da próxima época. É o poder de uma ideia que se sobrepõe a tudo, até aos resultados. O Barcelona sem Guardiola será substancialmente distinto e, no entanto, muito similar ao que temos acompanhado desde que Rijkaard tomou as rédeas do clube em 2004. Uma década de bom futebol, com algumas oscilações, de muitos titulos, dentro e fora de portas, mas sobretudo uma década em que ficou claro a que joga o onze blaugrana.

No meio de tantas certezas a dúvida da derrota torna-se mais perturbadora. Guardiola não logrou emular Cruyff e as suas quatro ligas consecutivas. Nem Cruyff seguramente pensava que o iria lograr, as últimas três conquistadas depois de sprints absolutamente agónicos e erros crassos dos rivais. Primeiro os fantasmas do Real Madrid em Tenerife e depois o medo de Bebeto a fazer história permitiram ao Dream Team dar uma imagem errada da sua real superioridade. Guardiola, perdendo, parece no entanto mais sólido que nunca este adeus do que El Flaco na glória do tetracampeonato. 

As derrotas do Barcelona fora do Camp Nou mataram as aspirações ao titulo mas foi o único desaire em casa, frente ao Real Madrid, que confirmou o inevitável. Os blaugrana dependeram mais do que nunca de Leo Messi. O argentino respondeu com uma cifra estratosférica. Vai em 50 golos e com um jogo por disputar ninguém se atreve a prever onde vai acabar. O que logrou o número 10 do Barcelona não tem nome e no entanto, a sua insuficiencia para confirmar um titulo de liga que em Agosto parecia inevitável, explica bem como Guardiola não soube sacar o melhor de Iniesta, Fabregas, Pedro, Sanchez e Thiago na linha de ataque e, sobretudo, que a ausência de um plano alternativo a David Villa e Xavi Hernandez, asfixiou demasiado o jogo catalão. Messi sozinho não pôde com o tridente montado por Mourinho, onde Cristiano Ronaldo foi sempre a figura omnipresente. Se o português manteve até ao fim o seu duelo pessoal com Messi pela Bota de Ouro, a verdade é que o argentino nunca teve uma companhia goleadora tão ilustre como Gonzalo Higuain e David Benzema com quem partilhar os logros. Entre os três jogadores somam-se quase 90 golos, uma cifra superior à dos golos apontados por todas as equipas em prova, salvo o próprio Barcelona. Nesse jogo ofensivo o Real Madrid venceu por K.O. o Barcelona e cimentou um titulo onde pecou sobretudo pelos erros defensivos (em Levante, Villareal, contra o Malaga em casa, frente ao Barcelona no Bernabeu) e pela dificuldade em gerar jogo pelo miolo.

Nuri Sahin foi o flop desportivo do ano, Xabi Alonso perdeu toda a gasolina que tinha por Janeiro e Ozil exibiu-se em momentos pontuais como um génio em potência para depois desaparecer semanas consecutivas. Com esse tremendo hiato no meio, precisamente onde o Barcelona se mostrava iniguável, só se pode explicar o espantoso titulo do Barcelona pela eficácia de um treinador considerado como defensivo mas que apenas entende o ataque como uma sucessão rápida de golpes sem defesa antes que um cerco prolongado, extenuante e fatal. O Real marcou mais golos, gerou mais oportunidades, disparou mais e venceu a prova. O Barcelona venceu a liga alternativa, a plástica, a da bola, a dos admiradores mais incondicionais, um prémio que no futuro talvez faça mais sentido apesar deste ter sido, realmente,  o mais fraco projecto da era Guardiola, um projecto que, na hora da verdade, foi silenciado pela tranquiladade de um Cristiano Ronaldo mais solidário, mais lider, mais exigente e, sobretudo, mais determinante do que nunca. O homem da liga.

 

A mais preocupante novidade é a confirmação do imenso buraco que se gesta entre os dois porta-aviões espanhóis e a restante frota espanhola. O terceiro lugar do Valencia, do sempre contestado Unai Emery, dista uma galáxia dos dois da frente. Atrás dos valencianos uma série de equipas que durante a época viveram momentos de altos e baixos constantes mostrando uma incapacidade tenaz de oferecer uma resistência clara ao duopólio espanhol. Os milhões investidos em Málaga e Atlético de Madrid e as surpreendentes performances de Levante, Osasuna, Espanyol e Mallorca mostram uma classe média espanhola forte mas muito pobre comparada com os ricos do costume. 

Decepcionante, por razões distintas, a época de Athletic Bilbao e Sevilla.

