Segunda-feira, 26 de Março de 2012

O futebol português continua a trepar postos nos rankings UEFA e FIFA, a ter jogadores e treinadores coroados entre os melhores do Mundo. E, no entanto, quando a bola começa a rolar no tapete verde do rectângulo mais ocidental do velho Continente o futebol peca, demasiadas vezes, pela sua triste ausência. Numa das épocas mais pobres e desesperantes das últimas décadas repete-se um cenário demasiado frequente, demasiado desalentador. Esta Liga, assim parece, ninguém a quer ganhar.

Hoje o Sporting de Braga pode colocar-se como líder isolado da Liga Sagres.

A seis jogos do final da época, 18 pontos e um duelo de 90 minutos contra a Académica separam os bracarenses do topo do pelotão. Provavelmente os arsenalistas falharão. Não porque não mereça, não porque não sejam talvez a equipa que mais méritos recolhe para sagrar-se campeã nacional 2011-12. Simplesmente porque, ao longo deste ano, sempre que uma equipa parece ter na mão ganhar a liga, tropeça.

Essa vertigem á tabela classificativa é aflictiva mas não é nova. Em 2004-05 FC Porto, Sporting e Benfica foram tropeçando entre si até que a sagacidade de Giovani Trapatonni valeu mais que o descalabro emocional de José Peseiro e a natural incompetência de José Couceiro para quebrar com uma fome de dez anos do Benfica. Dois anos depois o cenário voltou a ser similar mas desta vez foi Jesualdo Ferreira a superar a Fernando Santos e Paulo Bento nesse desesperante sprint final. Emoção, seguramente. Qualidade, muito pouca.

O nível exibicional médio das 16 equipas da Liga Sagres, diga o que disser o ranking UEFA que apenas contabiliza o que fazem os quatro europeus habituais nos palcos internacionais, é pobre. Os portugueses exportam os melhores jogadores e técnicos que têm e em troca ficam com jogadores de terceira e quarta linha internacionais, fazem de jogadores de nível médio alto estrelas que nunca o serão e adormecem o mais tenaz dos espectadores com duelos onde os golos, a emoção e o futebol ofensivo primam, habitualmente, pela sua ausência. Os problemas financeiros que destruíram a classe média do futebol nacional e abriram ainda mais o fosso entre os grandes e os pequenos não ajuda seguramente a reequilibrar o cenário. E no entanto nunca como este ano os pequenos roubaram tantos pontos aos chamados grandes onde dá pena incluir um Sporting que, mais uma vez, continua a ser o terceiro clube nacional apenas em adeptos e nada mais. Com uma divida descomunal, um plantel desorganizado, um staff técnico que vai e vem ao sabor do vento e uma directiva incapaz de se fazer respeitar, os leões são o caso mais freudiano que o futebol português já gerou e merecem, como tal, diagnóstico á parte.

 

Nivelada por baixo como nunca a Liga Sagres pode cair nos braços de qualquer um do trio da frente e seguramente que a sensação de mérito e orgulho seja bem diferente a outras conquistas (no caso de Porto e Benfica) do passado. Os campeões nacionais cometeram o logro de destroçar em poucos meses um conjunto que muitos analistas colocavam na segunda linha do futebol europeu, apenas por detrás de United, Real Madrid e Barcelona. Á parte das péssimas performances europeias, o FC Porto de Vitor Pereira não é só o tigre mais domesticado e inofensivo que já passou pelo Dragão, ás vezes quando joga fora transforma-se mesmo num gatinho recém-nascido, presa fácil até de roedores e outros répteis que povoam a parte baixa da tabela. O empate em Paços de Ferreira impediu os dragões de dar um murro na mesa, algo que o clube do Dragão foi incapaz de fazer durante todo o ano. Nem depois de vencer na Luz, nem depois do enésimo tropeção pré-jogo europeu do Benfica em Olhão e, imagina-se, nem nos jogos que faltam. Apesar de liderar se há equipa nesta disputa que mais carece de espírito de liderança esse é, sem dúvida, este FC Porto.

E no entanto, no meio de tudo isto, e com 24 jogos compridos - salvo o duelo de Braga - o campeão é líder. Situação suficiente para embranquecer os cabelos á maioria dos adeptos encarnados, á moda de Jorge Jesus, provavelmente o maior perdedor do ano. Jesus até pode conseguir o seu segundo titulo nacional, sem dúvida, mas depois de o ter á mão de semear, desperdiçar uma vantagem incrível e correr o risco de dormir hoje no terceiro posto é suficiente para que os críticos adeptos do técnico tenham mais argumentos relativos á sua profunda desorganização táctica e incapacidade de gerir os esforços físicos de um plantel onde muitos jogam muito e alguns jogam muito pouco. Com talvez o plantel mais equilibrado dos três em disputa, Jesus tentou equilibrar o meio-campo com a inclusão de Witsel e Bruno César no apoio a Cardozo mas perdeu o efeito surpresa e, sobretudo, a eficácia de outras épocas. Em campo esta é a sua versão mais débil, a mais mentalmente instável e, portanto, a menos apta para sofrer até ao último minuto da liga como os sucessivos empates e derrotas conseguidos este ano têm demonstrado.