No primeiro caso falamos da melhor equipa da Europe League do ano, na equipa que futebol mais espectacular praticou em momentos concretos da época, uma geração de talentos espantosa liderados por um treinador de excepção. Explicar o péssimo posto do Bilbao em liga passa sobretudo por conhecer a dinâmica de Bielsa, homem habituado a trabalhar com poucos jogadores, com poucas rotações que se encontrou como peixe na água nas provas a eliminar, chegando a duas finais no mesmo ano, algo inédito na história do clube. Essa capacidade de socos rápidos e concisos perdeu-se no duelo da liga, com tropeções constantes, especialmente no arranque da época, que custaram muito caro na altura mais importante do ano. O Sevilla, por outro lado, confirma-se como o lado negro da lua do projecto de Del Nido e Juande Ramos que encantou a Europa há cinco anos atrás. Os andaluzes não funcionaram durante todo o ano, nem no terreno de jogo nem fora dele, tentaram liderar uma revolta dos "outros" que não convenceu ninguém e acabaram por cair na depressão de uma profunda nostalgia que os atirou para fora da Europa e atrás, até ao último dia, do eterno rival e recém-promovido Betis.

Atrás do andaluzes o lado negro do futebol espanhol, o das dividas, dos concursos de credores, da péssima gestão desportiva e de um fracofutebol sem pretextos como o que apresentaram demasiadas vezes Villareal, Getafe e Real Sociedad. A tremida época de um Rayo Vallecano onde o dinheiro continua a pecar por escasso não tem comparação com o brutal investimento realizado pelo Zaragoza para acabar num duelo final financeiramente desigual mas pontualmente equilibrado. Na última ronda, no próximo domingo, aos "maños" e "vallecanos" juntam-se os europeus do "Submarino Amarelo", a "mareona" de Gijon e o projecto do Granada, um clube B da Udinese em solo espanhol mas sem a mesma solvência desportiva. Entre ambos jogam-se um bilhete para o abismo, um bilhete de companhia para um Racing Santander que completou uma época tão deprimente como inevitável depois da péssima gestão financeira das contas do clube.

 

É cada vez mais evidente que o modelo actual do futebol espanhol tem demasiados buracos negros para ter uma solvência imediata. O ano começou com uma greve de jogadores, acabou com mais acusações de irregularidades financeiras e compras de jogos e pelo meio assistiu-se sobretudo a um debate dialéctico entre dois clubes que permite esconder na sombra a depressiva realidade dos restantes 18. No próximo ano ninguém espera que a situação se altere, Mourinho e Tito Vilanova continuaram a sua particular guerra pessoal, madrileños e barceloneses disputaram cada jogo como se fosse uma final de Champions para romper uma vez mais os recordes de golos e pontos e Messi e Ronaldo voltarão a repetir o seu pulso pessoal interminável. Um cartaz atractivo para a maioria dos espectadores de todo o mundo mas que, a pouco e pouco, está a significar o fim da base do futebol espanhol que tanto sucesso deu na última década e que nos últimos quatro anos se transformou no modelo a seguir para o resto da Europa.  



Miguel Lourenço Pereira às 18:22 | link do post | comentar

8 comentários:
De Vitor Hugo a 7 de Maio de 2012 às 10:24
Lá como cá, em escalas distintas. Excelente artigo!

Nota: o primeiro nome de Benzema é Karim.


De Miguel Lourenço Pereira a 7 de Maio de 2012 às 22:30
Vitor Hugo,

Obrigado, não lembra ao diabo o de David, seguramente estaria a pensar noutro jogador ao mesmo tempo, gracias pelo aviso.

um abraço


De Nuno a 7 de Maio de 2012 às 12:24
Miguel, apresentar dados estatísticos como prova absoluta daquilo que se quer à força concluir é um problema. O argumento de que um dos aspectos em que o Real foi superior ao Barça foi o facto de o Messi marcar 50 golos, e não haver uma segunda figura de goleador, ao passo de que, no Real, Benzema e Higuain aparecem bem colocados na lista dos melhores marcadores, é francamente redutor. Aliás, incorre num erro. Se reparares, o Barça tem 112 golos marcados, o que significa que tem 50 golos de Messi mais 62 distribuídos pelos restantes jogadores. O ano passado terminou a época com 95 golos: 31 de Messi e 64 distribuídos pelos restantes. Como vês, não há especial diferença. A única mudança foi que Messi produziu mais. Os restantes jogadores produziram sensivelmente o mesmo. Não há uma segunda figura de goleador, como no caso de Benzema e Higuain por várias razões, a principal das quais porque Alexis, Fabregas, Pedro, Villa, Cuenca, Tello, e até Iniesta passaram pelo trio da frente, ao passo que no Real Benzema, Higuain e Di Maria foram os três únicos que Mourinho utilizou juntamente com Ronaldo. É tão simples quanto isto. Dizer que Guardiola não conseguiu tirar dos restantes elementos a mesma produção que Mourinho tirou de Benzema e Higuain não faz sentido. O Barça produziu o mesmo que produziu em épocas anteriores, e produziu mais até, porque permitiu os números de Messi. Este foi o melhor ano de Guardiola, em termos de jogo jogado, e só não é coroado com os principais títulos porque claudicou em momentos chave, por várias razões. Dizer que foi o ano menos conseguido, e argumentá-lo com a dependência de Messi, que é falsa, é um disparate.


De Miguel Lourenço Pereira a 7 de Maio de 2012 às 22:43
Nuno,

Pessoalmente, considero que este ano o FC Barcelona não rendeu da mesma forma como nos anos anteriores. Marcaram mais golos nas provas europeias, marcaram mais golos em Liga, podem vencer 4 titulos num ano, o único clube no Mundo que pode reclamar o feito, mas a forma fluida de controlar o jogo perdeu-se. Naturalmente que os rivais aprendem, especialmente se o Barça utiliza poucas variantes, e também é certo que nos jogos mais importantes do ano, o Barcelona não foi solvente e eficaz, o que realmente fez a diferença frente ao Madrid e ao Chelsea. Produziram melhor futebol em ambos os jogos, mas esqueceram-se de matar o jogo quando era necessário, esse espirito assassino que se viu nos anos anteriores.

Messi centralizou-se como a figura nuclear do jogo, tanto como goleador como assistente. O problema do Barça foi ter tido várias figuras cujo o pico de forma quase nunca coincidiu. O notável arranque de época do Fabregas diluiu-se, o Alexis fez jogos notáveis mas fisicamente teve muitos problemas, Iniesta e Xavi, como interiores, não tiveram a mesma solvência ofensiva, o jogo com três defesas abriu muito o campo e permitiu a explosão de Tello e Cuenca mas provocou muitos problemas atrás, apesar da boa época do Mascherano. O Barcelona podia ter ganho a liga e teria tido todo o mérito do mundo. Mas não soube matar a época da mesma forma que Messi soube decidir tantos jogos. Se o argentino manteve o espirito assassino que faz dele um jogador brutal, o resto do colectivo não o acompanhou quando era necessário.

Em relação ao Real Madrid, o Higuain, que foi suplente durante grande parte da época do Benzema, marcou 21 golos em liga. Essa arma vinda do banco o Barcelona nunca teve. Ronaldo e Benzema superaram as marcas do ano transacto, Kaká e Di Maria marcaram poucos golos mas foram uteis em assistências. E ajudaram a tapar o deficit de jogo que continua a ser evidente nos merengues.

Não acredito portanto em que o Real Madrid tenha sido muito superior este ano ao que foi o ano passado em jogo, apesar dos números. Mas sinto que o Barcelona baixou um escalão, o que foi determinante para deixar escapar um titulo que tinha tudo para ter sido um Tetracampeonato lógico e meritório.

um abraço


De Miguel a 7 de Maio de 2012 às 13:45

Queria deixar uma palavra de apreço pelo seu texto, mais um de muitos por si escritos que me fazem vir repetidamente a este blog ver se já escreveu mais alguma coisa.

Já agora, louvo-lhe a capacidade de se distanciar emocionalmente nos seus textos do futebol praticado pelo Barcelona. Em Portugal não louvar o sacrosanto "cerco" do Barça é muito raro, os meus parabéns! Mostra que é possível respeitar (e até gostar) do jogo da equipa de Pep sem prestar vassalagem!

Quanto ao seu texto, é verdade que as outras equipas da Liga se mostram pouco competentes mas como sempre, acho que isto é um fenómeno cíclico. Voltará a surgir um Valência, um Sevilha, um Villareal a intrometer-se e até a aproveitar anos mais fracos dos dois Reis de Espanha. Até porque convém para desenjoar.

Um abraço e muito obrigado pelo em Jogo!


De Miguel Lourenço Pereira a 7 de Maio de 2012 às 22:34
Miguel,

Obrigado pelo comentário.

Naturalmente o futebol, seja no país que for, é sempre uma questão de ciclos e seguramente que há clubes com condições para fazer melhor do que o que realmente fazem. O que está em causa não é isso. A Liga espanhola vive um duopólio essencialmente porque o dinheiro que ganham os dois grandes é muito superior ao dos demais, em todos os sentidos e, pela primeira vez desde os anos 50, coincidem no tempo e espaço duas grandes equipas a disputar todos os titulos de forma simultanea. Na história do futebol espanhol os grandes ciclos de Barça e Madrid normalmente sucedem quando o rival está ligeiramente em baixo, desde há dois anos que essa situação não se verifique e daí o imenso abismo com os terceiros, quartos e seguintes. Em 2008, o Villareal foi vice-campeão espanhol, agora luta para não descer. Isso pode voltar a acontecer, mas quando o terceiro de Espanha, o Valencia, tem de vender quase todos os seus bons jogadores como fossem um clube frances, portugues ou holandes, é dificil recortar distancias.

um abraço


De Yap a 8 de Maio de 2012 às 09:30
Parabéns, você logrou lograr o recorde do Guiness para a pessoa a usar derivados do verbo lograr mais vezes num só texto.

Tenha lá atenção ao português, não basta falar de futebol para ter um blog, expressões como "logrou lograr" são das coisas mais miseráveis que se pode ler.


De Miguel Lourenço Pereira a 8 de Maio de 2012 às 18:14
Yap,

Obrigado, ter leitores como o Yap é toda a alegria a que um blogger pode alguma vez ambicionar na sua vida. Sinto-me mais completo hoje ;-)


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