Se na Luz ninguém parece estar determinado a ganhar a Liga, pelo menos há uma óptima campanha europeia para justificar a falta de oxigénio e sagacidade mental. Em Braga a Europa este ano não foi empolgante como na época passada mas teve o mérito de permitir a Leonardo Jardim manter a cabeça e os pés bem assentes no chão. O Braga fez um campeonato de trás para a frente, durante algumas jornadas andou atrás do Sporting e depois arrancou num sprint silencioso que seria ineficaz se FC Porto e Benfica fossem tão autoritários como o dinheiro gasto e a qualidade dos dois planteis justificava. Com os tropeções pontuais e as crises mentais dos dois grandes o Braga encontrou preciosos aliados para desafiar a história. Pode acabar campeão ou juiz do campeonato, mas como o Boavista do virar de século, já não pode passar desapercebido. São muitos anos a manter a bitola alta e tarde ou cedo António Salvador pode suspeitar que o percurso similar ao dos axadrezados pode ser emulado. Até porque o nivel dos chamados grandes continua, ano após ano, a baixar assustadoramente.

 

Em Maio o titulo será atribuido ao melhor dos piores e disso poucos duvidam. A distância do primeiro ao quinto (FC Porto a Maritimo) é igual á do sexto (Vitória) com o 14º (Beira-Mar) e isso explica também o imenso buraco pontual, moral, financeiro e desportivo que ano após ano afunda o nivel qualitativo do futebol português. Com uma diferença pontual tão clara surpreende que situações como a de este fim-de-semana se repitam vezes sem fim esta temporada. FC Porto e Benfica venceram apenas 17 vezes numa liga onde só quatro equipas têm um goal-average positivo. Vitor Pereira e Jorge Jesus transformaram-se mais em dores de cabeça do que bálsamos para os seus adeptos e Leonardo Jardim acredita na lei do silencio para evitar construir o seu próprio cadafalso. No final deste sprint onde haverá ainda demasiados tropeções o freudiano Sporting pode ter a chave para medir a resistência futebolistica e moral dos candidatos que teimam em não querer ganhar este campeonato.



Miguel Lourenço Pereira às 16:15 | link do post | comentar

9 comentários:
De Duarte Freitas a 26 de Março de 2012 às 19:18
Caro MLP,

Antes de mais, e para que não pense que venho cá insultar, refiro que sou leitor assiduo há mais de 6 meses e gosto, em geral, dos temas sobre os quais escreve.

Perdoar-me-á o fanatismo religio... digo, clubista, mas parece-me francamente exagerado (e uso eufemismo) dizer que o Sporting só em número de adeptos é o 3.º clube nacional.

E em número de títulos? Quantos troféus tem de ganhar o SC Braga para se bater com o Sporting? Uns 30. Pois.

Desculpe, mas é daquelas coisas (não queria dizer mentiras) que ditas tantas vezes passam a ser verdade. E pelo menos nos últimos 15 ou 20 anos, o SC Braga ficou à frente do Sporting... Uma vez. Uma.

Portanto parece-me que insinuar que o Sporting não é - pelo menos - o terceiro clube nacional sob qualquer perspectiva é falacioso. No mínimo.

Quanto ao tema do texto, concordo. Embora, no final do dia, ninguém festeje menos por ganhar a liga a coxear. As coisas são o que são e um título com 30 vitórias é igual a um título com 18 + 6 empates + 6 derrotas.

Continue a escrever, mas gostaria de ver algum rigor quando se refere a clubes alegadamente freudianos.

Cumprimentos,
Duarte


De Duarte Freitas a 26 de Março de 2012 às 19:20
Bem sei que isto não é um blog em que o adepto comum fanático venha esgrimir argumentos, por isso não aguardo respostas provocatórias, mas, por cautela, desde já sublinho que não defendo que o Sporting seja apenas o terceiro. O que tenho a certeza é que não é o 4.º.


De Miguel Lourenço Pereira a 26 de Março de 2012 às 22:55
Duarte,

Antes de mais obrigado pelo comentário e por ser um leitor assiduo do EJ, é isso que eu valorizo antes de tudo.

Tem todo o direito, como sportinguista, a sentir-se ofendido pela minha frase. É uma discussão que tenho habitualmente com amigos "leões" e a reacção, normal, não é diferente da sua em nenhum momento. E mais faltava.

O Sporting é, para mim, um clube complexo na sua estrutura, na sua história, na sua base de adeptos e no seu conceito futebolistico. Aposta como ninguém na formação mas tem uma divida incomportável. É um clube dito elitista (um conceito complexo de explicar mas que se vê na origem das suas habituais direcções) mas que no entanto sofre a continua pressão de um grupo de adeptos organizados que tem um peso que mais nenhum outro grupo tem em Portugal. É um clube histórico mas que em 30 anos venceu 3 titulos nacionais, um número que numa liga como a portuguesa é francamente insuficiente para ser exemplo de grandeza.

Um clube histórico não é forçosamente um grande. Em Espanha o Athletic Bilbao é o segundo clube com mais taças e o terceiro com mais titulos nacionais mas desde 1984 que não vence um troféu e ninguém o considera um grande actual sem questionar o seu passado. O Sporting disputou o titulo nacional até ao fim em 5 épocas nos últimos 30 anos. É pouco.

Naturalmente tem um peso social, económico e moral superior ao da classe média nacional. Mas a organização desportiva na ultima década do projecto Braga tem superado aos pontos o projecto Sporting, especialmente se temos em consideração a grande diferença entre orçamentos, bens e poder social. Passou o mesmo com o projecto Boavista durante alguns anos e começa a tornar-se um problema ciclico que os dirigentes leoninos têm de resolver.

Actualmente o Sporting tem demasiados e sérios problemas para perder tempo com questões que realmente só escritores perdem o tempo a mencionar, essa tal grandeza moral que está tão enraizada no futebol português como condição sine qua non e que não existe em mais nenhum outro país da Europa.

Sei que não o vou fazer mudar de ideias nem é esse o objectivo, longe disso, mas creio que o Sporting tem o potencial para ser um verdadeiro grande e está, paulatinamente, a deixar-se engolir por clubes claramente menores. Na Holanda, uma liga similar á nossa, passou isso com o Feyenoord. O primeiro clube holandes a vencer uma Taça dos Campeões Europeus, relembro!

um abraço


De jaques a 28 de Março de 2012 às 12:48
Um clube que ganha 13 jogos seguidos não quer ganhar um campeonto? Um clube que ganha 13 jogos seguidos é sinónimo de "pobre futebol"?


De Miguel Lourenço Pereira a 28 de Março de 2012 às 20:40
Jaques,

Naturalmente o artigo centra-se mais nos favoritos teóricos do que no próprio Braga, que até teve um arranque de época bastante sofrivel e que só agora disparou verdadeiramente. É um lider merecido e, do trio da frente, aquele que fez mais méritos para sagrar-se campeão.

Mas podem-se ganhar 13 ou 20 jogos com um futebol mediano, pobre ou aceitável, especialmente se os rivais são iguais de medianos, pobres ou meramente aceitáveis e no futebol português isso é uma triste constante.

um abraço


De jaques a 29 de Março de 2012 às 12:19
O futebol português é um dos mais competitivos do mundo e os rankings internacionais são a prova provada. Ganhar 13 jogos no campenato português é um certificado de qualidade garantida porque, por mais voltas que se dêem, não é fácil ganhar jogos em Portugal.


De Miguel Lourenço Pereira a 29 de Março de 2012 às 13:30
Jaques,

Nunca dei importância aos rankings da FIFA, da UEFA, da ACF, da ACF, da CONNEMBOL e companhias. Jamais, gosto de avaliar a minha percepção pelo futebol que vejo em campo, pela qualidade das infra-estruturas, pela adesão popular, pelo sistema de formação, pelo mercado de transferências, pela credibilidade das instituições directivas. E nisso tudo o futebol português é muito, muito fraquinho.

Vencer uma Liga sem perder um só jogo é um feito impensável em qualquer liga do Mundo na última década. Nem na Escócia, nem na Bielorrusia, nem na Arménia, nem em Espanha ou no Brasil. Aconteceu o ano passado com uma equipa que nem estava a disputar a Champions League. 13 vitórias consecutivas em Portugal valem o que valem e se isso não tira o mérito ao SC Braga também não faz da liga portuguesa a nova Bundesliga.

um abraço


De Anónimo a 30 de Março de 2012 às 02:00
O Arsenal não conta?


De Miguel Lourenço Pereira a 30 de Março de 2012 às 13:54
Anónimo,

Os Invencibles de Wenger foram para mim a melhor equipa da década a par do Barcelona de Rijkaard e Guardiola e o Chelsea de Mourinho. Claro que contam!

Mas foi um feito excepcionalmente único, na história do clube e da competição. Se em Portugal também sucedeu só uma vez, é certo, também o é que a maioria dos campeões nacionais, seja em ligas de 18 ou 16 equipas, é-o sempre com muito poucos empates ou derrotas, ás vezes nem três ou quatro jogos á época. E isso é o espelho mais fiel, a média da década comparando com outras ligas, especialmente as do top 5 onde supostamente está o futebol portugues segundo a UEFA.

Um abraço


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